quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

O equívoco revolucionário


A causa desta meditação sobre o conceito de revolução está não numa leitura política mas de um crítico literário italiano, Alfonso Berardinelli. Refere ele que a poesia italiana dos anos sessenta do século passado, com Pasolini à cabeça, era uma poesia marcada pelo compromisso com o devir histórico e com a revolução social emancipadora. No entanto, a poesia dos anos setenta, de setenta e cinco em diante, indicava que a ideia de revolução, na sua conexão com a poesia, começava a pertencer ao passado. A poesia ter-se-á libertado do fantasma histórico. Isso, porém, terá alguma conexão com a questão política? Tem e de uma forma surpreendente. O conceito de revolução como categoria política emancipadora das classes populares da tutela e da dominação burguesas, para usar uma expressão ao gosto revolucionário, ter-se-á mostrado completamente inadequado.

O destino das duas grandes revoluções ditas proletárias, ocorridas no século XX, são a prova dessa inadequação. A revolução soviética, a primeira grande experiência de um movimento revolucionário anti-burguês, redundou quase de imediato num sistema totalitário e, de seguida, num bisonho sistema burocrático-autoritário, até que colapsou com o estrondo que se conhece, dando lugar a um capitalismo selvagem fundado no autoritarismo. A segunda grande experiência revolucionária, a da China, depois de uma fase, na altura da grande revolução cultural proletária, de um totalitarismo delirante, converteu-se numa revolução burguesa, na qual o capitalismo, que era suposto eliminar, floresce e frutifica, sob o olhar atento do Partido Comunista Chinês. Não há, na história, um único exemplo de uma revolução anticapitalista vitoriosa.

Curiosamente, desde o século XVII, com a Gloriosa Revolução em Inglaterra, até ao século XX, passando pelas revoluções americana e francesa, do século XVIII, a história regista um conjunto de revoluções vitoriosas e que constituíram regimes políticos sólidos e persistentes no tempo. O que há de comum nessas revoluções vitoriosas é que elas são sempre a vitória do terceiro estado, a burguesia, e, do ponto de vista económico, abriram as portas para o desenvolvimento do capitalismo. O que a história nos tem mostrado, por muito que uma parte da esquerda se recuse a vê-lo, é que o fascínio de Marx com a revolução, fascínio esse que se liga ao seu fascínio pela economia liberal e pelo triunfo da burguesia, não lhe permitiu perceber, a ele e à esquerda que se reclama do seu pensamento, que a revolução era um conceito e um instrumento político pertencente ao terceiro estado, um instrumento ao serviço da formação das elites económicas e da consolidação do seu poder. Como instrumento político de emancipação popular, tal como o pretendiam Marx e os seus herdeiros, ele revelou-se completamente desadequado e com efeitos contrários à emancipação pretendida. Como instrumento de emancipação popular, a revolução mostrou-se um equívoco.