quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Direito de reprodução

Mary Cassatt - Young Mother and Two Children (1908)


Este artigo de Lígia Amâncio, no Público, retoma o magno problema da natalidade em Portugal. Depois de mostrar que existe, em Portugal, uma cultura hostil à parentalidade, conclui o artigo chamando a atenção para as consequências futuras da "brutal desregulação do mundo do trabalho". Contrariamente ao que pensam os adeptos da desregulação, esta não se repercute apenas no mundo da economia. Ela tem efeitos deletérios que ultrapassam em muito as relações de trabalho. Ao nível destas, a desregulação tem efeitos devastadores para a população que vive do trabalho por conta de outrem. Num país como Portugal, onde a consciência moral é diminuta, a desregulação tem como resultado a quase escravidão de centenas de milhares ou mesmo milhões de pessoas, praticamente indefesas perante o arbítrio patronal. Mas não é esse aspecto que agora me interessa.

A desregulação do trabalho está a ser utilizada, de forma absolutamente inqualificável, no âmbito da biopolítica, como estratégia de regulação da natalidade. Na verdade, as pessoas não são proibidas de ter filhos nem são obrigadas a abortar como acontece noutros lugares, mas o tempo necessário para construir uma família e para lhe dar atenção é vampirizado pelas empresas, onde as regras praticamente deixaram de existir e qualquer protecção ao tempo dos trabalhadores está praticamente extinta. A autora do artigo interroga "onde se vai encontrar a capacidade produtiva e criativa do país daqui a umas décadas". Há nesta interrogação alguma candura e ingenuidade, talvez aparentes. Mas a questão merece que se procurem respostas para ela. Uma primeira resposta é muito simples. Quem toma as decisões e produz a lei não faz a mínima ideia das consequências dos seus actos. Serve interesses imediatos, que se manifestam no horizonte do presente e é incapaz de pensar não apenas naqueles que são atingidos como na configuração das consequências futuras.

Este é apenas um aspecto superficial do problema. Olhemos para o futuro, para aquilo que produz esse futuro, o desenvolvimento tecnocientífico. Apesar do actual crescimento desmesurado dos horários laborais, acontece que um desemprego estrutural se instalou prenunciando sociedades em que uma larga fatia dos seus membros nunca encontrará trabalho. Por outro lado, o desenvolvimento científico e tecnológico - nomeadamente, da robótica - vai extinguir, nos próximos anos, milhões de postos de trabalho. Num mundo onde o trabalho poderá a vir a ser um bem ainda mais escasso, um mundo onde a propriedade é regulada de forma a excluir dela parte substancial da população, as políticas de regulação da população podem ser feitas por uma estratégia de desregulação do mercado de trabalho. Uns não têm filhos porque não têm trabalho. Outros, porque trabalham horas demais. E se a elite política portuguesa age e toma decisões movida pelos interesses do momento, haverá quem pense e sopre muito do que está acontecer. O que neste momento está em jogo não é já a riqueza ou a pobreza, o direito a uma vida decente ou a sua ausência. O que começa a estar em jogo é o simples direito – manifestado na capacidade económica – de nos reproduzirmos e darmos continuidade à linha familiar e genética a que pertencemos. Como muito bem viu Michel Foucault, a biologia foi colonizada pela política. E está a sê-lo de uma forma tão radical como ele talvez nunca tenha imaginado.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Poema 44 - Quatro elementos: Ar

Gustavo Torner - Átomos: Los Cuatro Elementos. Aire (1986)

44. Quatro elementos: Ar

As folhas tocadas pelo vento inclinam-se,
tecem um tapete de sombras,
um rosário de velas soprado pelos lábios,
o fumo que se ergue para os céus.

A voz corria pela planície,
embarcava num veleiro de cinza,
crescia no matagal do coração.

Se havia névoa, esperávamos a brisa matinal,
e tudo se decompunha pelo ruído do tempo.
Fragmentos de madeira, restos de vidro,
a poalha iluminada pelo sol.

Em silêncio, vejo o mundo dissolver-se
e espero que o vento limpe os campos
e leve para longe as folhas 
onde, anónimo, um dia escrevi o teu nome.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Egipto em convulsão


Como se pode constatar por este artigo do Público, o Egipto parece completamente dividido e, talvez, à beira de uma guerra civil. Muitos estarão, por certo espantados, a descobrir que as primaveras árabes não passam de invernos ao mesmo tempo gélidos e efervescentes, mas, fundamentalmente, que não são nenhuma porta aberta para a liberdade. Quem imaginou que a constestação às ditaduras existentes no mundo árabe era o primeiro passo para a democracia não conhecia minimanente a realidade nem o universo ideológico onde se move a generalidade das pessoas nessa zona geográfica. 

Se a Irmandade Muçulmana e o Presidente Morsi ganhassem, como ganharam, as eleições e respeitassem as regras da democracia e os direitos das minorias e dos indivíduos, isso seria um acontecimento de espantar. O que se está a passar é apenas uma tentativa de destruição do que existe de sociedade secular no Egipto e a imposição, de forma mais ou menos encapotada, de uma teocracia política. Se o mundo cristão separou os poderes religioso e político foi porque o criador da Igreja não foi uma personagem política. Pelo contrário, traçou muito claramente a fronteira entre os dois reinos ao dizer "dai a Deus o que é de Deus e a César o que é de César". 

Nada disto se encontra no Islão e cada revolução existente nessa área religiosa visa apenas uma aplicação mais pura e ortodoxa do islamismo, o qual é fonte inesgotável de legitimidade política. Por muito estranho que possa parecer, a generalidade dos que agora se manifestam contra os novos poderes teriam mais liberdades civis no tempo da ditadura de Mubarak do que actualmente.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Camilo Castelo Branco, A Queda d'um Anjo


Publicado em 1866, o romance A Queda dum Anjo (para uma visão rápida e esquemática da obra ver aqui ou aqui) será, juntamente com Amor de Perdição, uma das obras mais lidas de Camilo Castelo Branco. Algumas leituras apressadas vêem na obra uma crítica à corrupção de costumes ou uma paródia ao que se vivia em Portugal, na época, ou mesmo uma espécie de gargalhada que Camilo lança ao rir-se de si mesmo. A obra talvez permita essas leituras. No entanto, elas parecem claramente redutoras daquilo que o romance permite ler. 

A temática da queda é central na cultura judaico-cristã. A queda de Adão e Eva ou a queda de Lúcifer, o anjo da luz, são mitos estruturantes do nosso imaginário e estão presentes na própria construção da obra. Fundamentalmente, a queda do casal originador da espécie humana. O que surpreende na leitura do romance é que a queda não arrasta consigo o castigo. Pelo contrário, a queda trouxe a felicidade ao herói caído. Se há ironia na obra, ela começa com o título e a forma como a temática da queda é tratada.

Duas linhas de reflexão podem ser interessantes. Uma diz respeito à tensão entre eternidade e historicidade. A segunda mobiliza os pólos da convenção e da natureza. Da conjugação destas duas linhas poder-se-á encontrar uma chave de leitura que se coloque para além das abordagens escolares e rotineiras sobre esta obra de Camilo. A queda é o elemento central onde se cruzam estas duas linhas.

O decaído é Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, morgado de Agra de Freimas, fidalgo minhoto, casado com a sua prima D. Teodora de Figueiroa. Um conservador, de orientação miguelista e, por isso mesmo, antiliberal, de horizontes existenciais puramente paroquiais, que vive fechado na leitura dos clássicos, nomeadamente os clássicos portugueses, os quais, para o fidalgo de Agra de Freimas, não iam para além de D. Francisco Manuel de Melo. O mundo, os modos e a moda são aqueles que o tempo cristalizou e que, aos olhos de Calisto Elói, constituem a eterna essência da portugalidade. Vivendo na aldeia de Caçarelhos, no concelho de Miranda do Douro (hoje a aldeia pertence ao concelho de Vimioso), o fidalgo acaba por ser eleito para o parlamento, onde entra como uma espécie de deputado independente.

Um dos traços fundamentais para o leitor de hoje perceber o Portugal de então reside na distância a que Lisboa ficava de Miranda. A distância deve ser medida em tempo e não em quilómetros. Quinze dias levavam os protagonistas do romance da capital a Miranda do Douro. Os quinze dias simbolizam muito mais que a mera morosidade dos transportes. Simbolizam a distância que vai da eternidade à historicidade. Ao ser eleito, Calisto Elói apresenta-se no parlamento como uma figura anacrónica, intempestiva, vestido de uma forma que há muito passara de moda e com um português, também ele e apesar da sua suposta pureza, desfasado do calão político que dominava o parlamento.

Há, neste primeiro momento de Calisto Elói em Lisboa, uma construção da personagem que roça o D. Quixote. Apesar dos discursos do deputado mirandense trazerem um certo sentido moral que tocava os corações, a verdade é que, o mais das vezes, ele combatia moinhos de vento, como é o caso do célebre discurso contra o luxo e a depravação dos costumes pelo teatro. O ridículo emergia do choque daquilo que a personagem pensava ser a visão eterna da portugalidade com uma realidade mesquinha, que é a realidade historicamente determinada que é dada a viver aos homens. Contudo, este ridículo não se confunde com o da comédia grega. Nesta, o ridículo é gerado pela baixeza e vulgaridade das personagens; no romance de Camilo, o cómico nasce do deslocamento de uma personagem nobre que é transportada de um mundo supostamente imutável para o centro da história do país.

O agenciamento da queda de Calisto Elói fica a cargo do amor, do súbito apaixonamento - uma experiência incoativa aos 44 anos de idade - por uma jovem e belíssima viúva. É Ifigénia Ponce de Leão a Eva que seduz Calisto. A escolha do nome Ifigénia para este papel não deixa, também ele, de ser irónico. Ifigénia é o nome da filha de Agamémnon, a virgem sacrificada aos deuses para que a armada grega possa rumar a Tróia. Interpretar a personagem camiliana como uma mera Eva sedutora e provocadora da queda na perdição é redutor. Assim como o sacrifício - i. e., a sua entrega aos deuses - da Ifigénia grega permitiu que a armada helénica se dirigisse para Tróia e que a roda da história humana se movesse, também é a entrega de Ifigénia a Calisto Elói que vai fazer com que este se desloque da suposta e convencionada eternidade em que vivia para dentro da história, para o interior do seu próprio tempo. Através de Ifigénia, o morgado de Agra de Freimas entra na temporalidade e na historicidade, abandonando a eternidade de uma história mitificada. Em linguagem da cosmologia aristotélico-ptolemaica, Calisto Elói desceu - melhor, caiu - do mundo supralunar, puro e eterno, ao mundo sublunar das coisas vivas e corruptíveis.

A sedução que Ifigénia exerce sobre o herói conduz à ruptura do casamento deste com a sua prima Teodora Figueiroa, um casamento de conveniência sem finalidade visível. De facto, a junção dos dois morgadios, o de Agra e o de Figueiroa, era uma aliança matrimonial muito interessante, pois permitia ampliar o património do morgado a vir. Contudo, a natureza nunca suportou este casamento convencionado, pois nunca se dignou revolver as entranhas de D. Teodora de forma a que o casal tivesse descendência. É este matrimónio, que a natureza nunca subscreveu, que é arrastado com a queda de Calisto Elói. É nas situações não convencionais, resultantes da paixão erótica de Calisto ou do desejo de vingança de Teodora, que a natureza vai falar, dando dois filhos à ligação do morgado com Ifigénia, e um filho à relação, nascida do despeito e do desejo de vingança, de Teodora com um primo. Torna-se, deste modo, claro que a natureza é mais forte e potente que a convenção. Frágil é a linguagem das convenções e regras humanas perante a força da natureza. Frágeis são os contratos, alicerce de uma racionalidade civil, perante a força do desejo e do sentimento.

Estranha queda esta. Calisto Elói cai na temporalidade e na historicidade, cai na natureza humana com o que ela tem de contraditório. Esta queda, porém, deve ser lida como uma libertação a vários níveis. Libertação de uma eternidade ideológica resultado de convenções que se foram mitificando e petrificando. Libertação da convenção social e dos ardis burocráticos da razão e uma descoberta da natureza, onde o amor e o desejo erótico falam mais alto que o interesse económico e as convenções sociais de casta. Libertação, por fim, da própria personagem romanesca de Calisto Elói. Tinha tudo para ser mais um cavaleiro da triste figura, mas a queda salva-o do ridículo e devolve-o à condição de homem, recentrando a sua virilidade, abrindo-a aos imperativos de Eros, e reorientando o olhar com que passa a observar o mundo, tornando-o capaz de compreensão do tempo histórico que lhe foi dado viver.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Meditações taoistas (6)

Quem procura modificar o mundo,
Vejo, não o conseguirá.
O mundo, como o espírito, não pode ser modificado.
Quem o modela, destruí-lo-á.
Quem o possui, perdê-lo-á.
Lao Tse, Tao Te King, XXIX

Também Orfeu, filho de Eagro e Calíope, julgou um dia poder arrebatar da morte Eurídice, a sua amada. Desceu aos infernos e, entre espectros e fantasmas, armado da lira e do canto quis sobre a morte fazer reinar as leis do amor. Rendeu-se ao seu canto Tântalo, o supliciado, rendeu-se Sísifo cansado de tanto rolar a enorme pedra montanha acima, renderam-se as Euménides, fúrias devastadoras em cujos olhos o canto de Orfeu fez crescer uma água sem fim, rendeu-se, por último, Perséfone, a rainha das trevas, administradora dos mortos, deusa severa de olhar frio como as noites de Janeiro.

Por um momento, no coração de Orfeu, na parca esperança dos homens, tudo foi possível: um mundo novo emergira no ânimo das gentes e era agora uma matéria plástica dada à ávida fabricação de cada um. Aquele queria um rio azul de águas claras, o outro, a neve branca como o sal, um outro aspirava a um reino onde a luz fosse eterna. Orfeu, porém, apenas desejava Eurídice, a ninfa de pele suave que um dia em suas mãos suspirara.

Perséfone, a voz da álgida necessidade, uma condição prescreveu para entregar à vida a mais bela sombra que habitava o reino da morte: "Eurídice será livre das cadeias mortais, se tu, Orfeu, enquanto atravessares o meu reino não virares a cabeça para trás em busca do olhar doce de Eurídice. Se o fizeres, ela perder-se-á para sempre." Animado de esperança, ele assentiu, e iniciou a longa jornada de regresso. Mas Orfeu já era apenas um mortal, uma sombra adiada.

Esquecera as águas de manchadas negro pelo homem que um dia desejou um rio azul de águas claras, esquecera o enxofre semeado por aquele outro que sonhara com a neve branca como o sal. Da sua memória desaparecera mesmo aquele homem que extinguiu na cidade, onde com tanta veemência proclamara um reino de luz eterna, o último raio de sol. No coração de Orfeu, inscreveu-se um aguilhão insuportável, um anseio sombrio de reter em suas as mãos de Eurídice. Nesse instante, a amada tornou-se, presa ao desejo daquele que a conduzia, na sombra de uma sombra, iluminada pela luz negra que do olhar de Orfeu se desprendia.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Catalunha

A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.

Talvez o relativo desaire eleitoral do partido de Artur Mas, nas eleições catalãs do passado domingo, acalme a onda nacionalista que perpassa pela Catalunha. Talvez. Mas vale a pena pensar no fenómeno, tanto naquilo que pode estar na sua causa, como no que pode vir a ser a sua consequência. No século XVII, Filipe IV, de Espanha, e III, de Portugal, viu-se confrontado com dois movimentos que pretendiam separar-se da sua coroa. Um em Lisboa e outro em Barcelona. Filipe IV abandona o reino de Portugal ao duque de Bragança,  D. João IV, e acorre em defesa da sua soberania sobre a Catalunha. A tentação independentista catalã, como se vê, não é uma inteira novidade. Pelo contrário, é um desejo antigo sempre frustrado.

No entanto, o surto nacionalista catalão não é sintoma de um súbito despertar do fervor nacional. Por outro lado, apesar da crise financeira ter importância, ela não é o factor explicativo dos ares independentistas que têm varrido a Catalunha. A ambição nacionalista catalã é o sintoma de uma profunda crise que atravessa o projecto europeu. Só a natureza periclitante da União Europeia, só as suas hesitações políticas, só a guerra egoísta instalada explicam que se tenha aberto uma janela de oportunidade para o recrudescimento do nacionalismo. Uma União Europeu forte política e economicamente diluiria o sonho independentista.

As consequências de um referendo independentista na estabilidade política da Península Ibérica são imprevisíveis. Mas se isso suceder, o rastilho nacionalista atingirá, por certo, o País Basco, e poderá atear outros focos, como a Galiza e a Comunidade Valenciana. Haverá ainda a resposta do nacionalismo espanhol, dos sectores ultraconservadores provenientes do franquismo e que, por certo, estarão ainda presentes no exército. Esta instabilidade política agravará a débil situação económica de Espanha e terá imediatamente repercussões em Portugal, repercussões de carácter económico, mas também político.

O cenário mais negro, aquele que será desejável evitar a todo o transe, poderá combinar o fim da União Europeia e a desagregação de Espanha com crises económicas e financeiras ainda mais acentuadas. O que abriria as portas a todas as espécies de aventuras políticas, as quais poderiam não excluir guerras civis e reconfigurações violentas do mapa da Península Ibérica. É preciso perceber que a vida pacífica da Europa e dos europeus tem estado fundada na União Europeia. Sem ela, tudo se torna volátil, mesmo aquilo que parece adquirido há décadas ou mesmo há séculos. Se há coisa que é fugidia e impermanente são os mapas políticos.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Poema 43 - Quatro elementos: Água

Gustavo Torner - Átomos: Los Cuatro Elementos. Agua (1986)

43. Quatro elementos: Água

Mistério insondável dos barcos que partem,
das tuas mãos brancas e lêvedas,
dos dias de inverno trazidos do mar.
Um risco na areia da praia,
a onda que vem e tudo apaga,
o marulhar eterno ao sabor do vento.

Em ti não posso entrar duas vezes,
tocas-me e tornas-te outra
e corres desprendida da vida, 
esquecida do meu olhar. 
Sento-me e espero que voltes,
verde e azul sob um céu de gaivotas. 

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Um povo em tribulação

Georges Rouault - Los fugitivos o El éxodo (1911)

A infeliz conjugação de sucessivos governos incompetentes, ignorantes, irresponsáveis e cobardes com os desvarios financeiros da nova santíssima trindade que preside aos nossos destinos - conhecida vulgarmente por troika - fizeram, de novo, dos portugueses um povo em tribulação. O êxodo a que assistimos, mais uma vez na nossa história, parece o resultado de uma condenação metafísica, contra a qual somos impotentes. As sucessivas vagas de emigração não foram suficientes para que o problema fosse pensado e radicalmente enfrentado. Mesmo hoje em dia, fundamentalmente por parte dos responsáveis políticos, a emigração de portugueses é um dado da natureza, uma lei social tão necessária quanto a lei física da gravidade. 

Esta naturalização do fenómeno tem a capacidade de esconder duas coisas. Em primeiro lugar, o povo português não é um povo tendencialmente nómada. Pelo contrário, é um povo geograficamente conservador - apesar de tudo o que se possa dizer da aventura dos Descobrimentos e da deslocação do interior para o litoral - que cultiva o lar e a terra natal com um dos bens (talvez porque a vida o torna escasso) mais elevados que existem, como se vê pelo retorno no verão dos emigrantes. Em segundo lugar, esconde a necessidade de discutir a viabilidade do país, a sua organização, a forma como deve ser orientado para que caibam nele todos os que querem ficar. A naturalização do fenómeno da emigração transforma a incompetência das elites no mais frio destino das gentes e faz do povo português um povo em tribulação, como o são, em níveis diferenciados, os judeus, os ciganos, os palestinianos.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Poema 42 - Quatro elementos: Terra

Gustavo Torner - Átomos: Los Cuatro Elementos. Tierra (1986)

42. Quatro elementos: Terra

Do pó a que pertenço fiz casa,
lavrei em tempo propício
e sentei-me à espera da sombra,
do rosto que viria pela tarde
e me traria o segredo do teu nome,
um resto do fio de Ariadne,
o olhar do amor ao morrer.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Robert Lorenz, As voltas da vida



Este novo filme de Clint Eastwood não é, tecnicamente, um filme de Eastwood, mas tem tudo para ser mais um filme do velho mito do cinema americano. Foi produzido por Eastwood, realizado por um seu assistente de há longos anos, Robert Lorenz, e é protagonizado por ele. Não há, no filme, surpresas e os estereótipos sobre a sociedade americana alinham-se com a sequência previsível no pensamento ideológico de Eastwood. No entanto, o filme não deixa de dar matéria ao pensamento, pois encena, mais uma vez, uma reflexão sobre questões essenciais que dizem respeito à vida dos homens.

O basebol serve como metáfora sobre a vida em sociedade. O filme gira em torno de um olheiro, Gus Lobel (Clint Eastwood), que procura jovens promessas para um clube profissional. Lobel, porém, está velho e sofre de glaucoma. Perder a visão não é a melhor notícia para quem tem por modo de vida ver jogar jovens promessas. O filme é também uma reflexão sobre o envelhecimento, o processo da sua negação, o mirífico triunfo sobre ela, triunfo fundado na experiência individual, na seriedade profissional, mas também na solidão e dureza do herói americano, um dos cultos de Eastwood.

Uma abordagem desatenta poderia pensar que tudo gira em torno de um conflito de gerações. Uma nova geração dentro do clube estaria prestes a correr com a anterior. No entanto, não é isso que é o fundamental. Na economia moral do filme, os jovens distribuem-se com equidade por ambos os campos morais, pelos heróis e pelos vilões. Na perspectiva moral, o que está, de facto, em jogo é a lisura de processos. Por três vezes, o comportamento oportunista, fundado na manipulação das aparências, é derrotado por aqueles que são honestos e frontais. A frontalidade é mesmo uma das qualidades morais mais importantes, como é hábito nos filmes de Eastwood.

Contrariamente ao que pensa o crítico de Público, o conflito entre Gus Lobel, o olheiro que fazia as coisas à moda antiga, indo aos locais ver os jogadores em acção, e aquele que quer ficar com o seu lugar, um homem que colige estatísticas no computador sem pôr um pé nos campos, não representa um reaccionarismo que expressa a dificuldade de Eastwood em lidar com as modernidades do mundo, com os gadgets. O problema não é esse, mas um velho conflito que vem do tempo do Iluminismo entre uma sabedoria proveniente de uma longa experiência (o velho saber de experiência feito) e um conhecimento meramente racional e, na prática, a priori daquilo que deve ser a realidade.

O conflito entre a experiência histórica – que foi um dos principais argumentos da reacção à Revolução Francesa, como se pode ver em Joseph de Maistre, Louis de Bonald ou Edmund Burke – em oposição aos imperativos ideais dados a priori pela razão – perspectiva onde sobressai Kant – é agora encenado no filme em torno do velho Gus Lobel. O que está em jogo não é a reacção ao computador, mas o desprezo de Eastwood por aqueles que não sujam as mãos na porcaria da realidade, por aqueles que substituem o fluir concreto da vida e o acumular da experiência por meras virtualidades, com as quais pretendem julgar os outros e o mundo. É aqui que se centra o reaccionarismo heróico de Clint Eastwood.

Por outro lado, e talvez seja esse o segredo que torna o actor e realizador americano apreciado por gente tão diversa no espectro ideológico, o que está em jogo é a recusa da burocracia. O computador do concorrente de Gus Lobel não representa a máquina – e a consequente recusa reaccionária da máquina – mas a burocracia. O que este filme de Eastwood permite, mais uma vez, pensar é a conexão entre a razão pura a priori e a burocratização asfixiante do mundo da vida, substituído por estatísticas e relatórios. O filme representa a vitória da vida vivida, da experiência histórica, sobre a burocracia dominante, sobre a razão desencarnada e descorporalizada. E é isto que torna Clint Eastwood simpático, mesmo para quem não admira particularmente o seu republicanismo político.

domingo, 25 de novembro de 2012

Meditações taoistas (5)

Retornar à raiz é instalar-se na quietude;
Instalar-se na quietude é reencontrar a ordem;
Reencontrar a ordem é conhecer o permanente;
Conhecer o permanente é a iluminação.
Lao Tse, Tao Te King, XVI

Onde a imensa árvore lançou raízes brotou um mundo ambarino de estrutura dócil e suave. Homens e mulheres tinham abandonado as florestas e entregavam-se naqueles dias a uma vida de devaneio. Uns buscavam um sítio onde recompor a alma, outros, uma esperança, uma ilusão, ténue que fosse, que os mantivesse à tona da existência. Era o reino da desordem, um caos amarelo violáceo, um lugar de dor e perdição: as mulheres não tinham filhos e os homens esqueciam os rituais de caça. Assolado por tempestades sem fim, o céu deixara de ser refúgio para aqueles que para o alto ainda olhavam.

Quando Dezembro chegou com os seus imperativos, um homem, que em tempos aspirara percorrer os mares, sentou-se debaixo de uma árvore. Veio o frio e a chuva, depois nevou. Ele todavia continuou no seu lugar. Um pássaro bravio poisou na sua cabeça e mais tarde aí nidificou. Enquanto o homem permanecia na sua quietude, uma ordem suave, feita de luz, construiu-se à sua volta. No inverno seguinte, as mulheres amamentaram os primeiros filhos, os homens reaprenderam as artes da caça e descobriram como cultivar os campos. Um rei justo governou sobre todos eles.

Debaixo da árvore, uma árvore com forma humana lançou profundas raízes. Em cada solstício de Inverno, iluminadas por gigantescas fogueiras, as mais belas raparigas do reino inundam com leite e mel, como se de um banquete nupcial se tratasse, aquele homem que um dia, por decisão inviolável, se tornou na terra a árvore do paraíso.

sábado, 24 de novembro de 2012

O tempo das Cassandras

Enrico Prampolini - Cassandra

Nunca como hoje o tempo é das Cassandras. Como em Tróia, aqueles que, por cá, anunciaram desde o início que o caminho decidido pelo governo nos levaria à ruína e a um beco sem saída foram ridicularizados, desprezados e, para que não houvesse qualquer hipótese de a verdade vir à luz, silenciados (sim, não há censura de lápis azuis, mas uma escolha selecta dos que interpretam a realidade económica e social). Em contrapartida, os falsos profetas como os Gaspares, os Relvas, os Coelhos e todos os que fazem previsões mirabolantes têm tanto mais crédito quanto mais se enganam. Talvez não seja um mistério a razão por que os falsos profetas são escutados, enquanto as verdadeiras Cassandras, aquelas que ouvem as vozes dos deuses, isto é, da realidade, não merecem mais do que um sorriso de condescendência, se não de desprezo. O mundo nunca foi o lugar da verdade.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

A mais tenebrosa das sociedades


Um dos paradoxos da estúpida sociedade que estamos a criar liga-se com o tempo de trabalho. Em linhas gerais, os horários de trabalho tendem a crescer – em alguns casos começam a aproximar-se dos velhos e tenebrosos tempos da primeira revolução industrial, no século XIX – e ao mesmo tempo um número cada vez maior de pessoas não encontra, por muito que se esforce, um lugar para trabalhar.

O caso português é sintomático. A ineficiência do país não resulta do horário de trabalho, mas da baixíssima qualidade da gestão que é efectuada pelos dirigentes, tanto de empresas privadas como de instituições públicas. O aumento do horário de trabalho e a redução dos feriados e dos dias de férias não tornam o país mais competitivo e mais rico. São antes a consagração da incompetência, da desorganização e da falta de qualidade dos gestores, públicos e privados, que dirigem as nossas instituições.

Sei que há países, como a China e a Índia, onde se trabalha muito mais horas do que em Portugal. Países onde os trabalhadores, apesar do esforço, continuam miseráveis. Também sei, porém, que existem países onde se trabalha menos horas e menos dias por ano do que em Portugal, onde as pessoas produzem muito mais e são recompensadas devidamente. Entre estes dois modelos, a elite governamental e certos – não todos, felizmente – meios empresariais escolhem a aproximação ao modelo asiático.

Mas aumentar o tempo de trabalho não significa apenas premiar a ineficiência, a preguiça de pensar e organizar, a incapacidade de inovar nas tarefas, a indisciplina,  significa ainda um exercício sádico de humilhação das pessoas. Estamos a tornar a vida num autêntico inferno. Ou puro ócio e degradação individual por ausência de emprego e de utilidade social, ou um exercício de rapina sobre o bem mais precioso que foi dado ao ser humano, o tempo de vida. Cada vez menos se tem tempo para a família, para as Igrejas, para os clubes desportivos e culturais, para as organizações políticas, para a educação permanente ao longo da vida, para a diversão pura e simples. Tudo isto está a ser sugado.

Estamos a construir a mais tenebrosa das sociedades, aquela que reduz a vida do homem ao trabalho, transformando o velho animal rationale num mero animal laborans, que não se distingue já de outros animais cuja vida se centra na mera sobrevivência. Estamos a construir uma sociedade que destrói tudo – cultura, lazer, religião, vida do espírito, amizade – em nome de uma suposta eficiência económica, cuja avidez e maldade não têm limites.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

A virtude que resta

Rui Chafes - Durante o sono

Talvez sejamos um povo adormecido. Um povo de alienados, dirão alguns. Puro engano. Alienado é aquele que é estranho a si mesmo. Estar adormecido pode significar cansaço e adormecer pode bem ser uma decisão de um povo sábio, de uma sabedoria aprendida durante quase nove séculos. A dormir não mudaremos o curso do mundo, nada inscrevemos no real, como diria o filósofo José Gil. É verdade, mas talvez saibamos que tudo isso é inútil e que a única virtude que nos resta é dormir. Suspendemos a gravidade, flutuamos por cima da conjuntura, e deixamos apenas que ténues fios nos liguem ao mal. Se nos matarem, nem daremos por isso.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

A superioridade moral de Judas

Duccio di Buoninsegna - La Maesta. El pacto de Judas (1308-11)

Na figura arquetípica de Judas nós pensamos o princípio de traição. Traidor é aquele que entrega os seus a troco de uma vantagem pessoal. Ao mesmo tempo, porém, a mesma figura arquetípica - naquela ambiguidade presente nos verdadeiros símbolos - evidencia o reconhecimento do princípio moral que o seu comportamento negou. Esse reconhecimento, em Judas, manifesta-se no suicídio. A tensão gerada entre o acto de traição e o peso interior do princípio moral de fidelidade aos seus conduziu Judas à figueira onde se enforcou.

Uma das experiências morais mais interessantes, apesar da sua carga negativa, que estamos a fazer é a da subversão deste princípio moral, o qual sempre foi óbvio para a generalidade dos povos e dos indivíduos. A partir dos finais da década de oitenta do século passado, as governações ocidentais, de forma sistemática, começaram a trair deliberadamente os respectivos povos, entregando-os à voragem de interesses ocultos e sem controlo, que elas próprias tinham libertado, aquilo a que agora se chama mercados. Os governantes que tinham sido eleitos para defender os seus, não fizeram outra coisa senão vendê-los.

O cerne desta experiência moral, porém, está no facto de ela negar a traição enquanto valor moral negativo. Para toda esta gente que tem dirigido o destino dos povos europeus, ser eleito pelos respectivos povos e servir senhores apostados em conduzi-los à escravatura não se chama traição. Chama-se ajustamento. Todos estes governantes sabiam muito bem quem iria tirar partido das suas decisões e quem iria sofrer com elas. Decidiram entregar os seus povos nas mãos dos verdugos. Contudo, contrariamente a Judas, nenhum se enforca, antes pelo contrário. Sentem-se realizados pela dor e sofrimento que causam, e são tanto mais felizes quanto maior for o desespero dos seus, daqueles que os elegeram. Por fim, como não lhes falta a desfaçatez que Judas não teve, lançam terríveis campanhas para convencer o bom senso dos povos de que a traição é um valor moral digno de consideração, e que o único sentido elevado do agir humano é a traição aos seus. Ao pé desta gente, Judas ostentou uma superioridade moral incomensurável.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Ambiguidade revolucionária

Eugene Delacroix - Liberdade guiando o povo (1830)

Uma leitura intempestiva de um obscuro autor do século XIX, Monsenhor Jean-Joseph Gaume, veio tornar claro algo que sabia mas que não tinha valorizado. Trata-se do papel central, ao nível da produção ideológica, da influência clássica greco-latina na Revolução francesa. A tese do autor é que este acontecimento se inscreveu numa longa cadeia de eventos que visaram restaurar o paganismo em detrimento do cristianismo. Não é a questão religiosa, porém, que me interessa aqui. Por norma, as leituras que se fazem da Revolução francesa são tendencialmente progressivas, mostrando como ela abre o caminho para o futuro. No entanto, os discursos, as proclamações, as meras injunções, os modelos em conflito, a própria lei, tudo isso traz em si uma marca clássica. Os jacobinos, por exemplo, com Robespierre à cabeça, sonhavam com uma nova Roma, agora centrada em Paris.

Qual a importância de tudo isto? A importância reside na ideia de revolução. Mais de dois séculos de propaganda revolucionária, onde revolução e progresso eram assimilados, acabaram por ocultar aquilo que uma revolução significa. A palavra revolução provém da astronomia, onde significa o movimento de translação de um astro em torno de outro (por exemplo, da Terra em torno do Sol). Sendo assim, revolução não significa progresso, mas um eterno retorno ao mesmo ponto. Ao ser transportada metaforicamente para o campo da política, a palavra revolução parece ter perdido esta natureza conservadora. Primeiro, marca a ideia de desordem, depois de transformação da ordem política através da substituição de uma ordem velha por uma nova. 

Se se der atenção ao discurso revolucionário da Revolução francesa, contudo, a nova ordem é, apenas, a restauração de uma antiga ordem que a própria história tinha abolido. O discurso revolucionário era extrordinariamente clássico. Os heróis modelares eram gregos e latinos. De certa maneira, aqueles homens sonhavam com a restauração da eloquência das oratórias greco-latinas, bem como do retorno da antiga pólis grega ou da república romana. A tese da restauração, e assim do elemento conservador no centro da revolução, faz sentido se olharmos a Revolução francesa como a revolta do elemento galo-romano da população contra uma aristocracia de ascendência germânica. E daí toda a retórica em torno da liberdade dos antigos, como a reconquista de uma idade de ouro que a queda do Império romano teria lançado na perdição ao sucumbir perante as tribos germânicas. Isto ensina-nos pelo menos uma coisa. As revoluções políticas mais do que motivadas pelo futuro e pelo progresso são tentativas de restauração, sempre falhada, de um mundo que a história, ao destruir, mitificava.

domingo, 18 de novembro de 2012

Meditações taoistas (4)

Produz sem se apropriar,
age sem nada esperar,
acabada a sua obra, a ela se não prende,
e porque a ela se não prende
a sua obra permanecerá.
Lao Tse, Tao Te King, II

Um dia, depois que a morte consumou as suas vidas, Heraclito, o efésio, e Parménides de Eleia sentaram-se a uma mesa circular. Não sorriram, tão pouco trocaram palavras. Apenas um breve olhar de desdém assomou na fronte dos dois contendores. Tinham esperado demasiado por aquele momento para que perdessem tempo com coisas inúteis a que só os vivos dão valor. As obras que escreveram há muito que haviam partido das suas mãos e, como fragmentos de tijolo presos à avidez dos arqueólogos, foram entregues à rapina sôfrega dos que vivem de cadáveres esquartejados. 

Chegara a hora da vingança. Impelidos por idêntico sentimento, cada um lançou sobre o tampo verde da mesa um belo dado de marfim. Vencerá a imobilidade de Parménides ou o perpétuo movimento de Heraclito? Das mãos de Parménides, solta-se o dado e, como que sustido por rede inviolável, imobiliza-se no ar retido pela necessidade de eternamente ser o que é. Quem, porém, viu o lance do efésio pensou descobrir no ondular de seus braços o fluxo eterno da água que passa: o dado caiu sobre a mesa e rola ainda hoje, num caminhar sem fim, sobre o verde tampo que o suporta. Presos nas obras que um dia fizeram, os corações daqueles homens tornaram-se uma paisagem sombria, um lugar de azedume e incerteza. Enquanto assim for, os maléficos sonhos por eles, na aurora do mundo, sonhados não deixarão de aterrorizar as noites e os dias que, na sua sombra, viveremos.

sábado, 17 de novembro de 2012

Ernst Jünger, Um Encontro Perigoso


Um Encontro Perigoso foi publicado quando Ernst Jünger tinha já 90 anos. O romance tinha sido começado vinte anos antes mas o autor, sem saber muito bem a razão, deixara-o incompleto. A obra coloca ao leitor um problema cuja resolução, mesmo que temporária e conjectural, é importante para a compreender. A primeira parte do romance move-se na tensão entre um jovem diplomata alemão, belo, meditativo mas ingénuo, e uma condessa francesa de temperamento fogoso, irascível e volátil, tensão mediada por um aristocrata arruinado, que se entrega ao prazer de suscitar estes encontros entre personagens improváveis, encontros que contêm sempre uma dimensão de perigo e derrocada. Tudo isto tem como pano de fundo Paris dos finais do século XIX. O problema é posto pela segunda parte da obra. Por que motivo Jünger transforma o romance, que pareceria ser uma reflexão sobre a educação sentimental do jovem diplomata num romance policial, com uma espécie de Sherlock Holmes francês no centro da intriga?

Do ponto de vista estético, a solução não deixa de causar surpresa. O leitor que espera uma reflexão em torno do envolvimento sentimental, um intriga de costumes na elite social da época, depara-se com um crime – numa época em que Jack, o Estripador, cometia os seus em Londres – e com uma investigação criminal. Duas hipóteses podem ser pensadas.

Em primeiro lugar, talvez só seja possível escrever sobre um passado que não se conheceu – mas que, de alguma forma, se amou – na forma de um inquérito, de um inquérito de carácter policial. Não está em jogo, apesar das óbvias semelhanças, emular a criação de Conan Doyle. Mas um investigador policial, dotado com toda a parafernália de conhecimento científicos – a grande fé nos finais do século XIX –, permite perscrutar o lado obscuro de uma elite social que está já em decadência. Não a obscuridade presente nas pequenas traições quotidianas, nos devaneios amorosos, nos encontros em lugares ao mesmo tempo sumptuosos e sórdidos. Tudo isso faz parte do brilho social descrito na primeira parte. O lado obscuro é-nos dados antes pela dimensão racional do cálculo de oportunidades, pela frieza do uso da razão, pela irrelevância com que a vida é considerada.  E para isto um investigador armado das novas teorias provenientes da antropologia, psicologia e sociologia – disciplinas em plena emergência na época em que decorre o romance – é um excelente dispositivo observacional.

Em segundo lugar, poder-se-á perceber o crime como uma ruptura dos laços sociais e a destruição de uma dada ordem. Esta desordenação que o crime introduz pode ser vista como uma metáfora de uma desordenação mais geral imposta pela temporalidade. Cronos devora os seus próprios filhos, cabe ao escritor meditar sobre este crime supremo do qual cada um de nós e todas as instituições – as que amamos ou as que odiamos – estão sujeitos. Escrever um romance sobre uma época que não se viveu – se não se quer entrar na banalidade do romance histórico – é sempre um inquérito sobre a natureza criminosa da acção do tempo. O detective, então, é a figura que interroga a vida e procura o criminoso, isto é, aquele que é o agente da temporalidade e que a realiza pela sua acção. Deste ponto de vista, o papel do detective não é o de repor a ordem perseguindo aquele que a põe em causa, mas sinalizar e sublinhar, através do inquérito e da perseguição, a desordem que se oculta em toda a ordem. Se o criminoso é o agente da temporalidade, o detective é aquele que, pela sua acção e reflexão, reconhece e sublinha a natureza desta.

Sejam estas ou outras as razões que conduziram Ernst Jünger a optar por uma alteração tão radical de registo praticamente a meio do romance, a verdade é que é nesta opção que se joga a recepção da obra. Muitos leitores e críticos, espantados com a esplendorosa descrição de Paris e as caracterizações das personagens, sentem na transição para a segunda parte do romance uma espécie de anticlímax. Mas é aqui que se coloca um problema que merece ser meditado. O romance não se dirige apenas ao sentimento e à dimensão afectiva do homem. Não lhe é estranha a dimensão do pensamento. Ao mesmo tempo que provoca experiências de agrado ou desagrado, o romance exige que se pense, e que se pense antes de mais sobre as opções de construção propostas pelo escritor. Aquilo que pode ser sentido como anticlímax é o que dá que pensar, que convida a pensar. Ora este pensar não é mera racionalização da leitura, mas preparação de um prazer mais elevado, mais requintado e mais demorado.

Ernst Jünger (1986?). Um Encontro Perigoso. Lisboa: Difel. Tradução de Ana Maria Carvalho.