sábado, 5 de novembro de 2016

Descrições fenomenológicas 8. A rua

Gerhard Richter - A.B., Kapelle (1995)

Naquele lugar, em dias de invernia rigorosa, o primeiro cartão de visita é a rua coberta de neve. Branca e ainda pura, vela o alcatrão e as grandes lajes de cimento engravilhado que compõem o passeio. Aqui e ali, a brancura não é suficiente para as ocultar, podem-se observar as manchas do chão, algumas negras e outras acastanhadas, que o Inverno não conseguiu, com o rigor das temperaturas e a limpidez das águas, lavar. Erguem-se três moradias, relativamente grandes, com os seus jardinzinhos pequeno-burgueses. Jardins que, mais que um gosto pela natureza ou um sentimento estético, anunciam a contradição do nosso tempo, pois são, como as casas que decoram, ao mesmo tempo o fruto do igualitarismo social reinante e a marca do desejo irreprimível da diferenciação, um pequeno e frívolo exercício para ostentar um toque distinto, dentro de uma comunidade em que a força do direito tornou todos em iguais. As paliçadas, que separam esses jardins privados e o passeio público, bem como as cancelas, que nos recordam, mais que as próprias paliçadas, a diferença entre os dois espaços e a remota possibilidade de a maioria das pessoas passar para o lado de dentro, suportam montículos de neve, em equilíbrio precário, como se assim anunciassem a fragilidade de tudo o que se vê. Também os telhados, de dupla água e telha negra, estão pintados de branco, embora, aqui e ali, se abram manchas escuras, a denunciar o deslizar das neves. Seria uma rua sem mistério, não fora o caso de ser pontuada por plátanos vigorosos, despidos de folhas, com a ramagem, de aparência acusativa, a apontar os dedos hirtos para os céus. Esta tonalidade crispada impregna o homem que, perto da moradia vermelha, está parado, quase em sentido, olhando para cima. Enquanto espera por alguém ou por alguma coisa, funde-se nos ramos dos plátanos e aponta, com o nariz afilado preso a um rosto avermelhado pelo frio, para o céu, como se maldissesse as deliberações dos deuses ou o arbítrio da natureza.