sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Francisco e os fantasmas


O pontificado de Francisco tem conseguido acordar todos os fantasmas que, muito bem instalados, tinham tomado conta da Igreja Católica, e, cientes de um poder venerável, tinham adormecido, confiados numa imutabilidade que os justificava e elevava já à glória dos altares. Com o tempo, está-se a descobrir que esses fantasmas, devido ao sono pesado, têm um mau acordar. E eles estão a acordar muito irritados. O que tanto os irritará?

Certamente que a frugalidade e a ausência de fausto do estilo do Papa os apoquenta. Se o Sumo Pontífice não se entrega ao luxo e ao fausto religioso, o amor de alguns fantasmas por certo tipo de ostentação tem dificuldade em encontrar legitimação. Paramentos caríssimos, palácios episcopais, grandes carros, tudo isso começa a irritar a generalidade dos fiéis. Os fantasmas sentem-se desconfortáveis. Francisco tem tendência para viver de uma forma muito despojada, como se fosse pobre e não tivesse direito a ser no mundo mais do que um pobre pescador. Os fantasmas, porém, não sonham com as sandálias do pescador mas com o ceptro do imperador. Isto irrita os fantasmas, mas ainda suportariam isso se…

Se, por exemplo, o Papa não viesse com aqueles ideias estranhas de que a Igreja deve ser misericordiosa e tentar acolher, isto é, compreender com compaixão (o que significa partilhar a paixão, o sofrimento, o caminho) aqueles que pela sua orientação sexual ou pelas peripécias da vida ou do desejo viram as suas vidas desfeitas ou atormentadas. Os fantasmas têm uma certa costela farisaica e amam, acima de tudo, o formalismo da lei. Amam a divisão entre os puros (eles e os seus) e os impuros, os quais podem até contribuir para a festa litúrgica, desde que não participem dela. O maniqueísmo e o catarismo têm mil véus e os fantasmas, tão preocupados com o rigor da lei, não hesitam em prestar-lhes tributo. A misericórdia irrita e muito os fantasmas, mas ainda a suportariam se…

Se o Papa se limitasse a amar os pobres, e gostasse tanto deles que pretendesse multiplicá-los. Mas o pobre Bergoglio tem ideias estranhas. Acha que a doutrina social da Igreja é uma coisa para ser levada a sério e não apenas para enganar as pessoas. Julga que a Igreja deve ser pobre e servir os pobres, contribuindo para que estes o deixem de ser. Os fantasmas acham deplorável que a Igreja siga o exemplo de Cristo e que confronte os poderes do mundo, em vez de estar mancomunada com eles. E nada há de mais irritante para um fantasma que a separação do poder do mundo. Francisco bem precisa de se cuidar, pois não faltam assombrações à sua volta.