domingo, 12 de agosto de 2012

Verso - encavalgamento e sentido

Juan Soriano - Caballos (1975)

O que é um verso? Giorgio Agamben, em Ideia da Prosa, escreve: "É um facto sobre o qual nunca se reflectirá o suficiente que nenhuma definição do verso é perfeitamente satisfatória, excepto aquela que assegura a sua identidade em relação á prosa através da possibilidade do enjambement". A expressão francesa enjambement pode ser traduzida por encavalgamento. Este "consiste em colocar o no verso seguinte uma ou mais palavras que completam o sentido do verso anterior". Agambem refere que "todo o verso no qual o enjambement não está efectivamente presente será então um verso de enjambement zero", sendo Petrarca o modelo dos poetas que evitam o encavalgamento. 

O que constitui, para Agamben, o verso é então a possibilidade do encavalgamento. O que significa realmente esta técnica poética? Ainda Agamben: "O enjambement exibe uma não-coincidência e uma desconexão entre o elemento métrico e o elemento sintáctico, entre o ritmo sonoro e o sentido, como se, contrariamente a um preconceito muito generalizado, que vê nela um lugar de encontro, de uma perfeita consonância entre som e sentido, a poesia vivesse, pelo contrário, apenas da sua íntima discórdia". O encavalgamento representa, desse modo, uma ruptura entre a dimensão métrica (na qual o verso se organiza) e a sintaxe que organiza a frase (dito de outro modo: há uma desconexão entre verso e frase), um afastamento entre o som e o sentido.

Mas a perspectiva de Agamben não coloca a questão do verso - e, por extensão, da poesia - num âmbito puramente formal? É discurso poético aquele que contém a possibilidade de encavalgamento? Esta dissensão entre a forma sonora e a forma sintáctica é a dissensão essencial da poesia? Pessoalmente, julgo ser a dissensão semântica o elemento central do fenómeno poético. Essa dissensão é trazida pelas chamadas figuras de estilo (onde a metáfora tem o papel central). Estas figuras de estilo, contudo, não são figuras de ornamento do discurso. São, antes, formas de pôr em causa o hábito presente nos jogos de linguagem corrente. Elas são na poesia aquilo que o soberano é na vida política. Elas declaram o estado de sítio e suspendem a ordem semântica regular. Desordenam o discurso ao pôr em causa a significação corrente. É este desordenar que me parece o essencial do poético. Mas este estado de sítio que a figura de estilo impõe é, como o estado de sítio político, uma forma de ordem onde as garantias habituais do léxico e do sentido estão postas de lado. A desordem ordenada trazida pelas figuras, a metáfora em primeiro lugar, é que deve determinar, pois, as desordens subsequentes ao nível dos conflitos entre som e sintaxe, entre ritmo métrico e frase, isto é, aquelas desordens que se referem o encavalgamento tornam manifestas. Dito de outra maneira: a irrupção de um novo sentido, que nasce do conflito semântico, procura novas formalidades que podem, ou não, assentar na dissensão entre verso e frase.

sábado, 11 de agosto de 2012

A luz e o pessimismo

Kazimir Malevich - Quadrado Negro (1923-1929)

Não são as épocas de trevas as mais propícias ao pessimismo. É nas épocas iluminadas que se encontra o terreno fértil para tal ponto de vista. Mas não são essas épocas tempos de progresso? Não deverá o progresso fazer-nos crer que o bem triunfará? As épocas em que a luz do conhecimento incide sobre a vida permitem, é um facto, o progresso material da humanidade. Ao mesmo tempo, porém, permitem-nos perceber melhor como o mal se afirma, ganha terreno, se constitui em poder e domina. Nunca uma época foi tão iluminada pela luz natural da razão como a actual. Alguém, porém, se atreverá a dizer que no mundo de hoje o bem prevalece sobre o mal, a justiça sobre a injustiça? O pessimismo é o fruto amargo da lucidez trazida pela razão.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Pensar

Frederic Remington - The Scout (1902-1905)

Num post anterior falava-se do narcisismo ligado ao acto de pensar, à paixão de ter razão. Estará todo o pensamento condenado a ser um espelho de um ego desmedido? Não poderá ser o pensamento um exercício de humildade? Essa possibilidade existe se aquele que pensa abandonar a sua pretensão a dizer a verdade. Isto não significa que opte pela mentira. Mentir ainda é uma forma de reconhecer a existência de uma verdade. Significa que pensar é apenas e só uma exploração, uma titubeante caminhada, um ir e voltar cheio de contradições. O pensador não é um general de cavalaria que guia o exército à vitória. Ele não passa de um simples batedor de um território estranho. Talvez possua uns olhos mais agudos, mas isso não faz dele o possuidor de uma verdade nem de uma ciência. Bater e explorar um território não é dirigir-se à montanha para receber de Deus as tábuas da lei. É um exercício mais precário e provisório, num território cheio de armadilhas.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Solidão

Alexei Von Jawlensky - Soledad

O terrível da solidão não é o facto de se estar só. Terrível é confronto consigo mesmo, com os seus limites, ilusões e devaneios. Na solidão revela-se a natureza de cada um. É isso que a torna, para muitos, insuportável. Procuram o outro não pelo outro, mas apenas porque não se suportam. Aquele que, porém, suporta a solidão tem a possibilidade de encontrar o outro, pois já se tornou outro para si mesmo e aceita-se nessa estranheza e alteridade.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

A paixão de ter razão

Pérez Villalta - El ámbito del pensamiento (1989)

Isso porque neste caso é odioso não só quem nos combate, mas até mesmo quem simplesmente não concorda connosco. Pois não aprovar o que um homem afirma nada mais é que acusá-lo, implicitamente, de errar naquilo que está dizendo; de modo que discordar num grande número de coisas é o mesmo que chamar de louco aquele de quem discordas. (Thomas Hobbes, Do Cidadão, I - I 5)

A psicologia hobbesiana revela aquilo que múltiplos discursos sobre a bondade do pensamento e do pensar por si mesmo tendem a ocultar: o carácter eminentemente narcísico do pensamento. Sobre isto duas notas apenas.

Se olharmos, por exemplo, para a blogosfera política, mas não apenas para a blogosfera, encontramos muito facilmente um discurso de desprezo absoluto, muitas vezes disfarçado de condescendência, pelas ideias dos outros. Por norma, isso é entendido como manifestação de interesses - de classe ou outros - em confronto. No entanto, isso é apenas secundário. O que está em jogo é o narcisismo centrado no pensamento, a paixão por ter razão, a idolatria de si mesmo, fundada na convicção de que a luz natural da razão só a si, e aos que pensam da mesma forma, foi dada, tendo sido sonegada aos que pensam de maneira diferente. O narcisismo fundado no pensamento é mais perigoso e feroz do que aquele que nasce da beleza própria. Ser feio é um acaso da natureza ainda suportável, ser estúpido é aquilo que, apesar de ser igualmente dádiva  da natureza, nem o mais estúpido consegue suportar. Percebe-se que a democracia seja ao mesmo tempo um milagre (pois, os adversários não se matam) e o exercício da mais obstinada surdez. Os adversários falam, mas é apenas a estupidez deles que vem ao de cima, pois a razão está, obviamente, do nosso lado. Só nós estamos na verdade.

A segunda nota liga-se ao exercício da filosofia (e, por consequência, das ciências). A filosofia nasce como uma forma de indagação e questionação da realidade, mas de imediato ela foi exercício de exposição da verdade a que essa questionação conduz. Se olharmos para as obras de todos os grandes filósofos, o que vemos é um longo argumentário para demonstração de como a verdade se dá no seu pensamento,  ao mesmo tempo que, de forma directa ou indirecta, se demonstra que os outros permanecem no erro, ou numa verdade muito limitada. Isto ensina-nos, porém, uma coisa sobre a verdade. Esta não é o resultado da investigação, mas o produto do exercício do narcisismo fundado no pensamento, da paixão por ter razão. A verdade dos filósofos é a coroa de louros do seu narcisismo; a filosofia, o campo de batalha entre os mais refinados narcisistas que a espécie humana já produziu.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Da prudência na política

Pietro di Cristoforo Vannucci - Las virtudes Prudencia y Justicia (1499)

Na classificação das virtudes, Aristóteles vai sublinhar, ao lado das virtudes éticas, uma virtude intelectual, a phronesis, que os latinos traduziram por prudentia e nós por prudência. Esta virtude da phronesis consiste na capacidade em discernir, nas circunstâncias sempre complexas da acção, qual a regra correcta que deve dirigir essa mesma acção. O phroninos, o homem dotado de phronesis, é o homem verdadeiramente sábio. 

De imediato se percebe a importância da prudência na acção política. Um político prudente não é um político timorato, mas aquele que é sábio e, nas circunstâncias mais complexas que a direcção de uma comunidade coloca, sabe encontrar a regra justa que deve dirigir a sua acção. Aquilo que se tem assistido na vida política é ao desaparecimento do homem prudente, e a sua substituição ou por gente que sofre de excessos de escrúpulos ou por aventureiros. Em todo o caso, por gente incapaz de encontrar a regra ajustada da acção política. 

É verdade que a própria sociedade, no actual momento do desenvolvimento da economia global, se transformou numa espécie de grande casino, onde as acções são regidas pelo acaso presente nos jogos de azar. É esta situação social de natureza volátil que abre o caminho para o político timorato ou para o aventureiro. Contudo, são circunstâncias sociais que mais exigiriam políticos sábios e dotados da verdadeira virtude da prudência. Ora como isso não acontece, a primeira vítima da ausência do phronimos à cabeça dos estados é a justiça. O político incapaz de encontrar a regra adequada à acção não é apenas imprudente, mas também injusto e fautor de injustiças.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

A poesia como um expor

Umberto Boccioni - The City Rises (1910)

O poeta Paul Celan disse que "a poesia não se impõe, ela expõe-se". Nesta frase há toda uma demarcação e um programa. A primeira coisa que compreendemos é que a poesia não pertence à área do poder, seja o poder político ou qualquer outro. Só se impõe aquilo que, ao pôr-se, tem poder e força suficientes para impor. Ao afirmar essa ausência de poder e força, o poeta reconhece uma fragilidade própria do poético. De onde nasce essa fragilidade? Nasce do facto de a poesia se expor. Antes de perceber a poesia como uma exposição ou um patentear, é necessário pensar o próprio "expor". Aqui pensa-se um afastamento ou uma separação do acto de auto-posição. A poesia não põe seja o que for. Ela expõe-se, isto é, afasta-se da sua auto-posição, separa-se de si, distancia-se do que é no próprio momento de ser.

A poesia é um movimento, um acontecer, e aquilo que acontece é o estranhamento contínuo a si mesma. Expor-se significa o movimento ininterrupto de afastamento de um terreno sólido onde ela possa ser reconhecida. É isto que constitui a fragilidade da poesia, o facto de ela se arriscar continuamente ao não reconhecimento. Mas não só. É também o risco de deixar de ser poesia, de se tornar prosa. A poesia - por isso ela interessa a cada vez menos pessoas - vive na situação paradoxal de ter de deixar de ser o que é (de se expor, de se afastar de si) sem que possa deixar de ser o que é (sem se tornar prosa e deixar de ser poesia).

Se eu digo "poesia", o vocábulo é identificado como um substantivo feminino. Ora, o substantivo designa uma entidade, uma substância, e a poesia não é um substância ou uma entidade concreta ou abstracta, a poesia não é uma coisa, ainda que nobre. Ela é o puro acontecer da sua continua exposição, do seu contínuo auto-afastamento. A poesia é um acontecer, uma acção. Sendo assim,  o vocábulo poesia não é um substantivo, mas um verbo, uma palavra que designa uma acção, designa o acontecer do estranhamento a si da própria poesia.

domingo, 5 de agosto de 2012

Convocar os mortos

Ernest Meissonier - Memória da Guerra Civil (A Barricada) (1848)

O primeiro-ministro italiano teme a desintegração da União Europeia, uma "dissolução psicológica", diz. Contudo, o universitário alemão Hans-Werner Sinn é menos dado à tropologia ou ao exercício do eufemismo. Segundo Medeiros Ferreira, que cita um artigo do Le Monde, o senhor põe as coisas com a clareza habitual da racionalidade alemã. Os países da zona euro em dificuldades têm duas hipóteses: ou deixam a zona euro ou aplicam as regras do resgate, com uma forte "desvalorização interna" que pode levar aos limites de "uma guerra civil". Leu bem, "guerra civil". 

Não é a falta de vergonha que a enunciação representa. Nem sequer é a clareza com que é dito quais as possíveis consequências das actuais políticas de austeridade (o limiar da guerra civil, repito). O senhor Hans-Werner Sinn não estava a explicar a Passos Coelho e a Vítor Gaspar as consequências das políticas adoptadas. Certamente, pensará que eles devem saber onde elas podem levar. O que o senhor está a fazer é brincar com o fogo e com a memória trágica da história europeia. Como alemão e ainda por cima universitário deveria saber que a guerra civil espanhola (1936-1939) antecedeu a segunda guerra mundial (1939-1945), a qual precedeu a guerra civil grega (1946-1949). 

Será, para a Alemanha do senhor Sinn e de todos os que o apoiam, interessante ver a Grécia e a Espanha no limiar da Guerra Civil? Será motivo de júbilo olhar Itália à beira da Guerra Civil? De Portugal não vale a pena falar. Mas, mais, será inteligente, para um alemão, ver o caminho aberto para a desintegração de Espanha ou de Itália? Não é apenas a União Europeia que está à beira do colapso. Conduzir certos países para o limiar da guerra civil significa criar as condições para o seu colapso. 

Pensará o senhor Sinn que o limiar da guerra civil dos endividados não será ultrapassado para uma efectiva guerra civil e que não alastrará até à sua casa? Mais, julgará que problemas ligados à desintegração da Itália ou de Espanha não vão ter reflexo na Alemanha? Pensará que a herança de Bismarck é eterna? A Alemanha não faz ideia onde nos está a meter a todos e não faz a mínima ideia onde se está a meter. O actual momento político europeu parece uma tragédia de Sófocles. O senhor Sinn deveria saber que não se devem convocar os mortos, pois pode acontecer que eles venham mesmo.

sábado, 4 de agosto de 2012

Thomas Hobbes e o mundo de hoje

Georges Rouault - Homo homini lupus (1944-1948)

Nas vulgatas escolares sobre a filosofia política de Thomas Hobbes ensina-se que, segundo o autor, no estado de natureza, antes do contrato instituinte do poder político, o homem estaria em guerra permanente com os outros homem. O homem é o lobo dos homem. O pensamento político hobbesiano era uma das linhas argumentativas que visavam suportar o absolutismo monárquico do antigo regime. Em contradição com esta linha de pensamento, emergiu o liberalismo que foi evoluindo para uma concepção democrática (demo-liberal) do estado. Uma das linhas de força da evolução liberal, nos últimos decénios, tem sido o combate ao estado e a luta pela minimização paroxística da sua acção. Os estados ocidentais, sob a injunção liberal, têm-se auto-limitado em áreas essenciais da vida das comunidades, nomeadamente na regulação dos mercados. Ao mesmo tempo, temos assistido à perversão mais completa das relações humanas, onde as manipulações financeiras são o arquétipo que modela a forma de vida que se impõe entre os homens. Só aqueles que são coniventes ou andam muito distraídos não percebem que, de forma cada vez mais acelerada, se está a instituir a guerra de todos contra todos, que o homem, cada vez mais liberto da tutela, retoma a sua velha faceta de lobo dos outros homens, que, numa palavra, a cada dia que passa se adentra no estado de natureza. Não, Thomas Hobbes não é um autor de um passado morto e enterrado. De um momento para o outro, tornou-se o mais actual dos contemporâneos.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

A Igreja e a situação actual



A posição da Igreja Católica perante os desenvolvimentos da economia mundial e as políticas que têm servido a instauração de uma nova ordem económica é um dos maiores desafios que enfrenta. A Igreja foi sempre muito dura com os regimes comunistas e o ateísmo presente na filosofia marxista. Com medo de perder a influência sobre os sectores operários e apoiada na sua reflexão e experiência multissecular, a Igreja de Roma, através do papa Leão XIII, definiu, na encíclica Rerum Novarum (1891), a doutrina social da Igreja, a qual tem sido actualizada em conformidade com as mudanças históricas entretanto ocorridas, embora sem perder a motivação e o sentido originários.

A economia global, fundada em pressupostos liberais e desenvolvida a partir dos anos 90 do século passado, contraria por completo a orientação social da Igreja. As políticas económicas e sociais adoptadas, nomeadamente pelo actual governo, não ofendem apenas aquilo que é o magistério da Igreja Católica relativamente aos direitos dos trabalhadores (por exemplo, a última revisão do código laboral é uma negação total dos direitos do trabalho, fundados no direito natural, defendidos pela Igreja), mas também de tudo o que o Vaticano defende acerca da dignidade da pessoa, da sua liberdade, dos seus direitos, do valor da família, da justiça social, etc., etc.

A Igreja, na sua doutrina, subordina a economia à dignidade humana. Numa palavra, a economia deve servir os homens e as comunidades onde estes vivem. O que se passa hoje em dia é que a economia, na sua faceta financeira e global, é pós-humana. A economia, outrora submetida à esfera da moral, da religião e da política, autonomizou-se. Esta autonomia significa que um único valor – o do lucro privado dos investidores – guia a actividade económica e nenhuma outra consideração de carácter moral, político ou religioso deve ser tida em conta. O destino dos homens, das famílias e das comunidades é indiferente aos decisores económicos. A miséria dos indivíduos, a desagregação das famílias e a destruição das comunidades são coisas boas, do ponto de vista económico, pois são o resultado da eficiência de uma economia pós-humana.

Aquilo que é de admirar não são as palavras grossas do bispo Torgal. O que é de admirar é a atitude bonançosa da Igreja e de muitos católicos perante um estado de coisas que nega e destrói o que a Igreja Católica e a sua doutrina social defendem. O perigo irreligioso do comunismo ao pé da nova ordem política e económica era, como estamos a descobrir, uma brincadeira de crianças. 

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Ler o jornal e a oração da manhã

Warren Brandt - The Morning Paper (1966)

Fará ainda sentido a velha frase de Hegel "a leitura dos jornais é a oração da manhã do homem moderno"? Em primeiro lugar, é necessário tentar perceber o que diz o filósofo alemão. Na oração da manhã religiosa, o homem pede a Deus para mergulhar no dia sob a aura de idealidade a que a religião envia. O que está em jogo é a vida do crente, o seu devir quotidiano e local sob protecção dos céus. A frase hegeliana apresenta, pelo menos, dois traços essenciais: a leitura matinal dos jornais será um mergulho na realidade, no devir do mundo e dos seus interesses; concomitantemente, essa leitura representa uma desparoquialização da vida do indivíduo, um alargamento do horizonte  da sua acção ao permitir que ele enquadre a sua vida no acontecer do mundo. Pela leitura dos jornais, o homem moderno aprendia a inscrever o seu espírito no espírito do mundo.

Perguntar se a frase de Hegel anda faz sentido não tem a ver com a eventual decadência da imprensa escrita. Isso é irrelevante. Rádio, televisão e internet fornecem material suficiente à oração do homem contemporâneo. O interessante reside noutro lado. A oração da manhã é um momento preparatório para o homem mergulhar na actividade quotidiana. Ler o jornal é adquirir uma imagem sólida do estado de coisas, e é com a solidez dessa imagem que o homem moderno, no tempo de Hegel, mergulhava na acção quotidiana. Hoje em dia, porém, a todo o instante o estado do mundo é reportado, e o homem contemporâneo, para tomar o seu banho de realidade, deverá estar em oração contínua. O desenvolvimento dos meios de comunicação social - fundamentalmente, com o advento da internet - liquefez ou gaseificou a realidade. 

A informação, que permitia ao homem moderno de Hegel inscrever a sua acção de forma consciente e certificada (de si e da realidade) no estado do mundo, é agora motivo de incerteza. Hoje em dia, a informação não é o caminho para o homem mergulhar na realidade e agir sobre ela. A informação, na sua maximização e instantaneidade, tem o papel de des-realizar o mundo, de lhe roubar solidez e desfazer o mito da realidade. Isto encerra o homem contemporâneo - esse herdeiro do homem moderno de que falava Hegel - ou na pura inacção, devido à incapacidade de tomar decisões num ambiente tão imprevisível, ou numa acção superintendida pela lógica dos jogos de azar. [Exemplos: no caso da inacção, temos os líderes políticos europeus perante as várias crises que assolam a UE; no segundo, temos a lógica dos mercados financeiros e as crises que eles provocaram.]

O resultado, na prática, é a devolução da consciência humana ao estado pré-moderno, onde a realidade, por impotência para coligir informação sobre ela, era sonegada a essa consciência. Todavia, há uma diferença assinalável entre o homem contemporâneo e o pré-moderno. Este último ainda tinha a possibilidade de erguer, com profunda convicção ou fé, todas as manhãs o pensamento e o coração à divindade, coisa a que o homem contemporâneo, enraizado no desejo das coisas terrenas, perdeu o direito. Fazê-lo agora seria uma farsa na qual nem ele próprio acreditaria. Não é impunemente que se mata Deus.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

A sociedade da inveja

Giotto di Bondone - A inveja (1302-1305)

As sociedades liberais fundam-se no egoísmo dos indivíduos que procuram maximizar o prazer e diminuir a dor. Esta maximização do prazer conduz à busca do lucro na actividade económica, a qual, segundo a racionalidade própria dessa actividade, deve ser gerida de forma eficaz e eficiente. Ora o impacto desta ideologia sobre o corpo social não é idêntico em todo lado. Em algumas sociedades europeias, nomeadamente do norte e do centro, sob uma consciência ética proveniente do protestantismo, há um certo equilíbrio social e uma atitude de contenção geral que está presente em todos, desde os mais ricos aos menos afortunados. Um certo pudor e uma clara consciência social desaconselha a exibição da riqueza e, mesmo, uma desigualdade escandalosa. Isso permite o bom funcionamento das sociedades.

Noutras sociedades, como a nossa, o impacto ideológico do liberalismo é um factor decisivo na formação e solidificação de uma sociedade da inveja. Sejam os gestores que acumulam cargos executivos em múltiplas empresas (um deles é executivo em 73 empresas), sejam contratações como esta (a da sobrinha neta de um dos figurantes do regime e apoiante do governo actual), seja a compra do Pavilhão Atlântico por um grupo onde é figura preponderante um genro do actual Presidente da República, sejam os jovens especialistas contratados pelo actual governo (a exemplo dos anteriores), sejam os inúmeros casos de todas as espécies, tudo isso gera, numa sociedade tolhida e amarrada à pobreza, um sentimento de inveja. Basta ler as reacções nos comentários nos jornais online, nos blogues e no facebook para compreender que a inveja é um dos sentimentos dominantes da nossa vida social.

Esta inveja social, porém, não é um puro pecado capital derivado da maldade dos invejosos. Ela nasce do sentimento de impotência da maioria e do despudor com que uma minoria ostenta o seu poder e a sua capacidade, não se percebendo, socialmente, a razão desse poder e dessa capacidade. A inveja nasce de uma experiência, que talvez não seja meramente imaginária, que diz que o poder de uns nasce de uma situação de profunda injustiça e da sonegação efectiva, embora legal, dos direitos da grande maioria. Esta inveja social corrói a nação e, sem que as elites o percebam, está a gerar a ruptura do contrato social pelo qual queremos viver uns com os outros. A inveja não é apenas um problema teológico. É um problema político pois põe em causa o funcionamento e a persistência da comunidade. E a questão não está apenas, nem por sombras, na atitude dos invejosos, mas naqueles que, pelo seu comportamento, são geradores e disseminadores desse sentimento por todo o tecido social.

terça-feira, 31 de julho de 2012

A epistemologia do milagre

Simone Martini - Miracle of Fire (1312-1317)

No n.º 54 (Julho-Agosto, 2012) do Le Monde des Religions há um artigo sobre os bastidores dos milagres em Lurdes (só disponível para assinantes; a alternativa é comprar em papel). Há momentos, no artigo, que não podemos deixar de evocar a epistemologia de Karl Popper e a sua teoria falsificacionista. Para Popper, a actividade científica visa refutar as teorias científicas admitidas. Qualquer teoria, por mais bem estabelecida que se encontre, não passa de uma mera conjectura. A ciência progride pelas refutações das teorias estabelecidas, e a actividade científica visa falsificar (mostrar que são falsas) as teorias.

Segundo o artigo de Mikael Corre, Lourdes, les coulisses du miracle (Lurdes, os bastidores do milagre), o processo para declarar, actualmente, uma cura como milagrosa é extraordinariamente complexo e moroso. Começa com uma definição teórica, digamos assim, que estabelece os parâmetros empíricos do que pode ser considerado uma cura miraculosa: «a cura deve ser "súbita e obtida num instante", durável e não implicando convalescença». Valeria a pena uma cuidada análise do problema temporal colocado por esta definição, o jogo entre a instantaneidade e a durabilidade. Uma cura milagrosa é aquela que chega vinda fora do tempo. É súbita e instantânea, o que significa a ausência de uma causalidade física. Ela não resulta de um processo mas de uma irrupção salvífica de algo que está para além da temporalidade. Mais, essa irrupção no puro instante é completa e total, pois a ausência de convalescença é um elemento central do fenómeno. Esta implica a duração, um percurso na temporalidade, o que significaria um processo físico-biológico. Por fim, vem a durabilidade do efeito. Aquilo que é uma manifestação vinda do além-tempo só ganha sentido se, manifestando-se como cura no corpo doente, perdura no tempo.

O processo passa, em primeiro lugar, por um departamento médico cuja finalidade, utilizando a linguagem de Karl Popper, é de tentar falsificar (mostrar que é um falso milagre) o acontecimento, mostrando que a cura pode ser explicada por causas naturais. Este processo, do ponto de vista epistemológico é também muito interessante, pois "exclui todas as doenças psicológicas (pois são organicamente inverificáveis) e aquelas sob tratamento (pois este pode ser a causa da cura, mesmo que isso seja estatisticamente improvável)". Há todo um esforço de reduzir o fenómeno a uma explicação empírica e testável. Mas se a cura é  "inexplicável no estado actual dos conhecimentos médicos", o dossier passa  um segundo comité médico, de âmbito internacional. Apenas os casos que passam nesta segunda comissão de carácter médico-científico é que são remetidos para esfera religiosa, para o bispo do lugar da pessoa curada (e não para o bispo de Tarbes e Lourdes) que, ajudado por uma comissão canónica diocesana, determina se a cura pode ser declarada, segundo a fé, milagrosa ou não. A última declaração de uma cura milagrosa foi em 2005 e era referente a um processo que tinha 53 anos.

O que é pertinente observar é o extremo cuidado com que a Igreja Católica lida com este tipo de fenomenologia e a mobilização que faz de uma aparelhagem científica e filosófica para determinar a verosimilhança metafísica do fenómeno. Não é apenas o recurso à ciência médica que está em jogo, ou o recurso a uma certa concepção epistemológica que pode encontrar raízes ou semelhanças em/com o falsificacionismo popperiano. Há no processo, mesmo depois de declarada a natureza milagrosa da cura, um elemento que - embora eu não saiba se isso, no âmbito da Igreja, é praticável e praticado - permite reverter a declaração: "a cura é inexplicável no actual estado dos conhecimentos médicos". O que deixa em aberto o caminho para falsificar o milagre declarado (mostrar que é falso),  pois novas formas de compreensão das patologias poderão trazer uma nova compreensão da doença e da cura, mesmo que esta seja instantânea e tenha efeitos duradouros.

Esta racionalidade religiosa, esta busca de uma probidade intelectual em matéria de fé, por parte da Igreja Católica, pode ser uma das variáveis a ter em conta para explicar a razão do declínio dessa mesma fé. Esta, pelo menos ao nível popular, alimenta-se do prodígio, e o milagre é o prodígio mais democrático que pode existir. A Igreja ao restringir drasticamente e de forma tão racional a irrupção de milagres no quotidiano das pessoas acaba por fazer alinhar a própria instituição na grande corrente iluminista anti-católica, gerando, ao mesmo tempo, um afastamento de largas camadas populares que, educadas numa tradição do maravilhoso e da superstição muito anterior ao cristianismo, se cristianizaram pelo maravilhoso e prodigioso que sobressaía no cristianismo. Isto coloca um problema bastante interessante: como será possível uma religião que abandona a superstição, através de uma crítica racional, e que não se resuma, como o protestantismo, a uma mera moralidade racionalizante?

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Sebald - o meu avô


[Recuperação de um texto, de 10/12/2009, do meu antigo blogue averomundo, fora de circulação]

Hoje, porém, releio sempre as histórias do almanaque, provavelmente porque, como observou Benjamim, uma marca da sua perfeição é que facilmente as esquecemos. Mas não foi somente a etérea fugacidade da prosa de Hebel o que, ao cabo de um par de semanas, me levou a querer saber se o barbeiro de Segringen e o alfaiate de Pensa ainda existiam; o que me faz voltar constantemente a Hebel é também o facto, inteiramente fortuito, de o meu avô, cuja linguagem em muitos aspectos fazia lembrar a do amigo da casa, ter o hábito de comprar todos os anos um calendário Kempten no qual anotava, a lápis de tinta, os dias da festa onomástica de parentes e amigos, a primeira geada, o primeiro nevão, a irrupção do föhn, as trovoadas, granizos e similares, bem como, nas páginas para notas, uma qualquer receita para o fabrico de vermute ou de aguardente de genciana. [W. G. Sebald (2009). O Caminhante Solitário. Lisboa: Editorial Teorema, pp. 12]
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Volto a um dos meus autores preferidos, W. G. Sebald. Esta minha preferência talvez se deva à partilha do seu culto pela memória. Educado filosoficamente numa tradição que vai da reminiscência platónica à rememoração de Ricoeur, passando pela memória como presente do passado, de Agostinho de Hipona, com o passar dos anos, e o crescimento inusitado das memórias, fui ficando cada vez mais sensível aos exercícios mnésicos na literatura, chegando a pensar, muitas vezes, que toda a literatura não é outra coisa senão um imenso exercício memorial.

O meu culto de Sebald, porém, não se deve apenas a essa atenção comum à memória. Deve-se à destreza como ele convoca e entrelaça as memórias para narrar uma história, uma história que, sendo-me absolutamente estranha, parece ser a minha história. Neste pequeno excerto, Sebald começa por falar nas histórias de almanaque de Johann Peter Hebel (1760-1826), um dos grandes escritores de língua alemã, famoso precisamente por essas histórias, mas logo deriva para a memória do seu avô, dos seus gestos e da forma como regulava o mundo.

Eu, que nunca tive um avô, pois morreram ambos muitos anos antes de eu nascer, vejo-me a recordar esse avô que não tive, e recordo-me dele a anotar o seu calendário, talvez uma vulgar agenda, a anotar os dias de aniversário de filhos e netos, os acontecimentos climáticos significativos, o dia que nevou, ou aquele em que o fogo devastou o pinhal à saída da aldeia. Chego a vê-lo a consultar as suas anotações sobre receitas de aguardentes e licores. Sei bem que toda esta recordação é imaginada, mas só em parte. Conheci várias pessoas que faziam algumas daquelas coisas que regulavam a vida do avô de Sebald, mas a história que o escritor me conta permitiu sintetizá-las numa única figura, aquela que nunca conheci, o meu avô. E este meu avô comove-me, como se tivesse existido e me tivesse passeado e mostrado as estrelas e os campos. Um grande escritor é aquele que me faz ter o avô que nunca tive.

domingo, 29 de julho de 2012

Ícaro e o sonho europeu

Henri Matisse - Icarus (1943-44)

O mito de Ícaro, como todos os mitos, continua a ter um papel fundamental na compreensão das múltiplas dimensões da realidade humana. Neste conturbado momento da vida social e política europeia, a meditação sobre o destino de Ícaro não deixa de ser apropriada e reveladora de uma sabedoria cujo esquecimento se paga de forma muito cara. Em linhas gerais, o mito diz-nos que Dédalo e o filho, Ícaro, fogem da ilha de Creta e do rei Minos usando um dispositivo arquitectado pelo pai, umas asas de penas ligadas com cera. Dédalo avisa o filho para que este, ao voar, não se aproxime do Sol, pois este derreterá a cera e destruirá as asas. Ícaro, porém, deslumbrado com o firmamento, sobe demasiado alto e, derretida a cera, cai no mar Egeu onde encontra a morte.

Depois dos horrores da segunda guerra mundial (ou nos casos ibérico e grego, após as ditaduras nacionalistas), a Europa, por motivos vários (pacto social motivado pelo esforço de guerra, plano Marshall, Guerra Fria), constrói sociedades onde se deu uma grande mobilidade social, com o crescimento exponencial de uma classe média resultante da ascensão social de largos sectores ligados ao mundo dos trabalhadores por conta de outrem.  Esta ascensão, como estamos a descobrir dolorosamente, estava assente em dispositivos sociais tão frágeis como as asas produzidas pelo génio de Dédalo. Como estas, também os mecanismos sociais produzidos pela interacção entre as várias classes sociais tinham eficiência mas eram muito limitados. A legitimidade do sonho europeu estava fundada nesses mecanismos sociais que a globalização está a fundir da mesma forma que o Sol derreteu a cera nas asas de Ícaro. E assim como este encontrou a morte no mar Egeu, também as classes médias se estão precipitar, a grande velocidade, no seu mar Egeu, a pobreza.

Este é o primeiro ensinamento. Mas há um segundo, cuja natureza dá que pensar. Ícaro deixa derreter as asas que lhe foram dadas pelo pai. A sua ascensão não se deveu ao seu génio e à sua iniciativa, mas à do pai. É a estranheza do dispositivo aliada ao deslumbramento com a beleza do firmamento que o conduz à perda. Os mecanismos sociais que suportaram o sonho europeu foram, em larga medida, uma dádiva para aliciar os europeus na luta contra o comunismo. Naquilo que se chama agora Estado social há, para uma larga fatia dos seus beneficiários, uma dimensão de pura passividade. Receberam-no mais do que o construíram. No fundo, não o sentem como coisa sua. Basta lembrar a longínqua origem do Estado social, no século XIX na Alemanha de Bismarck. Talvez este seja o ensinamento maior da actual situação. 

A iniciativa individual e colectiva é essencial, os mecanismos sociais de promoção e protecção sociais terão de ser fruto da iniciativa das comunidades e dos indivíduos e exigem uma participação de todos na sua construção e manutenção. Dito de uma forma que desagrada a certa área da esquerda: é preciso democratizar o liberalismo, isto é, fazer com que a generalidade das pessoas abandone uma situação de passividade social e adquira as competências necessárias ao exercício da liberdade de acção e ao reforço da capacidade de iniciativa. Não bastam a manifestação de rua ou as greves mais ou menos gerais. Esses são mecanismos puramente reactivos e não fundam, na actual situação mundial, nenhum programa de governação sério. Talvez o programa essencial da esquerda esteja numa cultura de liberdade individual e de activação das capacidades de iniciativa, tanto singular como colectiva, e não tanto na defesa das ruínas de uma dádiva que gerou comodidade, mas que não foi uma construção activa da generalidade dos beneficiários. 

sábado, 28 de julho de 2012

Questões de linguagem


A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.

Decididamente estou a ficar velho, demasiado velho e a configuração do mundo é cada vez mais estranha para mim. Isto é desusado, pois sempre estive aberto a novas visões do mundo, a inovadoras opções estéticas, a compreender a irrupção do não acontecido no curso normal das coisas. Talvez seja da minha educação, uma educação recebida ainda no tempo do salazarismo, com uma forte componente católica, talvez seja apenas uma questão de estética social, mas há coisas, insignificantes para a maioria das pessoas, que, aos meus olhos, tornam claro que algo está podre.

Isto vem a propósito do discurso de Passos Coelho perante os deputados do seu partido. A determinada altura, certamente embalado com a sua genialidade, o primeiro-ministro afirma: “que se lixem as eleições, o que interessa é Portugal”. Eu percebo o que ele quer dizer. Está a passar uma mensagem de propaganda partidária ao país: “Vejam como eu sou patriota, e tão patriota que nem me preocupo de perder eleições para ser um salvador da pátria”. E com isto, lá no íntimo, o primeiro-ministro tem a esperança que o reconheçam como herói e o tornem a eleger. Esta propaganda barata não me incomoda, faz parte do ofício dos políticos, e qualquer outro tentaria dizer coisa semelhante.

Também não é o falso desprezo pelas eleições que me causa desconforto. Passos Coelho vive dos resultados eleitorais, e para ele, diga o que disser, o mais importante são os resultados eleitorais. O que acho incompreensível é o “lixem” utilizado pelo primeiro-ministro perante deputados eleitos da nação. Não sou puritano, mas sou muito sensível ao uso da linguagem e acho inaceitável a utilização deste tipo de plebeísmo, a roçar o calão, por alguém que é o principal responsável do país. Que as pessoas falem como querem na sua vida privada, é uma questão de liberdade e bom-gosto pessoais. Quem dirige uma nação, quem representa um povo, quem tem os destinos de uma comunidade em suas mãos, não se pode comportar como uma rapazeco a dizer graçolas e palavras brejeiras.

Eu sei que os portugueses perdoam este tipo de coisas e até acham muita graça (a expressão, com o “lixem” incluído, foi calculada para ter impacto eleitoral). Mas este tipo de acontecimento, que aparenta não ter importância, revela muito do pântano a que se chegou. Na sua pouca importância é, para quem é observador atento das subtilezas da vida pública, mais revelador da degradação das instituições do que o triste e lamentável episódio da licenciatura de Miguel Relvas. Enfim, estou velho e isto causa-me náuseas.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Do exercício da dança

Salvador Dali - Metamorfosis de Narciso (1937)

Eras o parente de Chopin, o misterioso, o orgulhoso. Mas no fundo da tua alma escondia-se uma emoção convulsiva - o desejo de ser diferente daquilo que eras. É a maior tragédia, com que o destino pode castigar o homem. O desejo de ser outro, diferente daquilo que somos: não pode arder um desejo mais doloroso no coração humano. Porque não é possível suportar a vida de outra maneira, apenas sabendo que nos conformamos com aquilo que significamos para nós próprios e para o mundo. (Sándor Márai, As velas ardem até ao fim, pp. 99/100)

Que forças movem o mundo? O excerto de Sándor Márai sublinha aquilo que parece ser o essencial: o desejo de ser outro e o desejo de se conformar com aquilo que se é. Poderíamos dizer: o desejo do burguês e o desejo do aristocrata. O primeiro não suporta a sua subalternidade social e o segundo apenas compreende o que é imutável, a sua eterna condição de aristocrata. Mas tudo isto repousa numa sabedoria humana e incerta. Quem sou eu ou o mundo para determinar quem é este que diz eu? O aristocrata vive num narcisismo encerrado na imanência atemporal de si mesmo. O burguês descobre-se narciso em metamorfose, uma auto-produção do seu desejo. 

Há uma outra via, aquela de quem aceita que é um mistério e faz da vida um caminho de decifração. Não quer ser outro nem quer ser si mesmo. Deixou de querer e entrega-se ao puro devir, à dança do acontecer, encontrando aí os sinais a decifrar. Esse já não quer conformar-se com o seu significado, pois descobriu a sua in-significância; também não deseja qualquer alteridade, pois deixou de saber a diferença entre o mesmo e o outro, e não crê que exista algum si mesmo de onde parta ou algum outro onde possa chegar. Ele não quer mover o mundo, mas exercitar-se a dançar nele e com ele.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

A Gronelândia como metáfora

Foto do Público

Aquilo que se está a passar na Gronelândia deveria alertar-nos para os modelos de sociedade que temos ainda a pretensão de construir. A questão não é de nos tornarmos todos mais ricos, mas como devemos gerir os parcos recursos com decência e civilidade, como distribuí-los de forma equitativa, agora numa maré recessiva e num universo humano muito mais amplo. Qualquer pensamento político que não tenha os problemas ambientais em atenção e a cooperação de todos para a defesa de um futuro para a humanidade é uma autêntica distopia, uma ameaça à sobrevivência da própria espécie. O que está em questão é o horizonte social que foi traçado com o Iluminismo. O exercício do egoísmo, pressuposto antropológico do liberalismo, está a conduzir-nos a um beco sem saída. É preciso repensar a comunidade sem destruir o indivíduo. Contudo, não estou certo que, em desespero de causa, a humanidade não se volte para formas comunitárias onde o valor da singularidade seja erradicado. Não é apenas a superfície de gelo na Gronelândia que se está a fundir. Tudo parece em rápida fusão, a Gronelância é apenas uma metáfora poderosa. 

Verão, poupem-me

Edward Hopper - Summer Interior (1909)

Como percebo o ódio à Europa do Sul. Talvez esteja na primeira linha desse ódio ou desprezo, talvez seja melhor dizer desespero. Cheguei há pouco a Torres Novas vindo de um sítio mais fresco e tudo começa a derreter-se. Quero ler e escrever, mas o calor adormece-me os neurónios e executa, sem patíbulo ou forca, a pobre vontade, já de si pouco dada a grandes investimentos (não, não é uma vontade liberal, apenas no desperdício usa de liberalidade). A casa aqueceu nestes dias de ausência. Quem lhe deu ordem para tanta autonomia? Cada ano que passa parece pior ou sou eu que estou mais sensível. Como pode alguém trabalhar em sítios como este? Ainda por cima o ar condicionado dá-me cabo da garganta. Os alemães se vivessem cá seriam mais pobres e devedores do que nós. O melhor seria pôr a senhora Merkell a mourejar por aqui. As dúvidas passavam-lhe. Falam-me do microclima de Torres Novas. Quero lá saber do microclima, podiam muito bem colhê-lo e exportá-lo para a Finlândia. Conto, com o único neurónio acordado, as horas para me pôr ao fresco.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

O mistério da soberania (2)

Michael Wolgemut - Royal portrait

O filho do oficial da guarda sentia que obedecia a ordens escritas e não escritas muito peremptórias, e essa obediência no quartel, no campo de exercícios e nos salões era, ao mesmo tempo, também serviço. A sensação de segurança para cinquenta milhões de pessoas baseava-se nisto: que o imperador se deitava  antes da meia-noite, se levantava logo às cinco da manhã e se sentava numa cadeira de braços de vime americano, à luz duma vela, e todos os outros que juraram lealdade ao seu nome obedeciam às convenções e às leis. Naturalmente, tinham de obedecer num sentido mais profundo do prescrito pelas leis. Uma pessoa trazia a obediência no coração e isso era o mais importante. (Sándor Márai, As velas ardem até ao fim).

Poder-se-á pensar que todo o mistério da soberania reside nos deveres de lealdade e de obediência. Não de uma lealdade superficial e resultante de um cálculo ocasional ou de uma obediência estrita à letra da lei, mas de uma inscrição no coração, muito para além da dimensão da razão, desses deveres ancestrais de obediência e de lealdade. Mas isso não representaria qualquer mistério, apenas uma explicação fundada no sentimento e não, como gostam os modernos, na razão.

O mistério da soberania reside na impassibilidade do soberano, no facto de ele ser uma espécie de motor imóvel, como o deus de Aristóteles. Impassível e dado à pura repetição ritual dos hábitos, o soberano faz mover o mundo, permitindo que este se mova. A lealdade e a obediência são necessárias desde que o soberano se mantenha na impassibilidade. Esta não é inacção, mas, à maneira do Zen, um agir não agindo, um exercício de sabedoria política suprema. O imperador austro-húngaro tinha toda a sua sabedoria concentrada nesse deitar antes da meia-noite e levantar-se às cinco da madrugada para se sentar numa cadeira de vime americano. Mas ele representava já um mundo que tinha morrido e com ele a soberania.

No afã da acção, o governante moderno deixou de ser soberano e passou a ser executivo. Executar é pretender substituir-se àqueles que devem fazer. O curioso de tudo isto é que quanto mais liberais e adversários do Estado são os governos mais eles são executivos, gente de acção, gente que quer conformar o mundo ao seu gosto, isto é, à sua ideologia particular. Isto representa a morte da soberania. Não admira que a Europa, tão cheia de executivos, se debata há longas décadas numa crise de identidade irreversível, apenas disfarçada pelo período do pós-guerra que terminou em 1989. O agir não fazendo do soberano era o princípio que permitia as instituições funcionarem. Ao não agir, ao deitar-se e levantar-se, apenas, o soberano não destruía, estava acima da destruição e da criação, deixava isso aos actores. Hoje os executivos são agentes, gente que ao pretender criar está a destruir, sem que acima deles exista algo que sustente a permanência.