sábado, 30 de junho de 2012

Tunísia, Egipto e a liberdade

Faten Gaddes - Punching Ball

Esta instalação da fotógrafa tunisina Faten Gaddes foi destruída, no dia 10 de junho, por uma multidão enfurecida de salafistas. Juntamente com esta instalação foram destruídas e queimadas outras obras de arte vistas como ofensivas da religião e do profeta. O sentimento que a intelectualidade vive, neste momento na Tunísia, é o do recuo diário da liberdade. O mesmo se irá passar, por certo, no Egipto, apesar das juras republicanas do novo presidente, Mohamed Morsi.

Aquando das chamadas primaveras árabes, o jornalismo ocidental viu a abertura de um novo mundo de liberdade. Este equívoco assenta tanto no desconhecimento completo da natureza do Islão como da própria história relativamente recente.

Em primeiro lugar, o Islão é a maior força política nestes países. Os dogmas da fé e os imperativos políticos confundem-se e, na tradição muçulmana, é difícil encontrar palavras idênticas às de Cristo, dai a Deus o que é de Deus e a César o que é de César. Para mais, as correntes islâmicas encontravam-se na oposição. Com a queda das ditaduras, mais ou menos alinhas com o Ocidente, não seriam os liberais ocidentalizados que iriam tomar o poder pelo voto popular.

Em segundo lugar, é preciso que os povos muçulmanos façam a experiência destas governações que escolheram. Este é o passo central para se confrontarem consigo mesmos e questionarem o seu ressentimento para com o Ocidente. Agora, não são governos mais ou menos fantoches, uma espécie de prolongamento nacionalista da ocupação ocidental, mas as forças escolhidas por cada um dos povos. O bem e o mal cabe-lhes a eles. 

Em terceiro lugar, esta experiência da liberdade pode conduzir, de imediato, não a um hábito democrático mas a novas formas de opressão, talvez mais terríveis do que as anteriores. Pode, porém, ser esse o preço a pagar para que os povos muçulmanos compreendam, no futuro, o valor inalienável da liberdade e do respeito pelo indivíduo. Não é claro, para mim, que isso seja assim. Mas sem o passo que agora se está a dar, sem a experiência das governações islamistas, nunca os povos árabes perceberão o efectivo valor da liberdade individual nem porão termo ao ressentimento anti-ocidental. O Islão possui poderosos recursos para a evitar regimes livres, tal como os entendemos. Contudo a experiência das suas governações pode ser o único caminho, um difícil e doloroso caminho, para essa liberdade. Imaginar que das primaveras árabes surgiriam regimes politicamente livres foi uma estultícia inominável.