quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Leituras poéticas - Manuel Gusmão, "A roda brilhante"

Georgia O'keeffe - Luz sobre la pradera III (1917)

A roda brilhante
deste fruto azul
incendeia ao
alto o oiro
O gume
de um gomo
desenha com a sombra
a trémula
claridade
da luz
                                           (Manuel Gusmão, Pequeno Tratado das Figuras, p. 19)

Somos levados de imediato para o reino das coisas materiais (a roda, o fruto, o oiro...), mas esse transporte é feito de maneira deliberadamente equívoca. No verso "A roda brilhante" pode-se ler em "roda" a dimensão material do transporte, mas o espírito não consegue desligar "A roda brilhante / deste fruto azul" da auréola ou nimbo que na iconografia cristã envolve a cabeça dos santos ou do próprio Cristo, e essa conexão é acentuada nos dois versos seguintes: "incendeia ao / alto o oiro". Desta forma, toda a materialidade está contaminada por aquilo que ela manifesta, como se a glória do espírito coroasse a matéria dos corpos que, ao incendiar-se, se transmutam em oiro.

Desse fruto azul, de onde se desprende uma auréola que incendeia o oiro, emana o gomo que, com o seu gume, desenha com a sombra / a trémula / claridade / da luz. O leitor interroga-se sobre a natureza dessa luz. Será uma luz física, como parece depreender-se da sua propriedade "trémula claridade"? Ou será antes uma luz metafísica que emerge da sombra? Esta equivocidade é indecidível e o melhor será mantê-la como tal, pois ela ilumina as estranhas relações da matéria com o espírito. Onde está a fronteira de cada um desses reinos? O poema de Manuel Gusmão permite-nos colocar a questão da fronteira de lado e perceber a contaminação, talvez a fusão, entre a materialidade das coisas e o espírito que as habita.