sexta-feira, 6 de abril de 2012

O último sacrifício

Emil Nolde - Cruxifixion (1912)

Tornou-se corrente, no âmbito da cultura ocidental, testemunhar ao cristianismo não apenas um olhar sobranceiro, mas um profundo desprezo. O corte com a tradição nascida há dois milénios é acompanhado por uma cegueira absurda para o contributo civilizacional da herança cristã. A generalidade dos grandes valores que orientam o discurso e modo de vida ocidentais, apesar das excepções e aparências em contrário, seria impensável sem o cristianismo. 

No entanto, o maior contributo civilizacional é dado por aquilo que os cristãos, no dia de hoje, revivem, a crucificação e morte de Cristo. Para os crentes, o sacrifício do Filho de Deus é o caminho para a promessa da ressurreição. Contudo, o valor civilizacional deste sacrifício está para além do seu específico valor enquanto crença religiosa numa vida no além. Na história da humanidade, o sacrifício de Cristo pode ser visto - ainda que de forma anacrónica - como o último sacrifício humano. Os sacrifícios humanos foram práticas rituais imemoriais. Só o cristianismo as aboliu. Onde ele chegava, mesmo não sendo religião dominante, o sacrifício ritual de seres humanos desaparecia.

Bastaria este simples facto para sublinhar o enorme potencial civilizacional da religião cristã. Deste ponto de vista, mesmo restringindo a vida dos homens ao mundo terreno, podemos afirmar que Cristo morreu pela nossa salvação, morreu para que nunca mais um homem fosse ritualmente sacrificado às potências divinas. O sacrifício de Cristo na Cruz é o sacrifício perfeito, pois abole todo e qualquer sacrifício humano. Mesmo que Cristo não tenha existido, que nenhuma cruz se tenha erguido no Gólgota para executar o Filho do Homem, mesmo que tudo não passe de uma conspiração textual e simbólica de uma seita herética do judaísmo, o sacrifício de Cristo na cruz é um elemento estrutural da história da humanidade, de toda a humanidade e não apenas a ocidental.