terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Ensaio sobre a luz (47)

Herb Ritts, Neith with Shadows (Back), Poundridge, 1985

Como poderia o amor tocar-lhe se a luz, ininterrupta e destituída de obstáculos, deslizasse por todo o corpo? A sombra não é uma mácula, mas a possibilidade de alguém se oferecer como o alvo às setas do desditoso deus.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Villa Cardillio 3. Olhar


3. OLHAR

Olho a ruína do passado,
os dias exíguos ao vento
os dedos entrelaçados
na crua carne de domingo.

Dardos de dor voam
para o árduo alvo da noite.
Vão tendidos de silêncio
no vento voraz da várzea.

1979

domingo, 13 de janeiro de 2019

Descrições fenomenológicas 36. Rapariga com chapéu de palha e vestido branco

Esteban Vicente, Goyescas, 1983

As ondas resfolegavam na fímbria da areia, batidas por uma brisa imperceptível. Alguns barcos dilaceravam, com estudada lentidão, as águas, enquanto outros, fundeados perto da costa, baloiçavam com suavidade. O sol, toldado pela neblina, insistia em brilhar e as gaivotas desenhavam no céu, com a precisão de anjos, símbolos impossíveis de compreender. Vinda da estrada, uma rapariga, saída ainda há pouco da adolescência, caminhava rente à passadeira, ensimesmada. Olhava a areia negra ou, com uma mão a proteger os olhos, perscrutava a linha desenhada pela vacilante fusão de céu e mar. Os seus passos eram hesitantes. Por vezes, parava, revolvia a areia com a ponta da sombrinha. Depois, olhava o horizonte e seguia. A certa altura, porém, decidiu sentar-se. O vestido branco, daqueles que se usavam nos inícios do século XX, cobria-a, deixando apenas de fora os pés nus, que cruzou. Na cabeça, um velho chapéu de palha, de aba larga, adornado com uma fita rosa, já descolorida. A água cintilava e ela olhava-a, enquanto abria a sombrinha. Apoiou a haste no ombro e com a mão fê-la rodar, com precisão monótona. Depois, sorriu e fixou o olhar num cruzeiro que se aproximava do porto. Os seus olhos não mais se despegaram dele, como se estivesse à espera que o tempo cavalgasse os dias e ela, já senhora de si, pudesse entrar naquele grande barco que haveria de a levar ao lugar, ela sabia-o bem, que a aguardava.

sábado, 12 de janeiro de 2019

Irvin D. Yalom, O Problema Espinosa


O romance O Problema Espinosa (2012), do psicanalista norte-americano Irvin D. Yalom, propõe uma estranha aproximação entre o filósofo holandês Baruch Espinosa (1632-1677) e o ideólogo nazi Alfred Rosenberg (1893-1946), autor de O Mito do Século XX, uma pretensa teoria das raças, de orientação nitidamente anti-semita, na continuação dos trabalhos de Houston Stewart Chamberlain. A aproximação romanesca destes dois homens que tudo separava foi desencadeada pela descoberta pelo jovem Rosenberg da profunda admiração que o Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832) – o maior génio alemão, segundo Rosenberg – nutria pela filosofia do judeu Baruch Espinosa. Como seria possível um ariano ajoelhar-se perante o pensamento de um homem de raça inferior?

O autor – ele mesmo judeu – partiu de um facto real, o saque da biblioteca do museu Espinosa em Rijnsburg, na Holanda, um saque sem sentido tendo em conta a pouca valia daquilo que foi roubado, para construir a trama narrativa. Esta permite-lhe fazer uma caracterização da filosofia de Espinosa, pintar as relações intelectuais e religiosas dos judeus holandeses, judeus fugidos da Península Ibérica, e também construir uma leitura, a partir de uma abordagem psicanalítica, da personalidade do ideólogo nazi. A obra, para além de fornecer aspectos didácticos para aqueles que querem tornar-se psicanalistas (Yalom inventou umas sessões de terapia para Rosenberg), tematiza dois problemas fundamentais. O da identidade de si e o da relação entre razão e fé.

Espinosa era um jovem e brilhante aluno da comunidade judaica de Amesterdão. No entanto, o questionamento racional que ele opõe aos ensinamentos religiosos, o sublinhar das incongruências da tradição e insubmissão geral do espírito levam a que seja proferida contra ele uma sentença de excomunhão, sendo proibidos, a todos os membros da comunidade judaica, quaisquer contactos com o proscrito. Espinosa é despido da sua identidade de judeu e vai ter de reconstruir uma nova identidade fundada agora apenas nos preceitos da razão. Estamos perante a afirmação de uma singularidade radical, assente no corte com a cultura de origem. Em contraponto, Alfred Rosenberg era um jovem solitário e inseguro, vítima dos seus colegas de liceu. A construção da identidade de Rosenberg faz-se a partir da sua solidão, do seu anti-semitismo e no mergulho no que poderia chamar-se espírito do povo. É a crença na superioridade da raça ariana – e a crença de que ele pertença a essa raça – que lhe permite a construção da sua própria identidade. Espinosa constrói a identidade pela singularização produzida pela rejeição da comunidade. Rosenberg fá-lo pelo afastamento da sua singularidade forçada, e sentida como problemática, e pelo mergulho no magma comunitário. Yalom estabelece uma relação entre o nascimento do indivíduo, com a figura luminosa de Espinosa, e o seu desaparecimento com a figura tenebrosa de Rosenberg.

A questão da identidade, contudo, terá de ser percebida num âmbito mais amplo. Trata-se da questão das Luzes. Espinosa é um dos pai do Iluminismo, da afirmação da Razão sobre a fé, as tradições e os preconceitos. O filósofo é apresentado como uma figura da libertação em relação ao pensamento dogmático. Rosenberg, pelo contrário, é a figura da regressão. Ele representa aqueles que trocam o uso da razão pela afirmação de um fanatismo, de uma fé radicalizada em preconceitos raciais e na mitificação do povo alemão. Com Espinosa, o autor traça o caminho que conduz do mito à razão. Com Rosenberg, traça a via contrária, aquela que leva da razão ao pensamento mítico. Não por acaso, o livro do ideólogo nazi chama-se O Mito do Século XX.

A oposição entre razão e mito ou entre razão e fé, tomada esta na sua dimensão de fanatismo, serve para sublinhar os fundamentas da intolerância entre os homens. Esta nasce de crenças que não suportam o exame da razão, nasce em pessoas que sofrem de uma patologia que a psicanálise deveria tratar. O fanatismo resultará menos do exercício do livre-arbítrio, de uma decisão livre, e mais de uma patologia que condiciona as crenças e os comportamentos dos indivíduos, incluindo os comportamentos perante as suas próprias crenças, evitando submetê-las ao exame da razão. A patologia em que todo o fanatismo assenta está ligada a uma ausência de comunicação ou a uma incapacidade de comunicar. O fanatismo judaico impõe o corte comunicacional com o herege Espinosa. O fanatismo nazi é alimentado por homens como Rosenberg, cuja capacidade de comunicar com os outros é notória. Só uma terapia através do diálogo teria, então, o poder de restabelecer a comunicação e evitar o fanatismo. Uma apologia do papel da psicanálise na sociedade.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Sonhos numa noite de Verão 10

Heinz Held, Karneval in Köln, Köln, Germany, Date Unknown

Era criança e estava sozinho na rua. Sentia latejar a dor do abandono e caminhava, mas não sabia para onde ir. A certa altura, oiço uma algazarra e o coração contraiu-se ainda mais. A casa, a casa, comecei a gritar. Olho para trás e fico paralisado de medo. Um cortejo aproximava-se de mim. Vinham mascarados e cantavam numa língua que não compreendi. Quanto mais se aproximavam, mais imóvel me sentia. Num gesto de coragem, fitei-os, como se os desafiasse. Tinham estranhas caras e vestes incongruentes. A casa, a casa, voltei a gritar. Passaram por mim sem me verem e desapareceram. Quando acordei, tremia e senti-me ameaçado. Na rua passavam mascarados e falavam numa língua que nunca tinha ouvido.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

As eleições europeias


Das três eleições que decorrerão este ano – Regionais da Madeira, Legislativas e Europeias – serão estas últimas as mais importantes para o nosso destino a médio prazo. As eleições regionais da Madeira têm um impacto meramente local. As legislativas nacionais, por muito calor que os partidos ponham na disputa, não trarão grandes novidades. Não sendo previsível o surgimento de um movimento populista, os resultados eleitorais, ganhe a esquerda ou a direita, não afectarão o rumo do país, embora possam ter repercussões na forma como se distribuem os rendimentos. Como descobrimos, nos últimos anos, a distância que vai do CDS ao PCP é, apesar de importantes diferenças, muito menor do que se afiançava. Só um terramoto, com a emergência de uma força política importante e marcadamente nacionalista, poderia torná-las decisivas.

As eleições europeias têm um poder destabilizador suficiente para pôr em causa, a médio prazo, a forma como organizamos a nossa vida. O que está em jogo é a dimensão que os nacionalistas antieuropeus terão no próximo parlamento. O que vai ser avaliado nessas eleições é o estado de saúde do projecto europeu, a capacidade que a União Europeia tem para agregar um conjunto de povos diferenciados, que partilham um mercado comum e um conjunto de valores políticos e civilizacionais que constituem aquilo que se convencionou chamar Ocidente. Sendo assim, não é apenas a questão política que está em disputa, mas uma certa concepção de civilização e modo de vida.

Deve ser motivo de preocupação o avanço dos nacionalistas? Devemos distinguir nacionalismo daquilo que o historiador Dolf Sternberger e o filósofo Jürgen Habermas, ambos alemães, denominaram patriotismo constitucional. O nacionalismo é uma visão do mundo que encerra os povos num narcisismo paroquial perigoso. Desde o seu nascimento, após a Revolução Francesa, que ele tem sido responsável, na Europa, por diversas guerras, entre elas as duas guerras mundiais ocorridas no século XX. O nacionalismo é exclusivista e por natureza conflitual. O patriotismo constitucional, por seu turno, afirma uma identidade política colectiva, respeitadora do estado de direito, ao mesmo tempo que defende valores universalistas e a necessidade de conciliação e convivência internacionais. O que está em disputa, nas eleições europeias, é o peso destas duas ideias. Se os nacionalistas crescerem significativamente, o projecto europeu pode ficar ameaçado e surgir uma nova situação política povoada pelos terríveis fantasmas que a União Europeia tinha adormecido.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Villa Cardillio 2. Partida e chegada


2. PARTIDA E CHEGADA

De Itália, a verruma do vento
a planície enlouquecida de luz.
Partiram, a pressa do comércio
a ave urgente colhida no corpo.

Na viagem, cerziram cidades
urdiram espaços e escolhos
urdiram a hera da esperança
o rumor da seda na luz da cal.

Na ânsia do lar, olharam a tarde.
As colinas cobertas de tojo
o rio pelos salgueiros sombreado.
Repousaram na água da aurora.

1979

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Ensaio sobre a luz (46)

Hiroshi Sugitomo, World Trade Center, 1997

A luz hesita mergulhada na névoa e, como um símbolo do provir, treme assediada por estranhos pressentimentos e inexplicáveis temores.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Alma Pátria - 45: Hermínia Silva, Fado da Sina



Interrogamo-nos muitas vezes sobre as razões que conduzem a que a sociedade portuguesa seja obstinadamente iliberal. Haverá razões históricas para isso, as quais não cabem nesta rubrica. Vale, porém, a pena escutar atentamente o Fado da Sina, de Hermínia Silva. Faz parte de um filme de 1946, Um Homem do Ribatejo, de Henrique Monteiro, também ele um documento sociológico de particular interesse. Ora o que nos diz este fado, um grande êxito popular da época? A felicidade ou infelicidade não resultam das nossas escolhas, mas de uma sina, de um negro fado mortal. As coisas são como foram determinadas no além. Qualquer iniciativa é impotente para alterar o destino. Uma sociedade que pensa assim, que sente assim, que se deseja assim, como pode ela transformar-se numa sociedade liberal, feita de sujeitos livres e responsáveis pelo seu destino?

domingo, 6 de janeiro de 2019

Televisões e populismo

Tom Wesselmann, TV Still Life, 1965

A história da ida de Mário Machado, um elemento da extrema-direita com condenações por crimes graves de delito comum, a um programa de Manuel Luís Goucha, na TVI, sublinhou, mais uma vez, um fenómeno a que deveria ser dado uma atenção especial. Trata-se do contributo dos canais de televisão para a criação de um ambiente propício à emergência em Portugal daquilo a que hoje se convencionou chamar populismo. Há muito que os principais canais de televisão portugueses perderam um módico de racionalidade. Basta ver os telejornais para perceber que, a luta pelas audiências, conduz as televisões à exploração dos instintos mais baixos da população.

Por si, a ida de Mário Machado à TVI é uma irrelevância. Deixa de o ser se for integrado no contexto da informação e dos programas que os canais de televisão produzem. Basta ver a forma como investem nos casos que envolvem políticos, como produzem delírios justicialistas, como exploram decisões legítimas, embora conflituais, para criarem ambientes de intensa emotividade, ou como se mostraram melancólicos perante o evidente fracasso dos coletes amarelos da nossa paróquia. As televisões perceberam há muito que a destruição da democracia rende audiências e, como estamos a ver cada vez mais claramente, não terão o mínimo pudor em gerar um ambiente de irracionalidade no país. Corremos o risco de um dia acordarmos com uma vida política sem controlo, não porque a situação do país seja grave, mas porque as televisões precisam de audiências.

sábado, 5 de janeiro de 2019

Joris-Karl Huysmans, Além


Além (no original francês, Là-bas) é um romance do francês Joris-Karl Huysmans publicado em 1891 e consolida o corte com o naturalismo estético iniciado em 1884 com o romance À rebours. Huysmans, nos seus primeiros romances, cultivou um naturalismo estrito, de grandes preocupações sociais. O início de Além é marcado por uma discussão entre o principal protagonista, Dutral, um escritor que troca o romance pela narrativa histórica, e um seu amigo, o médico des Hermies, sobre a falência filosófica do naturalismo, pelo encerramento deste nas questões sociais, na sua falta de impulso para uma realidade sobrenatural. Este romance é o primeiro de uma tetralogia que, de certa forma, acompanha, na personagem de Dutral, a conversão do autor ao catolicismo romano.

Esta abertura para o sobrenatural começa, porém, pelo negativo, pelo mal e o satanismo, numa espécie de retrato de Paris da época. A questão que se coloca é a seguinte: como é que Dutral, e também ele teria sido um escritor naturalista, transita das preocupações sociais para a preocupação metafísica? A obra dá duas pistas. Por um lado, o abandono do romance e a sua substituição pela narrativa histórica, uma biografia de uma figura dos finais da Idade Média, Gilles de Rais, um dos grandes de França no XV, que foi acusado de satanismo por ter torturado, estuprado e assassinado um grande número de crianças. A história permite a Dutral dar o salto para um mundo, o mundo medieval, que já há muito desaparecera. Por outro lado, o cansaço com a vida social que conduz a uma certa busca de refúgio, a uma desilusão com o mundo da literatura e com a própria sexualidade e os jogos a que ela submete os indivíduos.

A reconstrução da vida de Gilles de Rais, toda ela marcada pelo sobrenatural, tanto visto pelo lado da fé em Deus como da busca de um pacto com o diabo, leva Dutral a interessar-se pelo tema do satanismo. Descobre que este continua activo em Paris e que um certo cónego Docre, excomungado, celebra missas negras. Deseja assistir a uma dessas celebrações. Consegue-o através de uma admiradora que, a princípio, se mantém secreta, mas que acaba por se envolver sexualmente com ele. Ela própria é uma admiradora de Docre e uma participante nesse tipo de missas. A abjecção e a irracionalidade do evento, porém, levaram-no a uma rejeição total do satanismo, deram-lhe ocasião para romper com a amante e conduziram-no a uma certa libertação desse mundo de súcubos e íncubos.

Na obra, esta relação com a dimensão negra é contrabalançada pelos encontros que ele e o seu amigo médico têm com um tocador de sinos, na casa deste, um homem de fé profunda que, a partir da sua profissão, elabora uma espécie de metafísica que permite integrar o conjunto da vida sob o ritmo do toque dos sinos segundo o ritual da Igreja Católica Romana. O tocar dos sinos é a voz que, mesmo numa sociedade já claramente não cristã, permite ainda dar-lhe um sentido marcado pelo cristianismo. Estes encontros, apesar da presença de um astrólogo e do cepticismo de des Hermies e do próprio Dutral, são aberturas pelas quais o catolicismo se vai insinuando, mas não mais do que isso, em Dutral.

Pode-se assim perceber que o romance de Huysmans se inscreve num debate sobre a modernidade, essa modernidade que tem os seus fundamentos no Renascimento e na ruptura com a Idade Média. Dutral, contudo, não deixa de ser um moderno, pois procura no abrigo da quase solidão salvaguardar a sua individualidade perante a ameaça do social, todo ele marcado pelos negócios, pela política e, como sempre, pelo jogo sexual que absorve uma parte do tempo, dos pensamentos e da energia dos homens. Perante o peso do mundo com as suas exigências, os seus jogos e a sua alienação, Dutral busca refúgio. Refugiou-se em casa e na solidão, refugiou-se na Idade Média, ou no momento da sua decomposição. Refugiou-se numa busca do além perante o desgosto que o aqui e agora arrastam, com as suas misérias e o trágico da existência, para cima dos indivíduos, que agora, desligados das antigas castas sociais que lhes davam um lugar inquestionável e um sentido existencial, estão perdidos num mundo de indivíduos. Estes, curiosamente, como se percebe no final do romance, pelo vitoriar pela plebe de um político vencedor, o mais que podem desejar é fundir-se ululantes na massa. E é disso também que Dutral e os seus amigos fogem.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Villa Cardillio 1. Cardílio e Avita


1. CARDÍLIO E AVITA

Poeiras passos pedras
ervas exaustas do passado
ervas de âmbar e ardor
deuses no desvão do destino.

Do Lácio vinha a cintilação
e das mãos o rumor e a ruína
a dádiva do desejo
a língua no livor da memória.

Se a sua luz declina entre tílias
a noite desce no coração.
Sombra de sangue
ao passar tudo incendeia.

1979

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Sintomas

Joaquín Peinado, El Velador

Não é que o partido Nós, Cidadãos! (o nome é já de si um programa) tenha alguma relevância. No entanto, o convite endereçado - e recusado - ao Juiz Carlos Alexandre para ser candidato às eleições europeias é um sintoma. Um sintoma de duas coisas. Em primeiro lugar, da existência na sociedade de uma propensão justicialista. Em segundo, da crença arreigada no homem providencial que nos há-de salvar da miséria moral em que vegetamos, isto é, que nos há-de salvar de nós próprios. Seria boa política que os sintomas não fossem desprezados. Anunciam a patologia, muitas vezes a tempo de realizar uma cura eficaz.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Ensaio sobre a luz (45)

Ara Güler, Traffic on the old Galata Bridge, Turkey, 1956

Cidades são noites rasgadas no mármore da indiferença. A luz cai sobre a matéria do mundo e lentamente trabalha-a, erguendo casas, pontes, os carros que passam, os olhos que observam e se perdem iluminados no segredo que avistam.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Carlos Malheiro Dias, Paixão de Maria do Céu


Os grandes nomes da literatura portuguesa formam uma espécie de cortina opaca que acaba por ocultar a realidade da vida literária nacional. Atrás dessa cortina, porém, esconde-se um vasto território colonizado por habitantes que, apesar de não merecerem a honra do cânone, possuem mérito e cuja leitura é, pelo menos, instrutiva do país em que vivemos e dos valores que guiam a sociedade portuguesa. Isto vem a propósito do romance Paixão de Maria do Céu, de Carlos Malheiro Dias, publicado em 1902. Trata-se de um romance histórico, cuja acção se situa no tempo das invasões francesas. Por melhores e mais bem informadas que sejam estas narrativas sobre o tempo e os modos de vida da época que pretendem retratar, elas acabam por falar mais do tempo, dos valores e dos temores da sociedade em que vive o autor do que da sociedade onde a narrativa é situada. No fundo, utiliza-se o passado para falar do presente e para se dirigir ao futuro.

A trama romanesca gira à volta de duas figuras modelo, a de D. António Sepúlveda, senhor do morgadio do Corgo, e a da sua filha Maria do Céu. Ele é o arquétipo do fidalgo intrépido e patriota dos tempos antigos. Ela, o modelo trágico da inocência corrompida pela paixão amorosa.

O morgado provinciano é apresentado em contraponto com a pusilanimidade da corte e de parte da nobreza que se submete aos invasores. As virtudes heróicas de Sepúlveda, contudo, são mostradas como intemporais, como se ele encarnasse valores universais de uma casta que o tempo jamais dissolveria. É preciso não esquecer a situação política nacional no início do século XX. Depois do ultimato britânico, a monarquia encontra-se em dissolução e a nobreza nacional, por certo, está bem longe dos modelos viris encarnados pela personagem de Malheiro Dias. Perante a calamidade das invasões napoleónicas, só a decisão de homens como António Sepúlveda permitiu reverter a situação. E este é o modelo de homem que poderá fazer frente à dissolução dos velhos valores que o liberalismo monárquico já representava. O aniquilamento da monarquia (acontecerá em 1910) e a queda da aristocracia na irrelevância só poderão ser evitados por homens cujas virtudes emulem as do senhor do Corgo.

O destino de Maria do Céu, com as suas peripécias amorosas, parece ser mais uma história banal de sedução e embuste, onde a inocência, impotente pelo limitado conhecimento que possui da vida, se perde na trama de um conquistador – um jovem coronel francês – que junta às vitórias militares as conquistas amorosas. É um facto que a rendição de Maria do Céu ao militar invasor não deixa de ser uma metáfora da sedução que os ideias da Revolução Francesa exerciam sobre parte do país. No entanto, ela é ainda uma outra coisa. Ela é um aviso e um reforço do modelo de mulher que deve aliar a virtude moral e a perspicácia do espírito, para se precaver das tentações do coração. Caso contrário, à paixão amorosa sucederá a paixão entendida como sofrimento e dor. Não deixa de ser interessante que seja este o modelo que, através da visão trágica do destino de Maria do Céu e do uso ambíguo da temática da paixão, seja proposto como ideal feminino para o século XX, o século onde as mulheres adquiriram, entre outros direitos, o direito às suas paixões.  

Do ponto de vista literário, tanto o senhor do Corgo como a sua filha valem mais pela natureza arquetípica – ele positiva e ela negativa – do que pela complexidade psicológica. Malheiro Dias é excelente a criar ambientes, descrever situações, pintar com palavras os quadros onde se desenrola a acção romanesca. Somos conduzidos de um solar de província e da vida provinciana dos inícios do século XIX até ao turbilhão da capital do reino, na mesma época, com a sua vida multifacetada, ocupada pelo exército invasor. A riqueza das descrições está ancorada num léxico riquíssimo – certamente, léxico em uso no período onde a acção romanesca se situa –, algum dele incompreensível nos dias de hoje, mesmo para leitores cultos. As personagens, porém, são previsíveis e fiáveis. Por imprevisíveis que sejam os acontecimentos, o destino de cada uma das principais figuras é antecipável, pois elas são, na verdade, modelos e não pessoas concretas, com as suas hesitações, incertezas, aprendizagens, metamorfoses. Estamos perante um romance de intervenção. Não que ele transporte uma visão política estrita. Traz, porém, uma cosmovisão e, enquanto obra literária, é uma forma de se bater por essa visão do mundo, que – o autor não o poderia saber – haveria de morrer definitivamente na grande guerra de 1914-1918.

domingo, 30 de dezembro de 2018

Sonhos numa noite de Verão 9

Claudio Bravo, Auto-retrato, 1971

Uma avenida que parecia não ter fim. A princípio, corria nela sem que soubesse a razão. A partir de determinada altura, onde havia um edifício imponente, com grandes arcadas e persianas verdes, senti que ia nu. À frente de mim corria a minha roupa, uma estranha roupa para os meus hábitos, corria como se fugisse. Por vezes, ela olhava para trás. Se eu me aproximava, ela ia buscar um novo fôlego e afastava-se. Sentia o medo da roupa e o meu desespero. Eu corria cada vez mais depressa para me vestir. Ela fugia-me cada vez mais determinada. Ao acordar senti um profundo cansaço e doía-me a cabeça. Tinha dormido vestido com uma roupa que desconhecia.

sábado, 29 de dezembro de 2018

No Limiar da Porta 21. Sôfrego, sento-me

Jean François Millet, Nu reclinado

21. Sôfrego, sento-me

Sôfrego, sento-me
na véspera da noite.
Traço no vidro da voz
figuras de ócio.
Trémulo, deixo cair
a porosa porcelana
do teu amor.

1978

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Ensaio sobre a luz (44)

Ansel Adams, Mount Robson from Mount Resplendent, 1920

A luz resvala pelos céus, cai sobre a montanha, funde-se no negro da pedra. Então, arrefece, e gélida ganha textura e branca como a neve espera a infâmia da sombra, o vexame da escuridão.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Natal e sociedade


Entre a religião e a sociedade há uma dinâmica que, nos dias de hoje marcados pela indiferença religiosa, parece já não ser compreendida pela maioria das pessoas. Esta incompreensão deve-se à religião ter sido relegada para o foro da subjectividade. As pessoas podem dizer-se católicas, frequentarem a Missa, mas na vida social comportarem-se objectivamente como alguém despido de qualquer crença religiosa. Isto afecta, de forma muito evidente, o sentido social da Festa da Natividade do Senhor, a qual se degradou numa espécie de orgia de consumo.

O Natal tem um significado religioso, de natureza espiritual, e tem um sentido social. Não foi apenas a sua dimensão espiritual que foi rasurada, mas também o significado profundo da sua natureza mais exterior e comunitária. No nascimento do Menino, as nossas sociedades sacralizavam e divinizavam a emergência de uma nova vida. O Menino Jesus é o arquétipo de todas as crianças que vêm à vida. Isto significava que a banalidade do nascimento humano tornava-se num acontecimento excepcional. Por mais crianças que nascessem, por mais vulgar que fosse a mecânica que conduz da fecundação ao nascimento, todo o recém-nascido era um excepção, um acontecimento extraordinário e singular. Uma manifestação divina.

No Natal, as sociedades celebravam o poder da vida, a sua regeneração e a sua eterna novidade. Celebravam também outra coisa, celebravam a sua própria continuidade. Esta simbolização, pelo Natal, da continuidade da vida e da comunidade parece, nos dias de hoje, completamente perdida, ocultada pela festividade profana que, dinamizada pela indústria e pelo comércio, se ergueu nas cidades e nos lares. Em vez da vida, desde há muito que o Natal celebra o poder de compra. Deixou de ser uma questão vital para se tornar num dado nas estatísticas económicas dos países e uma dor de cabeça para aqueles que, crentes ou não, terão de participar nas festividades, arrastados pela enorme máquina publicitária.

Que o Natal tenha perdido a sua dimensão espiritual, isso diz respeito aos crentes. Que ao Natal se tenha retirado o poder para simbolizar o triunfo da vida e a continuação da comunidade, deveria preocupar crentes e descrentes. Sem a simbólica do Natal, a vida e a continuidade de uma comunidade perdem a sua natureza sagrada e são arrastadas para o domínio do que é vulgar e banal. Se o Natal passou a ser uma prova do poder de comprar, a vida – essa que se renova em cada recém-nascido – tornou-se um exercício dependente de um cálculo económico, e a continuidade da comunidade ficou sujeita à aritmética dos prazeres e dos desprazeres que a nova criança poderá trazer.

[A minha crónica em A Barca]

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

O negócio dos extremos


Uma das questões que parece atormentar certos comentadores políticos é a da ausência de uma extrema-direita em Portugal. Apesar de isso não ser completamente verdade – não existe uma extrema-direita organizada politicamente, mas existe uma extrema-direita social, ainda inorgânica –, há uma outra questão que deveria merecer atenção. Haverá uma extrema-esquerda em Portugal? Muita gente – uns por ignorância e outros por oportunismo – utiliza o epíteto de extrema-esquerda quando se refere ao BE e ao PCP. No entanto, alguém acha plausível que dois partidos que, nas últimas eleições, valiam quase 20% do eleitorado, se comportassem como eles se comportaram nos últimos três anos, caso fossem de extrema-esquerda?

Bloquistas e comunistas têm podido, nesta legislatura, influenciar o poder. E têm-no feito. No entanto, em momento algum puseram em causa qualquer dos elementos políticos que constituem o núcleo central de pertença de Portugal aos países democráticos ocidentais. Nem a democracia representativa nem a economia de mercado foram, por um instante, postos em xeque pela sua acção. Por outro lado, apesar das suas discordâncias, também em momento algum foram questionados, por esses partidos, os nossos compromissos externos. Continuamos a pertencer à NATO. Não houve qualquer alteração relativa à União Europeia. Até o malfadado Euro e as suas regras draconianas de controlo do défice e de contenção da despesa pública foram aceites, sem que comunistas e bloquistas se sentissem particularmente incomodados.

O BE e o PCP não tiveram, neste processo e em momento algum, uma actuação de extrema-esquerda. Foram, na realidade, reformistas e pragmáticos. Não exigiram o impossível nem propuseram qualquer delírio utópico, daqueles que a extrema-esquerda é fértil em produzir. Se foram alguma coisa de esquerda, não foram mais do que sociais-democratas. Centraram-se naquilo que poderia beneficiar o seu eleitorado e deixaram de lado o conjunto de crenças ideológicas que os constituíram. Contudo, esta dose de responsabilidade e reformismo pode ter um preço. Vivemos numa época em que a irresponsabilidade, as soluções fáceis e mirabolantes, os devaneios da imaginação e o fervilhar do ressentimento andam à solta. A esquerda, mesmo que o quisesse, já não conseguirá colonizar esse território, que um dia foi o seu. E é aí que está a terra pantanosa que a extrema-direita poderá vir a ocupar. É ela que neste momento transporta o facho da exigência do impossível. É ela que abomina a prudência e execra a responsabilidade.

[A minha crónica no Jornal Torrejano.]

domingo, 23 de dezembro de 2018

Isabel da Nóbrega, Viver com os Outros



O romance Viver com os Outros, de Isabel da Nóbrega, recebeu, no ano da sua publicação, 1964, o Prémio Camilo Castelo Branco e é, por certo, a obra mais conhecida da escritora nascida em 1925. O tempo e o espaço da narrativa concentram-se num apartamento da classe média-alta lisboeta, num serão, que prolongou um jantar de amigos. Um retrato de uma burguesia citadina que se ia libertando da cosmovisão tradicionalista, que dava forma à sociedade portuguesa da altura, e onde se juntavam admiradores do Estado Novo com aqueles que, de alguma forma, se distanciavam, quer politicamente, quer pelo gosto ou interesses culturais. É significativo o facto da autora apresentar Fernando Lopes Graça – um dos mais importantes compositores portugueses do século XX e militante comunista – como pertencente à esfera de relações do casal anfitrião, Ana e Henrique.

O romance usa, em toda a sua extensão e de forma intercalada, apenas duas técnicas. O diálogo e a exposição da corrente de consciência das várias personagens que se encontram naquele apartamento. O narrador ouviu as conversas e leu os pensamentos, e partilha-os com o leitor, sem se imiscuir com qualquer tipo de consideração sobre as personagens e as suas ideias. O uso destas técnicas não pretende explorar uma possível dissonância entre o que é dito para os outros escutarem e o que é pensado no foro da própria consciência. Elas tornam antes patente uma espécie de paralelismo entre o dito e o pensado, paralelismo esse que, aqui e ali, se vai quebrando, fazendo com o que é dito seja prosseguido no diálogo interior ou que certas intervenções sejam o resultado daquilo que, no momento, perpassa na consciência de quem fala. O efeito pretendido é o de usar uma reunião social entre amigos, onde a conversação está sempre policiada pela etiqueta e as boas maneiras, como uma situação de revelação da verdade dos presentes.

A corrente de consciência, a de cada um dos protagonistas, torna-se o lugar onde parte da verdade se revela. Raramente essa verdade conflitua com a verdade do discurso, com as palavras trocadas no diálogo social. Não se trata de utilizar a revelação feita pela descrição dos pensamentos para mostrar uma duplicidade, um falseamento ou uma distância acentuada entre a máscara social e um eu interior e autêntico. Trata-se antes de criar um efeito de complementaridade entre o eu íntimo e a persona social. Trata-se também de mostrar a essência da arte de conviver, marcada pelo jogo da revelação, através da fala, e da ocultação daquilo que só pode habitar a intimidade do pensamento.

Tudo isto nos coloca perante o título da obra. Viver com os outros é um jogo marcado pelo equilíbrio entre o que se diz e o que se pensa, entre o que pode e o que não  pode ser partilhado e tornado público. A Tia Leopoldina, por exemplo, pôde rememorar uma aventura amorosa de uma noite ocorrida há muitas anos atrás, no início da sua vida de casada, enquanto o marido, Vladimiro, se encontrava ausente. Ou pôde deixar correr na sua consciência o que pensava  de duas das suas antigas amigas, mães de dois dos homens ali presentes. Não pôde, porém, tornar público cada um destes pensamentos. Seria de uma inconveniência imperdoável. E como a Tia Leopoldina, cada um dos presentes é percorrido por pensamentos que a arte de viver com outros  impede que se transformem em palavras. Os desejos, as apreciações, as pequenas aversões, tudo isso se mantém secreto, embora como um elemento que, juntamente com o que é dito, revela a verdade de cada um.

Este vulgar jantar de amigos – estão presentes dez convivas – é uma pequena encenação doméstica de um salão burguês do tempo das Luzes. Ana, a anfitriã, comporta-se como uma animadora de um desses salões, onde, em França, germinou a morte do Ancien Régime, morte em nome de uma razão cuja carácter central é a sua natureza pública e a oposição ao segredo, ao não manifestado. O que o pequeno salão da Lisboa do início dos anos sessenta do século XX nos mostra, através do jogo narrativo que alterna a palavra pública  e o pensamento secreto e privado, é que a arte de viver com os outros só é possível numa situação de compromisso entre as luzes e as sombras, entre o público e o privado, entre o manifestado e o secreto. A verdade não está nem no segredo, como pretendia a tradição pré-iluminista, nem no que vem à luz, como exigiam as Luzes. A verdade de cada personagem manifesta-se nas palavras e nos pensamentos, tanto seus como dos outros. Uma verdade que, através da fala, se manifestasse plenamente à luz do dia, teria uma natureza luciferina. As boas maneiras, a arte do convívio social, são um exercício de precaução que, não fazendo renascer o paraíso, evitam que a vida se torne num inferno.

sábado, 22 de dezembro de 2018

No Limiar da Porta 20. Um arco-íris poisa-te

Erwin Blumenfeld, Variant of Vogue U.S. cover March 15, 1945

20. Um arco-íris poisa-te

Um arco-íris poisa-te
nos ombros,
dedilha-te o dia,
enovela-te na noite.

Toco-te. O vento sopra
no dédalo do desejo.
Na luz do Inverno,
o sol da cegueira.

1978

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Alguma preocupação

Wassily Kandinsky, Caprichoso, 1930

Apesar do humilhante flop dos chamados coletes amarelos nacionais, as forças políticas e os defensores das instituições da democracia representativa não devem subestimar o espírito que está por detrás do acontecimento. Por boçais e indigentes que possam ser certas intervenções, há um conjunto de sinais larvares que deveriam inquietar toda a gente. O mais preocupante é o ódio ao parlamento. Uma sociedade democrática não existe sem um parlamento, onde as diversas posições políticas e sociais encontram um lugar para se expressar e dirimir pacificamente interesses e perspectivas em conflito. O parlamento está no lugar da guerra civil ou da ditadura, que não é outra coisa senão uma guerra civil em que uma parte tem exército e a outra está desarmada. O pior que os partidos políticos democráticos – da direita à esquerda – podem fazer é achar que aquilo que se passou hoje, devido ao gritante fracasso, é irrelevante e tudo pode continuar na mesma. Não é por acaso que o ódio ao parlamento ressumou muitas vezes nas bocas dos candidatos a insurgentes. Em Portugal nunca foi grande a consideração popular pela instituição parlamentar. E isto nunca deve ser esquecido. O espírito do tempo é caprichoso.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Descrições fenomenológicas 35. Cães na rua

Franz Ehrlich, Azul y amarillo con un extremo blanco, 1930

No parapeito de uma janela baixa, um cão branco olha para o fundo da rua, uma pobre viela, as orelhas dobradas para trás, numa pose de expectativa, como se não tivesse a certeza de que aquilo que espera vá acontecer. É um cão de olhar inquisitivo, tocado por um brilho que, por instantes, parece desvanecer-se e logo volta intenso e esperançoso. O sol bate nas paredes e ilumina o trabalho dos anos, as rugas nas casas velhas, o esventramento dos muros, a humidade do empedrado que cobre, incerto e cansado, a terra do chão, maculada pela água que a chuva da noite ali depositou, como nos homens os acontecimentos depositam resíduos fluidos na memória. Numa das paredes, um grafiti descreve, a negro, uma qualquer dor de alguém que por ali passou. Numa das janelas, um vulto perscruta a rua, encosta a testa ao vidro e deixa que a respiração o embacie. Depois, afasta a cabeça e com o dedo desenha no vidro turvado um hieróglifo, e afasta-se para dentro de casa. O cão branco continua alerta, enquanto outro, escuro e pequeno, vem sorrateiro, pára e fica, sob a luz que lhe faz cintilar o pêlo, a olhar para o seu companheiro. Este nem repara. Uma sombra desenha-se ao fundo. Então o cão branco arrebita as orelhas, ladra, salta para a rua e corre em direcção a alguém que o chama, enquanto o sol se reflecte no vidro dos candeeiros públicos e o cão preto prossegue em silêncio o seu caminho.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

As notas, esse bode expiatório

Juan Botas, School, 1989

Esta entrevista no Público, à volta dos resultados de um inquérito sobre o estilo de vida dos adolescentes, é um repositório de lugares comuns, em consonância com as banalidades em que repousam as actuais políticas educativas. O momento culminante dá-se quando a entrevistada, a investigadora Margarida Gaspar de Matos, afirma: “Parece que o ensino está todo virado para a nota em vez de para o conhecimento académico e das pessoas. E isto é uma escola muito punitiva. É uma escola que existe para enfardar conhecimento e não para fazer com que as pessoas desabrochem do ponto de vista da cultura e do conhecimento do meio.”

Deixemos de lado o lirismo do desabrochar e a elegância de enfardar conhecimento. Onde é que este género de pensamento acha que os professores vão buscar as notas que dão? Não há, a não ser na imaginação destas pessoas, qualquer conflito entre nota e conhecimento académico. Quanto mais conhecimento académico os alunos adquirem melhores são as suas notas. Na verdade, o que está a ser dito - sem haver percepção disso - é que a escola é muito punitiva porque exige conhecimento académico aos alunos. Este falso dilema, que opõe classificação escolar e conhecimento académico, funciona, objectivamente, para ocultar o real problema que existe na escola e na sociedade. Curioso é que o inquérito mostra o problema, mas a ideologia não o deixa ver.

Vejamos os dados. Quase 30% dos alunos não gostam da escola. Quase 52% consideram-se maus alunos. Mais de 45% não pretende fazer estudos superiores. E, para completar a imagem, os dados referentes à relação dos alunos com os conteúdos curriculares: mais de 87% dos alunos julgam-nos excessivos; quase 85% classificam esses conteúdos como aborrecidos; 82% taxam as matérias como difíceis. O que isto mostra é a profunda desadequação dos adolescentes com as exigências do conhecimento académico. As notas são um bode expiatório de uma realidade que não se quer ver.

Há em Portugal - e, de forma impressionante, nas crianças e jovens em idade escolar - uma cultura adversa à aprendizagem e às exigências do conhecimento académico. Os governos - e este com especial requinte - e certo tipo de investigadores (ideologicamente orientados) atribuem todos os males ora à escola, ora aos professores. De preferência, a ambos. A verdade, porém, é que a cultura contra-académica dos alunos - a qual tem um forte suporte social - é o principal obstáculo ao prazer de aprender, ao desenvolvimento de competências académicas e à obtenção desse conhecimento académico, que a escola tem por missão fazer adquirir aos alunos.

Enquanto se negar esta realidade, a situação só vai piorar. A não ser que a escola se transforme num parque de diversões, os currículos sejam constituídos por irrelevâncias flexíveis, as classificações desapareçam e a prestação de provas (exames) seja abolida. Assim, a coisa não piora porque deixa de existir. Enquanto se fizer das notas um bode expiatório, o país não enfrentará um problema, o da cultura adversa à escolaridade, que existe desde há muito, mas que se tornou patente quando começou a ser exigido uma grau elevado de formação académica a toda a população. Podemos levar as notas ao altar e sacrificá-las aos deuses, mas isso não vai tornar os alunos mais conhecedores e mais capazes. Pelo contrário.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Joaquim Paço d'Arcos, A corça prisioneira


Sexto e último romance da Crónica da Vida Lisboeta, A Corça Prisioneira, de Joaquim de Paço de Arcos, explora o território ambíguo que, mais do que separar, une traição e fidelidade. A temática da traição amorosa vem sendo explorada desde o primeiro romance do ciclo. Em todos eles, diversas personagens femininas são dilaceradas pelo conflito entre a fidelidade à convenção, representada pelo casamento enquanto contrato e instituição, ou a fidelidade a si mesmas, à inclinação provocada pelas afecções da alma e pelos desejos do corpo. Neste último romance, o jogo entre fidelidade e traição coloca-se, todavia, a vários níveis, indo muito para lá da questão amorosa e sexual, apesar de ambas constituírem os pólos de um eixo, em torno do qual roda, sem parar, a vida dos homens.

O tempo romanesco corresponde ao primeiro lustro da década de cinquenta do século XX. Estamos em plena Guerra Fria e vive-se a época em que o equipamento atómico dos arsenais militares se tornou decisivo na geoestratégia mundial. Portugal seria um exportador de urânio para as potências aliadas, mas a sua produção é também disputada pela União Soviética. Uma empresa fantasma, dirigida, através de testas-de-ferro, por personagens influentes na vida económica, tenta desviar parte de produção para os soviéticos. É nesta trama que um dos principais produtores nacionais, Fernando Malafaya, um grande proprietário, é apanhado, através das manobras do seu sogro, um burlão que, antes de ser descoberto, se tinha alcandorado dos lugares mais baixos de um banco ao topo da sua administração. Saído da prisão, trai a boa-fé do genro e causa-lhe, pela sua aliança com os empresários feitos com os soviéticos, uns percalços desagradáveis com a polícia política. Paço d’Arcos manifesta as frágeis fidelidades políticas dos homens de negócios, a sua duplicidade, marcada por uma adesão de superfície e uma fidelidade funda aos seus interesses privados.

É também o tema da fidelidade e da traição aquele que diz respeito a Alberto de Lemos. Este era um antigo amigo de Malafaya, quando ambos estudavam em Paris, antes da II Guerra Mundial e da ocupação alemã da capital francesa. Apesar de serem politicamente afastados – Malafaya era monárquico e Lemos, comunista – tinha nascido uma amizade que não teve continuidade em Lisboa. Alberto, um físico de prestígio, retornara a Portugal e, apesar das inclinações ideológicas de juventude, já esmorecidas, trabalhava na Comissão de Energia Nuclear. Três fidelidades disputavam a sua pessoa. A do regime, devido ao papel destacado que tinha num organismo científico tão sensível do ponto de vista político. A dos antigos camaradas do Partido Comunista, que tentavam explorar as suas antigas crenças, em proveito dos soviéticos. A da sua vocação de cientista, que era a única que, na verdade, o movia e determinava as suas opções. Se não foi fiel aos seus antigos camaradas, também não o era ao regime. E se com isso evitou a prisão, não pôde esquivar-se a uma expulsão do país.

Um encontro inesperado em Paris entre Malafaya e Lemos, no período do pós-guerra, conduz ao reatamento da velha amizade em Lisboa. E aqui entra de novo o tema da fidelidade e da traição, agora no campo do amor e da amizade. A mulher de Fernando Malafaya, Leonor, tinha sido explicanda de Alberto e entre eles teria ocorrido uma equívoca situação amorosa que ele tinha deixado cair aquando da prisão do pai de Leonor. Esta, porém, nunca o esquecera e o reencontro foi oportunidade para desenvolver uma paixão funesta. No centro do triângulo amoroso, estava Fernando Malafaya. Que tinha sido traído pelo sogro, e era agora traído pela mulher e pelo amigo de juventude. Com a descoberta da situação, porém, Malafaya mantém-se fiel ao seu compromisso com a religião. Não desfaz o casamento. 

Leonor é a corça prisioneira, que casa com Fernando quase como vingança contra a mãe deste, que, como madrinha a recebe em casa e a maltrata continuamente, após a queda e prisão do pai. A sua traição é o outro lado da fidelidade profunda ao seu desejo. Alberto é apenas fiel à sua vocação de cientista. Trai o amigo, a amante, os antigos camaradas e o próprio regime que o acolheu. Tudo isso era, na verdade, irrisório para ele. Fernando é traído três vezes, mas mantém-se fiel às suas convicções espirituais. O triângulo amoroso encarna três tipos de fidelidade. A fidelidade ao corpo e ao desejo, em Leonor, a fidelidade à vocação e à vontade, em Alberto, a fidelidade ao espírito e ao sentimento, em Fernando.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

No Limiar da Porta 19. Corpo profanado

Ed van der Elsken, Tokyo, 1984

19. Corpo profanado

Corpo profanado
pela errância.
As mãos sujas
de cal e desejo.
Olhos presos
à muralha da espera:
sombra de cetim,
peso da claridade.

1978

domingo, 16 de dezembro de 2018

Ensaio sobre a luz (43)

Antonio Fontanesi, A Sestri Levante dopo un giorno di pioggia, 1856-7

A chuva é uma luz líquida que cai para se entranhar na terra e fazê-la cintilar, se o sol se descobre e os seus dardos caem, tomados de piedade, nesses lugares que as nuvens cobriam com o vaticínio duma noite eterna.

sábado, 15 de dezembro de 2018

Knut Hamsun, Victoria


Publicado em 1898, Victoria é um pequeno romance de Knut Hamsun com cerca de 120 páginas, na tradução portuguesa, de Carlos Aboim de Brito, para a Cavalo de Ferro. Aparentemente, é mais uma história de amor contrariado. Na verdade, é uma bela e encantada meditação sobre as obscuras forças que superintendem a vida dos homens, e que a uns concedem a felicidade e a outros, a desventura. Isto sem que a conduta moral e até a posição social de  cada um se relacionem com o quinhão de fortuna ou de infortúnio que lhe cabe. Por isso a obra ultrapassa os limites do romance moderno, sem negar essa pertença, para estabelecer laços sólidos com as velhas e tradicionais narrativas míticas. Talvez não se possa falar de amor sem esse recurso ao pensamento mítico e à dimensão encantatória deste.

Não se pense, contudo, que vamos encontrar seres transcendentes a manipular os destinos dos dois apaixonados. O que vemos são as forças sociais, as decisões individuais ou a própria dinâmica biológica a ganharem uma dimensão tal que parecem ser agentes de poderes que ultrapassam a limitada capacidade dos homens. A história gira à volta dos destinos de Victoria, a filha do castelão, uma importante personagem local, e Johannes, o filho do moleiro. Desde crianças que se sentem atraídos um pelo outro. O obstáculo principal não vem tanto da diferença social entre ambos, mas do facto do pai de Victoria se encontrar arruinado. A sua única salvação é o casamento da filha com alguém que possua muito dinheiro e que possa assim contribuir para equilibrar a situação financeira do castelão. E a filha, sentindo ser esse o seu dever moral, condescende com a pretensão paterna.

Os obstáculos centrais à consumação do amor entre os apaixonados – a diferença social e a existência real de um pretendente que satisfaz os anseios do pai de Victoria – acabam por desaparecer. O pretendente morre num acidente de caça, na altura em que é anunciado o noivado. A situação social também se tinha invertido, de algum modo. Victoria é filha de um castelão arruinado e Johannes, que chegou à universidade,  tornou-se num poeta famoso, ainda jovem. Um homem importante que, como tal, chega a ser recebido no Castelo, precisamente no dia em que é anunciado o noivado de Victoria. A inversão da situação social e o desaparecimento dos obstáculos – a morte do pretendente e a posterior morte do próprio castelão – não foram suficientes para que desaparecesse aquilo que desde o início separara os dois jovens.

O que o romance revela, assim, é que as questões sociais, por importantes que sejam, não são em última análise as mais decisivas. Os obstáculos sociais, esses ainda podem ser ultrapassados, ou porque são enfrentados e derrotados ou porque, como no romance, o destino os faz desaparecer. E é neste fazer desaparecer, quase por milagre, dos obstáculos sociais de um amor e, mesmo assim, este não encontrar um caminho para a sua consumação, que está a arte de Knut Hamsun. A eliminação das barreiras não significa a supressão da tensão dramática e a transformação do romance numa espécie de conto de fadas. Outras forças mais inquietantes e mais obscuras cerceiam o desejo e limitam a finita vontade humana.

A realidade é mais ampla do que a mera dimensão social, e mais sombria. O autor sublinha-o sem nunca o afirmar e sublinha-o de várias maneiras. A mais surpreendente é através do contraste. A essa realidade humana umbrosa, contrapõe descrições luminosas da paisagem norueguesa. Não são as paisagens que são em si luminosas, são as descrições que sublinham a beleza dos campos onde se desenrola a infância  das personagens e que são o enquadramento do seu amor, se não mesmo um dos seus detonadores. Esta luz, porém, sublinha a sombra que se projecta nos destinos de Victoria e de Johannes, gerando um efeito de encantamento mítico, que o leitor sente na leitura de uma história aparentemente banal e de leitura fácil, mas que é tecida por um complexo e difícil jogo narrativo, que o autor tem o condão de esconder para que tudo pareça transparente ao leitor. Uma pequena obra prima.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Inquietação

James Ensor, The Scandalized Masks

Há uma coisa profundamente inquietante no ataque terrorista ocorrido esta semana em Estrasburgo. O inquietante não nasce do facto de o atacante ser um lobo solitário, nem de ter perpetrado o ataque numa cidade simbólica para a União Europeia, nem de o alvo ser um mercado de Natal. Tão pouco brota de o atacante ter conseguido fugir e, posteriormente, ter sido abatido, sem que se possa vir a conhecer as suas reais motivações. O inquietante nasce deste ataque já não ter provocado inquietação. Não provocar inquietação não significa apenas que os europeus sabem que têm de conviver com o terror dentro das suas fronteiras e que isso se banalizou e faz parte do hábito social, ao qual se reage burocraticamente. Não provocar inquietação significa que uma zona obscura em nós já legitimou a existência destes ataques. Ao nível consciente, ainda sabemos que o terror é ilegítimo do ponto de vista do direito. Ao nível inconsciente, a Europa, de certa maneira, já concedeu uma negra legitimidade fáctica ao terror. E isto é inquietante. Profundamente.