Para lá da tragédia que afecta seis famílias, há uma realidade, a da cultura das praxes académicas, que me deixa, como cidadão e como antigo estudante universitário, profundamente perturbado. Não consigo compreender como alguém aceita o tipo de relação que a praxe introduz. Lembro-me de há uns anos ver, perto de minha casa, um grupo de jovens futuros professores do primeiro ciclo, trajados de capa e batina, a rebolarem pelo chão e ganir como cães ou zurrar que nem burros sob as ordens de um pequeno e esganiçado dux de província. Este espectáculo degradante é o contrário daquilo que eu, como cidadão, desejo para o meu país. Agora, ao acompanhar as notícias da tragédia da praia do Meco, confronto-me com a linguagem e os rituais que compõem a cultura da praxe e sinto um vivo horror, tanto por haver gente que quer ser e é dux, como por haver tanta gente nova disposta a submeter-se a um dux e a entregar-se a um conjunto de rituais absurdos. Não deixa de ser sintomático que as nossas universidades - que deveriam ser a casa da razão - se tenham tornado o palco desta irracionalidade inominável, o viveiro de onde, mais tarde ou mais cedo, acabará por brotar uma cultura política de duces e de gente submetida, disponível para ganir ou para zurrar conforme o arbítrio do mandador.
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
Vicenzo Campi - Cristo em casa de Maria e de Marta
Vicenzo Campi - Cristo em casa de Maria e de Marta (segunda metade séc XVI)
São vários os grandes pintores que tomaram a visita de Cristo a casa das irmãs de Lázaro, Marta e Maria, para tema. Este quadro de um autor do século XVI, Vincenzo Campi, não é apenas marcado pela ironia. Traz nele o novo mundo que com o Renascimento começa a ser erigido. No texto bíblico (Lucas 10:38-42), a azáfama de Marta, preocupado com o serviço material do Senhor, tem um estatuto secundário. Maria, diz Cristo, escolheu a melhor parte. Escolheu sentar-se a seus pés e escutar-Lhe as palavras. Entre a acção de Marta e a contemplação de Maria, a melhor parte é a atitude contemplativa, o exercício da escuta.
O que vemos nós no quadro de Campi? O primeiro plano é ocupado por Marta e pela sua azáfama. Ela está rodeada de naturezas mortas e o seu gesto é o de uma mulher de acção. Cristo e Maria ocupam um plano remoto e absolutamente secundário, quase diluindo-se no horizonte. Apenas os discípulos se vêm ainda mais ao longe. Há uma clara subversão do texto evangélico. Agora o importante é o dinamismo de Marta, a forma como gere a cozinha e lida com os alimentos, os quais são representados em abundância.
Ao olhar este quadro é impossível não pensar em Nietzsche e no seu famoso "Deus está morto!" O quadro de Campi - um quadro da segunda metade do século XVI - é já o sintoma dessa morte. A contemplação de Maria, a presença do Cristo, a sombra dos discípulos, tudo isso é já completamente secundário. O essencial é a relação estabelecida entre a abundância de bens materiais - simbolizada no bem maior que é o alimento - e a actividade de Marta. Esta actividade não é a acção propriamente dita - o que seria a prerrogativa do cidadão grego ou do nobre romano ou medieval - mas o trabalho.
Olha-se o quadro de Campi e, escorado na nitidez da representação, vê-se a dissolução das categorias mentais - religiosas e sociais - provenientes das tradições greco-latinas e medievais. Mais do que essa dissolução, porém, assiste-se à emergência de um mundo mais prosaico, menos dado à contemplação e centrado nessa equívoca categoria que é o trabalho. Cristo bem pode dizer "e Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada" (Luc. 10:42), que o homem moderno já não lhe dará ouvidos. A boa parte está ali à sua vista, nessa abundância de alimentos para consumir. E é tão cintilante que, até hoje, continua a ofuscar o homem. Ouvimos ainda Nietzsche: Deus está morto! Deus permanece morto! E fomos nós quem o matou!
domingo, 19 de janeiro de 2014
Um sopro de vento
Felix Vallotton - A bola (1899)
Uma nódoa negra de lama e gravilha na parede junto do interruptor
fez-me lembrar um dia de Primavera em Praga*. Li as palavras de Nabokov e fiquei
longo tempo em silêncio. Também um dia, ao sentir correr o vento de certa
maneira, acordou-se em mim a pátria distante que é a infância. Ela vinha
naquele vento e trazia-me o que perdera, a bola, o burro de cartão, as
palavras que o pai dizia aos domingos de manhã, os homens a passar de
bicicleta, as azedas a crepitar na boca. Uma nódoa, um sopro de vento, um quase
nada. De súbito, paro de pensar. A vida depende sempre de tão pouco que
depressa se esquece.
* Vladimir Nabokov, Desespero.
sábado, 18 de janeiro de 2014
Metamorfoses 12 - Este vento cintilante da manhã
Andrew Wyeth - Wind from the Sea (1948)
12. Este vento cintilante da manhã
Este vento
cintilante da manhã
traz um
sopro de mar
na
concha húmida das mãos.
Assim semeia
névoas e neblinas,
as primeiras
chuvas matinais.
Quando se exalta
e purpúreo ruge
tudo rodopia
no horizonte enfurecido.
Árvores,
casas, o jornal perdido
onde lia as
notícias do teu coração.
sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
Questões difíceis
A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.
O Presidente francês, François Hollande, está a alterar a orientação
política com que foi eleito. Embora não utilize palavas como austeridade, as
políticas que agora advoga aproximam-no das soluções da direita liberal. Não é
a primeira vez que alguém eleito pela esquerda, quando confrontado com os
resultados da sua governação, reorienta as suas políticas para a direita.
Pode-se sempre evocar a ideia de traição aos ideais. Parece-me, porém, pouco
proveitoso resolver a questão com um juízo de carácter. Devemos fazer perguntas
e perguntas difíceis. Por exemplo, por que motivo os partidos de cariz
social-democrata (isto é, os socialistas) não conseguem aplicar os seus
programas e, se o fazem, por que razão a economia declina de imediato?
Esta questão é incómoda e é evitada pela esquerda, pois torna patente
que, nas actuais circunstâncias de globalização da economia, ela não possui um
efectivo programa de governo. Não me refiro apenas à esquerda social-democrata.
Refiro-me também à outra esquerda fora da área da governação, cujos programas
correspondem, hoje em dia, a soluções sociais-democratas idênticas às que
vigoravam nos anos oitenta do século passado. Uma coisa é ter uma política de
resistência e de oposição à situação actual, outra é possuir um programa de
governação exequível nas actuais circunstâncias do mundo e dos países.
Estamos confrontados, na verdade, com um dilema. Ou reconhecemos que
já não são possíveis governações à esquerda, ou reconhecemos que a esquerda
ainda não conseguiu romper com os quadros intelectuais e políticos anteriores à
queda do muro de Berlim. Se a verdade residir no primeiro caso, o problema está
resolvido. Seja qual for o governo, a governação será sempre idêntica. Se for o
segundo, tudo se torna mais interessante. Nesse caso, porém, a esquerda
precisará de repensar drasticamente não as suas convicções morais, mas as suas
convicções políticas, fundamentalmente as que repousam no papel do Estado
Providência.
Isto coloca problemas que as pessoas de esquerda evitam a todo o custo:
será possível uma esquerda para além do Estado? Será possível dinamizar e
institucionalizar as práticas de solidariedade, de entreajuda, de protecção
social, de dinamização da igualdade de oportunidades, a partir da sociedade
civil e da iniciativa das pessoas e não do Estado? Será possível aproveitar o
espaço político e social criado pelo liberalismo para realizar os valores
morais que a esquerda encarna? Estas são questões difíceis, mas não serão elas
que poderão rasgar um futuro para a esquerda e para aqueles a quem ela
representa?
quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
Meditações dialécticas (24) - Da produção de monstros
Alexander Harrison - Solidão (1893)
Façamos com que o nosso
contentamento dependa de nós, desprendamo-nos de todas as ligações que nos atam
a outrem, ganhemos sobre nós o poder de viver sós e de viver assim à nossa
vontade. (Montaigne, Essais I)
Há nesta pretensão de
auto-suficiência, erigida como ideal regulador de vida por Michel de Montaigne,
uma monstruosidade que desafia o pensamento. Essa monstruosidade tinha sido
pensada previamente por Aristóteles, quando, na Política (1253a), define o homem como um animal político (ou animal social, noutras traduções),
acrescentando que quem, por natureza, não tiver cidade, não viver com os
outros, ou é um ser decaído ou sobre-humano.
É certo que o homem auto-suficiente de
Montaigne não é, por natureza, alguém destituído de sociabilidade, alguém
monstruoso. A separação do outro e o corte com a comunidade são projectos que
visam consolidar o poder sobre si e tornar o desejo de solidão em natureza
solitária. A monstruosidade é o resultado de um projecto, o qual visa a transformação
da natureza humana.
Quando falamos na modernidade e olhamos para o seu desígnio racionalista, esquecemos a monstruosidade deste homem desenhado por Montaigne e
que se constituiu num dos ideais do mundo moderno. Qualquer avaliação do projecto da modernidade deverá ter em conta todos os monstros que foram apresentados como ideais reguladores do ser humano. A monstruosidade não foi inventado com Frankenstein, de Mary Shelley.
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
O mito da instrução
Rembrandt - Dois sábios à conversa
Um dos mitos persistentes do imaginário social - fundamentalmente, do imaginário de pessoas de esquerda - está centrado na correlação entre a instrução e uma maior consciência social e política, nomeadamente, uma maior preocupação com o que é socialmente justo. As reacções à infeliz proposta de redução da escolaridade obrigatória de doze para nove anos, das Juventudes Populares, estavam fundadas nesse mito. A direita pretenderá diminuir a escolaridade obrigatória para evitar que as pessoas tenham capacidade crítica e, a partir dela, escolham o governo certo, isto é, de esquerda.
A persistência deste mito terá as suas razões. Talvez tenha tido a sua origem na República, onde se reconhecia que o campesinato analfabeto era favorável à monarquia. Também é verdade que o salazarismo funcionou desse modo. É ainda verdade que, nas boas famílias, não era olhado com bons olhos que uma criada soubesse ler. Isto que se passou em Portugal passou-se por outros lados. Há, por isso, uma certa verdade a alimentar o mito. O problema é que a sociedade mudou, arrastando consigo os mitos e as narrativas que nos dispensam de pensar. Qual é o problema deste mito? É que ele é, actualmente, falso. Um estudo da Universidade Católica mostra que quanto mais instruídas as pessoas são, menos importância dão à solidariedade, à justiça e aos valores democráticos. A democratização do ensino é desfavorável à visão moral do mundo inerente à esquerda e privilegia uma certa visão de direita, a visão liberal, devido, como mostra o estudo, ao reforço das tendências egoístas dos sujeitos.
Isto não é, da minha parte, um argumento contra a democratização do ensino. É preciso que continue o esforço dessa democratização, elevando a qualidade das formações, tornando os portugueses mais diferenciados e capazes de lidar com uma realidade adversa. Este argumento é contra o próprio mito e a sua utilização. A esquerda gosta muito de se enganar e encontrar explicações que, se não são absurdas, são completamente deslocadas no tempo e no contexto. Eu percebo o drama da consciência de esquerda. Aquilo que foi um dos seus maiores e mais nobres combates, a democratização do ensino, gera uma população com valores adversos a essa esquerda. Mas a persistência nas fórmulas míticas acaba por não deixar perceber que a realidade mudou. A mudança social, aquela que seria o caminho para a justiça e uma democracia avançada, não virá da educação. Virá outra, mas essa será mais problemática e exigirá outra forma de pensar e de agir politicamente.
terça-feira, 14 de janeiro de 2014
Na luz da clareira
George Pierre Seurat - A clareira (1882)
Exausto, deixou-se cair. Perdido na floresta, vagueou entre sombras e ameaças de luz. Ouviu o crocitar dos corvos e sentiu o corpo dilacerado abrir-se para aquilo que o esperava. Caminhou dias e noites. Por vezes, anotava tonalidades e gravava na memória os sons que lhe chegavam. Quando descansava, entregava-se a manobras de classificação. Ruídos, cheiros, matizes, tudo lhe servia para criar classes e elaborar estranhas taxionomias. A floresta, porém, resistia e não se deixava prender em redes tão frágeis. À bruma da manhã seguia-se a da tarde e, depois, a da noite. Se o coração vacilava, a mente deixava-se arrastar pela névoa. Quando chegou à clareira, a súbita luz rasgou-lhe a carne e um incêndio consumiu-lhe o corpo. Ainda sussurrou: Quem disse que a luz dá vida?
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
Johannes Vermeer - Lady writing a letter with her maid
Jan Vermeer - Lady writing a letter with her maid (1670)
São vários os quadros de Vermeer que têm por tema central a relação entre a senhora e a criada. Há, entre os especialistas da sua pintura, uma discussão sobre a relação entre as duas figuras. Há quem leia no quadro a inexistência de conexão entre elas, devido ao foco dos interesses ser bastante diferente - a escrita para a senhora, a contemplação do exterior para a criada. Outra leitura defende que, pelo contrário, existe uma enorme conexão e intimidade entre as figuras em presença, já que a senhora não hesita em escrever uma carta, supostamente íntima, na presença da serva.
Ao olhar para o quadro, somos colocados sobre uma dupla focagem, como se o pintor quisesse, de facto, que dividíssemos a atenção pelas duas figuras, que percebêssemos aquilo que nelas está inscrito e as torna naquilo que são, muito para além da possível existência ou não de uma cumplicidade entre ambas. Quais os elementos centrais que caracterizam as posições sociais de ambas? Por um lado, encontramos a iniciativa e, por outro, a expectativa. A senhora é aquela que tem a iniciativa e que se ocupa com a acção, neste caso a acção de escrever uma carta. A serva queda-se na expectativa e contempla aquilo que é exterior à cena.
Neste quadro de Vermeer, há toda uma lição sociológica e um retrato do emergente mundo burguês. O que determina o lugar social é o poder de iniciativa, o qual desencadeia a acção e, por isso, sublinha e reforça um lugar de comando. A senhora comanda, mas isso não é dado a ver por qualquer gesto imperativo, mas porque ela é mostrada em acção. A criada é serva, pois está condenada a esperar, braços cruzados, impotente e incapaz de desencadear a acção. Resta-lhe contemplar aquilo que é lateral ao drama que ali se desenrola. O que o quadro nos mostra é a dependência da cadeia de comando social da acção. No mundo burguês que ganha raízes naqueles dias, a velha atitude contemplativa é agora reduzida à pura impotência que condena o indivíduo à servidão.
domingo, 12 de janeiro de 2014
Metamorfoses 11 - Um súbito furacão abre-se nas palavras
Edvard Munch - Winter Night (1900)
11. Um súbito furacão abre-se nas palavras
Um súbito
furacão abre-se nas palavras,
e tudo
rodopia na tarde que cai,
deixando destroços
de frio e lama.
São assim os
domingos de inverno,
movidos pela
tristeza,
rasgados pela
água verde da solidão.
Estendo a
mão vazia sobre o horizonte,
e recolho
uma sombra de silêncio,
o grito
selvagem da noite que logo cai.
sábado, 11 de janeiro de 2014
O tempo no Alentejo
Guillermo Pérez Villalta - O rumor do tempo (1984)
Uma longa hesitação, depois segue o caminho, lentamente, muito lentamente. Torna a parar. Olha para trás e sente uma enorme nostalgia do que vai deixar. E se retrocedesse? Não seria mais sensato? Interroga-se, uma e outra vez. Em cada casa, em cada varanda, em cada árvore há um reflexo de eternidade. Terei o direito de trazer o anjo da história? Melhor, e se o anjo da história for eu? Forças estranhas intimam-no para que avance, que essa é a sua natureza. Que não se preocupe com o que fica para trás. Ninguém nota, ele é apenas um leve fluir, um rumor de cinza. Ele hesita, porém. Passar, para quê? Não é eterno este casario branco, imóvel? Recusa-se a prosseguir e senta-se num banco de jardim. Não passará.
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
Eusébio
A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.
Eusébio chegou a Lisboa tinha eu quatro anos, e era, imagine-se, um
fervoroso adepto encarnado. Nascido no seio de uma família, pelo lado paterno,
de benfiquistas, o Benfica está presente em mim quase desde os primeiros
momentos de vida. Havia, por essa altura, nos finais de 1960, nomes que eu já
conhecia. Águas, Costa Pereira, Coluna, Santana, Cavém. Foram os meus primeiros
heróis. O gosto pelo futebol ampliou-se e consolidou-se talvez um pouco antes
da entrada na escola primária, em Outubro de 1962. Como? Com as colecções de
cromos da bola. Para quem gostasse de futebol – e naquele tempo a maioria dos
rapazes gostava – coleccionar cromos de futebolistas era um dever, uma espécie
de iniciação que permitia a entrada no universo dos rapazes.
Numa dessas colecções – uma em que os jogadores eram retratados a meio
corpo com o emblema do clube por trás –, o Eusébio aparecia por três vezes.
Como jogador do Benfica, da Selecção Nacional e da Selecção Militar. Estávamos
em 62 ou 63 e isso diz tudo o que o Eusébio era naquela altura. Cresci a ouvir
e a ler os feitos do Eusébio. Ouvir, mais do que a ver. Ver via-se na
televisão, mas as transmissões de jogos eram raridades. Viam-se resumos, ao
domingo à noite, e isso era um acontecimento. Ouvia, como Portugal inteiro
ouvia, os relatos dos jogos e, cedo, comecei a ler os jornais desportivos. Para
a maioria de nós dizer que vimos jogar o Eusébio significa apenas que vimos uns
quantos jogos na televisão, muitos resumos e ouvimos relatos sem fim e lemos
inumeráveis crónicas nos jornais. Um jogo de futebol em Lisboa era, naquele
tempo, um bem escasso. Mas, claro, não havia semana que não víssemos, na
imaginação que o relato e a crónica incendiavam, o Eusébio jogar. E víamos que
era o melhor.
Para além do prazer das vitórias do Benfica e da Selecção, devo ao
Eusébio e ao futebol daquela época outra coisa. Uma certa ideia de persistência
e de continuidade no tempo. Entre os meus 4 e 18 anos, Eusébio foi a figura
central do Benfica, uma presença contínua na minha imaginação. Não apenas ele,
não apenas jogadores do Benfica. As equipas mantinham a mesma estrutura durante
anos e anos, e aqueles jogadores, mesmo os adversários, tornavam-se familiares,
gente com quem vivíamos e que, sem nunca os termos visto, os víamos todas as
semanas, vestidos de vermelho, de verde, de azul... Tudo era, no futebol
daquele tempo, mais lento e mais duradouro. Apenas Eusébio era demasiado
rápido. Por isso, as bolas entravam na baliza e o seu nome no nosso coração.
Perdi uma parte da minha infância.
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
O poder da bandeira
Lajos Kassák - Porta-bandeiras (1919)
A bandeira, ou o seu culto, é um artefacto que espelha bem a natureza do homem. Por norma, os grandes fenómenos de massa - o desporto, a religião, a política, a guerra, pelo menos até certa altura - não passam sem o recurso às bandeiras. É fácil de perceber a razão. Elas são uma forma racional de identificação. Assinalam identidades, indicam pertenças, promovem exclusões. É um signo comunicacional de grande eficiência, e por isso, por essa eficiência, a bandeira inscreve-se no campo da racionalidade.
Aquilo que é misterioso, porém, é essa eficiência mesmo. Por que motivo uma bandeira desfraldada exerce sobre nós esse poder de identificação, nos indica uma não pertença, nos assinala uma proximidade ou uma ameaça? Uma resposta sensata seria dizer que é um hábito social, que fomos educados para reconhecer e ler esse signo. É verdade, mas isso não explica a razão por que ela se tornou signo e símbolo, por que motivo as bandeiras desencadeiam em nós processos afectivos, que depois racionalizamos como identidades.
Certamente que a sua natureza esvoaçante tem nisso um papel fundamental. Uma bandeira é um dispositivo de fronteira. Ela está presa ao nosso mundo terrestre, mas eleva-se aos céus, ao além, planando sobre a nossa condição material. A bandeira é feita de matéria, mas já não é material. Está agarrada à terra, mas habita o alto. Ela, no seu esvoaçar e na sua sujeição ao vento, é vento e espírito que sopra onde quer. É esta equivocidade da bandeira que lhe dá o irracional poder de tocar o coração dos homens, incendiando ânimos, ateando a coragem, abrindo-o para o perigo. Por isso, ela espelha a nossa natureza. A racionalidade de que se reveste é apenas a cobertura de uma infinita não racionalidade.
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
Meditações dialécticas (23) - Da lógica das coisas
Maurits Cornelis Escher - Cubic space division (1952)
Um dos elementos estruturais da vida social moderna e contemporânea é a sempre crescente autonomização dos fenómenos sociais. Se olharmos para a Idade Média, observamos um cosmos social ordenado e orientado para Deus. Nessa ordem e nessa orientação, cada coisa fazia parte de um todo que lhe assinalava o lugar e lhe dava sentido. Era nessa ordem que, apesar de ser constituída por grupos sociais relativamente estanques, cada ser humano tinha um lugar e uma função atribuídos e, desse ponto de vista, não era descartável. A presente sensação da descartabilidade do homem nasce, muito curiosamente, numa sociedade que tem a sua génese na recusa da ordo medieval, na recusa de um cosmos teocêntrico, e que faz do homem o centro do mundo.
O desfazer da ordem significou, de então para cá, a libertação das múltiplas estruturas e a sua autonomia perante a totalidade. Se olharmos para o mundo da economia, isso tornou-se uma evidência inquestionável. O mercado deve funcionar segundo regras próprias e autónomas, as próprias empresas têm as suas lógicas internas e só a estas devem obedecer. E é aqui que surge como natural, para os economistas e gestores, tudo o que se passa na esfera económica. Os seres humanos são irrelevantes para a lógica interna desses dispositivos sociais. Se são necessários, muito bem. Se não são, a natureza da empresa ou do mercado implica que sejam descartados. Não se trata - ou não se trata apenas - de uma maldade moral dos agentes. É a lógica das coisas, essa lógica que ganhou vida com a afirmação do humanismo renascentista, que implica que o homem, esse ser obsoleto, seja descartável. O que está em jogo e é questionável não é apenas a maldade moral dos homens, mas a própria natureza da modernidade.
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
Da sabedoria
George Pierre Seurat - Floresta em Pontaubert (1881)
Penumbra, sombra, brumas... A confiança na razão é uma questão de idade. Crer no seu poder, na potência da sua luz, na capacidade de revelar a verdade, tudo isso é fruto de uma consciência jovem, animada pelo vigor do corpo. Os verdes anos, porém, passam depressa, e de súbito vemo-nos no meio da floresta. Onde havia luz há agora sombra e os objectos não passam de brumas que se deslocam na penumbra. Com o tempo, descobrimos que a floresta é confortável e é nela que devemos permanecer. Para que serve a ciência se a sabedoria nos visita?
domingo, 5 de janeiro de 2014
Questões de fraternidade
Aimé-Jules Dalou - La Fraternité des peuples (1883)
Bergoglio criou um problema que
não sei como o irá resolver: não se cansa de denunciar a economia que mata. Que
poderá ele fazer para que nas instituições universitárias católicas, o ensino
no campo da economia, da finança, da gestão, da política não só denuncie e
recuse qualquer tipo de participação nesse homicídio, mas sobretudo, que poderá
ele fazer para que os professores e alunos dessas instituições investiguem e
façam propostas que sirvam a fraternidade como fundamento e caminho da paz?
(Frei Bento Domingues, Público de 2014-01-05)
A questão levantada por Frei Bento Domingues faz todo o sentido.
Muitos dos defensores da actual ordem política e económica mundial estão
ligados, de alguma forma, a universidades católicas. Percebe-se que os cursos
ligados à economia, gestão e ciência política são, digamos assim, muito pouco
católicos. São, antes, um viveiro intelectual que justifica e legitima a situação
que o Papa denuncia, e denuncia como sendo homicida, como infringindo o
mandamento não matarás!
A questão, porém, tem um interesse que ultrapassa a perspectiva meramente
económica ou política actual. Se houve um sítio onde a Igreja Católica fez um aggiornamento e aceitou o mundo moderno
foi no campo do liberalismo económico e, por arrasto, do liberalismo político. Começou
por condescender com o capitalismo e acabou por se tornar um viveiro
intelectual de defensores do radicalismo iluminista liberal no campo
político-económico. Não se trata apenas de perguntar como resolver essa
contradição entre a denúncia de um sistema homicida e a permissão da sua defesa
e justificação nas instituições católicas. Trata-se ainda e mais uma vez do
problema da relação entre a Igreja Católica e o mundo moderno, entre o espírito
de comunidade, que foi uma das suas características originais, e a radicalidade
da subjectividade individual inerente ao mundo moderno e filha do
protestantismo.
O discurso conservador – pode parecer o contrário, mas de facto as
posições do actual Papa, ao denunciar os resultados do iluminismo liberal, são
claramente conservadoras – do Papa Francisco está a tocar num verdadeiro ninho
de víboras, um ninho onde coexistem interesses económicos muito grandes,
interesses políticos e interesses académicos. Estes interesses sempre contaram,
mesmo quando o discurso papal remetia para a doutrina social da Igreja e
criticava o individualismo, com a cumplicidade mais ou menos activa da Igreja.
Como salienta Frei Bento Domingues, noutro passo do mesmo artigo, a fraternidade
foi a menos explorada das consignas da Revolução Francesa. Os homens digladiaram-se
intelectual e fisicamente pela supremacia da liberdade ou da igualdade.
Esqueceram sempre a ideia de fraternidade. É a ideia de fraternidade que Francisco está a mobilizar para contrapor a uma
sociedade que, em nome da liberdade, está a criar uma enorme prisão para a
generalidade dos seres humanos. Retomando o problema colocado por Frei Bento
Domingues, que fazer com um ensino económico e político cujos resultados
práticos destroem as relações fraternais entre os homens? Será possível outro aggiornamento da Igreja que não pela via liberal? Será a fraternidade, sem a tentação do igualitarismo, a porta pela qual a tradição católica e o
mundo moderno se encontrarão definitivamente?
PS. Morreu hoje Eusébio, um dos heróis da minha infância e
adolescência. Falarei sobre isso na crónica do Jornal Torrejano, na próxima
sexta-feira.
sábado, 4 de janeiro de 2014
Abandonado na encruzilhada
Mateo Vilagrasa - Encruzilhada (1987)
Não há mensagens para ler. Acato a decisão do destino e sustenho o
desejo de novidades, esse impulso que sussurra dentro de mim e me lança na
fraterna convivência humana. Um dia, o poeta Georg Trakl escreveu Alguém te abandonou na encruzilhada, e tu
olhas longamente para trás. Sim, ele falava para mim, falava para um futuro
que não conhecia, e eu retribuo-lhe o favor, olhando para trás. Quando abro a
caixa do correio ou entro no email é
a minha retribuição a Trakl. Olho longamente para trás, mas nunca descubro quem
me abandonou. Volto, mais uma vez. Não há mensagens para ler.
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
A douta ignorância
A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.
Aquilo que maior perplexidade me causa não é a avidez dos poderosos ou
a impotência submissa dos fracos. Isso é a natureza das coisas. O homem, porém,
não é apenas um ser que age segundo a natureza. Ele é dotado de liberdade, e a liberdade
é o que lhe permite transformar as necessidades e pôr em causa a ordem natural
das coisas. Por exemplo, que o homem não voe é a ordem natural das coisas. A
liberdade e a inteligência, porém, permitiram-lhe inventar o avião. Que os
fortes dominem socialmente os fracos está na natureza das coisas, mas a
liberdade e a inteligência humanas têm o poder e o dever de produzir sociedades
de onde essa dominação seja banida, substituída por regras de equilíbrio e de
justa medida. Esse é o papel que os cidadãos esperam da actividade política.
Causa-me muita perplexidade que, perante os caminhos que estamos a
seguir, os agentes políticos ajam a partir de um grau de certeza e
convencimento das suas opções que não augura nada de bom. Se olharmos para o
panorama português, da direita à esquerda, não há quem não tenha soluções para
a crise e que não se bata com denodo para as impor. Este grau de certeza dos
agentes políticos é profundamente preocupante. A realidade com que estamos a
lidar, os desafios que o mundo globalizado impõe, os desenvolvimentos
científicos e tecnológicos, tudo isso somado torna o futuro tão imprevisível
quanto inquietante. Ora a imprevisibilidade e a inquietação exigem tudo menos
certezas, exigem uma capacidade, mesmo na acção política, para se interrogar e
questionar os caminhos a seguir. Exigem o reconhecimento da própria ignorância.
Platão defendia que a sociedade deveria ser governada por filósofos
ou, se isso não fosse possível, que o governante se tornasse filósofo. Esta é
uma teoria perigosa que a humanidade, sensatamente, sempre recusou. No entanto,
em tempos de crise como os actuais, há uma virtude filosófica que seria
essencial para os agentes políticos. Essa é a virtude da douta ignorância, de
saber que nada se sabe. Se os diversos agentes políticos abandonassem as suas
certezas e reconhecessem que estão perante problemas inquietantes e de solução
imprevisível, talvez fosse possível encontrar pontes (um pacto social
inclusivo) e dar passos inovadores na resposta aos problemas que enfrentamos.
Isso não eliminaria o conflito de interesses, mas poderia obstar que esse
conflito caminhasse para a férrea dominação dos fortes sobre os fracos e as
consequentes cenas da luta de classes. Seria a prova de que a liberdade levaria
a melhor sobre a ordem natural das coisas.
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
Metamorfoses 10 - Deslizo na memória do teu corpo
Franco Gentilini - Nudo disteso (1929)
10. Deslizo na memória do teu corpo
Deslizo na
memória do teu corpo,
sigo veredas
esquecidas,
o fulgor estelar
do inverno.
Quando a
noite nos abandona
e tudo cheira
a madrugada,
pego nas
palavras que te disse
e tomo o
caminho da floresta.
A tempestade
desce vestida de fogo
e ateia um incêndio de púrpura.
quarta-feira, 1 de janeiro de 2014
Ano Novo
Caspar David Friedrich - Winter Landscape with Church (1811)
Chegou o Ano Novo. Olho pela janela e tudo parece velho. Um ar
chuvoso, pesado, feito de esquecimento e nostalgia. Ao longe, a paisagem foi rasurada,
é agora uma sombra sonolenta, uma mágoa que acompanha o passar do tempo. Aqui e
ali há gente que ensaia uns passos sob a chuva, logo se retrai e desaparece,
levada pelas trevas flácidas da tarde. Tudo é, por enquanto, uma bruma vacilante,
quase uma promessa, talvez uma ameaça. Ninguém sonha, neste primeiro dia do ano.
Ninguém canta, na aurora deste tempo. Apenas o silêncio cresce, debruado de
folhas mortas e de árvores exaustas.
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