sábado, 1 de fevereiro de 2020

Sintomas de degradação


Os portugueses decidiram brindar o parlamento com a presença de mais três partidos políticos. Deixemos de lado a Iniciativa Liberal. Partido de low profile dirigido a um pequeno nicho do mercado eleitoral, tentativa morna de importar para um país católico e do sul da Europa uma ideologia dos países protestantes e frios. Concentremo-nos nos outros dois, o Chega e o Livre. Eles são um sintoma da degradação que começa a corroer as instituições democráticas. Diga-se, em abono da verdade, que a eleição de deputados populistas não é uma novidade. Logo nas primeiras eleições democráticas, o deputado da UDP era um exemplo de populismo.

O caso da eleita pelo Livre, por seu lado, tem menos a ver com o partido do que com a personalidade da deputada. O Livre é um partido reformista, com preocupações ecológicas e uma visão europeísta. Daquilo que se conhece dos seus militantes e do fundador, o historiador Rui Tavares, nada faria supor o que está a acontecer. Ao arrepio da agenda de uma esquerda cordata, a agenda da deputada Joacine Katar Moreira é radical, preocupada com questões identitárias e centrada em temas restritos como o racismo e o feminismo. Isto não dá para uma política e emparelha com perspectivas políticas também elas identitárias e que se movem no outro lado do debate sobre o racismo e o feminismo, isto é, o Chega.

O Chega surgiu para explorar o ressentimento social, um mercado eleitoral que estava por ocupar. Vive do folclore tribunício de André Ventura. Explora a má fama da classe política e o sentimento de inveja dos portugueses. Ventura apresenta-se como salvador e justiceiro. No entanto, o partido está desde o começo envolvido em problemas, seja o da recolha de assinaturas, seja o do programa político ocultado, tão desagradável era, seja o do conflito entre o chefe e o ex-porta-voz, Sousa Lara, seja agora com a irónica notícia de que estaria infiltrado pela extrema-direita neonazi.

A chegada ao parlamento de partidos ou deputados populistas e a possibilidade que pelo menos um desses partidos tem de crescer e de se imiscuir no funcionamento das instituições deveriam levar os partidos democráticos a uma profunda reflexão sobre o seu papel na emergência destes fenómenos. Os portugueses não gostam de se comportar como os nórdicos, mas exigem que as suas elites políticas o façam. Exigem-nas isentas, frugais e comedidas. Enquanto as elites políticas não o forem, o populismo tem campo significativo para crescer e para corroer o regime democrático.

[A minha crónica em A Barca]

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Beatitudes (21) Sombras efémeras

Charles Marville, Allée bordée d'arbres, 1850-53
Os longos passeios sob a copa das árvores raptam os corpos aos terrores do Verão e abrem os espíritos à confidência. Os enamorados, de mãos dadas, caminham devagar e naquelas sombras benévolas vêem a promessa da sua eterna felicidade, incapazes de compreender que também a sombra é efémera.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

A Casa Esquecida 2

Lee Krasner, Black and White, 1951

Um traço de azul corta-te o corpo,
desenha a luz na lâmina do olhar,
a mágoa da manhã como um fruto
a sangrar no sussurro do coração.

Ao longe, o mar, as dunas, um véu
de água preso ao silêncio, ao aroma
da maresia vinda no vagar das mãos,
no tempo tecido na teia da tua voz.

(1981)

domingo, 26 de janeiro de 2020

Alma Pátria 59: Aldina de Souza, O Trevo


(Para ouvir, clicar aqui)

Há coisas misteriosas, mesmo numa rubrica tão pouco dada ao mistério quanto este Alma Pátria. A visita de hoje é ao início dos tempos em que a ditadura tecia, com fios de aço, a teia com que acorrentou o país por décadas. O mistério reside no facto de estar atribuído o ano de 1931 (ver aqui) à gravação do 78 rotações onde está incluída canção O Trevo juntamente com As Sevilhanas, ambas pertencente à revista A Bola, e Aldina de Souza, a intérprete, ter morrido em 1930 vítima de uma doença que a acometia há cerca de um ano (ver aqui). Seja como for, fica aqui um testemunho desses primeiros tempos, onde a revista e a bola tinham um papel importante na diversão dos portuguesas. A revista morreu com o fim da ditadura, a bola democratizou-se e não no melhor sentido.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Rui Rio faz o seu caminho


Rui Rio tornou a vencer as eleições internas do PSD. Isso terá contrariado muita gente à direita, gente despeitada e ansiosa de que se retorne à política de punição das classes populares imposta por Passos Coelho. Rui Rio representa uma outra vertente do centro-direita. Nele não há ressentimento contra as classes populares, não se ilude com as fantasias dos putativos liberais portugueses e parece conhecer bem a estratificação do nosso tecido social. Tem outras virtudes. É autêntico, diz o que pensa e é capaz de enfrentar os poderes instalados, como se viu no Porto.

Certos sectores da direita – e também na esquerda, claro – acham-no um provinciano e uma personagem a fazer lembrar os tempos do Estado Novo. Será um provinciano, mas também um democrata convicto. Julgo que, apesar dos defeitos e limitações que possui, tem virtudes suficientes para dar um bom primeiro-ministro, que poderá introduzir um conjunto de rupturas importantes para o país, sem esfrangalhar o tecido social e sem devanear com as tontices liberais debitadas pelo grupo que rodeia o jornal Observador. Será liberal na economia, mas não tentará destruir os sindicatos nem o Estado social. Estará mais próximo de Angela Merkel do que de Margaret Thatcher.

Poderá derrotar a esquerda? Neste momento, a tarefa parece impossível. No entanto, a esquerda está mais frágil do que parece. É maioritária, mas não tem um projecto político comum. Mais do que isso, deixou de existir o temor da devastação social que Passos Coelho gerou em toda a esquerda e a uniu. Rui Rio está muito longe de assustar desse modo tanto o BE como o PCP. Por outro lado, a inconsistência, a arrogância e a falta de rumo do actual governo, com uma equipa ministerial fraca, tornar-se-ão, com o passar dos meses, cada vez mais óbvias. Os portugueses começarão a cansar-se de António Costa e a procurar uma alternativa.

Para chegar ao poder, Rui Rio precisa de sorte e de resolver três problemas. O primeiro é a criação de uma alternativa mobilizadora do país, tanto ao nível programático como no das pessoas com que se rodeará. Em segundo lugar, terá de unir o partido, sarar as feridas e curar as fracturas, o que o aroma do poder ajudará. Por fim, terá o problema mais complicado, o de ocupar o terreno da direita social que o estado comatoso do CDS está a deixar em aberto e que pode ser pasto para um partido como o Chega. Apesar da desvalorização que Rio tem feito das reais tendências antidemocráticas e iliberais do partido de André Ventura, seria uma vitória de Pirro ganhar as eleições e depender de gente como essa.

[A minha crónica no Jornal Torrejano]

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Beatitudes (20) O sábio desejo

Ilse Bing, Poster, Henry VIII, 1934
Também a memória que os homens deixam atrás de si é como os cartazes de publicidade colados em paredes e paliçadas de madeira carcomida pela humidade do tempo. Por um instante será vívida, depois empalidecerá e começará a rasgar-se. Haverá ainda lugar para fragmentos, mas serão quase irreconhecíveis, até que se tornará poeira levada pelo vento. Aceitar esse destino é mera resignação. Desejá-lo é o princípio da beatitude.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Ensaio sobre a luz (76)

Lilla Cabot Perry, A Snowy Monday, 1926
A neve resplandece no silêncio da paisagem. Vestígios de vida, promessas de ressurreição, um céu indeciso entre o Inverno e a Primavera. As árvores há muito despidas pelo vendaval esperam a luz que de súbito lhes traga o seu domingo de Páscoa.

sábado, 18 de janeiro de 2020

A Casa Esquecida 1

Gerhard Richter, Abstraktes Bild, 1994

Falavas do sol. Maio era uma maré de azul,
perfume oblíquo a ornar o sopro dos dias,
a clareira sôfrega desenhada sem demora
na cratera de cinza ou na esquina de erva.

Que palavras de sombra terei para te dar?
É uma casa geométrica, macerada
na névoa do cais, na brancura dos gestos.
Olho em teus olhos, o limo das lágrimas
a pulsar-me na língua, a imperfeição
com que roças as pedras da primavera.

Cuida da memória desta manhã, da luz
omissa da roseira, do pó que te cai do corpo,
promessa de chuva no herbário das mãos.

(1981)

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Nocturnos 4

Charles Hewitt, Night Time Coffee, London, 1952
A cidade sonâmbula desliza por dentro da neblina, recolhe-se temerosa do bafo fétido da invernia. As cabines telefónicas estão vazias. Apenas uma mulher aguarda o café que lhe permitirá enfrentar o rugir cadenciado das trevas, as mais negras, as que habitam na cave sombria do seu coração.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Arte, público e política

Arménio Dias, Escultura de Pedro Cabrita Reis vandalizada, 2019 (aqui)

Pedro Cabrita Reis, em artigo de opinião no Público, expõe a sua posição perante a polémica que se gerou com a inauguração da sua obra A Linha do Mar, no concelho de Matosinhos. A polémica oscilou entre a questão política – deverão as entidades públicas, à revelia dos eleitores e contra o sentimento estético destes – encomendar obras de arte para o espaço público e a questão estética – saber se aquela obra é ou não uma obra de arte.

O que o autor faz é a afirmação plena do artista, numa autonomia radical perante o público, onde se incluem o mercado e outros agentes que volteiam em torno do mundo das artes plásticas. Arte é aquilo que o artista determina enquanto tal. Esta perspectiva é completada pela ideia de que a obra de arte começa no pensamento do artista ou, para citar o insuspeito Leonardo da Vinci quando se referia à pintura, é uma coisa mental. A arte reside na subjectividade do artista e a obra material é apenas a manifestação dessa concepção subjectiva.

A autonomização progressiva da arte a que se assistiu a partir do Renascimento desaguou no conflito, que se tornou manifesto no século XX, entre parte significativa da arte contemporânea e o gosto do público, que se sente impotente para se transferir para a mente do artista e compreender as operações mentais que geram obras que ele não compreende e, pior, sente como ofensa ao seu sentimento estético. Enquanto a arte se exibe apenas no ambiente climatizado das galerias privadas, o grande público encolhe os ombros, pois nada daquilo lhe diz respeito.

O problema emerge quando, como no caso de Leça, a obra de arte está no espaço público e foi adquirida com dinheiros públicos. Como muitos argumentaram, a obra foi paga com os impostos daqueles que nunca dariam um cêntimo por uma obra de Cabrita Reis, pois não a compreendem, sentem-se ofendidos no seu sentimento estético e na sua ideia do que deve ser uma obra de arte. Este conflito entre a autonomia do artista e o gosto do público não tem solução. A autonomia do artista e da arte são bens que os artistas preservam como tão importantes quanto a vida e não é crível que uma massiva educação escolar tenha poder de alterar radicalmente o gosto do público.

Curioso em tudo isto é o papel dos agentes políticos dentro desta tensão. A sua decisão de escolherem artistas que o público não gosta tem um resultado paradoxal. Transforma uma diferença de percepção do que é ou deve ser a arte num diferendo em que, como no caso de A Linha do Mar, o antagonismo ultrapassa em muito um mero desacordo. Basta ler muitos dos comentários para perceber o grau de rancor e ressentimento que envolve a apreciação do trabalho do escultor. A presença do político gera uma explosão.

Todavia, esta explosão, gerada pela presença do elemento político, tem uma função iluminadora e isso é o outro lado do paradoxo. O público incapaz de perceber a obra de arte é posto perante o facto desta obra. Ela está ali e está iluminada pela polémica. Vai ser obrigado a olhar para ela e começar a vê-la. Ela saiu do espaço da indiferença sombria para uma clareira de onde o olhar não se pode desviar. Sem dar por isso, o público é invadido pela obra e esta começa a trabalhá-lo, a educar-lhe o olhar através do hábito da presença. A imaginação, de forma secreta, estabelece relações inesperadas, o que era negativo e tenebroso transforma-se lentamente no seu contrário. A coisa conceptual gerada na mente do artista torna-se também numa coisa conceptual na mente do espectador. Sentidos começam a nascer, linhas hermenêuticas abrem uma brecha no sentimento estético e começam a iluminá-lo. E isto será o que se pode esperar de uma obra de arte.

domingo, 12 de janeiro de 2020

Uma teocracia em apuros

Xaime Quessada, La Guerra, 1967
A imagem da república islâmica do Irão - uma teocracia no mundo moderno - não podia ter caído mais baixo do que caiu nos últimos dias. Não bastava já a humilhação de ver abatida uma das figuras mais importantes da estrutura política do país, numa acção de força marcadamente ilegal mas que ficará impune devido à impotência real do Irão perante os EUA, como a sua organização social e militar mostraram fragilidades insuportáveis. No funeral do general abatido, num clima de histeria política produto do acto americano e do discurso inflamado local, mais de cinquenta iranianos morreram esmagados pela turba. Depois, são os próprios iranianos que confundem um avião comercial com um míssil e o abatem, causando, para além das vítimas, muitas delas iranianas, um problema diplomático de não pequena monta. Esta imagem de impotência e fragilidade parece ser o oposto da inflamação dos discursos dos responsáveis em que a combinação da retórica política com a religiosa faz parecer que o Irão tem o poder de trazer o Apocalipse ao mundo ocidental. Enquanto isto, Israel sorri e ganha espaço para agir contra o Irão se tiver de o fazer para sua defesa. 

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

O discurso do rancor


Vivemos num país cordato e seguro, onde a violência é diminuta e o respeito pelos outros é significativo. Somos, ao mesmo tempo, medianamente ricos e medianamente pobres e, ao longo destes anos de democracia, temos sabido resolver os problemas com que nos deparámos. A nossa economia não é das mais brilhantes, mas também não é das piores. Não existem problemas com a presença de grandes comunidades estranhas à nossa cultura de base nem, tão pouco, nenhum perigo perceptível ameaça a independência e a liberdade da nação. Todos estes dados seriam suficientes para que nos fosse completamente estranho o discurso de rancor que existe nas redes sociais, que se propaga a grande velocidade, fazendo multiplicar as metástases da doença por todo o corpo social.

Esse rancor encontrou agora uma voz na Assembleia da República, voz que ameaça multiplicar-se. Pessoas que até aqui tinham mostrado posições políticas cordatas e razoáveis, onde imperava a tolerância com a diferença, estão a radicalizar-se, fazendo coro com os exploradores do ressentimento. Neste momento, a radicalização e o rancor vêm claramente da direita. Noutros tempos vieram da esquerda, embora nunca tivessem encontrado, nessa altura, a complacência social que existe neste momento para este tipo de discurso de ódio. Frequentar as redes sociais é uma lição sobre a erosão que a ideia de tolerância está a sofrer no nosso país. Esta radicalização social à direita – não nos partidos tradicionais da direita democrática, embora estes estejam já ameaçados por este clima – irá gerar, mais tarde ou mais cedo, idêntica radicalização social à esquerda.

Uma parte do país, ainda pequena mas em crescimento, parece apostada em criar um clima de ódio tal que poderá vir a pôr em perigo as instituições democráticas. O desejo de aniquilar o outro não é uma coisa que se diga apenas em surdina num grupo de amigos. Esse desejo é expresso todos os dias nas redes sociais, onde se multiplica como as células cancerosas no corpo de um paciente. Sabemos que entre fazer um comentário no facebook e passar à acção vai uma longa distância. No entanto, a banalização do discurso do ódio e do rancor social está a criar o clima que legitimará a acção violenta e, acima de tudo, a rejeição das instituições da democracia liberal. Muitas destas pessoas pretendem, a partir do discurso do rancor, abrir o caminho para tempos de cólera. Há gente que sonha com a violência como medida purificadora sabe-se lá de que pecados. Veremos se os nossos brandos costumes são suficientes para travar a raiva que parece haver por aí.

[A minha crónica no Jornal Torrejano]

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

A Origem da Luz 5

Sam Francis, Around the Blues, 1957-1962

Como posso voltar a esta casa e não ver o fogo?
Sou as cinzas, o carvão do olhar no ocaso do dia.
Todas as ciências me interditaram o puro ver,
montanhas erguidas na dor dos meus olhos,
cansados, esquecidos na núbil noite dos ofícios.

Casa branca e fugaz, casa de cal no calor do Estio.
Casa de sombra onde vozes e mãos ecoam,
jogam o destino que em mim se joga. Esqueci-me
das silenciosas perguntas, das faúlhas a ranger
nesta terra azul, na pedra fatigada presa ao céu.

Os mortos não me enlouquecerão pela ausência.
Na Primavera, cabelos de neve traziam o pólen
e na água dos tanques nascia uma imagem.
Imaginando, o corpo crescia e a imagem,
um espelho de onde fujo para a noite a sangrar.

(1981)

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Beatitudes (19) O ilimitado

John Gutmann, The Cry, 1939
Não haverá hora mais feliz do que aquela em que um obstáculo é fendido e uma mão acena para além daquilo que tolhe o homem. Quebrar o que limita, abrir-se ao ilimitado é o único caminho para a beatitude.

sábado, 4 de janeiro de 2020

Nocturnos 3

Izis, Place de la Concorde, Paris, c. 1958
Uma aguarela sombria ou então a história de como a luz brilha nas trevas e estas não a reconhecem. A noite avança, lenta e incauta, em direcção ao dia, que se faz anunciar no artifício eléctrico. Os homens dormem pois temem tudo o que a escuridão torna secreto.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Descrições fenomenológicas 49. Um homem espera

Victor Vasarely, Serigraphie Originale. Avec une Etude de Imre Pan, 1960

A esquina do prédio assinala o cruzamento de duas ruas, daquelas que se encontram nas grandes cidades mas ao serem olhadas com demora lembram as das pequenas vilas de província, se não mesmo de algumas aldeias mais populosas, memórias que vêm agarradas aos corpos e às vidas que para ali foram transplantados. Nas paredes há cartazes anunciando toda a espécie de espectáculos. Teatro, circo, um combate de boxe, até uma representação da Manon Lescault. São assim as grandes cidades, onde em espaço tão próximo convivem espécies que ninguém se lembraria de sentar à mesma mesa. Voltada para a rua principal, existe uma farmácia, com a sua porta metálica e uma montra com produtos de beleza. Entram e saem pessoas com ar sofrido, silenciosas, pois a doença, sua ou de alguém próximo, precipita-as para um irremediável desconsolo, mesmo que o mal não seja mais que uma leve constipação, que o ponderado conselho do farmacêutico ajudará a debelar com brevidade. O trânsito passa indiferente e lento, lançando baforadas de fumo que se elevam, deixando um odor rançoso no ar. No passeio, exactamente na esquina do prédio, um homem especado espera. Tudo nele é anacrónico. O chapéu de abas bege com fita negra, o fato com colete, a gravata com um padrão que se terá usado há um século. A mão esquerda repousa no bolso das calças, enquanto a direita segura um cigarro, levando-o à boca para aspirar o fumo, que logo expele pelas narinas. Forma-se então uma pequena nuvem azulada pela luz. O homem olha fixamente para o fim da rua, indiferente aos clientes que entram e saem da farmácia. Quem ele espera, por certo, não precisará de medicamentos nem de conselhos sobre o estado de saúde. Por vezes, nota-se-lhe na face um rito de desapontamento, mas logo desaparece sob uma sombra de irritação, que acaba disfarçada por um sorriso paciente e uma bonomia jocosa. Parece saber que a espera será infrutífera, embora não possa deixar de se lhe entregar. Nunca é tentado a ver as horas no relógio de corrente adormecido num bolso do colete, como se a sua expectativa não fosse marcada pelo ritmo dos minutos e das horas, demasiado exíguo para assinalar o tempo que terá de aguardar. Quando o cigarro acaba, atira-o com indiferença para o chão, pisa-o com desdém e acende um novo com um fósforo retirado de uma pequena caixa de cartão. O olhar não se desprende do fim da rua, o corpo está grudado ao passeio. Da farmácia sai uma bela mulher, passa por ele, olha-o surpreendida e continua. Os olhos dele nem se movem presos à esperança daquilo que há-de vir do fim da rua e crescer para dentro do seu olhar nunca cansado de esperar.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

E se a democracia representativa acabar?

Juan Barjola, Multitud, 1990

A democracia representativa foi uma invenção genial. Com ela tinha-se o melhor de dois mundos. A possibilidade de todos participarem no processo político e uma barreira sólida, embora discreta, aos desmandos e delírios da massa. A democracia representativa foi inventada contra as pretensões irrazoáveis da massa. Não é perfeita, o seu formalismo pode ser, e tem sido, capturado por interesses particulares, mas nunca prometeu um paraíso na terra. É um regime cordato que tem permitido uma vida civilizada entre homens com ideias e paixões distintas. Agora que a revolução digital está a dinamitar a democracia representativa e a abrir caminho para uma nova forma de democracia fundada no gosto e arbítrio da massa, no seu rancor ao outro, começa a justificar-se toda a desconfiança com que a democracia foi olhada desde Platão. O gosto da massa, os seus instintos mais rudes, a sua incompreensão por aquilo que é mais elevado, o ódio e ressentimento ao que não compreende são o caminho que, não sendo atalhado, destruirá o que ainda há de nobre na democracia representativa, podendo abrir a via para um totalitarismo que, devido ao desenvolvimento tecnológico, fará dos totalitarismos do século XX uma brincadeira de crianças.

domingo, 29 de dezembro de 2019

A Origem da Luz 4

Zao Wou-Ki, 10-2-76

O tempo em que voltavas com os teus mostruários,
pequenos faróis vermelhos, ébrios de tanto caminhar.
Sonolentas bicicletas iam e vinham, cerziam a aldeia
de lés-a-lés, como se um deus infrutífero descesse e
poisasse insensato na calma placidez dos dias.

Aqui, destas janelas, avistei o insuspeitado mundo
e nada era puro ou mácula alguma habitava
o regaço das mulheres. As coisas eram o enorme
incêndio de serem apenas coisas, pedaços terríveis
na sujeição ao tempo, o feroz tribunal sem lei.

Eras a presença tutelar, o meu respeito,
caminho de argila e calcário a abrir-me ao mundo.
Trazias-me as cores e um dever ser, o crime jamais
alguém o pagará. Pedra a pedra o universo cresceu e
sobre mim desabou. Nele um deus infrutífero nascia.

(1981)

sábado, 28 de dezembro de 2019

Dos milagres em educação

Pablo Picasso, Head of the Medical Student, 1907

Fiquei espantado, mas há pouco descobri que nos colégios católicos não se acredita em milagres. Estive a ler a ficha de avaliação de uma aluna dum desses colégios e, para espanto meu, a única coisa em que acreditam é que ela deve trabalhar mais, ser mais organizada, dedicar-se mais. Portanto, se os alunos nesses colégios quiserem ter boas avaliações a única coisa a fazer é esforçarem-se e não esperar pela intervenção graciosa do Espírito Santo. Uma ficha daquelas no ensino público gerava uma revolta parental. Nos colégios privados – bons, pois também há dos outros – os pais pagam e não protestam, não culpam os professores por aquilo que os filhos não fazem. Num colégio privado diz-se aquilo que o aluno tem de fazer, na escola pública – onde, apesar de ser laica, se acredita muito em milagres – aquilo que se indica é o que os professores têm de fazer para que os alunos cheguem ao sucesso, mesmo que estes não queiram fazer absolutamente nada. Quanto a milagres estamos conversados. Os católicos, quando se trata de educação, não acreditam neles, mas os republicanos laicos e socialistas vivem num mundo povoado de milagres.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Dizer não

Johan Hagemeyer, Wires, 1928
Também a orientação dos sonhos que guiam a humanidade é tocada pela volubilidade, ainda que isso não seja sempre aparente. Durante muito tempo sonhou-se em ligar toda a humanidade. Estabelecer contacto era um imperativo moral. A partir de certa altura estenderam-se por toda a Terra milhões de quilómetros de cabos com a esperança que, cingidos os homens pela força do cobre, estes comunicassem e, na hipótese mais favorável, se entendessem. A imaginação, todavia, nunca descansa e, agora que toda a gente parece estar enredada numa teia global, sonha em desligar, cortar a comunicação, serrar os cabos vistos como amarras que prendem as pessoas, numa comunhão que parece estar a tornar-se insuportável. O trabalho da imaginação não começa por ser um reproduzir da realidade nem, tão pouco, criar um esquema que produzirá o que é novo. O primeiro balbucio é quase sempre um dizer não.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Nocturnos 2

Izis, Trafalgar Square, London, UK, 1950

Quantas vezes a noite começa com uma promessa e acaba com uma desilusão. Sábio é aquele que nunca deixa que a ilusão se desfaça e que a realidade invada a noite com os holofotes do meio-dia, que a tudo iluminam e a tudo destroem.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Iluminações de Natal


De todas as coisas que chocam com o espírito de Natal a menor delas não será as iluminações natalícias. Começaram nos grandes centros urbanos e espalharam-se paulatinamente por todo o lado. Com a sua democratização, grandes e pequenas cidades transformaram o Natal numa espécie de Carnaval, muitas vezes de péssimo gosto. As iluminações fazem parte de uma estratégia – gerada espontaneamente ou pela mão invisível do mercado – cujo resultado é rasurar tudo aquilo que é central no Natal dos cristãos, o mistério de Deus que se faz homem num estábulo de Belém.

A degradação do Natal tem uma origem curiosa. A racionalização do mistério da encarnação, a leitura literal da história narrada no evangelho de Lucas, a transformação do cristianismo numa moral social, agora em conflito com outras morais sociais, todas estas coisas fizeram do Natal não um acontecimento a ser vivido por cada um mas uma data comemorativa, uma espécie de feriado cívico de âmbito civilizacional. Comemora-se o Natal no mundo cristão como se comemora a tomada da Bastilha em França, o 4 de Julho nos EUA ou o 25 de Abril em Portugal. Uma grande festa, um momento feérico e uma orgia de consumo, tudo às avessas da história narrada pelo evangelista.

A modernidade, o espírito das Luzes, o triunfo da ciência e da economia de mercado são factores que contribuíram para o desencantamento do mundo, para a perda de sentido tanto dos mitos como dos mistérios religiosos. O cristianismo era, na sua origem, uma religião mistérica, um programa existencial para que cada homem se transformasse em Cristo. Tudo isto se tornou, há muito, radicalmente estranho a todos nós ocidentais, sejamos ateus, agnósticos ou crentes. Mesmo numa época como a nossa em que a irracionalidade das crenças e dos comportamentos cresce rapidamente, em que as próprias Luzes parecem querer apagar-se, o mistério da encarnação perdeu o sentido, tornando-se o Natal num exercício fastidioso de compras, encontros e desencontros.

As iluminações natalícias são o sintoma de que o Natal está morto no mundo ocidental. A luz de Belém foi substituída pelo néon que anima o espírito duma época que fez da compra e da venda a razão suprema e o sentido último da vida dos homens. Ao perder-se a substância do acontecimento, ao ficar-nos vedada a capacidade de compreensão dos símbolos que se manifestam no Advento, resta-nos fingir uma grande alegria embrulhada em presentes, almoços e jantares e nessas iluminações que deixam em nós um desconsolo irreparável. Um bom Natal.

[A minha crónica natalícia em A Barca]

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Serviços públicos, superavit, sistemas eleitorais e vergonha


DEGRADAÇÃO DOS SERVIÇOS PÚBLICOS. Existe a ideia de que a degradação dos serviços públicos se resolveria com uma melhor gestão. Qualquer partido a defende desde que esteja na oposição. O problema, porém, é outro, a falta de dinheiro. As políticas de restrição orçamental não terminaram com a saída da troika e o fim do governo de Passos Coelho. Continuaram na legislatura seguinte, baseada numa coligação parlamentar das esquerdas, e continuam agora. A razão é muito simples. A dívida é enorme, os nossos parceiros europeus nem querem ouvir falar na sua reestruturação e o país continua a precisar de ter juros muito baixos. O resto faz parte do combate partidário.

SUPERAVIT ORÇAMENTAL. Consta que o governo, no orçamento para o próximo ano, se propõe alcançar um saldo orçamental positivo. A acontecer será a primeira vez nos últimos 50 anos, o que inclui governos da própria ditadura com saldo negativo. Há quem veja o acontecimento como negativo e ache que o dinheiro deveria ser gasto, continuando o país a endividar-se. No entanto, tem que chegar um momento em que a comunidade – e o Estado é a comunidade organizada para tomar decisões sobre a vida comum – tem de olhar para a realidade e viver com o que tem. Aquilo que foi iniciado no governo PSD-CDS e continuado na anterior legislatura deve prosseguir. As contas em ordem tornam o país mais forte e protegem as pessoas das visitas indesejáveis das troikas.

UM SISTEMA ELEITORAL A EVITAR. As eleições em Inglaterra confirmaram a legitimidade de Boris Johnson e dos resultados do referendo que conduz à saída da Inglaterra do projecto Europeu. O curioso é que esta vitória se dá quando o número de votantes dos partidos pró-brexit é menor do que o número de votantes nos partidos pró-UE. Como se explica isto? Pelo sistema eleitoral inglês, o qual distorce acentuadamente a representação proporcional. O Partido Conservador obteve 43% dos votos mas alcançou 56% dos deputados.

O PROBLEMA DA VERGONHA. Portugal não tem uma comunidade muçulmana significativa nem existe um qualquer problema que ponha em causa a integridade nacional como em Espanha. Estas são as grandes razões que têm feito crescer a direita populista na Europa. André Ventura, retirando alguma animosidade com a comunidade cigana e um coro de ressentidos, precisa de inventar um eleitorado. A estratégia é a indignação e a vitimização. Ferro Rodrigues caiu na esparrela. Os democratas – em particular os de esquerda – devem ponderar bem o modo como enfrentam quem não perderá qualquer minudência para fazer um drama de faca e alguidar. É um problema de luta pelo mercado eleitoral.

[A minha crónica no Jornal Torrejano]

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

A Origem da Luz 3

Arshile Gorky, Good hope II (Pastoral), 1945

Observar a macieira, espectro no centro
da terra, era de todos o primeiro sonho.
Parados no soalho, olhavam especados.
Tomo da memória a coloração dos sons,
o timbre dos odores, a caducidade dos gestos.

Dos vidros, restava a memória da guerra,
a recordação profana do corpo dilacerado.
Os deuses desciam envoltos em seus halos,
em breves haustos abençoavam pedras e heras
que suspensas em ocultas mãos amavam.

Galáxia ou um império de frutos a nascer,
os dedos aprenderam a luz da noite. A maçã
reinava nas brancas paredes dos quartos,
onde silhuetas jogavam os primeiros dados.
Um pequeno raio fulgia e afogava os astros.

(1981)

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Nocturnos 1

Bill Brandt, St. Paul’s Cathedral in the Moonlight, 1939
A noite cerra-se sobre a catedral, onde um Cristo permanece na sua eterna encruzilhada entre a vida e a morte, entre o céu e a terra. O luar alivia-lhe, por instantes, a dor, enquanto os homens dormem estendidos na escuridão da noite. 

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Alma Pátria 58: Fernanda Peres, Fado das Lágrimas



Uma viagem até 1958, ao Fado das Lágrimas escrito por Alberto Janes e cantado por Fernanda Peres (1931-2016). Gravado num 45 rpm, forma conjunto com Fado Corrido, Já Não Te Quero e Nem às Paredes Confesso. O pano de fundo ideológico do tema é recorrente do fado daquela época. Desgosto, almas a sangrar, prantos e segredos, choros e temporais e, como não podia deixar de ser, a sina. Este fatalismo da afectividade torna-se, se se abandona os lugares comuns, difícil de interpretar. Seria ele uma emanação ideológica da situação política que se vivia ou seria antes, uma espécie de protesto inconsciente que se expressa na ideia de que na ausência da liberdade tudo está submetido à dura necessidade, ao puro fatalismo? Apesar de Fernanda Peres ser hoje em dia desconhecida fora dos círculos do fado, a alma da pátria chorava muito bem bem na sua voz de fadista.

sábado, 14 de dezembro de 2019

Beatitudes (18) Paraíso

Alfred Cheney Johnston, Helen Lee Worthing, Ziegfeld girl, 1920
Todo o paraíso se abre como uma promessa e, enquanto promessa permanecer, não deixará de ser esse jardim eterno que se anuncia aos olhos ou floresce no coração de quem ao acaso por ele passa.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Ensaio sobre a luz (75)

Fernando Lemos, Light and Stubbornness, 1949
Toda a luz começa como um ensaio, a tímida experiência de enfrentar as trevas, inundando-as lentamente, criando na noite pequenas fracturas, abrindo aqui e ali frestas, passagens que se dilatam para que a gigantesca onda luminosa se sobreponha e transforme em luz o que era teimosa escuridão.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

A Origem da Luz 2

Elmer Bischoff, #88, 1985

Falar de Maio, o mês onde o sol secou
as primeiras lágrimas, as definitivas lições.
Na casa havia um hálito de sombra, o Estio
inundava de rumores as rosas do jardim,
o retrato roubado aos dias de Dezembro.

Qual a matéria dos actos? Em desespero,
cavalgam os astros, voam ao sol e ao luar.
Cantam a sombria sapiência das horas.
Cantam as tristes traições no livor da língua.
Cantam na terra o murmúrio do mar.

Raios de luz erguem das paredes a poeira
e a casa treme na placidez dos elementos,
na fúria de mãos absortas e criminosas.
Aspidistras tombam nos corredores e
em meus olhos há ruas de cal e ambrósia.
                       
(1981)

sábado, 7 de dezembro de 2019

A questão ambiental


A generalidade dos cidadãos, onde se incluem as elites políticas, não tem qualquer capacidade para julgar se as alterações climáticas em curso são de origem humana ou se são apenas efeitos de uma alteração do clima que ocorre independentemente das acções humanas. A questão é fundamental. Se as alterações climáticas não são de origem humana, poder-se-á argumentar, como o fazem certos sectores, que toda a preocupação é inútil. Se, pelo contrário, as alterações climáticas tiverem origem na acção do homem a partir da Revolução Industrial, há a esperança de, alterando o comportamento humano, impedir um desfecho trágico para a existência do homem na Terra.

Um argumento a favor da crença de que as alterações climáticas actuais são de origem humana é o facto de grande parte dos cientistas que trabalham sobre o clima terem essa perspectiva. Existem também cientistas com opinião contrária, mas são largamente minoritários. Um segundo argumento está ligado às motivações dos negacionistas que, devido a interesses particulares, tendem a negar a realidade. Isso passou-se noutras alturas e o caso mais conhecido é o da indústria do tabaco que, quando a ciência começou a estabelecer a relação entre o fumo e o cancro de pulmão, lançou uma estratégia para criar uma dúvida persistente na opinião pública. A negação relativamente ao clima seria também uma criação dos chamados mercadores da dúvida, os quais operam para desacreditar o trabalho científico aos olhos do público, permitindo às indústrias poluentes continuarem a não ser incomodadas.

Não são precisos, porém, nenhum destes dois argumentos para defender uma radical alteração das políticas e dos comportamentos relativamente ao clima. Podemos admitir que existe grande incerteza sobre se as actuais alterações do clima se devem ao homem ou se decorrem da própria natureza. Essa incerteza basta para que os seres humanos e os dirigentes políticos ajam com prudência, o que significa alterar o nosso modo de vida e ter políticas adequadas a essa alteração. Essa prudência tem uma dupla vantagem. Caso as alterações climáticas sejam de origem humana, a prudência poderá evitar a tragédia que se anuncia. Se as alterações climáticas forem de origem natural, a prudência ajudará a minimizar os efeitos em vez de os agravar. Do ponto de vista político e ético, é indiferente se possuímos uma teoria fortemente corroborada da origem humana das alterações do clima (como parece ser o caso) ou se há uma grande incerteza científica sobre a origem dessas alterações (como pretendem os negacionistas). Os imperativos práticos são os mesmos.

[A minha crónica no Jornal Torrejano]

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

O PISA e as duas culturas


O que nos mostram os resultados do PISA (um programa internacional de avaliação de alunos; ver aqui)? Mais importante do que discutir sobre o desempenho dos alunos portugueses (e do sistema educativo português) é perceber a grande fractura cultural que o estudo torna patente. Esta fractura tem já uma forte componente política e perspectiva um futuro sombrio para o mundo ocidental. Como se pode verificar (ver aqui e aqui), os primeiros lugares são todos eles ocupados por regiões chinesas e Singapura. Também o Japão, com um desempenho menos brilhante na área da leitura, está no topo nas áreas das ciências e da matemática.

O problema reside na diferença de culturas entre estes países e regiões e os outros. Os resultados dos estudantes asiáticos devem-se a uma cultura de disciplina, esforço, rigor, propensão para enfrentar obstáculos e ultrapassá-los. Esta cultura é muito diferente daquela que reina em Portugal e muitos países de cultura ocidental. As virtudes da disciplina, do esforço e do rigor estão desvalorizadas perante uma cultura da gratificação imediata, da desistência perante obstáculos, da ausência de rigor. Argumentar-se-á que não são todos os alunos assim. É verdade, mas também é verdade que muitos são e que a cultura de exigência é mal vista por muitos alunos, muitos pais, parte significativa das sociedades ocidentais e até, de forma mais ou menos sub-reptícia, pela ideologia educativa que se apossou de muitos sistemas educativos ocidentais. Perante estas realidades, não é de espantar o contínuo crescimento da influência política dos povos asiáticos e o decréscimo persistente do peso dos europeus. É na escola que isso começa.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Defender a democracia liberal


Durante algum tempo pensou-se que o mundo caminhava inexoravelmente para a democratização dos regimes políticos. A terceira vaga de democratizações, iniciada em Portugal em 1974 e que se prolongou não apenas na Europa do Sul, mas na do Leste, com o fim dos regimes comunistas, e na América Latina, parecia indicar estar-se num processo irreversível. Olhar hoje em dia para essas expectativas é perceber não apenas quanto se estava errado mas também a própria fragilidade das democracias liberais, isto é, daquelas que aliam à democracia representativa um Estado de direito, com separação de poderes.

O ataque aos regimes demo-liberais ocidentais, vindo de dentro deles próprios e que em Portugal só agora se começa a esboçar, é de tal maneira grande que, nos dias que correm, o tradicional e estruturante conflito entre direita e esquerda, apesar de continuar importante, cede diante da necessidade de concentrar esforços na preservação do bem maior que é o regime democrático, a possibilidade de haver alternância no poder, de os que o conquistam não persigam os seus adversários, enfim que a política não se torne presa dos conceitos de amigo e inimigo, isto é, do prenúncio ou do Estado autoritário ou da guerra civil.

A existência de uma democracia liberal não é uma evidência e não é um destino que esteja fatalmente no horizonte de qualquer Estado. Se olharmos para a história política da humanidade, percebemos que a democracia é quase um acontecimento excepcional, uma espécie de milagre laico da razão humana. As democracias representativas exigem certas condições sociais, políticas e culturais e, para além disso, o esforço dos cidadãos em limitar a sua frustração quando as suas ideias perdem e o seu júbilo quando ganham. Uma vitória em democracia não é nem o esmagamento dos adversários nem uma carta de alforria aos que ganham para fazerem o que querem. Uma derrota não é uma condenação. A democracia liberal nasce do esforço para cultivar limites ao poder.

O problema é que nós seres humanos possuímos, ao lado de uma propensão para a vida civilizada, uma não menor inclinação para a barbárie. Por vezes, como acontece nestes dias um pouco por todo o mundo ocidental, não suportamos as regras civilizadas e, perante o ressentimento e a frustração das nossas expectativas, o bárbaro que há em nós começa a abrir a boca e a agir em conformidade. Esta situação denota que o contrato social que sustentou as democracias se rompeu. É a reconstrução desse contrato que deverá unir todos aqueles que, à direita e à esquerda, crêem na superioridade civilizacional dos regimes demo-liberais.

domingo, 1 de dezembro de 2019

Alentejo, Alentejo

JCM, Alvito, 2019
Chega-se ao Alentejo e a primeira sensação, a mais superficial, é de imobilidade. Enquanto todo o país foi tomado pela azáfama da mobilização, em que cidades e vilas foram descaracterizadas e, muitas vezes, mortas pelo progresso empreendedor dos empreiteiros e de presidentes da câmara ansiosos de ganharem uma estátua no centro da paróquia, o Alentejo permaneceu estranho à azáfama, tratando de manter a cara lavada. A segunda sensação é a da reconciliação que a pessoa sente ao caminhar naquelas ruas brancas, onde são raríssimos os atentados ao bom gosto. Por fim, começa-se a desconfiar que naquelas cidades e vilas, onde o tempo se recusa à velocidade, a vida é mais autêntica e tudo aquilo tem uma dignidade que não se suspeita já em parte alguma do país. O Alentejo é um país à parte.