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| Javier Calvo, A partir de Keiser, 1985 |
sábado, 31 de outubro de 2020
Descrições fenomenológicas 59. O rei do mundo
sexta-feira, 30 de outubro de 2020
A Garrafa Vazia 24
quinta-feira, 29 de outubro de 2020
Nocturnos 34
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| Nat Finkelstein, Bob Dylan, 1965 |
quarta-feira, 28 de outubro de 2020
José Régio, As Raízes do Futuro

O segundo romance do ciclo A Velha Casa, As Raízes do
Futuro (1947), medeia entre o retorno de Lelito (Manuel Trigueiros, o
segundo de quatro filhos do casal Maria Teresa e Martinho Trigueiros) e a morte
de madrinha Libânia, a matriarca da família e a proprietária efectiva da casa.
Se Uma Gota de Sangue não dava qualquer pista que permitisse compreender
a época em que decorria a acção romanesca, o segundo informa que se estava em
1920. Esta indicação não é despicienda para a compreensão da trama narrativa.
Está-se no início dos chamados loucos anos 20. Não é que numa aldeia
rural, Azurara, do concelho de Vila do Conde haja referência existencial
ao modo de vida que a expressão consagra, mas de uma maneira ou de outra o Zeitgeist
haveria de encontrar maneira de ali se reflectir, ainda que de forma
imperceptível para os próprios habitantes.
A casa não é propriamente o edificado, mas antes a teia de relações sociais, familiares e afectivas que nela se entretecem. Não é que partes da casa não tenham, por si mesmas, um valor próprio na narrativa. O sótão ou o quarto da madrinha Libânia, mas não é o aspecto arquitectónico que é central. A situação é curiosamente ambígua. Uma casa, entendida do ponto de vista social e na época em que a narrativa decorre, tem por referência o nome e a pessoa de um homem. A velha casa, todavia, centra-se na figura de Libânia, uma solteirona, tia de Martinho e tia-avó dos filhos deste. Ela é o centro da casa, é para ela que se voltam os olhares e as expectativas, embora seja Martinho o gestor das propriedades da tia, assim como das suas. A família de Martinho é a presuntiva herdeira, embora a relação de veneração que todos, naquela casa, têm pela matriarca esteja muito para além do mero interesse. Martinho é um gestor rigoroso, um homem dos antigos, o representante de uma tradição de honradez e de fidelidade piedosa para com os valores do passado, onde se incluem os valores da religião em que todos foram criados.
A fortuna de Libânia resultou de uma herança de um irmão que, perante a pobreza e a dificuldade dos tempos, emigrou para o Brasil. De certa maneira, o romance de Régio ainda é um reflexo da saga dos brasileiros, isto é, dos portugueses que foram para o Brasil em busca de aventura e fortuna. Esse brasileiro enriqueceu, mas não tinha descendentes. Entre os inúmeros irmãos escolheu Libânia como herdeira e, de certa forma, tutora discreta das famílias dos outros irmãos, que tinham perante ela a necessidade de estabelecer relações cordiais e, por isso, de disfarçar a inveja e o azedume causados pela protecção ao sobrinho Martinho. Se Libânia é o centro vivo da família, o brasileiro é o espiritual. Também neste aspecto Régio não deixa de criar uma ambiguidade. Em cada aniversário da morte do emigrante, são rezadas três missas, cada uma por um padre da família. No entanto, o leitor percebe que o brasileiro talvez não fosse muito católico e que o seu compromisso seria com a Maçonaria, a qual surge como uma sombra ténue na obra.
Este segundo romance acompanha a doença e recuperação de Lelito, mas também esboça o que poderá ser o futuro da família. Há uma grande tensão entre a tradição e as novas gerações. Não apenas Lelito desobedece aos imperativos paternos com a sua fuga do colégio no Porto, como o irmão mais velho, já engenheiro, se afastou de casa, pretextando a continuação da formação no estrangeiro, encontrando desculpas para adiar continuamente o seu retorno. O ramo masculino procura o seu próprio caminho. Lelito preparando-se para a Universidade, incendiado por interesses estéticos e filosóficos que estão muito para além daquilo que lhe poderá proporcionar a tradição familiar. João ter-se-á afastado decisivamente dos valores da casa, apesar da relação afectiva que mantém com os que dela fazem parte. Enquanto estudante em Lisboa, não deixou de levantar, na aldeia, suspeitas de interesse pela Maçonaria e por todo uma cultura que estava longe de se coadunar com o velho catolicismo do mundo rural. Estava-se em plena primeira República. Mais tarde, o narrador deixa a suspeita de que será o anarquismo e o combate social em nome dos desfavorecidos que movem João e o afastam de casa. Também as raparigas, mais novas que os rapazes, trazem nelas um enorme potencial para fazer explodir o apego à tradição e à venerabilidade dos velhos valores. A mais nova, Angelina, parece tocada por um fervor místico, o qual é intensificado pela descoberto de um caderno de uma tia que morreu louca, ou assim é contado, caderno esse que sugere uma intensa vida espiritual, marcada por experiências que ultrapassam em muito a mera devoção beata e convencional. Por fim, Maria Clara, que começa a tornar-se mulher tomou-se de amores por um desigual. Seja qual for a perspectiva, os valores da tradição que animavam a alma da velha casa encontram-se perante um desafio trazido pela nova geração. Seja como for, a casa, a velha casa, representa as raízes dessa nova geração. É ela que a segura e a alimenta, que a abre para o futuro.
terça-feira, 27 de outubro de 2020
Sonhos numa noite de Verão 24
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| Paulo Catrica, Sala 37, 3.a divisão, Liceu Rodrigues de Freitas, Porto, 1999 |
segunda-feira, 26 de outubro de 2020
Perfis 6. A actriz
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| Milton Greene, Marilyn Monroe, 1953 |
domingo, 25 de outubro de 2020
A Garrafa Vazia 23
sábado, 24 de outubro de 2020
A decapitação
O ataque terrorista perpetrado há dias em França por
radicais islâmicos está sobrecarregado de simbolismo. Não se trata de um mero
homicídio, como aqueles que resultam da deflagração de bombas, ataques com
armas de fogo ou atropelamentos com viaturas. O facto do professor francês de
História, Samuel Paty, ter sido decapitado é uma mensagem simbólica que deve
ser lida numa multiplicidade de sentidos. Não é uma mera represália por um
comportamento blasfemo para os crentes do Islão. Também o é. No entanto, seria
de uma enorme ingenuidade lê-lo apenas dessa forma.
A prática da decapitação não terá sido no mundo islâmico – e, por certo, nos conflitos com crentes de outras religiões – um evento fortuito. O acto de decapitar um ocidental em pleno Ocidente tem uma mensagem dirigida para milhões de muçulmanos, um exemplo que se inscreve numa longa tradição, o qual deverá servir como uma motivação para o empoderamento das vanguardas fundamentalistas do Islão. Por outro lado, a decapitação também toca numa corda muito sensível dos franceses. Apesar do instrumento ser diferente, a decapitação foi o símbolo daquilo a que se chamou o Terror na Revolução Francesa.
O facto de o professor decapitado o ter sido na sequência de uma aula onde se explicava a natureza da liberdade de expressão também é significativo. A liberdade de expressão é um dos grandes valores do Ocidente, uma imagem de marca das suas sociedades. Em nenhum outro lado ela tem o peso que possui no mundo ocidental. Se países de outras culturas a abraçaram, isso deveu-se à influência vinda da Europa e da América. É, porém, um valor que atormenta todo o tipo de fundamentalista – religioso ou político – que não está disposto a respeitá-lo. Esta decapitação serve para dizer aos ocidentais que estão enganados, a sua liberdade de expressão é irrisória perante a lei e a vontade islâmicas.
A separação da cabeça do corpo tem ainda um outro valor simbólico, porventura o mais decisivo. Se a civilização ocidental se afirmou e tornou patente a falência da civilização muçulmana, isso deve-se ao conhecimento, ao projecto da ciência moderna e à valorização que se faz do uso da inteligência e da razão crítica. A mensagem é clara. Nem a inteligência nem a ciência chegarão para conter a ira dos fiéis do Islão. Facilmente se corta uma cabeça, e sem o corpo não há inteligência que assegure conhecimento ou superioridade civilizacional. Quem pensar que a decapitação do professor francês foi um acaso está muito enganado. Samuel Paty foi condenado à morte e a uma morte que significa muito mais do que a supressão de uma vida.
sexta-feira, 23 de outubro de 2020
Nocturnos 33
quinta-feira, 22 de outubro de 2020
Ramón del Valle-Inclán, Sonata de Invierno
As Sonatas, no seu conjunto, são um autêntico exercício de desconstrução. A estratégia levada a efeito por Valle-Inclán reside no dissimulado contraste entre aquilo que a personagem do Marquês proclama e o modo como é reconhecido pelas outras personagens, por um lado, e, por outro, o que o desenrolar da acção romanesca nos mostra. A estratégia é subtil por que foge ao modelo da demonstração. Aquilo que é afirmado pelo Marquês e pela envolvência é que estamos perante um Don Juan, um católico e um tradicionalista fiel a Carlos VII. O que acontece é que os seus actos e, muitas vezes, as próprias opiniões em vez de confirmarem a tese, acabam por contradizer tanto a sua natureza donjuanesca, como o seu catolicismo e o seu carlismo. O autor constrói a personagem do marquês a partir da tensão entre um ideal, dado pelas três características referidas, e uma existência que, apesar daquilo que o discurso sublinha e engradece, não tem a potência para realizar esse ideal. O glorioso marquês é, a todos os títulos, um falhado.
As aventuras amorosas, quase todas, são inconsequentes ou, mesmo se chegam à consumação sexual, há nelas mais um rasto de derrota do que a afirmação de um D. Juan coleccionador de vítimas, que abandona e esquece. Na Sonata de Inverno, apesar de uma noite fogosa com uma antiga amante aquando da sua chegada à corte de Carlos VII, os seus dois objectivos eróticos – evitar que essa amante opte pelo marido em detrimento dele ou o consumar da sedução de uma jovem educanda num convento – saldam-se da mesma maneira, com um beijo apenas, na verdade um beijo de despedida. Esta natureza equívoca do grande conquistador desenha-se em todas as outras Sonatas, de forma mais acentuada nas de Primavera e de Outono. O donjuanismo é, na verdade, um elemento ideológico e não uma forma de agir ou um modo de existência. Esta visão de Valle-Inclán da figura de D. Juan é uma das mais interessantes, pois desmonta o mito – reduzindo-o a mera ideologia, no sentido marxiano de imagem invertida da realidade – através de um processo que, um leitor ingénuo, acreditará que o reforça.
Em qualquer das Sonatas o apregoado catolicismo de Bradomín choca com a sua aura erótica, mesmo que frustrada. Apesar de ser uma espécie de D. Juan anti-D. Juan, o marquês não deixa de se envolver numa ambiência sensual, na qual mergulha a generalidade dos contactos com o feminino. Os casos consumados ou não com mulheres casadas conflituam com um dos mandamentos que regem a moralidade católica, o de não cobiçar a mulher do próximo. No entanto, o autor é um modernista e como tal não deixa de ser tentado a desafiar as convenções e as próprias convenções religiosas. Tanto na Sonata de Primavera como na Sonata de Inverno o marquês seduz, embora sem consumação sexual, duas candidatas aos votos religiosos. No caso da irmã Maximina, na Sonata de Inverno, há que juntar um outro ingrediente. Há a suspeita de que ela seria filha bastarda do próprio marquês, feia como ele. Desrespeito pela sacralidade do matrimónio, tentativa de destruição através da sedução de vocações religiosas e indiferença perante a possibilidade de incesto, casos que não geram nele nenhum traço de arrependimento, dão a medida da natureza meramente ideológica do catolicismo de Xavier Bradomín.
Resta o seu tradicionalismo, a sua fidelidade a uma aristocracia medieval e à glória antiga de Espanha. Já na Sonata de Verão, passada no México, a revivescência da glória imperial de Espanha, à qual o carlismo se declarava fiel contra a visão dos liberais, é atravessada por uma funda ironia. Na Sonata de Inverno, toda ela perpassada por acontecimentos da história política de Espanha da época em que decorre a acção romanesca, vemos o marquês próximo da Corte, a sua intimidade com Carlos VII, o risco que corre pela causa e até a perda de um braço num recontro com as forças militares inimigas. É aqui que, ao contrário do que tinha acontecido até aí, o discurso vai desmentir a acção. O que será o carlismo e a causa absolutista para o marquês, ele que combate e dá um braço pela causa de Carlos VII? Oiçamo-lo. “Eu achei sempre mais bela a majestade caída que sentada num trono, e fui defensor da tradição por estética. O carlismo tem para mim o encanto solene das grandes catedrais, e já nos tempos da guerra ter-me-ia contentado que o declarassem monumento nacional. Bem posso dizer, sem jactância, que como eu pensava o Senhor.”
Quase no fim da obra, Valle-Inclán deixa a chave decisiva
para compreender a personagem Xavier Bradomín, esse falhado D. Juan, falhado
católico e falhado carlista. “Eu não aspiro a ensinar, mas a divertir. Toda a
minha doutrina está numa só frase: Viva a bagatela! Para mim, ter aprendido a
sorrir, é a maior conquista da Humanidade.” A equivocidade do marquês não o
aproxima da personagem de D. Juan, mas de D. Quixote. Bradomín é um Quixote dos
tempos modernos, um esteta que se diverte com aquilo que finge ser, que ri das
suas crenças e da sua falência existencial.
quarta-feira, 21 de outubro de 2020
Alma Pátria 66: Filomena Casado e Reginaldo Duarte, Muro do Derrete
terça-feira, 20 de outubro de 2020
A Garrafa Vazia 22
segunda-feira, 19 de outubro de 2020
Ensaio sobre a luz (87)
domingo, 18 de outubro de 2020
Nocturnos 32
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| Eduardo Nery, Nocturno, sd |
sábado, 17 de outubro de 2020
Beatitudes (30) Contemplação
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| Gustav Klimt, The Church in Cassone, 1913 |
sexta-feira, 16 de outubro de 2020
Sonhos numa noite de Verão 23
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| Luís Noronha da Costa, Deus morreu: Morte ao rei, C. 1971-1975 |
quinta-feira, 15 de outubro de 2020
A Garrafa Vazia 21
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| Ana Hatherly, sem título, 1969 |
Novembro 2019
quarta-feira, 14 de outubro de 2020
A televisão e a destruição da vida política
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| Tom Wesselmann, TV Still Life, 1965 |
Quando alguém lê um romance, vê um filme ou vai ao teatro adopta uma atitude de espírito que Coleridge caracterizou como suspensão da descrença. Lemos ou vemos algo que sabemos ser ficcional, algo que temos a certeza de não ser mais que um produto da imaginação, como se se tratasse de um acontecimento da vida real. As personagens e as situações ganham uma densidade e uma realidade que, de facto, não possuem. Fazemo-lo por que isso nos dá um prazer específico. Fingir que é verdadeiro aquilo que não passa de uma mera invenção.
O facto de a comunicação social, com destaque para as televisões, apresentarem os acontecimentos mais ou menos banais da vida política como ficções tem um efeito contrário ao que foi assinalado por Coleridge para a ficção. As pessoas acabam por suspender a crença na realidade. A realidade política, através da ficcionalização a que é sujeita pela comunicação social, perde a sua densidade ontológica e as pessoas passam a senti-la como uma mera invenção telenovelesca, que não se deve levar a sério. As pessoas sentem prazer, agora, em tratar como mera ficção aquilo que é a pura realidade.
É esta falta de seriedade e esta destruição de realidade com que a política é tratada que vai permitir a eleição do primeiro clown bem-falante que apareça. Para coisas que não são para levar a sério ou que são meras ficções qualquer um – de preferência se for mau – serve. Durante muito tempo a comunicação social foi vista como o quarto poder, um poder de controlo dos outros. Hoje em dia, ela não deixou de ser um poder, mas é agora um poder de destruição das instituições e da própria vida política. Faz parte das instâncias dissolventes da racionalidade política e daquelas que abrem o caminho do poder para a praga de aventureiros e oportunistas que parecem nascer debaixo das pedras.
terça-feira, 13 de outubro de 2020
Nocturnos 31
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| Jorge Barradas, Natureza Morta, 1926 |
segunda-feira, 12 de outubro de 2020
Beatitudes (29) Artesanato
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| Júlio Resende, O oleiro, 1954 |

















