quarta-feira, 5 de março de 2014

O eterno retorno ou a transfiguração

Miriam Schapiro - Time (1988-91)

Recuperação de textos do meu antigo blogue averomundo, retirado de circulação (texto de 2007/05/05).

Ao estudarmos essas sociedades tradicionais, surpreendeu-nos sobretudo um aspecto: a sua revolta con­tra o tempo concreto, histórico, a sua nostalgia de um regresso periódico ao tempo mítico das origens, à Idade do Ouro. Só descobrimos o significado e a função daquilo a que chamámos «arquétipos e repetição» quando com­preendemos a vontade que essas sociedades tinham de recusar o tempo concreto e a sua hostilidade em relação a qualquer tentativa de «história» autónoma, isto é, de história sem regulação arquetípica. Esta recusa não é simplesmente o efeito das tendências conservadoras das sociedades primitivas, como este livro provará. Quanto a nós, dever-se-á ver nesta depreciação da história, ou seja, dos acontecimentos sem modelo trans-histórico, e nesta recusa do tempo profano, contínuo, uma certa valorização metafísica da existência humana. Mas esta valoriza­ção não é, de modo nenhum, a mesma que certas corren­tes filosóficas pós-hegelianas tentam dar, nomeadamente o marxismo, o historicismo e o existencialismo, depois da descoberta do «homem histórico», do homem que existe na medida em que se faz a si próprio no seio da história. [Mircea Eliade, O Mito do Eterno Retorno.]

Mircea Eliade deixou, há muito, de ser um autor que se possa citar em público. No entanto, muito do que escreveu merece leitura e o seu silenciamento deveria ser motivo de interrogação, se não mesmo de inquietação. Mircea Eliade, como outros autores, desenha perfis de sociedades e modos de vida diferentes dos nossos, mas com a particularidade de não serem sociedades utópicas, produtos da imaginação mais ou menos delirante dos seus autores. Fala de sociedades que existiram, as chamadas sociedades tradicionais. Estas foram absolutamente recalcadas, bem como os seus fundamentos metafísicos, com a vitória do mundo moderno, o mundo histórico em que o “homem existe na medida em que se faz a si próprio no seio da história”.

Esta ideia do «homem se fazer a si próprio» que habitava no seio do marxismo e das correntes pós-hegelianas não passava de uma ideia ainda ingénua. Mas esta ingenuidade – o eu é o fruto de uma experiência histórico-social – abriu as portas para os dias de hoje, nos quais essa ingenuidade desapareceu por completo. O desenvolvimento da ciência e da técnica traçaram o caminho para uma reconstrução da natureza humana, o primeiro passo para a sua transfiguração. Estas sociedades históricas são movidas pela atracção do futuro, mas esse futuro, começamos a descobri-lo, não nos fará mais humanos, mas tornar-nos-á noutra coisa qualquer, que ainda não sabemos, que está velada, mas que acabará por se revelar, isto é, mostrar-se naquilo que é em sua verdade.

Ao usar o conceito de «transfiguração», remeto para o domínio da arte. Toda a arte é transfiguração de uma matéria plástica (som, cor, luz, materiais diversos, língua, etc.). O que começamos a assistir é à transformação do homem em matéria humana plástica e assim ao abrir caminho para esse trabalho de transfiguração. A História, entendida como o processo do homem histórico, significa, desse modo, apenas a morte do homem. A dinâmica que nos empurra para o futuro não nos traz apenas a morte do indivíduo, mas prefigura a morte da própria espécie às mãos da sua arte de transformação. É este o verdadeiro significado do conceito de progresso.

As sociedades tradicionais representam a recusa de compreender o homem como uma ponte – uma ponte entre o animal pré-humano e aquilo que virá depois do homem. Dessa forma, recusam a morte do homem e, por isso abominam, a história. Não é que não tenham consciência do tempo, nem da passagem deste. Recusam, porém, a sua linearidade e sublinham a natureza cíclica, o que supõe um eterno retorno do mesmo. Este ciclo do eterno retorno é a imagem da eternidade e a natureza não seria mais do que um espelho dessa eternidade, onde a humanidade permanece sempre aquilo que é.

A verdadeira clivagem que existe no mundo não é entre liberalismo e marxismo, entre esquerda e direita, entre democracia e ditadura. A clivagem efectiva é entre tradição e modernidade, entre sociedades históricas e sociedades não-históricas. Aquilo que dá que pensar não é tanto a recusa da história pelas sociedades tradicionais, mas o ímpeto não questionado que nós, modernos, colocamos na aventura histórica que se dirige para a nossa própria transfiguração, isto é, para a nossa morte.