sábado, 2 de março de 2013

O valor moral de uma manifestação

Salvador Dali - Alucinación parcial, seis apariciones de Lenin sobre un piano (1931)

Não sou especialista em contabilizar participação em manifestações, mas acredito que a de hoje, dois de Março, seja uma enorme manifestação contra o governo e um protesto indignado contra a situação actual. Mais, esta manifestação tem um elevado valor moral, pois é um veemente protesto contra uma situação iníqua. O grande problema que se coloca, porém, não é o da quantidade de manifestantes ou do valor moral que assiste aos que participam nela. O problema está ligado ao seu valor político e ao potencial transformador que encerra.

A manifestação poderá incomodar algumas almas mais sensíveis, se as houver, no governo, mas no fundo deixa-o indiferente. As manifestações tinham impacto político quando a fonte de legitimidade do poder residia no povo. Uma alteração do sentimento deste era sinal poderoso para o poder. Mas hoje em dia, a fonte de legitimidade não está no povo. Foi transferida há muito para aquilo que se designa sob a expressão ficcional “os mercados”. Os mercados são uma ficção não porque sejam inexistentes, mas porque ocultam a face das pessoas que operam neles. Ao ocultar essas faces retira-lhes a responsabilidade moral perante os que são afectados pelas suas decisões. Os agentes que operam nos mercados não se regem por normas morais mas apenas legais. As normas legais, porém, dizem respeito apenas às regras do jogo a que se entregam. A normatividade jurídica dos mercados – cada vez mais desregulados – perdeu qualquer ligação ao sentimento moral e transformou-se em algo equivalente às regras que regem um jogo de futebol, completamente amorais.

Sendo assim, estando a legitimidade política fundada na confiança dos mercados, a indignação moral das pessoas tem pouco relevo para quem governa. Por outro lado, há uma espécie de certeza no rumo político que está traçado. Não se trata de uma fé cega, mas de uma certeza quase empírica. Não há alternativa política ao que é imposto em nome dos mercados. Mesmo que o governo caia, o próximo fará exactamente o mesmo (como o actual apenas faz o que Sócrates já tinha feito), e os governantes actuais terão o direito à sua aprendizagem de filosofia em Paris e ao ingresso numa das empresas que operam o (e não no) mercado.

Não havendo alternativas políticas, a única coisa que pode afectar esta nova ordenação económico-política do mundo é a emergência caótica, e em larga escala, de movimentos como o de Beppe Grillo em Itália. Não tem qualquer fim político sério, e isso torna manifesto aquilo que se passa na realidade: deixou de haver qualquer fim político real que os homens possam perseguir. Não há ideologias, não há finalidades, não há um bem comum a construir. As pessoas têm apenas a possibilidade de escolher entre o caos existencial (desemprego em larga escala, rupturas de laços familiares, perda de expectativas) imposto pelos mercados e o caos político-social trazido por movimentos que fazem da irrisão uma paródia às imposturas de uma classe política que vendeu os respectivos povos aos mercados.

Talvez a manifestação de hoje, bem como a anterior, seja um momento de transição entre as ilusões de que ainda pode haver uma alternativa política consequente e a irrisão em que tudo isto se vai transformar. O meu coração está com os manifestantes e com o valor moral que representam, a minha razão, porém, sabe – tanto quanto pode saber uma razão humana – que o tempo é de caos, o qual cresce a cada instante, a cada decisão do governo, a cada jogada feita pelos que jogam o jogo dos mercados, a cada novo movimento que nasce do desespero das pessoas. Seja como for, hoje sou kantiano. Mesmo que as consequências desta manifestação sejam nulas, nada lhe retira o elevado valor moral.