quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Livro do Êxodo 21. Morrendo morrerá

Paul Ackerman - Aubade sur la gondole

Eram tecedeiras. No vagar que era o delas, teciam longas horas, teciam-nas com dedos afilados e um murmúrio entre lábios. Obscuras sombras, ao serem tecidas por violentas e vorazes mãos, a tudo cobriam. Na voz rouca, voz era o que se ouvia, enchiam o lago do tempo, cobriam-no de suspeitas, de injúrias, a lama a crescer, num Inverno de dedos cruzados, para dentro do vazio que habitava cada casa. Os olhos já negros de tanto olhar abriam-se no fundo do rosto, caíam sobre o horizonte e cerravam-se. A vida, precária e sem esperança, era agora vendida a retalho, ao sabor das flutuações do mercado, do deve e haver, as mercearias fechadas e as tulhas vazias.

Não havia cerejas nem laranjas. Não havia vinho e pão. Os cereais tinham acabado e nada restava onde, naquelas tulhas do passado, os braços pudessem mergulhar as mãos, assim os terminavam. Pela noite, soltava-se um instinto mortal e elas, tecedeiras tão ferozes, vogavam pelas casas, cabelos soltos a tocar os seios descaídos, uma ânsia de assassínio no canto da boca, ou a solidão a aplanar o caminho do coração. Vinham à rua e uivavam, a montanha devolvia, num eco de língua lívida, o uivo, e a matilha de mulheres dispersava-se, cada uma para sua casa, limpavam o pó e, com cuidados sem fim, pegavam na tecelagem. Das suas mãos vinha o tecido do futuro, fresco, puro, quase luminoso.

Uma voz desceu dos céus e disse: o que ferir alguém que morra, morrendo morrerá. Elas encolheram os ombros e deixaram o dia escoar-se entre as pernas, coxas férteis dedilhadas lentamente, pele lustrosa no olhar que as olhava. A noite avançou incólume na escuridão sem estrelas, nas trevas primitivas onde tudo abrandava, e a morte cansada deixava a carne em frágil decomposição. Tudo caiu então para dentro da pátria do silêncio, arrastado pelo rio do esquecimento, dragado por uma linguagem nova, tão nova e tão incompreensível. De olhos desmesurados, as tecedeiras adormeceram. Sonhavam longamente, noites e dias sem parar, com impérios desfeitos, camisas de seda, o branco véu, à noiva no altar cobre.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Uma sociedade impotente


Uma país literalmente a arder. Mais uma vez. Sempre que S. Pedro se distrai, Portugal incendeia-se. O João Carlos Lopes (JCL) cita um estuda da União Europeia: Portugal teve mais incêndios que a Espanha, França, Itália e Grécia juntos no período entre 2000 e 2013. Este pequeno país registou, mais concretamente, 54% do número total de incêndios dos países mediterrânicos, quando a sua área total, no conjunto dos cinco, pouco passa dos 10%. Estes dados perturbadores são um espelho fiel da cultura cívica dos portugueses.

Ao começar a escrever este texto lembrei-me de uma passagem do primeiro capítulo de Sexual Personae, de Camille Paglia. Diz assim: A sociedade é uma construção artificial, uma defesa contra o poder da natureza. Sem a sociedade, estaríamos expostos ao mar bárbaro que é a natureza. A sociedade é um sistema de formas herdadas para reduzir a nossa humilhante passividade perante a natureza. (…) A natureza tem a sua agenda fundamental, a qual apenas fracamente podemos conhecer. A pergunta que se coloca é a seguinte: o que se passa com a nossa sociedade que é tão impotente para nos proteger da terrível agenda da natureza. A sua impotência ultrapassa largamente a dos países europeus mediterrânicos.

Há acusações para todos os gostos. A direita acusará a esquerda no governo. A esquerda acusará a direita que governou. Depois, como no texto de JCL, há a indústria do fogo posto, o que parece uma evidência, bem como, segundo outros, o desordenamento do território, o abandono do interior, embora o Funchal não seja propriamente o interior, os interesses da monocultura do eucalipto, etc., etc. Tudo isto, porém, são sintomas de um mal bem mais fundo, de um mal entranhado na nossa sociedade e que nos expõe, para utilizar a linguagem de Camille Paglia, a uma humilhante passividade perante a natureza.

O que a actual situação torna patente, mais uma vez, são três características da sociedade portuguesa e dos portugueses. Em primeiro lugar, uma sociedade débil, mal organizada e corroída na sua organização política, que perante qualquer catástrofe  mostra a sua impotência. Em segundo lugar, uma consciência cívica irrisória. Esta alimenta, por exemplo, a tal indústria do fogo posto. Por fim, uma relação superficial da generalidade dos portugueses com a realidade e com aquilo que têm de fazer. Na verdade, nada é levado até às últimas consequências. Tudo é tratado pela rama. O culto do desenrascanço – culto, pois é louvado como virtude – diz tudo sobre a nossa atitude. Diz tudo sobre a impotência da sociedade portuguesa perante a terrível agenda da natureza. E também ajuda a explicar a débil consciência cívica e, não tenhamos medo das palavras, a puerilidade das elites políticas.

Uma palavra final de gratidão aos bombeiros portugueses, os quais com a sua coragem, a sua tenacidade e a sua solidariedade minimizam as grandes tragédias que a natureza nos envia e a nossa cultura do desenrascanço alimenta fartamente.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Rumores de Maio - 6. O Rio

Kazimir Malevich - River in the Forest (1908 ou 1923)

6. O Rio

O rio que passa nos meus olhos é
um fogo-fátuo, uma pedra
desenhada no sono, a areia onde
te escondes, refúgio da meia-noite.

Nos meus olhos correm águas desse
rio vindo do norte para
se abrir na textura da tarde e
cantar na força hidráulica
com que te vejo passar.

Um sopro, um sorriso, um obscuro olhar
de animal impaciente, a luz
resplandecente do rio em que
despido e cantante mergulho
na vertiginosa voragem dos teus olhos.

(Rumores de Maio, 1977)

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Diário de um banhista - IV

Maurice Prendergast - Bathing, Marblehead

É dura a vida de um banhista. Estava ontem muito descansado quando um telefonema lançou o pânico. Para amanhã, a visita de uma amiga. O mundo turva-se, isto de mulheres e praia conjuga-se com tal perfeição que já estava a ver-me arrastado, em pleno sábado, imagine-se, para um areal pejado de corpos espojados pelo chão e alegres trinados das criancinhas. Sim, sim, dessas mesmas que o divino Mestre dizia para deixarem ir até Ele, mas Ele, sábio que era, não ia à praia. Mesmo aquilo no Jordão não foi um banho, mas um baptizado, leram bem, um baptizado, e esse só acontece uma vez na vida, pois uma pessoa não anda sempre a mergulhar nas águas para lavar pecados. Não haveria João Baptista que chegasse, e se querem lavar a alma que vão ao confessionário, não à praia. Estava a ver-me arrastado, dizia, para o espectáculo dos portugueses em roupa interior, há quem lhe chame fatos de banho, portugueses exuberantes, desejosos de mostrar o viço e a peitaça e o coxame e a celulite e o pneu. Era este programa audiovisual que já se desenhava no horizonte da pobre imaginação que me coube em sorte. A coisa foi de tal maneira impressiva que passei a noite a sonhar com praias cobertas de portugueses e eu entre eles a caminhar, como sonâmbulo, a exibir a tristeza da minha figura, metido nuns boxers vermelhos a que toda a gente teimava chamar calções de banho.

Quando me levantei, bem cedo e mal dormido, a coisa piorou. Estava um céu azul e um sol esplendoroso. Ergui as mãos ao alto e disse: Senhor tem piedade das pobres florestas, olha as ignições, ajuda este país malquisto, apieda-te da lavoura, das plantas e dos animais, manda nuvens e chuva e tempo fresco. Nada. Eis o verdadeiro sentido da derrelicção. Senti-me abandonado, desprezado, humilhado. É por estas e por outras que as pessoas deixam a Igreja, esquecem as missas, mandam ao diabo – salvo seja, t’arrenego, ó belzebu – os mandamentos. A manhã caminha por aí fora, toma-se café, compram-se os jornais, e uma voz insidiosa diz ó tanto calor, está mesmo bom para ir à praia, respondo ó tanto calor, está mesmo bom para ficar em casa. E ali se fica naquela indecisão, vai não vai, vais tu, fico eu, e eis que aquela amiga, a que haveria de vir, liga a dizer que sim, que vem, mas não está disposta para a praia. Respiro fundo, agradeço ao Senhor, sinto-me comovido. Talvez sejam incompreensíveis os caminhos do Altíssimo. Salvo in extremis. É dura a vida de um banhista. (averomundo, 2007/08/04)

domingo, 7 de agosto de 2016

O medo e a vida normal

Karl Weschke - Fear (1948)

Espalhar o medo entre as populações ocidentais é o objectivo táctico principal, no que se refere à Europa, do terrorismo islâmico. O medo lança a incerteza e a angústia entre as pessoas e, fundamentalmente, leva-as a desistir do seu próprio modo de vida, isto é, põe em causa a vida normal. Decisões até há pouco tempo inócuas - por exemplo, uma viagem - são agora ponderadas, por muita gente, a partir da ameaça terrorista. Duas notícias de ontem, onde o medo é o elemento central, merecem alguma atenção.

A primeira diz respeito ao atentado, em Charleroi, Bélgica, contra duas polícias belgas. Elas não morreram, ao contrário do atacante. Contudo, este tipo de atentados de baixa intensidade tem um enorme potencial para espalhar o medo, pois não necessita nem de grande preparação nem de meios técnicos que não estejam à mão de qualquer um. Se eles proliferarem, deixarão de poder ser considerados, como ainda parecem ser, questões de mera segurança interna, para se tornarem num dos elementos centrais do terrorismo em solo ocidental, uma forma de pôr em causa a vida normal.

A segunda notícia refere que as autoridades de Lille, França, anularam a edição deste ano da Braderie, a grande feira da ladra, no primeiro fim-de-semana de Setembro, que atrai ao centro da cidade cerca de 2 milhões de pessoas. Razões de segurança, o medo de um ataque terrorista. E este é apenas mais um evento que é anulado. A prudência manda agir assim, mas esta mesma prudência é a confissão de uma derrota e de uma desistência daquilo que é a vida normal.

As organizações terroristas não visam, neste momento e na Europa, um confronto militar com o Ocidente. Conhecem o enorme diferencial militar e tecnológico. Mas têm também uma perspectiva histórica, que recusamos a reconhecer e a reconhecer-lhes. Desarticular a vida normal, por incipiente que pareça ser do ponto de vista militar, pode ser o começo de algo que é pensado a longo prazo, algo que ultrapassa as gerações. O medo que se pretende espalhar não quer derrotar agora o inimigo, deseja apenas começar a prepará-lo para ser derrotável num futuro mais ou menos longínquo. A vida normal é, nesta hora, o bem político e estratégico mais importante, e é essa vida normal, que o medo desarticula, que esperamos ver defendida, custe o que custar.

sábado, 6 de agosto de 2016

O silêncio em Auschwitz

A minha crónica no Jornal Torrejano de 2016/08/05.

Nesta última crónica antes de férias, podia falar das sanções europeias a Portugal, que não houve, do terrorismo que continua a haver ou, como entrámos silly season, de um tema estival que estivesse à mão. Escolho, todavia, falar do silêncio. Do silêncio do Papa Francisco na sua visita ao antigo campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. O que significa o silêncio de um Papa no reino do terror nazi? Para muitos de nós, impregnados pela cultura moderna que hipervaloriza a acção em detrimento da contemplação, o gesto do Papa não é muito diferente dos minutos de silêncio que se guardam antes dos jogos, quando alguém importante do mundo do futebol morre. Um gesto simbólico, onde o símbolo, destituído do seu sentido profundo, é apenas entendido como mera homenagem dos vivos a quem morreu.

O silêncio do Papa em Auschwitz, porém, não é comemorativo nem rememorativo. Não é sequer uma homenagem. O silêncio do Papa é, antes de mais, a confissão da perplexidade perante o mysterium iniquitatis (mistério do mal), perante o horror que os homens – crentes, agnósticos e ateus – fazem a outros homens – também eles crentes, agnósticos e ateus. Na algazarra em que se transformou o mundo, na balbúrdia que a acção desenfreada lança sobre a Terra, é necessário que se faça silêncio para que o horror possa ser visto na sua própria natureza, para que os gritos dos que sofrem às mãos de outros homens possam ser escutados. As palavras e a as acções são sempre um analgésico que nos permite não ter de enfrentar o horrível que habita nos horrores que cometemos.

Auschwitz-Birkenau não é apenas o símbolo do terror nazi. É o símbolo de todo e qualquer terror, individual ou colectivo. É uma manifestação, e que manifestação, desse mysterium iniquitatis que assola a espécie humana, encontrando sempre novas razões para espalhar a dor sobre os homens. Na verdade, a única possibilidade perante aquilo que ali se passou – perante aquilo que se passa no mundo – é o silêncio. O silêncio de um velho Papa naquele lugar não é um gesto político, nem um condenação judicial, nem um acto ritual. É apenas a criação de um espaço de escuta. Escuta de quem? Escuta de todos aqueles que, antes de expirar e com voz forte, poderiam dizer: “Eloí, Eloí, lamá sabactâni, que significa “Meu Deus, Meu Deus! Por que me abandonaste?” (Mateus 27:46).

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Diário de um banhista - III

Paul Cézanne - Las grandes bañistas (1900-05)

Que venham as burkas, burkas afegãs, daquelas que vão da cabeça aos pés. Não, não me converti ao Islão, mas começo a compreendê-los. Hoje, ó dia nefasto, quando me levantei, tudo estava ensolarado, fazia calor, e lá me arrastaram do café em direcção à praia, não sem antes, ainda em casa, note-se, me besuntarem de cremes por causa dos ultravioletas. Ele são cremes para a cara, cremes para o corpo, protector 30 e 40, numa conversa cabalística que mais parecia as deambulações esotéricas do Fernando Pessoa. O creme cai, olho-me ao espelho, apetece-me ulular e fazer a dança da chuva. Sinto-me um pele-vermelha. Contenho-me, haja decoro.

Lá vou, cantando e rindo, levado, levado, sim... Quando chego, piso a areia, os pés formigam. Anoto – mentalmente, não vá alguém pensar que levo o portátil ou aquele caderninho de capas pretas onde registo os ditos infelizes que me ocorrem – anoto, dizia, bandeira verde, maré baixa, pouca gente. A coisa não está completamente insalubre. Não sou banhista de barraca e lá se pousa o saco e toca a caminhar à beira-mar. Parece que faz bem aos músculos das pernas e da barriga e também à circulação. Melhor que os rebuçados do Dr. Bayard para a rouquidão. Uma pessoa caminha, caminha, os pés dentro de água, a areia molhada e dura, a água que vai e vem, como se não fosse esse o seu destino, e lá vou eu olhando os circunstantes, homens, mulheres, crianças, o sol bate-me no pescoço, nas costas não, pois o pólo é coisa que não dispo – há que poupar a humanidade à minha miséria – e continuo a anotar tudo, mentalmente, e sinto-me inclinado, cada vez com mais intensidade, para o Islão. Que venham as burkas, para homens, mulheres e crianças, que escondam os tristes espectáculos que ali se me apresentam. Desespero da humanidade.

Ao menos, penso contristado, fosse obrigatório o uso de fatos de banho do princípio do século passado, elegantes e frívolos, mas a esconder o excesso de humanidade que há em todos nós, mais nuns de que em outros. É isto que este pobre banhista pensa enquanto anda, anda, para fazer bem aos músculos e à circulação e à rouquidão. Paro, melhor, paramos. Vão ao banho e eu fico a ver, a olhar gaivotas, a contar barcos, a sonhar com sereias e a descobrir baleias. É nesse momento que alcanço a utilidade universal da burka, esse achado maior da humanidade, supremo conceito onde a igualdade se realiza e nos torna a todos menos infelizes.

Que coisa mais adorável é a praia. (averomundo, 2007/08/03)

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

O espantoso caso dos secretários viajantes

Juan Botas - Traveller

Jorge Miranda afirma que é “espantoso que, ao fim de 40 anos de democracia, ainda exista um caso destes”. Será, porém, assim tão espantoso este caso dos secretários que viajam pagos pela GALP? O problema é que a nossa democracia e muitos dos seus agentes sempre mantiveram, após o Verão quente de 1975 e o arrefecimento global do 25 de Novembro, um persistente love-affair com o mundo dos negócios. Seja a transição de grandes empresas – nomeadamente de bancos – para o parlamento e governo, seja em sentido inverso, a ida de governantes para grandes empresas, a relação entre as elites políticas e os interesses económicos particulares sempre esteve longe da transparência que deveria existir. Este é apenas mais um episódio num mundo onde a promiscuidade é a regra (e a regra, como se sabe, não se confunde com a lei, embora esta seja produzida muitas vezes para proteger certas regras dadas pelos costumes, pelos maus costumes). Se há alguma coisa estranha neste acontecimento é não ter ocorrido, aos secretários de Estado em causa, que a viagem de borla lhes ia sair muito cara, mas isto só reforça a ideia de que estes são os costumes em vigor.

É evidente que estes secretários de Estado só têm uma saída, demitirem-se. A sua demissão será uma coisa boa, mas não alterará o ecossistema em que se vive. Este é o produto do bloco governamental e do mundo dos grandes negócios (e também dos médios e pequenos, se passarmos do nível central para o local). O grande problema é que existe na sociedade portuguesa a profunda convicção de que o sucesso nos negócios depende das relações com o poder. Esta convicção não é o efeito de coisa nenhuma ou da proverbial inveja lusitana, mas de práticas sustentadas durante décadas. Portugal é um caso daquilo a que se chama crony capitalism. O maior contributo que qualquer governo poderia dar ao país residiria na separação rigorosa entre a esfera da economia e a esfera do poder. Percebemos que isso será muito difícil para os habituais detentores do poder, PS, PSD e CDS, mas não poderá ser esse um desafio para aqueles que, como o BE e PC, sempre estiveram fora do poder? Não poderia ser esse o seu contributo, ao obrigar o PS a reformular um conjunto de leis e práticas, para a qualidade da democracia em Portugal? Se não servirem para isso, para melhorar a qualidade da democracia, servirão para quê?

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Rumores de Maio - 5. A Luz Azul

Karl Friedrich Schinkel - The Garden of Sarastro by Moonlight (1815)

5. A Luz Azul

Odor azul no anil de Maio,
a pele bravia sob o lençol,
a página fértil do pranto.

Tão ígnea, tão fulgurante,
a tua luz nasce na noite e
eleva-se azul na alvorada.

(Rumores de Maio, 1977)

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Livro do Êxodo 20. Visito a maldade dos pais na pele dos filhos

Henri Matisse - Large Landscape, Mont Alban (1918)

Veio, entre os cabelos havia nuvens, e da boca saíram palavras firmes e bravias como tronos e dominações. Visito a maldade dos pais na pele dos filhos, disse e depois partiu. A janela embaciada, a névoa a tocava, descerrou-se. No chão, estilhaços, restos de garrafas partidas, aqui um gargalo ainda sóbrio, guardanapos de papel ensebados pela boca, cascas desvairadas pelo trabalho das mãos. Ouvia-se uma melodia no saguão, mas os sonhos, ainda não pesadelos, eram trevos desfolhados, um caule, o sobejo da raiz a baloiçar ao vento da tarde, da janela o sopravam.

Toda a matéria da vida, um jornal rasgado ou uma rosa seca, era um rumor, palavras sussurradas, gestos inacabados, suspensos no último instante. No horizonte, um vórtice, mas a chama apagada não se reacendia e tudo era um barco esquecido, desprezado sobre a pálida areia, a quilha ao abandono, os remos carcomidos, restos de ferragens estranguladas pela oxidação, a madeira oca pelo sal, a tudo tão cedo infecta. Havia, tão perto, canaviais, o vento os tocava, e a luz, pois luz era, neles se escondia, sombreando as tardes onde o sol se punha.

Tomados pelo terror, cobriram-se de escuridão e deixaram os olhos vagabundear sobre as mesas cobertas de garrafas de cerveja. As mulheres despiam-se em plena rua e gritavam, esbugalhando os olhos, abrindo as pálpebras para que a luz negra nelas entrasse e as tomasse por dentro. Todos caminhavam, na ignorância do jardim, no esquecimento do bosque ameno onde, como uma anáfora, tinham ano após ano, aqueles que lhes cabiam em sorte, vindo, para agora, expulsos e com o coração a escorrer o óleo da dor, entregarem a memória à grande pátria do esquecimento, cantando visito a maldade dos pais na pele dos filhos, até que o silêncio desceu sobre as suas bocas e os calou.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Um Papa irritante


O Papa Francisco tem o condão de irritar uma certa direita e de agradar a uma certa esquerda. O que acontece com ele não é, porém, muito diferente do que aconteceu com João Paulo II, mas este agradava a uma certa direita e desagradava a uma certa esquerda. Na verdade, para além do estilo pessoal e das circunstâncias dos respectivos papados, não há diferenças, no essencial, entre eles. Como não há entre ambos e Bento XVI. Voltemos ao que irrita tanto certa direita. Em abstracto, o que a irrita é que Francisco não seja um chefe político, o seu chefe político global. De forma menos abstracta, o que a irrita não são sequer as questões de ordem moral, a abertura que o Papa tem ostentado para com os recasados e os homossexuais, ou a sua atenção aos problemas ecológicos. O que a irrita são as questões de ordem económica e a relação com o Islão.

Comecemos com as questões económicas e com uma longa citação de um artigo recente de Francisco Sarsfield Cabral: “O Papa Francisco é frontal e coerente, nas palavras e nos actos. No início do seu pontificado chocou algumas pessoas, nomeadamente com afirmações sobre problemas económicos e sociais. Depois, lendo com atenção o que o Papa dizia, verificou-se que ele falava segundo a Doutrina Social da Igreja (DSI) – algo que muitos católicos acham uma doutrina simpática, mas ignoram na prática. Francisco veio, afinal, lembrar que essa Doutrina é mesmo para aplicar.” Na verdade, a DSI está longe dos devaneios dos teóricos do liberalismo contemporâneo e isso irrita as elites que vêem como virtuosa a devastação social fomentada pelas políticas ditas neoliberais e ordoliberais (a versão alemã do liberalismo contemporâneo).

A posição da Igreja não nega a propriedade privada dos meios de produção, a iniciativa empresarial e o papel do mercado na economia. Em suma, não nega o liberalismo, mas tempera-o. A DSI aproxima-se das antigas perspectivas da democracia-cristã e da social-democracia. Valoriza a ideia de comunidade e de integração de todos nessa comunidade. Esta é uma perspectiva cristã, mas não é a perspectiva de muitos cristãos. E isso é irritante para as elites sociais – nomeadamente, as católicas – que usam a Igreja para se diferenciar, reafirmar o poder e reproduzir o seu estatuto social. A irritação subjaz na forma desdenhosa com que tratam o actual Papa: o Papa Chico.

Outro motivo de irritação emerge com o problema do Islão. Apesar dos atentados levados a cabo pelo radicalismo islâmico, Francisco recusa-se a aceitar a existência de uma guerra religiosa – apesar de defender que o mundo está em guerra – e de ver o Islão com uma religião inimiga da convivência pacífica entre os homens. Tenho escrito múltiplas vezes sobre o problema do Islão, um assunto para o qual fui despertado pela já longínqua Revolução Iraniana, em finais dos anos setenta do século passado. Há no Islão uma desconformidade com a Modernidade e o Iluminismo muito mais acentuada do que aquela que existia entre essas dinâmicas da História e o Cristianismo, até porque muitos valores da Modernidade e do Iluminismo têm a sua origem no próprio Cristianismo. Não tenho dúvidas sobre o facto de certos sectores do Islão quererem – e agirem em conformidade – um conflito intercivilizacional.

A questão que se coloca, contudo, é se o chefe da Igreja Católica deverá reconhecer a existência de uma guerra religiosa entre o mundo cristão e o mundo islâmico. O que significaria esse reconhecimento? Em primeiro lugar, significaria o corte com a trabalho de diálogo com o Islão iniciado por João Paulo II e continuado com Bento XVI. Depois, significaria que, de um momento para o outro e por iniciativa do Papa, o mundo islâmico (e este está presente por todo o Ocidente) e o mundo de origem cristã se tornariam, formal e materialmente, inimigos. Isso poderia, por exemplo, dar origem a guerras civis em certos países europeus, instabilizar ainda mais as fronteiras com o mundo muçulmano, a começar pela da Turquia e acabar com os nossos vizinhos de Marrocos. Julgo que os grupos islâmicos radicais agradeceriam o favor.

Francisco não é ingénuo nem alguém que está ao serviço do inimigo. É antes de mais um jesuíta. E esta característica não pode ser dissociada da sua idiossincrasia pessoal. E os jesuítas foram e são educados para defender a Igreja e o Papa. Como jesuíta, Francisco é um diplomata e diz aquilo que quer dizer e não diz o que não quer. Há nele frontalidade mas também diplomacia. Como Papa, como sumo pontífice (pontifex), ele é construtor de pontes. E é isso que ele faz. Construir pontes com o outro. Seja este outro alguém que não segue a moral católica, alguém que pertence ao mundo dos excluídos, alguém que é ateu, ou alguém que professa outra fé. Um Papa não é um capo político. A dimensão que é a sua é supra-política, mais abrangente e mais profunda. É por isso que os Papas têm essa capacidade persistente de irritarem umas vezes a direita, outras a esquerda, e, por vezes, as duas ao mesmo tempo. É para isso, porém, que eles são o que são.

domingo, 31 de julho de 2016

Na boca de Chronos

A minha crónica em A Barca.

Chronos, o deus grego do tempo, devorava os seus próprios filhos. Isso era um mito, dir-se-á com alívio, e, para tranquilizar o coração, sublinhar-se-á que os deuses dos antigos mitos greco-latinos estão mortos. Por que razão, num tempo estival a convidar à indolência e aos banhos de mar, trazer a sinistra figura à luz do dia? Talvez porque essa história da morte dos deuses esteja mal contada, e Chronos continue bem vivo e insaciável. Talvez mais insaciável que nunca. Veja-se o que o deus fez à velha União Soviética e aos regimes que ela tutelava. Devorou-os num abrir e fechar de olhos. Gente com 40 anos mal se lembra que o mundo estava dividido entre duas grandes super-potências, naquilo a que se chamava Guerra Fria.

Mas o deus, insensato, não parou por aí. Todos nos lembramos ainda como a União Europeia, então CEE, era uma promessa radiante que parecia oferecer civilização, bem-estar, tolerância. Nas últimas décadas, mesmo à frente dos nossos olhos, o deus, esfaimado, foi deglutindo tudo isso, sem pestanejar. Também aquela ideia – mais desejada que vivida – de que o Ocidente era um lugar de paz e tranquilidade, sob o império da lei, é mastigada, em cada atentado terrorista, pelo voraz Chronos. Os europeus e os americanos tinham-se esquecido da guerra de 39-45 e, seduzidos pelo apolíneo véu da aparência, pensavam que a paz tinha vindo por mil anos. Não veio, o deus trabalha incessantemente para mostrar que uma ilusão é uma ilusão.

Uma outra convicção, a que nos é mais querida, prepara-se para ser abocanhada pelo insaciável deus. Trata-se da crença de que a democracia é o regime do futuro. Observamos, atónitos, o deus a levá-la à boca na Turquia, como aconteceu na Rússia, na Ucrânia ou nas infelizes experiências das primaveras árabes. Dentro do clube democrático da União Europeia, vemo-la ser cortada às tiras, na Hungria ou na Bulgária, para ser servida como acepipe. Tudo o que a história (essa máscara de Chronos) produz, a história o leva. Sentados à beira-mar a olhar o mundo, assistimos, impotentes, ao florescimento dos Trump, das Le Pen e de todos os outros que parecem ser legião. Também a democracia irá ser tragada pela boca do tenebroso deus.

sábado, 30 de julho de 2016

Diário de um banhista - II

Cecilio Pla Gallardo - Bañistas

Continua a minha aventura no reino de Posídon. Hoje levantei-me cedo, olhei para o céu, um sol esplendoroso, fiquei em pânico. Será hoje? Uma volta por aqui e por ali, visita ao blogue, o post do dia. Propícios, os deuses cobrem o céu de nuvens. Respiro mais facilmente. O tempo melhora a olhos vistos, penso. Pego nas Metamorfoses, de Ovídio, acabadas de sair, na excelente colecção da Cotovia, em tradução de Paulo Farmhouse Alberto. Perco-me nas transformações. Ingénuo, ingénuo que sou. Os deuses são caprichosos, mas enviam-nos sinais. Metamorfoses não de humanos em aves ou vacas, mas transformações do tempo. O que tinha amanhecido ensolarado metamorfoseara-se em nuvens escuras e densas, mas nada neste mundo mutável é seguro. As nuvens dissiparam-se e lá veio o sol. Não tardou muito para me perguntarem, insidiosamente, se não ia à praia, a emoção tomou conta de mim. Fiz-me despercebido. Prefiro o Ovídio, mas calei-me. Lá foram pisar a areia e tomar banhos de sol e mar. Fiquei nas Metamorfoses e na música de Giovanni Pierluigi da Palestrina. Lá fora o silêncio deixa vir até mim o marulhar do mar. Adoro a praia. (averomundo, 2007/08/02)

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Rumores de Maio - 4. Memórias

Claude Monet - Sea Study

4. Memórias

Um canapé cansado e sem memória,
a pedra gasta e fria onde
sentado salmodiava.

Se um verso chegava, a maré
erguia-se no estuário do verão
e as ondas do mar eram saias, saias
vibrantes na vertigem do vento.

(Rumores de Maio, 1977)

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Um mártir da liberdade

Paul Gauguin - The Yellow Christ (1889)

A execução do padre Jacques Hamel, numa igreja de Saint-Étienne-du-Rouvray, perto de Rouen, França, não foi mais um atentado terrorista. Degolar um velho padre na Igreja perante os fiéis que ali se encontravam para a celebração da Eucaristia, foi um acto simbólico contra a fonte das nossas liberdades e dos valores ocidentais. Repito, o cristianismo – fundamentalmente, o cristianismo católico mas não só – é a fonte das nossas liberdades e dos nossos direitos, é a origem, juntamente com os valores clássicos greco-latinos e a ciência moderna, da nossa visão do mundo.

Recorro a uma autoridade insuspeita, a Jürgen Habermas, o filósofo alemão de esquerda, ateu e neo-marxista. No diálogo que manteve com Jospeh Ratzinger, Bento XVI, em 2004 e transformada em livro em 2005 (The Dialetics of Secularization), Habermas chama atenção para o facto do cristianismo ser o fundamento último da liberdade, dos direitos humanos e da civilização ocidental. E afirma que “não dispomos de opções alternativas. Continuamos a alimentarmo-nos desta fonte”. E acrescenta que os Estados liberais devem salvaguardar “os seus recursos culturais e morais, dos quais a religião faz parte”.

Tornou-se moda, nas nossas sociedades, desprezar o cristianismo, ridicularizar as Igrejas – em especial a Igreja Católica – e congratularmo-nos com o ocaso que parece atingir o cristianismo na Europa. Não se percebe que com isso estamos a minar o fundamento mais poderoso das liberdades ocidentais, a fonte dos grandes valores que são os nossos – e nos quais cabe a separação Igreja-Estado e a própria liberdade de não crer – e o cimento último que nos permite uma identidade e uma diferenciação no concerto das grandes culturas do mundo.

Nós não compreendemos ou não queremos compreender isto, mas há quem no mundo islâmico o tenha compreendido e parece não hesitar em abrir brechas num mundo que despreza as suas próprias origens. Há um velho sonho em certos sectores do Islão – e que não serão tão minoritários quanto nos queremos convencer – de uma comunidade única da espécie humana sob a lei do Profeta. O grande inimigo deste projecto foi sempre o cristianismo. Porquê? Por uma interpretação da relação do homem com Deus diametralmente oposta. No Islão, os homens são servos. Servos de Deus e submetidos aos seus representantes. No cristianismo, a relação com Deus não visa a servidão mas a liberdade. Foi esta liberdade que, ao longo de séculos, se foi descobrindo, desenvolvendo e que culminou no Estado de direito.

É por isso que a execução de Jacques Hamel o transforma não apenas num mártir da Igreja Católica, mas num mártir da liberdade. Alguém que não pode ser visto de forma diferente da daqueles homens que deram a sua vida no terrível desembarque nas praias da Normandia para que se pusesse fim ao terror nazi. Não sei se nós ocidentais compreendemos isso. Não sei se nós ocidentais percebemos que a destruição do cristianismo – um dos fins do radicalismo islâmico – arrasta consigo o conjunto de valores que sobre ele foram erguidos. Hoje em dia parece acreditar-se que se destruirmos os alicerces de uma casa esta ficará de pé. Não ficará, não sobrará pedra sobre pedra.

terça-feira, 26 de julho de 2016

Livro do Êxodo 19. Uma figura lívida fulgura na noite

Eugène Carrière - Jovens Mães (1906)

Lívidas figuras na escuridão se desenham, lívidas figuras como mães perdidas na névoa de Novembro, lívidas figuras de tudo se acercam, como regato de outro regato, ou os dias aos dias se prendem. Neles – esses dias de tão grande lividez – escrevo sobre a brancura exausta da areia, sobre os mil grãos que, como planetas desmemoriados, povoam as praias de onde as estrelas, tão brilhantes na sua cintilação, partem vagarosamente para o palácio negro dos meus versos. Depois, olho o mar e vejo virem ondas, e as palavras soçobram na água, as sílabas a desfazer-se com gemidos inefáveis e um odor a naftalina, a casas antigas e pobres, tomadas pelo pavor da memória. Sobejam letras órfãs e lágrimas correm e tumultuam a face, ganem na floresta, se para o tormento da luz os segredos, lívidas figuras, expulsam.

Assim como vos levei sobre os pássaros da tarde, e vos trouxe a mim, descerei no dorso de um animal e ao caminhar derrubarei flores, jardins de pedras, palavras de ócio, poemas, espelhos despolidos, rasgados em cada verso que a outro se segue. Ah esses poemas tão sem préstimo, tão desfasados da língua, tão incapazes de um sinal, de um rosa, de uma mão aberta sobre o coração. Não cantam, esses poemas. Não indicam e quando falam, ainda a nuvem fica por dizer, mesmo se iluminada, mesmo se crua. Um gesto, o esgar da garganta, o débil sopro da voz e não mais do que pó o poema é. Uma figura lívida fulgura na noite, tão lívida na noite estrelada, versos que se prendem noutros versos e soçobram na areia batidas pelo vigor das ondas, pelo vento marítimo, para a dor que deles se desprende e inclina o coração para a eternidade.

O que está em causa

Ivonne Sánchez Barea - Islam (1999)

Estes últimos tempos têm sido férteis em ataques terroristas. Uns levados a cabo por militantes claramente comprometidos com a jihad, outros por pessoas desavindas com a vida e que encontram, numa súbita adesão aos métodos terroristas, uma saída para a perturbação que as acomete. Este último tipo de atentados – onde se podem inscrever os casos de Orlando, nos EUA, ou de Nice, em França – serviram para uma estranha leitura do que se está a passar. António Guerreiro (AG), no Público, depois de verberar a «lengalenga ciclicamente repetida do “ataque aos nossos valores” e aos lugares simbólicos da nosso “modo de vida”, praticados pelos “inimigos do Ocidente” e até da “humanidade”», defende que o que é preciso ser pensado é «o inconsciente terrorista e aquilo que dá lugar a uma “guerra de subjectividades”». E traz à colação a ideia de Alain Bertho de estarmos não perante uma radicalização do Islamismo, mas «confrontados com a islamização da revolta radical, uma  estranha situação em que o Islamismo se torna uma maneira de exprimir uma recusa do mundo e até um ódio de si».

O problema trazido pelo retorno do Islão à cena mundial é de tal ordem que os ocidentais – à direita e à esquerda –, moldados todos eles nos valores da Modernidade e do Iluminismo, são completamente incapazes de o compreender. É verdade que AG tem razão ao chamar lengalenga às reacções oficiais perante cada carnificina, uma espécie de confissão da impotência que se tem perante aquilo que não se conhece e com o qual não se sabe lidar. Também é verdade que AG não cai na lengalenga marxizante de ver neste conflito mais um episódio da luta de classes. A sua incompreensão do fenómeno, porém, é tão radical quanto a da direita ou da esquerda tradicional. Ao afirmar que o que precisa de ser pensado é o “inconsciente terrorista”, aquilo que dá lugar a uma “guerra de subjectividades”, faz deslizar o problema da área política para a da terapia. O que merece ser pensado, segundo ele, seria então os processos de subjectivação que levam certos indivíduos a uma revolta radical, a qual encontra, de forma acidental, o islamismo para expressar o seu ódio ao mundo ou a si mesmo. O que precisa de ser pensado é a fonte inconsciente de uma patologia.

Por interessante que seja compreender as motivações que conduzem certos indivíduos a esse tipo de actos, isso não esconde a importância fundamental do Islão ter emergido na cena mundial e de transportar consigo um conjunto de princípios que fundamentam tudo aquilo que se está a passar. Os ocidentais – de esquerda e de direita – não perceberam nada do que se passou na revolução iraniana. Não perceberam nada do que se passou nas primaveras árabes. Não estão a perceber nada do que se está a passar na Turquia, tão entretidos que estão com teorias sobre o carácter autoritário (e narcísico) do senhor Erdogan. Para lá do domínio das subjectividades, há um domínio objectivo que age e está disposto a pôr o mundo a ferro e fogo. Apesar de ser uma lengalenga falar do “ataque aos nossos valores” e aos lugares simbólicos da nosso “modo de vida”, praticados pelos “inimigos do Ocidente”, isso não deixa de ser verdade. Não são apenas as elites religiosas radicais do Islão que se opõem ao nosso modo de vida. São também as moderadas e, como é mostrado todos os dias (embora os ocidentais não o queiram ver), as grandes massas de fiéis.

O que está em causa, em primeiro lugar, é que o Islão (isto é, muito do clero islâmico) – na sua diversidade – jamais poderá aceitar isto: “lluminismo é a saída do homem da sua menoridade de que ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir do entendimento sem a orientação de outrem (Kant)”. O nosso “modo de vida”, por lengalenga que seja a sua invocação, funda-se nisto, neste reconhecimento de que cada um tem o dever e o direito de pensar por si mesmo e, sendo assim, de orientar a sua vida como muito bem entender, desde que não colida com iguais direitos do outro. Este, porém, é apenas um aspecto do problema. Há um outro e está ligado à história do próprio Islão, da sua auto-compreensão – a qual persiste inabalável – como a única religião verdadeira, o que lhe dá o fundamento para agir no mundo para impor a verdade, isto é, que dá cobertura aos seus projectos políticos. Que um padre católico tenha sido degolado, no dia de hoje, por alguém que não tenha conseguido adequar a sua subjectividade ao mundo onde vive ou por militantes radicais esclarecidos, é irrelevante. O que importa pensar não são os processos de construção das subjectividades mas o conjunto de crenças colectivas, político-religiosas, que alimentam o ódio à ideia de que cada um tem o direito de pensar por si mesmo.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Diário de um banhista - I

Paul Cézanne - The Bather (1855-57)

Início hoje a republicação dos treze (um número cabalístico, por certo) pequenos episódios do Diário de um banhista, escrito em 2007 e postado no meu antigo blogue averomundo, que já entregou, há muito, a alma ao criador. Confirmo que o meu espírito de banhista não se alterou, talvez algumas facetas se tenham acentuado, só isso. Comecemos então.

Adoro a praia. É um amor enternecido e respeitoso, um amor feito de longas distâncias e cortesias reverentes. Estou a banhos desde domingo passado e, felizmente, ainda não pisei areia. Não se deve pisar aquilo que amamos. Há movimento cá por casa, gente que vai até à beira-mar, volta crestada pelo sol, enfarinhada de areia. Comenta-se a excelência do tempo, do sol, da temperatura, da água… Eu acredito, acredito em tudo piamente, mas a minha devoção a tanta praia impede-me estes excessos. Sacrifico-me por amor e fico em casa. É duro, mas o amor a tudo justifica. (averomundo, 2007/08/01)

domingo, 24 de julho de 2016

Rumores de Maio - 3. Oração

Santiago Rusiñol Prats - La Oración (1890)

3. Oração

O tempo revoltoso
e as tuas mãos,
as tuas mão erguiam-se,
eram signo e sinal
um gesto,
a oração silenciosa
a domar o vendaval.

(Rumores de Maio, 1977)

sábado, 23 de julho de 2016

Contentar-se em olhar

Tintoretto - The Miracle of St Mark Freeing the Slave (1548)

Sosícrates conta, nas suas Sucessões, que Leão, tirano de Fliunte, perguntou [a Pitágoras] quem ele era: «Um filósofo», respondeu. [Pitágoras] comparava a vida aos grandes jogos. Na multidão que neles está presente há três grupos distintos: uns vêm para lutar, outros para fazer comércio, e os outros, que são os sábios, contentam-se em olhar. Também na vida, uns nasceram para ser escravos da glória, outros do engodo do lucro, e outros, que são os sábios, apenas visam a verdade. (Diógenes Laércio, “Vidas, doutrinas e sentenças de filósofos ilustres”)

O triunfo dos escravos. A nossa sociedade, talvez como todas as outras, é o lugar onde os escravos triunfam. É isso que aprendemos ao ler as palavras atribuídas a Pitágoras. A glória da acção ou a busca do lucro são, na visão pitagórica, formas de escravatura. Nesta ideia está contida também a ideia de emancipação. Uma estranha emancipação. Esta não vem da acção mas do olhar, do contentamento que nasce de observar aquilo que se passa. O olhar surge relacionado com a verdade. Esta é aquilo que se revela aos nossos olhos. Só ela emancipa da escravatura, do estar submetido à ânsia da glória ou ao império do lucro.

Muita gente pergunta por que motivo tantos ocidentais, apesar de tudo aquilo que a nossa actual civilização lhes concede e que nenhuma outra teve ou tem a capacidade de conceder, são tão críticos com o modo de vida que é o nosso. Depois, procuram razões políticas ou outras, razões essas que, invariavelmente, se fundam nos últimos dois séculos de história. Não percebem que a fonte desse descontentamento radica na velha sabedoria pitagórica. Apesar da deslumbrante capacidade técnica e da riqueza, mesmo dos mais pobres, muitos ocidentais continuam a desconfiar que a nossa sociedade é um lugar de pura escravatura. Ao tornar o engodo do lucro e a glória do poder nos únicos objectivos dignos proclamou-se a escravatura – uma escravatura dourada e cómoda – no fim último de qualquer homem. Contra isso, porém, não há nada que se possa fazer a não ser, como ensinou Pitágoras, olhar. Só o olhar pode emancipar.