segunda-feira, 1 de abril de 2013

O ethos do chimpanzé

Mark Bodamer (Público)

Segundo o Público, cientistas corroboraram a tese segundo a qual os chimpanzés, tal como os seres humanos, cooperam uns com os outros para atingir certos fins. Essa cooperação, ao que consta, é motivada por interesses egoístas. Uma hipótese avançada diz-nos que chimpanzés e seres humanos teriam herdado essa capacidade de um antepassado comum que já a possuiria. O que está aqui em causa então é a partilha de uma certa concepção estratégica e instrumental, muito arcaica, da cooperação. 

Isto que é comum a este dois tipos de primatas conduz o pensamento sobre o homem a dois problemas fundamentais das sociedade humanas. O primeiro problema diz respeita à justiça distributiva. Quando é que a apropriação dos resultados desta cooperação estratégica e instrumental se começou a diferenciar, havendo seres humanos que recebem mais e outros menos por essa cooperação? Haverá um reconhecimento originário de que uma parte merece mais do que outra ou essa diferenciação deve-se ao exercício da violência?

O segundo problema tem uma natureza ético-moral. Quando e como a cooperação surge aos olhos dos seres humanos não como um valor estratégico e instrumental mas como um bem em si mesmo, como tendo valor intrínseco? O exemplo dos chimpanzés mostra que eles cooperam porque têm interesses egoístas. O que torna, porém, a história humana diferente de uma mera história animal é o facto da cooperação, bem como de outros valores, aparecerem idealizados e surgirem perante a consciência como um bem em si mesmos, de carácter neutro e imparcial: devo cooperar não porque tire daí vantagem mas porque isso é um bem e, como tal, é o meu dever. 

O que dá que pensar é que a modernidade, a partir das leituras sociais e políticas do darwinismo, acabou por negar o valor moral da idealização da cooperação, para sublinhar a natureza estratégica e instrumental desta. Quer dizer, a modernidade darwinizada (isto é, que transformou o darwinismo em ideologia social e política) reduziu a idealidade moral ao nível do ethos do chimpanzé.