sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Os mortos sem nome


Ao longo da vida o fenómeno político sempre me fascinou e sempre foi objecto de meditação. Com o filósofo Paul Ricoeur descobri a razão desse fascínio na formulação daquilo que ele chamava paradoxo político - a política é o lugar de racionalização da vida social e, ao mesmo tempo, o lugar da violência, da mais terrível irracionalidade. A minha meditação sobre o fenómeno levou-me a um outro lado, a um lado onde descubro o fenómeno político em si como o sítio do mal radical.

O poder político existe porque nós praticamos o mal, e a política lida com o mal praticando o mal, através da violência legítima. Mas o mal que o poder – incluindo o democrático – pratica não está apenas na violência legítima usada para castigar o mal praticado pelos indivíduos. Está também nas decisões que toma e que, na sua unilateralidade e enviesamento, interferem na vida dos indivíduos, limitando a sua liberdade, a sua vida, a sua capacidade de agir, distorcendo a justiça, favorecendo os mais fortes – sejam eles quais forem – e mutilando a vida dos mais fracos.

Penso muitas vezes que os políticos de hoje não matam com as suas mãos, como aconteceu ao longo da história da humanidade, apenas porque a consciência dos cidadãos tornou isso impossível e limitou um pouco o arbítrio de quem exerce o poder. Mas as pessoas continuam a morrer – ou a sofrer toda a espécie de injustiças – devido às decisões políticas. Não falo sequer nas decisões que conduzem os homens para a guerra. Refiro-me às pessoas que, comportando-se adequadamente, perdem o emprego, a empresa, a casa, os bens, que deixam de poder ir ao médico, de poder tratar-se, que passam e morrem de fome. Por detrás de tudo isso está sempre a mão do poder político. Esta possibilidade de praticar o mal impunemente através de uma decisão política é fascinante.

O poder político, porém, é sempre a máscara sob a qual se movem os poderes deste mundo, aqueles que tiram proveito da desgraça que as decisões políticas semeiam entre as pessoas. Se a minha meditação sobre o fenómeno político me levou a ver o poder político, mesmo o democrático, como o lugar do mal radical, abriu-me também para uma outra perspectiva: para os cidadãos o fundamental não será tanto trocar um poder político por outro, trocar uns senhores por outros, embora certos regimes e políticas sejam preferíveis a outros. O essencial é que a consciência cívica cresça de forma a limitar cada vez mais a capacidade dos poderes praticarem o mal, de espalharem, sem que se dê por isso, a desgraça e de enxamearem os cemitérios de mortos sem nome, de vítimas anónimas e nunca justiçadas das decisões políticas.