quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Greve metafísica

Philip Guston - A Day's Work (1970)

Hoje sou um grevista. A minha greve tem uma natureza metafísica. E como das coisas metafísicas não há ciência, também não a há da minha predisposição para a greve neste dia. Não creio que a greve traga qualquer bem, um bem que se possa objectivar e, segundo o gosto do tempo, entregar ao cálculo. Fazer greve é suspender o trabalho, essa intervenção deliberada no curso do mundo. Quando se faz greve, os grevistas não protestam contra o trabalho, mas contra o curso do mundo. Faço greve para sinalizar que o mal excedeu aquilo que lhe compete no curso do mundo. 

Nas coisas humanas, em todas elas, há uma parte de mal e outra de bem. Uns sonham com a vitória na terra do bem, outros esperam - disfarçados e embusteiros - que o mal triunfe. Pela minha parte, espero apenas que haja equilíbrio entre ambos. Foi esse equilíbrio metafísico que se rompeu. Essa ruptura permite que o mal avance, cada vez mais rapidamente, sobre a terra e desaloje o bem do refúgio a que está confinado. Durante um largo período do século passado, os governos não eram agentes nem do bem nem do mal, mas artífices do equilíbrio. O equilíbrio nas relações humanas é um exercício difícil e exige artistas consumados. Desapareceram da face da Europa. 

Hoje em dia, os governos são os enviados do mal, servem-no, adoram-no. Prostam-se perante a sua voz, apressam-se a cumprir os seus imperativos. Por isso, o mal cresce sobre a terra. Fazer greve tem menos efeito do que tomar uma aspirina para combater uma doença infecciosa. Mas o doente ao tomar a aspirina, embora não cure a doença, sinaliza a si mesmo o seu estado. Fazer greve significa sinalizar o crescimento hediondo do mal, significa também que as pessoas não se renderam perante o império do mal, apesar da traição dos tronos, das potestades e das dominações. Por detrás das convulsões sociais, movem-se estranhas forças metafísicas. Não, não estou a falar em anjos e diabos, nem em fantasmas. Falo das inclinações humanas. São estas que, convertidas à malevolência, tentam aniquilar as predispoções humanas para a razoabilidade e o equilíbrio. Por isso, faço greve.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Reformas estruturais

Gonzalo Torné - Estructura quebrada (1987)

A austeridade é o único caminho, proclamou, em Bruxelas, o primeiro-ministro. Nos tempos em que um povo é governado por gente inteligente, a virtude política assenta na ideia de que todos os caminhos vão dar a Roma. A inteligência e a maleabilidade sempre se entenderam. Certamente, nos dias que correm, um defeito da inteligência. Quando se proclama que só há um caminho, por norma, está-se a esconder, de forma pouco hábil, a existência de múltiplas vias. A austeridade não é um destino, mas uma opção para aquilo a que Passos Coelho chama "reformas estruturais", isto é, a destruição pura e dura de uma conjunto de instituições que fazem parte da soberania de um povo. A austeridade é a conjuntura que serve de desculpa ao revanchismo político para a destruição do núcleo de direitos populares que sustentam a cidadania da maior parte da população. A esperteza saloia do governo e da troika tem passado até aqui mais ou menos incólume. Resta saber se resistirá ao mês de Fevereiro. Como ontem, em entrevista ao Público, dizia Leonardo Matias, em Fevereiro, o país terá um choque quando olhar para a folha de ordenado. Quando se mexe muito na estrutura das coisas, o mais certo é que a estrutura se quebre e as coisas se afundem no nada.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Fazer o trabalho de casa

Max Ernst - Two Children are Threatened by a Nightingale (1924)

Há imagens que me dão vómitos. Há pouco, no telejornal, vi e ouvi o pobre ministro Pereira da economia dizer que Portugal "fez o trabalho de casa". Não bastava a memória de Portugal ser o "bom aluno", dos tempos em que Cavaco era primeiro-ministro, agora somos apenas aquele aluno que faz o tpc. Só temos aquilo que merecemos. Elegemos gente que acha que um povo com 900 anos de história, que teve um papel decisivo na primeira globalização, se descreve com imagens que fazem de nós crianças eternas. Quem são os portugueses? São aqueles que queriam ser bons alunos, mas agora, apesar de tudo, são os que fazem o trabalho de casa. Três cópias e umas contas de somar e subtrair. Meu Deus, mas ninguém tem um mínimo de orgulho. Podemos fazer asneiras, podemos ser irresponsáveis, mas ao menos que haja vergonha e que nenhum governante proclame a nossa eterna infantilidade, a infantilidade de um povo que nunca sai da escolaridade obrigatória. Vão-se catar!

domingo, 11 de novembro de 2012

Meditações taoistas (3)



O ensino sem palavras
A eficácia do não-agir
Nada poderá igualar-se-lhes.
Lao Tse, Tao Te King, XLIII

De súbito as palavras secaram na boca, quebraram-se em sílabas que se desfizeram letra a letra. Na areia da língua, no pó vocálico que então se desprendeu, cresceu uma radiação infinita. Não foi um milagre, nem os deuses desceram sobre a terra. Apenas um silêncio fulgurou iluminando as folhas do castanheiro, as ervas bravias que, como dedos de cimento, cresciam pelas bordas dos caminhos. Vinda pela estrada, a mulher estancou, aspirou com suavidade o ar da manhã e desfez-se lentamente das roupas que a cobriam. Era um corpo silente que se desnudava, que se abria ao pó da terra, ao afago do vento marítimo. Naquele instante, o mundo recomeçava a sua caminhada e tudo era, aos olhos incendiados de Eva, novo e sem finalidade.

Sentado no centro do universo, Adão olhava os seios de Eva, o corpo suave que a eternidade agora lhe restituía. Não esboçou um gesto, nem uma palavra cintilou na sua boca. Uma aragem fresca tocou ao de leve o corpo da mulher, eriçou por breves instantes os pêlos do púbis e perdeu-se na planície sem fim. Frente a frente, homem e mulher fitavam-se e, em alguns momentos, lágrimas afloraram-lhes aos olhos. Adão aprendera a inutilidade de todo o gesto e Eva, tranquila, abraçava-o. No quieto silêncio que os habitava, deixaram que as bocas se tocassem. Abriram-se então as portas do Jardim do Éden e Deus, mudo e plácido na sua sabedoria, sorriu quando o silencioso corpo de Eva pela quietude de Adão foi tomado.

sábado, 10 de novembro de 2012

Jonet e o ódio latente

Pablo Picasso - Ciencia y caridad (1897)


O caso das declarações de Isabel Jonet, responsável pelo banco alimentar, num programa televisivo e o conjunto de reacções que desencadeou são um sintoma do estado de espírito do país. As declarações de Isabel Jonet combinam um conjunto de banalidades sobre o putativo vício de os portugueses viverem acima das suas possibilidades (sim, isto é, nos dias de hoje, uma afronta para quem nunca o fez, a grande maioria dos portugueses) com uma visão política onde transparecem as posições do governo e daqueles que, com a ideologia da austeridade, estão, como reconhece o FMI, um dos culpados, a destruir o país. A banalidade e parcialidade das declarações de Isabel Jonet não invalidam o excelente trabalho que tem feito na organização que dirige. Mas nem é o seu trabalho nem as suas ideias que me interessam, pois não são eles que estão em jogo.

A virulência com que detractores e apoiantes de Isabel Jonet se têm batido mostra um grau de animosidade desmedido, que a figura da senhora não explica. Quase de imediato, as declarações da dirigente do banco alimentar deixaram de ter importância, para que as partes, através dos blogues e da imprensa, se confrontassem com indisfarçado ódio. Sob a capa  dos brandos costumes, existe um ódio latente entre os portugueses. Pode estar recalcado pelo exercício da ditadura, pode estar disfarçado pela arte política e um orçamento generoso, como aconteceu entre a adesão à CEE e o advento da crise da dívida soberana, mas ele existe. Mal as condições se degradam, esse ódio - que anima ambos os lados - manifesta-se e cresce.

A política governamental, seguindo com prazer indisfarçado as exigências da troika, está a criar condições para que esse ódio ancestral - ele não é de hoje, claro - venha ao de cima, mesmo se o que o desencadeia são irrelevâncias como as proferidas por Isabel Jonet. Talvez um dos problemas de Portugal não seja tanto a não inscrição, como defende José Gil, mas o ódio latente e o desprezo mútuo que há entre as elites e as camadas populares. Este ódio latente entre partes merece ser pensado e merece que se encontrem caminhos para atalhar o crescimento da sua manifestação. Os incendiários da troika desconhecem o assunto, bem como os pirómanos que nos governam. Nem vale a pena elencar as múltiplas atrocidades que, ao longo de séculos, os portugueses fizeram uns aos outros. Convinha estar muito atento a estas "pequenas" coisas.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

O modelo alemão

A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.

O ministro Nuno Crato achou por bem aconselhar-se com os alemães sobre o ensino profissionalizante na escolaridade básica. Na Alemanha, a separação entre as vias de ensino é muito precoce e tem alguma rigidez. Apesar de alguma contestação, a pujança económica germânica e os salários elevados dos técnicos que vêm do ensino profissional acabam por justificar a manutenção do velho sistema educativo alemão.

Há em tudo isto, contudo, uma coisa que me deixa de pé atrás. Sócrates foi à Finlândia para se inspirar. A ministra de educação, com o seu apoio, adoptou o modelo educativo chileno (sic). Agora a moda é a Alemanha. Portugal não terá experiência suficiente para pensar a sua realidade educativa e construir um modelo adaptado aos portugueses? Somos finlandeses? Somos alemães? As nossas sociedades são iguais? Esta história da cooperação alemã é só mais um disparate a juntar-se a muitos outros.

No entanto, há um problema que tem de ser pensado de forma fria. No terceiro ciclo do ensino básico há um conjunto razoável de alunos que, na prática, recusa a escolarização tradicional e que, apesar de enormes esforços das escolas e dos professores, não quer seguir uma via teórica de escolarização, tornando-se factor de perturbação das aprendizagens dos outros alunos. Não há certamente estatísticas sobre a percentagem de alunos nesta situação, mas ela deve ter alguma dimensão. Estes alunos precisam de uma educação alternativa.

Por outro lado, é necessário alterar a forma de aceder aos cursos do ensino secundário. Há um número elevado de alunos que frequentam as várias áreas da via de ensino, os cursos científico-humanísticos, sem qualquer vocação ou interesse pelas matérias de estudo. Não é possível continuar a encher turmas de humanidades com alunos que não lêem nem querem ler. Como não é possível encher turmas científico-tecnológicas com alunos que detestam a física e odeiam a matemática.

É preciso fazer selecção no início do ensino secundário. Há mesmo que permitir a diferenciação de percursos no início do 3.º ciclo. Sei que esta ideia repugna à esquerda política. Mas o que se tem passado desde 1975 é enganar alunos, famílias e a comunidade em geral. Há que melhorar drasticamente os cursos profissionais. Não tenhamos, contudo, ilusões. A melhoria desses cursos precisa de uma economia a funcionar, e nós somos governados por uma ideologia que aposta tudo na destruição da economia. Para fazer o que é necessário não precisamos de ir à Alemanha (que está apostada em destruir a nossa economia), precisamos de saber o que queremos para Portugal.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Adriano Correia de Oliveira


Andava há muitos anos para comprar a obra completa de Adriano Correia de Oliveira. Por um motivo ou outro, ia adiando o projecto. Comprei-a agora, numa altura que pensava que estava esgotada. Não para a ouvir, pois musicalmente já não me interessa, mas como tributo à minha memória e àquilo que fui. Recordo as horas que passei a jogar xadrez no Cine Clube de Torres Novas, antes do 25 de Abril de 1974, com música de fundo, onde estavam, entre outras, as canções de Adriano Correia de Oliveira. Para dizer a verdade, aquilo que despertava em mim uma certa vibração era a poesia de muitas destas canções. E, sei-o hoje, a minha ligação à poesia deve-se também a essas canções dos cantores comprometidos politicamente.

Por outro lado, há nas canções de Adriano Correia de Oliveira, bem como nos primeiros discos de José Afonso e na música de Carlos Paredes, um certo pathos que acabei por identificar com o símbolo de ser português. Há ali uma nostalgia, uma saudade, um desejo de pureza, uma espécie de promessa arcaica de paraíso tocado pela simplicidade, que associo ao que há de mais fundo nos portugueses. O mais curioso é que não encontro a simbolização dessa portugalidade mítica em mais lado nenhum, nem sequer na grande Amália Rodrigues. Ora esse pathos ainda me comove, embora não me mova, como se eu também transportasse no fundo de mim o desejo mítico de um paraíso arcaico e simples, onde os homens viveriam fraternalmente.

Quando vejo muita gente reclamar contra a injustiça histórica da condenação do fascismo e do nazismo ter sido muito mais violenta do que a do comunismo, ou quando se condena com rancor indisfarçado a complacência de muitos intelectuais perante os crimes estalinistas, vejo que esses juízes não compreendem nada do que move os homens. Ao ouvir Adriano Correia de Oliveira ou José Afonso, por exemplo, esse paraíso mítico quase se torna tocável e as pessoas perdem a aura egoísta que possuem. O comunismo teve um enorme peso não por aquilo que ele prometia (a sociedade sem classes), mas porque teve a capacidade de acordar em muitos homens uma reminiscência de um paraíso perdido. 

É o apelo desse paraíso perdido - um paraíso especificamente português - que ainda oiço na voz de Adriano Correia de Oliveira. O fascismo e o nazismo foram desde muito cedo percebidos como uma emanação do mal. O comunismo, pelo contrário, ecoava a promessa de uma fraternidade, cuja aspiração reside enterrada no fundo do coração humano. Mesmo depois de se saber o quão criminoso foi o regime comunista nos locais onde existiu, muitos têm dificuldade de o condenar. Não porque sejam complacentes com o crime, mas porque essa ânsia paradisíaca, que se manifesta em vozes como a de Adriano Correia de Oliveira, não emigrou do coração dos homens. Pressentem que essa condenação seria a condenação do próprio homem, o fim da esperança na salvação. E talvez o conceito de salvação seja central para perceber a atracção que tudo isso exerceu e exerce sobre muitos seres humanos. De certa forma, também Adriano Correia de Oliveira era um cantor não de intervenção, mas da salvação.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Um europeu


Este post de O Insurgente labora no maior dos equívocos. Não me refiro à profecia da fragmentação dos EUA devido ao declínio do predomínio dos descendentes de povos europeus sobre os de povos de outras origens étnicas. Refiro-me à ideia de Barack Obama ser um não-europeu. Se o que faz um europeu é a cor da pele e dos olhos ou a sonoridade do nome, então há muitos europeus que, habitando na Europa há centenas ou milhares de anos, não são europeus. Se há uma coisa que une a Europa, para lá dos devaneios rácicos, é uma cultura e um espírito, uma certa atitude perante o mundo. Há muito que a América não era governada por um espírito tão aristocrático e europeu. Ao pé do refinamento intelectual e da atitude de nobreza de Obama, muitos dos ex-presidentes americanos, daqueles que descendem de europeus, não passam de bárbaros, aos quais a Europa sempre encontra múltiplos motivos para desdenhar. A América elegeu, felizmente e por duas vezes, um verdadeiro príncipe, elegeu alguém que nenhum povo europeu, a começar por nós, desdenharia ter entre os seus cidadãos e entre os seus governantes. Obama é mais europeu que os Coelhos, Barrosos, Rajoys, Merkels, etc., etc. que saltitam por aí, afundando a pobre e fragmentada Europa, essa sim muito mais próxima da implosão do que os já pouco europeus EUA.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Crepúsculos

Pierre Bonnard - Crepúsculo (1892)


Na ideia de crepúsculo, naquela que resulta da sua aplicação metafórica à vida humana, à sociedade ou a uma instituição, pensa-se a decadência e o declínio. A figuração metafórica (hoje em dia quase uma metáfora morta) da decadência e do declínio pela palavra crepúsculo deve-se ao crepúsculo designar a luminosidade que permanece depois do ocaso do sol, a luz que antecede a noite.

Curioso o termo crepúsculo também designar a luminosidade que precede o alvorecer, o novo dia. Que estranho mistério é este em que o uso metafórico acaba por ser mais pobre do que o uso corrente da língua natural? Quando dizemos "uma sociedade crepuscular" referimo-nos àquela que apresenta francos sinais de decadência e não a uma sociedade que está a começar, composta por um tecido social jovem e desejoso de afirmação.

Nos tempos crepusculares que nos couberam em sorte, seria recomendável manter esta duplicidade que a palavra crepúsculo tem no seu uso corrente. Sim, nós sabemos que a noite se aproxima, que esta luz que ainda brilha é já o prenúncio do fim. Mas também sabemos que quando anoitece um novo dia se aproxima. Talvez o crepúsculo que nos ilumina seja também a anunciação de um outro mundo. Eu sei que, perante as negras forças da destruição que agem impunemente nesta hora, a tentação primeira e natural é defender o velho mundo. Há, porém, que abandonar a reactividade e procurar os elementos que permitirão, no novo dia, uma configuração mais de acordo com o que é humanamente desejável e suportável.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Um suicídio colectivo

Milton Avery - The Baby (1944)

Há sempre explicações sociológicas para aquilo que acontece na sociedade. Também haverá, certamente, para o facto de 2012 ser o ano, desde que há registos, em que nascem menos bebés. As explicações sociológicas abrem caminho para as interpretações políticas e para a algazarra ideológica. Eu sei que o mundo prático em que vivemos encontrará de imediato bodes expiatórios para o acontecimento. Por exemplo, a esquerda culpará a desestruturação do Estado social, a falta de apoio à maternidade. A direita, pelo menos uma parte, elegerá o aborto, o uso de contraceptivos, e os costumes pela queda da natalidade. Outra parte da direita, afirmará que isso terá origem no peso do Estado social que rouba energia e iniciativa à sociedade e vontade desta se multiplicar. Haverá derramamento ideológico para todos os gostos, como é hábito. Tudo isto é legítimo e não vem daí mal ao mundo. Mas deveríamos ser um pouco menos pragmáticos e perder algum tempo a pensar sobre o assunto. 

Uma pergunta que deveríamos formular seria a seguinte: por que razão os portugueses, vendo o abismo à frente dos olhos, se deixam ir sem resistência, sem questionar o caminho, sem pensar nas consequências? A atitude perante o gravíssimo decréscimo da natalidade é idêntica à que têm noutras áreas da vida comum. Deixam acontecer. É duro é olhar para um povo que, faltando-lhe um pastor rígido, não cuida do seu próprio bem, não cuida da sua comunidade, que lhe é indiferente a sua lenta extinção. Como é que esta atitude se instalou em nós, como é que ela permanece mesmo na hora em que tudo parece desmoronar-se? Que estranha pulsão mortal se inscreve em nós que nem o júbilo das novas gerações nos dão um mínimo de prazer? Não são as condições sociais que explicam este acontecimento. Facilmente se dariam contra-exemplos para essa tese. Não, o que é preciso explicar é a predisposição colectiva para o suicídio, uma predisposição com tonalidades metafísicas. A sociologia poderá explicar a superfície do fenómeno, as suas manifestações, mas a causa última do fenómeno permanece misteriosa e dá que pensar.

domingo, 4 de novembro de 2012

Meditações taoistas (2)

                    Assim o santo deseja o sem-desejo.
                    Não aprecia os tesouros cobiçados.
                    Aprende a desaprender.
                    Lao Tse, Tao Te King, LXIV

Quando da noite apenas a sombra se alcança e um rumor de afilados dedos estala sobre a pele, o corpo, a rasgada parede sobre o abismo, abre-se à sua lenta extinção. As células entregam-se à voracidade do fogo, ardem como querubins azuis em noites de estio. Vacilantes, jogam-se umas contra às outras, restolho esquecido pelos campos de trigo, erva outrora verde e agora penugem amarela por pássaros esquivos ponteada.

Ter corpo é não ser anjo, nem deus, nem luz, nem sopro. Ter corpo é apenas ter corpo, os ossos presos na sua solidez, a pele equívoca onde o olhar se vela, músculos flutuando ao sabor das mãos. Aí, onde a carne é tão tocável, germina uma ânsia, um pudor demasiado frágil para que a inquieta respiração não o dissolva, o quebre e o deixe suspenso na fria memória. Depois, como uma voragem, o desassossego de aprender instala-se no coração, envenena o olhar, destila um álcool inebriado pelas faces até que a voz, inóspita e branca, ressoe no deserto. Quem escutará?

Se um dia uma árvore disser "eu sou uma árvore" e um cão latir o seu nome, o que ficará por saber? Nem a luz, nem a noite, nem a sombra. Restará apenas ao cansado viandante desfazer as malas que o atam à viagem e deixar que a luz, e a noite, e a sombra se extingam. No incolor de todas as cores, no insonoro de todos os sons, navegam barcos informes. Neles, ardem marinheiros bravios que, como dedos perdidos em corpo de mulher, só a desaprender aprendem.

sábado, 3 de novembro de 2012

Som e sentido

Ramón Pérez Carrió - Sermón del ser y no ser (1993)

O poeta fala do limiar do ser. Para determinar o ser de uma imagem, ser-nos-á então necessário fazer a experiência da sua ressonância. (Gaston Bachelard, La poétique de l'espace)

Estar no limiar é estar numa fronteira, naquela linha imaginária que divide duas soberanias. Uma dessas potestadades, sabemos claramente qual é, a soberania do ser, o território do que se manifesta na existência. Estar no limiar do ser é estar à porta da casa do ser. Mas que soberania será a outra? Que pátria é aquela que o limiar onde se encontra o poeta divide da pátria do ser? Essa outra pátria só pode ser o nada, a ausência da existência e das suas claras determinações.

A determinação do ser de uma imagem poética não é o trabalho do poeta, mas do filósofo da poesia. O poeta é o homem da fronteira, o contrabandista que transporta mercadoria entre os dois lados. Pega nas palavras que a existência determinada da língua lhe fornece e funde-as com a indeterminação vinda do país do nada. Como faz ele isso? Dissolve o peso do sentido no som do poema. O poema é então esse acontecimento que se dá numa fronteira, na linha imaginária que separa ser e nada, a vida organizada e o que está antes e depois dela.

Fazer a experiência da ressonância de uma imagem poética é já o trabalho do filósofo, daquele que pretende trabalhar novas geografias conceptuais, que prepara a conquista pelo ser de territórios ocupados pelo nada. No trabalho do filósofo está já presente a força da lei, a ânsia da determinação, o poder de conquista e de delimitação. A poesia, porém, retira-se para uma nova fronteira, abandona o sentido conquistado e mergulha no inarticulado que há no som, para assim poder continuar a epopeia do contrabando. Se o poeta é um contrabandista, o filósofo é um usurpador.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

A refundação


A ideia de refundação do programa da troika defendida pelo primeiro-ministro nada tem a ver com a renegociação da dívida e um alargamento dos prazos de pagamento. Isso teria sentido de um ponto de vista reformista e paulatino que visasse manter um certo equilíbrio social e uma harmonia na vida da comunidade. Os portugueses, contudo, entregaram a governação a fanáticos que querem alterar radicalmente os equilíbrios sociais.

A ideia de refundação tem um sentido político e outro económico muito precisos: alterar substancialmente aquilo a que se chama Estado social, entregar as áreas da saúde, da educação e parte da segurança social nas mãos dos privados. Politicamente, o Estado ficaria livre da responsabilidade da execução destas políticas e dos problemas que elas trazem. Tentaria, por outro lado, diminuir a despesas com essas áreas que servem o grosso da população. Isto não significaria, porém, que o Estado deixasse de financiar essas áreas à custa dos impostos. A questão é outra.

Com a chegada da globalização e a abertura dos mercados, a classe empresarial portuguesa foi perdendo, com algumas excepções dignas de realce, mercado e áreas de negócio. As nossas empresas públicas estão a ser comprados pelos estrangeiros. A educação e a saúde, bem como parte da segurança social, podem tornar-se um belo negócio para certos grupos empresariais portugueses, grupos habituados a grandes lucros à conta do Estado. O risco será nulo, pois o Estado colocará lá o dinheiro, tendo as empresas apenas que achatar drasticamente os salários dos profissionais dessas áreas e gerir as despesas, de forma que o Estado gaste menos e elas ganhem o mais possível. Refundar significa passar para as mãos dos empresários uma parte substantiva dos vencimentos de médicos, enfermeiros, professores e outros técnicos ligados a essas actividades. Refundar significa degradar drasticamente, através da privatização, esses serviços. Mas isso pouco interessa, pois quem necessita deles pouco conta.

Toda a política que está a ser seguida visa isso mesmo. O governo só tem interesse em que as coisas corram o pior possível e está a conduzi-las de forma concertada para esse fim. O que está em jogo desde o princípio é desestruturar a função social do Estado e entregá-la aos interesses privados. Está-se a criar uma situação que conduza à inevitabilidade dessa entrega. Estamos perante um jogo perigosíssimo cujas consequências sociais e políticas estão longe de estar avaliadas. A refundação não passa de um jogo de roleta russa em que o governo aponta a pistola ao país.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

A nossa dose de horrores

Jackson Pollock - War (1947)


Como sou relativamente moral, sempre me coloquei a questão de saber por que razão hei-de ser poupado quando tantas gerações sofreram horrores. (Rui Zink, entrevista a Isabel Lucas, Ípsilon de 26/10/2012)

Zink, na entrevista citada, sublinha que a actual experiência que estamos a viver se aproxima do estar em guerra. De certa forma tem razão. Há uma guerra subterrânea, mas uma guerra em que só um lado tem exército, em que só um lado sabe que está em guerra. Numa guerra convencional, os contendores estão frente a frente, sabem-se inimigos e sabem que matam e que podem morrer. A actual guerra em que estamos mergulhados está longe do antigo ethos aristocrático, onde os rivais se respeitam e se confrontam evidenciando a virtude da coragem, a qual é o fundamento da honra. 

A guerra que estamos a viver é a guerra burguesa. A essência desta guerra é ter um exército profissional a disparar contra uma parte substancial da população desarmada, impotente e inconsciente do estado de guerra em que vive. Para não haver excesso de despesa, aqueles que sabem que estão em guerra dirigem campanhas devastadoras contra o inimigo, sem que este compreenda o que está a acontecer. Mais, os que dirigem e fazem a guerra apresentam-se como amigos e, mal recebem o testemunho da amizade recíproca, começam a disparar. Mas os corpos não se vêem rolar, não há sangue na rua. Não será a ideia de estar em guerra pura imaginação? Uma guerra como a actual dispensa a virtude aristocrática da coragem e o horror visível dos corpos destroçados e do sangue a correr na rua. Nâo há um Aquiles e um Heitor frente a frente. A guerra usa como balas a lei. Hoje em dia, a lei não é uma regra que regula a vida da comunidade. A lei é uma bala que é disparada por um lado sobre o outro, com o propósito de tomar de assalto os bens, as expectativas e a vida da outra parte.

A guerra que está ser levada a efeito contra os portugueses, mas não só, está a devastar o país. Não há bombas sobre as fábricas, os hospitais não são alvejados pela aviação inimiga, as escolas continuam intactas. Mas as fábricas fecham umas atrás de outras, são já um monte invisível de ruínas. Hospitais e escolas funcionarão cada vez menos. Em breve, os hospitais serão apenas um lugar para esconder os cadáveres que a lei, como se fosse a força da natureza ou o malefício da doença, irá semeando. As escolas não serão mais do que o lugar onde a indigência se concentra. Todos os dias há deslocados de guerra. Chamam-lhe emigrantes, mas não é verdade. São apenas pessoas que, em desespero, fogem da guerra que contra elas foi lançada por um inimigo invisível. Tudo está a ser metodicamente desarticulado. Sem bombardeamentos, sem baixas no exército atacante, sem custos com material militar. Não há guerra mais atroz do que aquela em que um dos lados, o que está a ser alvejado, não sabe que está em guerra.

Sim, a minha geração também terá direito à sua dose de horrores, a consciência moral de Rui Zink poderá ficar mais tranquila. Serão horrores subtis, silenciosos. Os soldados inimigos, antes de dispararem, sorrir-nos-ão, beijarão nas ruas as crianças. Depois, sentados no conforto de casa ou de um escritório lançarão ataques que atingirão milhões de pessoas, sugando-lhes a vida, diminuindo-lhe as potencialidades. Voltarão de seguida às ruas para reclamar a sua inocência e proclamar a amizade pelos que sofrem. Vivemos na mais terrível das guerras, aquela em que desconhecemos que estamos em guerra, aquela em que o generais inimigos são dissimulados e a quem falta a mínima noção de honra. Ninguém pense que não teremos direito à nossa dose de horrores. Eles já estão aí e a procissão ainda vai no adro.