sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Pôr-se no lugar do outro

Lee Krasner - Abstract #2 (1946-48)

A eleição de Donald Trump bem como o chamado brexit chamam mais uma vez a atenção para um fenómeno recorrente na vida política. Os actores, na ânsia de conquistar o poder ou de fazer valer os seus pontos de vista, acabam enredados no próprio desejo que não os deixa perceber como preconceito os preconceitos de que se alimentam e que confundem com verdades universalmente aceites. Tanto no Reino Unido como nos Estados Unidos havia muitos sintomas de um ressentimento popular crescente contra a ordem estabelecida. Esses sinais, porém, chocavam com a visão do mundo tanto dos defensores da manutenção do Reino Unido na União Europeia como dos democratas e da intelectualidade que apoiou Hillary Clinton na corrida contra Donald Trump.

É verdade que os sintomas tinham e têm uma aparência desagradável, transbordavam de coisas que, segundo os valores que prezamos, são desprezíveis. Cheiravam mal. Os sintomas, porém, não são a doença, mas sinalizadores da doença. Ao recusar lidar com os sintomas, tanto os defensores da manutenção do Reino Unido na União Europeia como Hillary Clinton e os democratas não perceberam a dor profunda que atinge parte substancial do eleitorado. Entregaram os doentes ao primeiro funâmbulo que apareceu. E os funâmbulos não se fizeram rogados. Quem quer fazer política tem de se despir dos seus preconceitos – isto é, do manto ideológico com o qual interpreta o mundo – e pôr-se no lugar daqueles que vão decidir os resultados. Há muito, porém, que as elites políticas ocidentais deixaram de saber pôr-se no lugar do outro. Ensurdeceram e os resultados são os que vemos.