sábado, 6 de outubro de 2012

Vladímir Korolenko, O Músico Cego


O Músico Cego, um romance do escritor ucraniano-russo Vladímir Korolenko (1853-1921), é uma meditação sobre a vontade humana e a conquista da autonomia, onde se cruza a mutação ontológica e o espírito da música. Piotr nasce cego. Do ponto de vista da espécie, nascer cego é um mero acidente, pode ocorrer ou não. Contudo, do ponto de vista do indivíduo, ser cego é a sua condição ontológica, o resultado de uma mutação para a qual a espécie não o equipou inteiramente.

Na economia do romance, esta cegueira não refere apenas um estado natural de Piotr, mas simboliza e, ao mesmo tempo, reforça a ausência do pai. Não que este não estivesse presente, mas a sua absorção nas actividades profissionais, na administração da propriedade, e a sua natureza bondosa, mas não interveniente, em nada contribuem para moldar o temperamento do novo membro da família. Ausência de visão e ausência da figura do pai deixam a criança aos cuidados protectores da mãe e de um tio, irmão da mãe, um velho militar estropiado na guerra. É este que encara o problema da educação do sobrinho. Não apenas a educação no âmbito dos saberes, mas também a educação da vontade e da autonomia pessoal, uma educação viril que lhe permita subsistir num mundo natural e social guiado, em primeiro lugar, pela visão. Uma educação que permita contrabalançar o excesso de protecção, fundado no afecto e na sentimentalidade, proveniente da mãe.

Especialmente dotado e sensível, Piotr cresce exercitando-se na configuração do mundo através dos outros sentidos, os quais, na ausência da visão, se tornam muito mais receptivos, ampliando a sua capacidade de fornecer informação e de gerar orientação. Esta sensibilidade pode, aos olhos do tio, Maksim, tornar-se o principal problema. Entre tio e o sobrinho há mais do que uma relação familiar e afectiva, há uma dolorosa partilha de uma condição ontológica (uma congénita e outra adquirida) que os distingue da norma. A experiência existencial de Maksim tem um papel central na educação que pretende para a criança. Brigão e desordeiro, um terror nas redondezas enquanto jovem, revolta-se contra os austríacos e alista-se nas hostes de Garibaldi. Até ficar estropiado, é um homem de acção, um ser telúrico e viril. É a tensão entre a experiência de uma vitalidade transbordante e o estado pós-mutilação física, com a consequente redução do poder vital, que fornece o horizonte onde moldará a educação do sobrinho. A questão central é a da sua autonomia, da sua independência num mundo que não está feito para ele.

Aquilo que poderia ser um motivo de ensimesmamento e de fechamento para a realidade,  por parte de Piotr, a sua sensibilidade para a música, vai ser a alavanca utilizada pelo tio para educar a sua vontade e disseminar nele as virtudes viris da autonomia. A música entra na vida de Piotr através das velhas melodias populares ucranianas. É o espírito de um povo que vai ser recebido, através da música de um servo, pelo jovem cego e que lhe vai moldar o ânimo. Mesmo quando começa a receber uma educação musical erudita, esta vai casar-se com a tradição popular. A música não é apenas uma arte nem o exercício de uma sensibilidade refinada, é também uma forma de captar a realidade, de a redescrever e de se relacionar com ela. É mais do que isso, é um princípio de cura e de mutação ontológica. No espírito da música são veiculadas as virtude viris e a capacidade de autonomia que o tio Maksim tanto deseja inculcar no sobrinho.

A vontade livre e viril, na ausência de uma figura parental que a molde, nasce de uma música com tonalidades patrióticas, na qual o espírito da música e o espírito do povo se fundem na criação da subjectividade de Piotr, que, dessa forma, metamorfoseia o estado degradado da sua condição natural numa vantagem na relação com o mundo e a sociedade. Não será difícil, por certo, encontrar num romance aparentemente tão simples e, na aparência, quase destituído de problemática política (há apenas a revelação passageira, mas não acidental, das preferência de Maksim por Garibaldi, o unificador e libertador de Itália) uma meditação nacionalista, sobre uma Ucrânia cega para o seu poder e virtude, uma Ucrânia também ela tocada pelo sentimento de autonomia e de independência.

Vladímir Korolenko (2010). O Músico Cego. Arbor Litterae. Tradução do russo de Nina Guerra e Filipe Guerra.