segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Perfis 1. O pianista

Ellsworth Kelly, Awnings, Avenue Matignon, 1950
A mão pega uma folha da partitura, como se houvesse uma longa hesitação na interpretação daquela passagem da obra. Sentado, o pianista olha-a com o zelo da atenção prestada a um objecto amado. Depois, parece que vai voltar a página, mas alguma coisa o atormenta, e o gesto fica suspenso, a folha presa entre o polegar e o indicador, os olhos fixos no papel e uma concentração que traz à memória o rapto místico de algum santo. Mais do que tempo de ensaio, é hora de reflexão meditativa sobre as intenções do compositor. Da boca pende-lhe um cachimbo, de onde, por vezes, se soltam nuvens de um fumo espesso, subindo em espiral para desaparecerem tragadas pelo amarelado do tecto. O silêncio é interrompido, o artista executa uns acordes com a mão esquerda, mas logo pára e concentra os olhos na partitura. Lá fora o dia desliza cinzento, há muito que um céu de chumbo cobre a luz do sol. De perfil, o pianista parece uma ave pré-histórica, os cabelos sobre o pescoço lembram penas levemente desarranjadas por algum movimento repentino, e o nariz, ao desenhar uma curva da base onde nasce até à ponta, deixa no observador a sensação de um bico de pássaro. Há uma tensa energia naquele homem que suspendeu os movimentos. A reflexão não é nele uma via para o cepticismo e para indiferença, perante a impossibilidade de escolher um caminho. Quem o vê percebe de imediato, pela inclinação do corpo, pela forma como a cabeça enfrenta a partitura, que encontrará uma solução que o satisfaça. Uma baforada sai-lhe de entre os lábios, a mão direita vira a página, a esquerda retira o cachimbo da boca e pousa-o num pequeno dispositivo para o acolher. Cerra os olhos, e uma música vigorosa responde ao dedilhar subtil das teclas do piano. 

domingo, 2 de agosto de 2020

Um problema com a democracia


A importância do parlamento não deriva tanto do facto de ali se fazer a lei como daquilo que o parlamento substitui. E o parlamento substitui o quê? Substitui a guerra civil ou a ditadura, que é uma espécie de guerra civil em que uma parte tem as armas e a outra não.  A existência de deputados que representem as diversas sensibilidades é fundamental. Eles conflituam com palavras e isso é muito melhor do que a violência ou as perseguições políticas. Numa sociedade é impossível que todos pensem da mesma maneira sobre o modo de a governar. A democracia parlamentar é uma invenção notável, pois permite, ao mesmo tempo, que o país seja governado e que as pessoas possam viver em paz, livres e sem medo.

Um governo eleito deve governar, mas não pode fazer o que quer e terá de se submeter ao controlo do parlamento. As democracias maduras olham para a prestação de contas no parlamento como um momento muito importante, pois possibilita às diversas partes escrutinarem e pronunciarem-se sobre a governação. Em Portugal estava instituído que o primeiro-ministro fosse ao parlamento todos os quinze dias. Não era excessivo. O espantoso é que por iniciativa do presidente do maior partido da oposição, Rui Rio, essa prestação de contas foi drasticamente reduzida. A justificação é a de deixar o primeiro-ministro trabalhar. Extraordinário. Não faz parte do trabalho de um político responder pelo que faz e ser sistematicamente escrutinado? Na verdade, descobrimos que os dois principais partidos da nossa democracia, PS e PSD, são liderados por pessoas que não acreditam nela. Rui Rio pela proposta inaceitável que fez. António Costa pelo oportunismo de a ter aceitado.

Rui Rio, e António Costa por cumplicidade, inscrevem-se numa linha de pensamento político que desvaloriza o parlamento e a democracia. Essa linha passa por Cavaco Silva e tem a sua raiz em Salazar. Não estou a afirmar que Rio, Costa ou Cavaco Silva são salazaristas. Não o são. Estou apenas a dizer que há neles uma atitude que desvaloriza os rituais da democracia parlamentar e que essa atitude se funda no autoritarismo do Estado Novo. Esta desvalorização do parlamento é preocupante pois pode abrir caminho para que, mais tarde ou mais cedo, ganhe força, num país em que a democracia é demasiado nova, a ideia de que se pode dispensar o parlamento, isto é, o sítio onde os representantes dos portugueses conflituam em torno de ideias para que os cidadãos não se matem nas ruas e não se persigam uns aos outros. 23 de Julho foi um dia negro para a democracia em Portugal.

[A minha crónica em A Barca]

sábado, 1 de agosto de 2020

Anatole France, A Revolta dos Anjos


Estava-se no ano de 1914, um ano de má memória na história do mundo, quando foi publicado o romance A Revolta dos Anjos, de Anatole France. Não se trata de uma utopia ou, numa versão negativa, de uma distopia, nas quais se apreenda um aspecto particularmente sedutor ou decididamente repulsivo do poder político. Há, na verdade, uma prosaica meditação sobre o poder, mas ela é feita através de uma fantasiosa rebelião dos anjos contra o poder de Deus, a retomado do projecto luciferino de conquista do poder. A obra combina elementos teológicos com elementos políticos, como se fosse um sinal irónico sobre o que a história da Europa começaria a trazer com o advento das teologias políticas que foram ocupando, a partir de 1917, o poder em importantes países europeus.

No centro da intriga está uma decisão filosófica sobre a origem do conhecimento e da verdade. Não se trata, todavia, da querela entre racionalistas e empiristas, pendência marcadamente moderna, mas da questão sobre se o conhecimento autêntico tem uma origem divina ou humana, libelo trazido pelo fim daquilo a que se convencionou chamar, talvez com demasiada condescendência pelas opiniões renascentistas, Idade Média. Esse problema não é colocado por nenhum homem, mas por um anjo, um anjo da guarda de um dos protagonistas humanos da narrativa. A família Esparvieu tinha um hobby sério, demasiado sério. Coleccionava livros, não quaisquer livros, mas aqueles que de uma forma ou de outra se ligavam ao conhecimento, fossem de ciência, religião, filosofia. Fantasias da imaginação, como o romance, estavam excluídas. A colecção era, além de numerosa, muito valiosa, e acabou por exigir a contratação de um bibliotecário, o senhor Sariette, que fez dela e da sua ordem a razão da existência.

Os problemas começam quando súbitos e inexplicáveis desordenamentos e roubos de livros se sucedem. Se do ponto de vista físico não se encontram razões para estes acontecimentos, o mesmo não se passa do ponto de vista metafísico. Um dos Esparvieu, Maurice, tinha, para além de uma garçonnière, onde recebia as suas amantes, um anjo da guarda. E é após um encontro amoroso que o anjo se decide manifestar. A função aborrecia-o e decidiu, aproveitando-se da sua condição, estudar a biblioteca dos Esparvieu. Os acontecimentos inexplicáveis tinham uma explicação. A sede do conhecimento levou-o à luz e a luz conduziu-o à revolta contra o seu Senhor, que, via-o agora, era ávido de louvores, um tirano. Da blasfémia à revolta é um pequeno passo e o anjo demissionário de Maurice, como todo o revolucionário recém-convertido à revolução, deseja com ardor depor o tirano e colocar outro no seu lugar, neste caso Lúcifer, o anjo da luz.

Parte substancial da narrativa gira em torno da organização e preparação desse grande acontecimento que se haveria de passar no reino dos Céus, com o assalto final ao Castelo divino, deposição do Monarca absoluto e sua substituição pelo anjo da luz. O antigo anjo protector de Maurice começa a estabelecer, na Terra, ligações com os muitos anjos que tinham abandonado a suas antigas funções, dedicando-se a diversas ocupações, desde a conspiração terrorista até à jardinagem, passando pela sedução de mulheres. O descontentamento, como todos sabemos, não é uma prerrogativa dos homens. Antes deles, já os anjos se revoltaram com os resultados que todos sabemos. Os planos subversivos foram progredindo e tinham todas as possibilidades de saírem vencedores, não fora a recusa de Lúcifer em derrubar e ocupar o lugar de Deus.

A Revolta dos Anjos não é uma mera fantasia sobre o mundo do além e do aquém, uma espécie de antecipação da literatura fantástica que nos nossos dias tem tido tão grande fortuna. A obra é uma reflexão irónica sobre as ilusões políticas revolucionárias e algumas pretensões nascidas com o Iluminismo. A ironia nasce do próprio estatuto de verdade da obra romanesca. Recorde-se que na biblioteca dos Esparvieu, preocupada com o conhecimento e a verdade, o romance, produto da ficção, estava proscrito. Esta ironia não nega a possibilidade de haver uma verdade na ficção, mas questiona-a e, ao mesmo tempo, questiona, na economia do romance, se a verdade residirá no conhecimento proveniente da ciência, da filosofia e da teologia. Do ponto de vista da relação entre conhecimento e revolta política, isto é, entre o Iluminismo e Revolução, a ironia não é menor. O que torna o anjo da guarda de Maurice em revolucionário é o conhecimento. Este leva-o a negar Deus, ao mesmo tempo que O afirma ao pretender combatê-lo. Que a revolução não ocorra porque o futuro incumbente do trono se recuse a isso em nome da inutilidade do acontecimento, pois teria de desempenhar o papel daquele a quem derrubaria, não é a menor das ironias.