quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Mobilização e desenraizamento

Camilo Egas - Trabajadores sin hogar (1933)

Havia que atrair os homens às novas ocupações e, se eles se revelassem inicialmente imunes à atracção e sem vontade de abandonar o seu modo de vida tradicional, a tanto teriam de ser obrigados. (Eric Hobsbawm, A Era das Revoluções, p. 58)

Desde a sua origem, em Inglaterra na transição do século XVIII para o XIX e durante este, que o capitalismo possui duas características que chocam com a longa história da experiência humana. Por um lado, a mobilização; por outro, o desenraizamento. O capitalismo desenvolve-se assente em processos de mobilização totalizante. Mobilização de recursos financeiros, de matérias primas e de seres humanos. A esta conscrição fáctica corresponde um processo de desenraizamento das pessoas, de abandono das sociedades tradicionais e, nos dias de hoje, dos lugares em que nasceram e onde criaram raízes familiares e sociais.

Na história da humanidade foi longo o caminho percorrido para inventar sociedades sedentárias e criar o sentimento de lar e de pertença a um lugar. Mas a experiência deve ter sido de tal forma enriquecedora que, um a um e com raras excepções, os povos foram-se tornando sedentários e ao ganhar raízes num local chamaram-lhe pátria. Numa pátria pensa-se menos o aparelho polítco do que a ligação entre um povo e o território que é o seu. Subjacente à ideia de pátria está a ideia de enraizamento. Foi e é isto que as sociedade de mercado não podem tolerar. Os indivíduos devem estar mobilizados e, para que não se atenham a zonas de conforto, devem continuamente ser desenraizados.

Quando se estuda de perto a Revolução Industrial raramente se dá atenção à longa tragédia, quase sempre silenciosa, daquelas pessoas que foram obrigadas a deixar os campos e o mundo que era o delas para se tornarem operários. O brilho do néon que fulgura na epiderme das sociedades de mercado esconde uma tragédia de infinitos desenraizamentos, de perda de sentido, de redução da vida à servidão mais dura e menos esperançosa que poderia existir. Saliente-se, para os mais distraídos, que isso não é uma coisa do século XIX. É assim na China de hoje, é assim em muitos lados, e também é assim, cada vez mais assim, em Portugal do século XXI.