quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Os fios fugazes de Setembro

Tomás Yepes - Natureza morta: figos numa paisagem

Para a Ivone Mendes da Silva
(por causa do problema do clima local)

Desfaço nas mãos os figos, os fios
fugazes de setembro, enquanto o seu leite  
escorre pelas folhas verdes que  
os envolvem. Esses figos, que me traziam
em cestos de vime, eram mel na boca
que os saboreava…”

(Nuno Júdice, "Estrela", in Pedro Lembrando Inês, Cotovia 2001)

Leio estes versos de Nuno Júdice e sou tomado por um súbito estremecimento. Se há fruto de que não goste, é o figo. A excessiva doçura, os grânulos que se desfazem na boca, a textura mole, tudo isso me inclina a fugir do fruto da figueira.

Mas o meu estremecimento não se deve a uma reacção negativa à evocação do fruto por parte do poeta. Estremeço porque sou levado a ver a realidade de uma outra maneira. Vivo num mundo onde figueiras e figos fazem parte de uma economia - em tempos, omnipresente - que se desvanece. Até ao momento em que li o poema nunca tinha percebido a verdadeira natureza do figo.

Figos são os fios fugazes de Setembro. Mais do que frutos, são ligações (fios) que unem as horas de Setembro à roda do tempo. Aprendo que não há tempo humano sem esta experiência que integra esse tempo do universo, mudo e indizível, na realidade viva dos homens: Setembro é, como qualquer outro, um mês fugaz, mas a sua fugacidade ganha figura e vem à linguagem: Setembro, o mês dos figos, desses frutos trazidos em cestos de vime e que eram mel na boca que os saboreava.

A linguagem poética, ao destruir a linguagem banal do quotidiano, abre-nos para o mundo e os nossos olhos deparam-se com paisagens nunca vistas. Agora posso dizer o fruto de Setembro e imaginar o mês que vivemos como uma grande árvore, onde as raízes nos ligam ao centro da terra, mas os ramos nos apontam um céu incomensurável. Entre o céu e a terra é o lugar do homem e o mês de Setembro é, como o figo, o fio fugaz que nos liga à memória de um calor estival que se vai e ao Outono que anuncia os dias frios do Inverno por vir.

Pela poesia, encontro o meu lugar no mundo e descubro esse mundo mais habitável. Enquanto Setembro for o mês dos figos, os homens habitarão a terra e mesmo que o terror dos dias ensombre a vida dos mortais, haverá uma réstia de esperança para aqueles que os deuses esqueceram. Não gosto de figos, mas o poema de Nuno Júdice ajudou-me a amá-los, a eles que são os fios fugazes de Setembro. (Jornal Torrejano, 2007)