sexta-feira, 22 de março de 2013

O Papa Francisco


Jorge Mario Bergoglio irrompeu na esfera pública global com uma força inesperada. Esta força deve-se, claro, ao seu carácter, ao carisma pessoal, à bonomia e simplicidade franciscana em que sempre tem vivido. O acolhimento que tem recebido é também sintoma da exaustão a que os homens modernos estão submetidos. Não é apenas a crise económica e financeira que predispõe os homens, mesmo os que são religiosamente indiferentes, a acolher o novo Papa, a sentir alguma curiosidade com a figura que ocupa o lugar de Pedro. 

É a própria vacuidade da vida contemporânea, o fastio a que conduz uma existência fundada no prazer pessoal e na busca contínua de mais e mais experiências exaltantes, num mundo que cada vez tem menos coisas que causem exaltação. O acolhimento que o Papa Bergoglio tem tido é também um importante sintoma das patologias sociais e culturais que se abatem sobre os homens modernos. O que tem a sociedade contemporânea – a sociedade mais desenvolvida tecnologicamente – a oferecer aos homens? A uma minoria, oferece dinheiro e mais dinheiro, talvez um conjunto de prazeres cada vez mais caros e, ao mesmo tempo, mais fúteis. À grande maioria oferece a pobreza e a inveja, oferece a raiva e a impotência. 

É no vazio espiritual de um mundo que perdeu todas as causas que Bergoglio e o seu discurso sobre os pobres parecem ser uma radical novidade. Não o são, na verdade. Mas o facto de agora haver essa aparência permite perceber que se pode estar a dar uma alteração na capacidade do homem moderno escutar. Isto não significa que vamos assistir a uma vaga de conversões ou reconversões ao catolicismo. Significa antes a situação de grande carência em que os homens se encontram. Significa que talvez comecem a perceber o estado de errância que é o seu, que talvez possam compreender que as suas vidas são, devido à manipulação das sociedades do espectáculo e do consumo, destituídas de sentido e de dignidade. 

Ratzinger é um homem brilhante, um dos intelectuais mais lúcidos desta nossa velha Europa, mas a sua capacidade de diálogo com os homens comuns é diminuta. As pessoas suspeitam nele a superioridade que ele, de facto, tem e sentem isso como uma ofensa e um incómodo. Bergoglio é diferente. É um latino e tem uma maior capacidade de ir direito ao coração dos homens. Talvez seja isso o que as pessoas esperam. Um Papa que trabalhou com os pobres, que recusou viver num palácio, que andava em transportes públicos, que gosta de futebol e de tango e que, por tudo isso, representa uma promessa de sentido para uma vida que parece ter perdido qualquer sentido.