sábado, 21 de julho de 2012

A verdade de um país


Esta história do Público diz mais sobre o que têm sido os nossos equívocos do que cem tratados de sociologia. Muito provavelmente os preços dos salários oferecidos a electricistas, canalizadores, serralheiros, engenheiros agrónomos e operários agrícolas reflectem o mercado paroquial português. Conforme sublinhou Michael Foucault, os mercados instituíram-se como um lugar de veridicção, um lugar onde se revela uma dada verdade sobre  o preço das coisas, inclusive o preço do trabalho. Mas através dessa verdade elementar, nós podemos descortinar outra verdade sobre o funcionamento global de uma sociedade como a nossa.

Portugal, desde 1975, desistiu de ter um ensino profissional sério e eficiente. Em nome de uma putativa igualdade, os antigos cursos industriais e comerciais foram destruídos e os alunos encaminhados para formações gerais de carácter liceal. A praga do abandono escolar está ligada, em larga medida, a esta opção. Há estudos sobre isso, não vale a pena retomar a questão. A verdade é que os novos cursos técnico-profissionais e tecnológicos nunca alcançaram o prestígio profissional dos antigos cursos técnicos. No entanto, talvez não se tenha noção da tragédia maior. Muitos dos alunos desses cursos construíram, ao longo de décadas, um tecido de pequenas empresas que animaram a economia do país. Isso, com o fim das escolas técnicas e o passar dos anos, desapareceu irreversivelmente.

A somar a isto está a mais completa ausência de planeamento da educação. A partir dos anos noventa ninguém pensa a relação entre o desenvolvimento da economia e a abertura de vagas no ensino superior. Mais uma vez em nome de uma utopia, julgou-se que a abertura indiscriminada do ensino seria recompensada. Os resultados estão à vista: desemprego e proletarização dos jovens com licenciaturas, mestrados e doutoramento e, como corolário, a destruição das classes médias de que eles deveriam ser o sangue novo. O ódio ao planeamento que anima as irresponsáveis elites políticas portuguesas conseguiram que o valor de mercado de uma engenheiro agrónomo e de um operário agrícola sejam exactamente o mesmo: o ordenado mínimo. Para que serve a retórica do esforço, do mérito, do conhecimento e do estudo?