domingo, 3 de março de 2013

Meditações taoistas (13)



O digno tem suas raízes no humilde,
o alto tem suas bases no baixo.
Por isso,
príncipes e reis se intitulam:
órfãos, viúvos, indigentes.
Lao Tse, Tao Te King, XXIX

Quem dispõe da vida para determinar o acontecer de cada hora? Quem dispõe do mundo para seguir o caminho que o seu desejo faz imperar? São os homens frágeis ervas sob o sopro do vento. Inclinam-se e, se à intempérie opõem a dura força, logo o caule se quebra e o corpo fica por terra, sombra da sombra esquecida, cinza e pó que à cinza e ao pó retornam.

Grande é o homem que veio à terra para servir. Grande é o que se aquece na pobre cabana, onde o fogo crepita. Grande é o que nasce na palha que aos animais já não serve. Toda a grandeza está na compreensão da secreta linha que liga a dignidade à humildade que a alimenta e a faz crescer, tornando-a visível aos olhos da multidão. Quando os homens descem às ruas e enchem as praças é porque a velha ponte se quebrou e a vida perdeu o rumo que era o seu.

Príncipes e reis que não sabem a indigência fundamental de onde nasce o ceptro são usurpadores, tomam conta de uma casa que não lhes pertence e, com eles, chega o mal, o ódio crescente nas ruas, a vida minguada entre paredes. Os homens amotinam-se e o sangue corre, a fome inunda os campos e o reino afunda-se em tempestades de aço, cobrindo-se de escória e de lama, que, transbordando dos rios, engole as cidades e deixa o cheiro da morte em cada recanto.

Quando chega o tempo em que o alto se esquece do baixo e o digno do humilde, quando um usurpador é seguido por outro usurpador, e este por e outro ainda, então tudo se aproxima do fim. Os dias continuam a suceder-se às noites e as estações do ano ainda chegam na ordem aprazada. Mas o negro da noite é agora cinzento e as estrelas embaciam-se num céu cansado. O brilho do meio-dia desapareceu e ninguém sabe já o vigor do astro. As crianças sabem entoar a ordem das estações, mas o frio e o calor, a chuva e o sol, não se distinguem, caminhando ébrios por avenidas em escombros. Cansados, os homens esperam que um novo rei chegue e estendem o tapete ao que se apresentar na humilde indigência que sustenta o que há de mais elevado nos céus e na terra.