sexta-feira, 3 de junho de 2016

O futebol como arquétipo

AC Milan 1959-60

O futebol é um dos sintomas mais interessantes da evolução das nossas sociedades. Veja-se esta notícia: Berlusconi está negociar a venda do AC Milan - um dos clubes mais importantes e Itália - a investidores chineses. Um acontecimento destes tornou-se uma coisa praticamente normal. Esta normalidade, porém, é o que merece ser pensado. Se olharmos para os primeiros tempos - e estes prolongam-se durante quase todo o século XX, mesmo depois da profissionalização das equipas - o futebol surgia, em muitos países, como um contraponto aos processos de modernização. 

Se o desenvolvimento das sociedades industriais trazia uma atomização da vida, uma perda de referências comunitárias, o futebol fornecia identidade, representação e espírito de comunidade. Durante muito tempo as regras de mercado casavam-se mal com o espírito de pertença que emanava dos clubes. O futebol não era a negação pura das sociedades individualistas. Era o seu negativo, era aquilo que permitia disfarçar os efeitos da destruição das comunidades que o individualismo triunfante implicava. No fundo, contribuía para a solidez dessas sociedades.

Hoje tudo isso mudou. O futebol tornou-se uma indústria e os clubes - muitos e muitos deles - deixaram de pertencer às comunidades que os criaram e pertencem agora a investidores privados. Aquilo que era uma comunidade - uma comunidade do sentimento - é agora uma mera mercadoria que se compra e venda segundo as leis do mercado. Mas não foi só isso que mudou. O futebol não deixou de fornecer identidade, representação e até espírito de comunidade. Mas tudo isso, agora, é uma mercadoria. Os clubes já não representam as comunidades. Agora vendem o sentimento e a representação de uma comunidade elusiva. 

A alteração, porém, mais drástica está relacionada com a mudança do papel de contraponto e de compensação  que o futebol tinha. Hoje em dia, o futebol não é o negativo das sociedades actuais. Tornou-se o seu modelo. O espírito competitivo, a ideia de que só há lugar para os melhores, o funcionamento, à vista de todos, do mercado de jogadores são arquétipos que fornecem o guião do comportamento social. Tudo isso já existia, mas agora foi levado ao paroxismo. O próprio tratamento do fenómeno na comunicação social acaba por fornecer o guião com que são tratados os acontecimentos políticos. Quem pensar que o futebol não passa de 22 rapazolas a correr atrás de uma bola está muito enganado. O futebol não é o contraponto da modernização. É o seu modelo, um dos principais factores da sua legitimação.