| Max Klinger, Sacrifício |
segunda-feira, 31 de janeiro de 2022
Milagre e sacrifício
domingo, 30 de janeiro de 2022
Beatitudes (49) Imagens
| Albert Renger-Patzsch, River Rhine (backwater), 1950s |
quinta-feira, 27 de janeiro de 2022
Nocturnos 72
terça-feira, 25 de janeiro de 2022
Só um milagre
| Arthur Tress, Cards and Checkerboard in Abandoned Locker Room for Railroad Workers, c. 1970 |
sábado, 22 de janeiro de 2022
A futebolização da política
Um dos problemas desta abordagem do confronto político é que o resultado depende totalmente dos árbitros. No futebol, por muito que um árbitro possa distorcer o resultado através de más decisões, há ainda os golos que são marcados e os que são falhados. O que os jogadores fazem em campo tem, por norma, relevo para o resultado. No caso dos debates, o que conta são as paixões políticas dos árbitros-comentadores. Os resultados dizem mais daqueles que atribuíram classificação que do desempenho dos políticos. Este problema, apesar de tudo, tem pouco relevo.
Um problema mais grave é a transformação completa da política num confronto entre hooligans de várias cores. A hooliganização da política é interessante para a comunicação social, pois gera continuamente tempo de antena. Os políticos preocupam-se em marcar pontos – isto é, golos – através daquilo que um hooligan pode perceber, ideias simples e soluções simplistas. Os grandes problemas, devido à sua complexidade, são arredados da campanha eleitoral, tornam-se secretos. A ânsia da comunicação social em dominar a política conduz a que esta se torne cada vez mais obscura, pois o recurso a uma linguagem básica e ao fogo-de-artifício oculta as dificuldades que estão por detrás das várias soluções propostas.
Não menos grave é que esta futebolização da política instaura um caldo cultural propício para projectos populistas. O populismo é uma forma de hooliganismo político. Vive de ideias simples e de afirmações bombásticas. Actua no campo das emoções e dos sentimentos e progride pela eliminação do debate sensato e do exame racional dos problemas. A comunicação social, que em tempos teve um importante papel na vida democrática, está a criar condições culturais e psicossociais favoráveis a projectos autoritários. A lógica de mercado a que essa comunicação social está sujeita impede-a de reconsiderar a sua actuação. Ela vive não da informação, mas do desencadear das emoções, tal como o futebol.
quarta-feira, 19 de janeiro de 2022
A Garrafa Vazia 77
segunda-feira, 17 de janeiro de 2022
Do moderno
| Autor desconhecido, A modern kitchen (stove), 1870s |
sábado, 15 de janeiro de 2022
O progresso moral da humanidade (4)
| Autor desconhecido, Ruined Richbourg cathedral during WW1, France, ca 1916 |
quinta-feira, 13 de janeiro de 2022
O combate de adolescentes
| Adolphe Braun, Propylées, Athens, c. 1889 |
terça-feira, 11 de janeiro de 2022
A persistência da memória (7)
| Antoine Claudet, Still Life in Attic, 1855 |
domingo, 9 de janeiro de 2022
A Garrafa Vazia 76
| Lucio Muñoz, 2-85, 1985 |
sexta-feira, 7 de janeiro de 2022
O equívoco dos homens fortes
Um chefe militar pode ser mais ou menos talentoso, mas a hierarquia, a disciplina e a eliminação da conflitualidade no seio da instituição militar não se podem comparar com o que se passa na vida política, toda ela fundada no conflito de interesses e na necessidade de os gerir, evitando rupturas drásticas no consenso mínimo que deve existir. Vejamos uma comparação. Enquanto o Vice-Almirante comandava o processo de vacinação fundado numa liderança que não era contestada, um Presidente da República ou um Primeiro-Ministro não podem – felizmente, acrescento eu – exercer os respectivos poderes do mesmo modo. A um militar, basta-lhe ser eficaz na missão atribuída. A um político não basta ser eficaz. Ele tem de saber conjugar interesses opostos, lidar com fortes oposições, adequar-se ao facto de possuir poderes limitados. Um político necessita de possuir uma plasticidade que um chefe militar pode dispensar.
Os portugueses, por vezes, deixam-se seduzir por homens fortes e soluções simples, coisa que um militar pode apresentar como currículo. Em política, porém, nada é simples nem se resolve com voz do comando. Governar um país – ou qualquer tipo de comunidade – não é a mesma coisa que cumprir uma missão militar. Os cidadãos não são soldados que estejam às ordens do Presidente da República e do Primeiro-Ministro, aos quais devam obediência. São iguais ao Presidente e ao Primeiro-Ministro. Todos devem obediência apenas à lei. O que significa isto? Ser um excelente militar não dá qualquer competência para ser um político minimamente razoável, capaz de gerir os conflitos legítimos que espontaneamente surgem entre cidadãos livres. Seria um equívoco eleger-se um Presidente baseado numa competência que nada tem a ver com a virtude política.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2022
Nocturnos 71
sábado, 1 de janeiro de 2022
Simulacros e simulações (30)
| Bruce Davidson, Clown and circus tent, Palisades, New Jersey, 1958 |
quinta-feira, 30 de dezembro de 2021
Beatitudes (48) Luz e sombra
| Josef Sudek, Promenade from Kolin island, 1923 |
terça-feira, 28 de dezembro de 2021
A Garrafa Vazia 75
domingo, 26 de dezembro de 2021
Descrições fenomenológicas 67. Rua com neve
| Juan Suárez Ávila, Panorama desde el puente, 1974 |
No fundo da rua, as casas da perpendicular que a termina, deixam que os olhos avistem os telhados. Cobrem-nos uma neve branca, pura, cintilante ao ser batida pelos raios de sol, se a névoa os deixa escapar. Nos muretes das varandas e nos parapeitos das janelas, a mesma neve persiste em equilibrar-se, numa harmonia difícil, num jogo que o vento, por vezes agreste, insiste em desfazer, arrastando para o chão pequenas bolas misteriosas na sua brancura imaculada. A rua, de tão sombria, contrasta com essa visão dos telhados. Também a neve a cobre, mas não passa de uma mistura de gelo, lama e água suja. Não se avistam carros, embora o chão retenha ainda o sulco da sua passagem. As paredes de um dos lados têm janelas com grossas grades de ferro, no rés-do-chão, mas as dos primeiros e segundos andares – é uma rua de casas baixas, indigna, dir-se-á, de fazer parte de uma grande metrópole – não têm defesas contra assaltantes. Os vidros parecem sujos, embora por eles perpasse a existência de vidas no interior dos apartamentos. Uma ou outra janela está aberta e, por vezes, alguém assoma por uma delas, deixa correr os olhos pela rua, abana a cabeça ou encolhe os ombros, enquanto flocos de neve descem para poisar nos candeeiros de iluminação pública, nos passeios, na estrada. Do outro lado, as janelas estão cobertas por tapumes, algumas fechadas com tijolos, outras apresentam vidros partidos, por onde sai, sem pressa, a escuridão que delas se apossou. Ao fundo da rua, um homem aproxima-se da perpendicular e corta à esquerda. Segue-o, a curta distância, outro que pára, hesita, olha para trás, por fim, opta por voltar à direita, com o passo indeciso de quem não sabe onde está nem para onde deve ir. A meio da rua, um casal, já não são novos, caminha indiferente à queda da neve. Vão vestidos com grossos casacos compridos de Inverno. Ele leva um guarda-chuva na mão esquerda, usa-o como se fosse uma bengala, enquanto ela lhe dá o braço, carregando na mão direita uma mala de senhora, talvez de dimensões excessivas para quem anda a pé. Fico a vê-los afastarem-se, em passo comedido para não escorregarem, percebo que trocam palavras. Passam indiferentes à vida de um dos lados da rua e à ruína que vai carcomendo o outro. Tudo neles tem a marca de um longo hábito e nada do que ali possa acontecer os surpreenderá. Depois, esqueço-me deles, da rua sombria, do destino das casas. Os olhos prendem-se, então, à brancura imaculada dos telhados, ao reverberar da neve, à luz cintilante que a ilumina.
sexta-feira, 24 de dezembro de 2021
A persistência da memória (6)
| Elliott Erwitt, Confessional, Poland, 1964 |
quarta-feira, 22 de dezembro de 2021
Natal em pandemia
Talvez toda a realidade se tenha tornado ainda mais incerta e o Natal
tenha sido apanhado nessa onda. A realidade, aquela onde as comunidades humanas
levam a sua existência, nunca foi coisa despida de incerteza. A novidade, se é
que existe alguma, residirá no crescimento exponencial dos mecanismos de
segurança e de prevenção de riscos ter sido acompanhado pelo crescimento da
sensação de insegurança e de exposição indefesa perante as mais diversas
ameaças. A pandemia trouxe uma objectivação global a essa sensação de
incerteza. Um tornado, uma catástrofe, mesmo um conflito armado, todas essas
situações de grande risco são localizadas, parecem, se vistas de fora,
excepcionais. A pandemia tornou manifesto, a toda a gente, que os riscos e a
incerteza são presenças diárias e que não há lugares onde se esteja
completamente protegido.
A experiência do Natal do ano passado, acabadas as festividades, não deixou boas recordações, como se pode ver pelo que aconteceu nos primeiros meses deste ano. Todas as sociedades, mesmo aquelas em que a indiferença religiosa é acentuada, se estruturam em torno de tradições provenientes do seu fundo religioso. No mundo onde o cristianismo é ou foi um elemento base da cultura, o Natal é um desses momentos em que a quotidianidade profana se suspende para que a vida encontre um marco referencial e possa prosseguir. Perante a incerteza em que se vive, agora acentuada pela entrada em cena de nova variante do vírus, há duas atitudes perante o Natal que não seriam sensatas. Uma seria fingir que nada se passa e encarar o Natal como se não houvesse pandemia. Outra seria ceder por completo ao medo e fazer do Natal tábua rasa, passar por ele como se não existisse.
Haverá, pelo menos, uma terceira possibilidade. Perceber o Natal como um momento de diálogo com a incerteza que se apoderou da vida dos homens. O Natal é o lugar por excelência da incerteza, da precariedade, da pobreza constitutiva de toda a vida. A incerteza onde o Menino poderia nascer, a precariedade dos meios à disposição da família, a pobreza do presépio como lugar de acolhimento. Na tradição do cristianismo, é nesta simbólica da finitude humana que se manifesta o infinito da divindade, é ali mesmo que a vida triunfa sobre a morte. É neste núcleo simbólico do cristianismo que as sociedades cristãs e, ainda mais, as que se dizem pós-cristãs precisam de encontrar a chave para lidar com o que está a acontecer. O Natal nada nos diz sobre pandemias, mas diz muito sobre como devemos enfrentar a vida, da qual faz parte tudo aquilo que, por incerto, nos perturba.
segunda-feira, 20 de dezembro de 2021
Nocturnos 70
| Francesc Català-Roca, Esperando la salida de la ópera, 1950 |