terça-feira, 10 de janeiro de 2017

A idade da ira

Oswaldo Guayasamín - Ira (1963-65)

A morte de Mário Soares tornou patente, devido à sua intensificação, um fenómeno com que nos deparamos no dia a dia. Há uma ira latente nas pessoas que se manifesta nas redes sociais e nas caixas de comentários dos órgãos de comunicação social online, ira essa que se mostra no insulto que se faz a coberto ou da distância ou do anonimato. E o caso Mário Soares nem é o mais sintomático, pois percebe-se que um conjunto de pessoas o ache culpado, apesar dessa culpabilização ser delirante, da expulsão do paraíso africano em que viviam. Ninguém gosta de ser expulso de um paraíso e precisa, para viver, de ter um bode expiatório. O problema, porém, é que este tipo de insultos, esta ira, não se dirige apenas a alguém que teve um papel político determinante na vida do país. O insulto é generalizado.

Qualquer artigo de opinião - seja escrito à direita ou à esquerda - dá lugar a uma série de comentários insultuosos ao seu autor e gera também uma disputa de grosserias entre os comentadores, numa lufa-lufa para ver quem consegue ser mais soez. E não se pense que isto se passa apenas na política. Se o assunto for o futebol, o padrão é exactamente o mesmo, muitas vezes ainda mais baixo, se tal for possível. Fora do futebol e da política, áreas de grandes paixões, o clima é mais ameno, mas só até certo ponto. Assim que um assunto, trivial que seja, gera conflito de opiniões, começam a chover insultos neste magnífico universo das redes sociais e das caixas de comentários.

Este fenómeno revela várias coisas. Em primeiro lugar, revela a tremenda falta de educação e de nobreza de atitude de muitos dos que se movem neste mundo digital. O insulto na ponta dos dedos ainda é mais fácil do que o insulto na ponta da língua. As redes sociais vieram tornar claro que este mundo não é habitado apenas por senhoras e cavalheiros, antes pelo contrário. Em segundo lugar, mostra também que a cultura do debate, da divergência de opinião, da tolerância de perspectivas diferentes, está longe, muito longe, de fazer parte dos nossos hábitos. Qualquer opinião divergente é sentida como uma ameaça pessoal, um perigo para a nossa identidade, o que desencadeia um chorrilho de impropérios e de insultos. Isto, porém e apesar da sua gravidade, não é o pior.

O pior é a degradação das práticas sociais que nos permitem viver uns com os outros de maneira civilizada e cordata. Tem-se a percepção de que, caso a situação social se desequilibre um pouco, o ódio que é veiculado nas redes sociais e nas caixas de comentários pode transbordar para a rua, para uma confrontação que ultrapasse as diferenças aceitáveis e os conflitos socialmente benéficos e permitidos. Aquilo que merece ser pensado é o grau de frustração social e pessoal que está por detrás de todos estes episódios, a diferença entre o que a realidade nos permite alcançar e aquilo que o desejo - um desejo continuamente atiçado e nunca possível de saciar - diz que cada um deve obter. A libertação do desejo - não foi o homem caracterizado como uma máquina desejante? - representa também a libertação da frustração, pois a realidade está muito longe de poder satisfazer esse desejo libertado. Daí um ódio cego e crescente a tudo o que é diferente de nós, a tudo o que frustra o nosso desejo. Daí que a idade do desejo libertado se transforma numa idade da ira.