quarta-feira, 4 de abril de 2012

Dorothea Lange, White Angel Breadline

Dorothea Lange, White Angel Breadline (San Francisco, 1933)

Ler esta fotografia sem ter em conta o contexto social em que foi produzida é um exercício difícil. Não porque seja impossível tomar uma obra estética em mãos e lê-la nada sabendo dela, mas porque a informação que já possuímos, uma fotografia feita em San Francisco, numa sopa dos pobres e numa altura que ainda estão demasiado presentes os efeitos do Crash de 1929, enviesam o olhar, imiscuem-se na percepção, funcionando como verdadeiros a priori de natureza empírica. Pode-se sempre tentar fazer uma epoché (ἐποχή - termo grego que significa colocar entre parênteses) desses a priori empíricos, embora não seja tarefa fácil. Tentemos.

A luz e a cor (quase sépia) desenham uma atmosfera precisa e opressiva. O centro dessa atmosfera, o lugar originário dessa cor e luminosidade, não reside, todavia, nem na luz natural que a câmara capta nem na cor resultante da revelação, mas na face da personagem que está em primeiro plano. A ocultação do olhar e a aparência cerrada do rosto geram uma sombra que se espalha sobre a fotografia. Naquele rosto, a luz transmuta-se em sombra e toda uma atmosfera sombria emerge dali.

A natureza cerrada da face fotografada condensa um jogo de tensões. A tensão entre a parte oculta do rosto (o olhar, por norma, o centro luminoso do indivíduo) e a parte descoberta (as faces, o nariz, boca e queixo) encontra um paralelo no jogo social desenhado na fotografia. Esse jogo manifesta-se na oposição entre o indivíduo que está de frente para a câmara e os outros cuja atenção se focaliza em algo que é inacessível ao leitor da foto. O nosso incessível, contudo, representa uma expectativa - talvez uma promessa ou um princípio de esperança - para quem olha esse nosso inacessível. Como sabemos? Porque congrega a generalidade das atenções. Por outro lado, uma segunda tensão desenha-se no jogo dos chapéus. Os chapéus e bonés de quem está de costas parecem usáveis, enquanto o chapéu do protagonista está tomado pela usura da vida. Os primeiros denotam uma preocupação com a aparência, com o olhar dos outros. No chapéu do protagonista, encontramos o seu isolamento, o ensimesmamento a que está votado, a desconsideração do olhar de terceiros.

As mãos iluminadas pela luz natural aparentam estar fora da atmosfera sombria que a foto desenha. E no entanto a luminosidade das mãos tem um papel central na produção da atmosfera. São, devido à luz que sobre elas incide, o negativo do rosto tenso. Negativo não significa contrário. A luz mostra umas mãos cerradas. Neste cerramento, contudo, não há fúria nem súplica. Fúria e súplica são figurações da esperança. Nelas há apenas o desconsolado aconchego da conformação. A tensão do rosto e a conformação das mãos opõem-se, como o chapéu do protagonista se opõe aos outros chapéus e bonés, à expectativa dos outros.

O conflito central surge então, de forma quase psicanalítica, como a luta entre o princípio de realidade e o princípio de prazer. Mas realidade e prazer vistos de forma diferente dos princípios freudianos, como se estes tivessem sido extremados. O princípio de realidade não significa aqui a dilação do prazo para obter a graça desejada, mas a conformação à des-graça. O princípio de prazer também não é a realização imediata do desejo, mas apenas a expectativa ou a esperança de o realizar. A des-graça é o que vemos face a face, o negativo do desejo ou da esperança.

Se levantarmos agora o parênteses e recolocarmos a fotografia no contexto da depressão iniciada em 1929, o que descobrimos? Um trabalho sobre o sonho americano. O herói individualista, abandonado pela deusa fortuna, é o operário (no sentido etimológico daquele que faz a obra) conformado com a falta de graça, de mãos fechadas, sem qualquer obra para realizar. Aquele que tem rosto é o símbolo do carácter sacrificial do american dream. Não é a obra que nos individualiza (a fotografia remete para essa individualização), mas o sacrifício, a imolação num qualquer altar, simbólico que seja. O que nós vemos, de imediato, é a vítima sacrificial do utilitarismo presente no individualismo do american dream. Não é só isso que vemos, porém. A fotografia não é um ensaio sociológico, mas, enquanto obra de arte, a revelação de uma estrutura ontológica da experiência existencial da humanidade: a conexão entre individuação e sacrifício.

Para contextualização desta fotografia ver aqui.