quinta-feira, 20 de março de 2014

Escola de monstros

Max Ernst - Placa para una escuela de monstruos (1968)

O novo livro de Filomena Mónica tem por objecto a escola pública. Melhor, a degradação da escola pública. Independentemente do método utilizado ou das opiniões pessoais da socióloga, há uma coisa que é óbvia e que ela sublinha muito claramente. Trata-se da culpabilidade dos ministros da educação no grau de degradação a que se está a chegar. Todas as utopias e desejos, mais ou menos secretos, de cada uma dessas personagens foi vertida em lei e acabou em cima da cabeça dos professores. Os ministros da educação - todos, o que inclui o actual incumbente - esforçaram-se arduamente para escavar a autoridade dos professores, trabalharam com afinco para os desviar das tarefas de instrução, inventaram uma instituição absolutamente doente e demente. Cada novo ministro tem por objectivo superar em delírio legislativo o anterior, embora raramente substitua os delírios dos anteriores. Soma delírio a delírio. A escola tornou-se, devido à imaginação desenfreada de tantos reformadores sociais, de esquerda e de direita, um lugar irreconhecível e monstruoso. Repito, monstruoso. As tarefas dos professores pouco ou nada têm a ver com a instrução. São longos exercícios burocráticos, exercícios executados por ordens ministeriais - vêm com a força da lei - e vigiados pelo zelo dos organismos respectivos.

Este lugar distópico, onde as regras normais de um lugar de instrução já não são reconhecidas, tornou-se um espaço produtor de monstros, uns maiores, outros menores. O sagrado peso da comunidade educativa, a intervenção, quase sempre enviesada e parcial, dos pais, a sobre-protecção das crianças e dos jovens, a abolição das regras de disciplina, a cultura de ócio e de desprezo pelo trabalho e pelo rigor são criações dos nossos ministros da educação. Utilizaram a escola e os professores para tentar ganhar votos, dando a ideia de que eram fortes e iam domesticar a classe docente. A bajulação do eleitorado, apanágio de vários governos, através da protecção dos supostos desejos dos encarregados de educação  e das forças locais tem tido como meta uma campanha interminável contra os professores. O resultado - e isto apesar de alguns progressos nos estudos internacionais - foi transformar a escola numa paisagem de um romance de Kafka ou num cenário de Beckett.