terça-feira, 22 de maio de 2012

Escavar na noite

Georges Braque - La Noche (1951)

No panorama da filosofia em Portugal tem estado particularmente activa uma corrente que pretende acentuar a dimensão cognitiva e científica da filosofia. Legítimo exercício, mas estranho para mim. Herdeiro de Kant, penso que os territórios foram definitivamente demarcados com a separação entre pensar e conhecer. A ciência produz conhecimento, a filosofia pensa um conjunto de problemas que a ciência, pela sua natureza empírica, não pode tratar. Mas o mais interessante para mim reside noutro lugar e noutra atitude. Chamar-lhe-ia, ao lugar, noite; à atitude, escavar na noite.

A noite é a imensidão que ainda não foi pensada, aquilo onde a luz do entendimento não penetrou. O acto de escavar na noite significa retirar dela pedaços que iluminamos dando-lhe um nome e uma definição. Todo este processo é muito mais literário do que científico. É um processo de pura ficcionalização. Alguns exemplos. A invenção da Ideia por Platão ou da substância por Aristóteles, a instituição do Cogito por Descartes ou a demarcação do transcendental por Kant são formas de escavar na noite, de lhe retirar um pedaço e de o iluminar, permitindo, com os materiais roubados e confeccionados pelo pensamento, construir mapas para nos orientarmos nessa noite que nos rodeia.

Nada disto tem a ver com a ciência, nem como uma filosofia dita científica, aquela que se faz em muitas universidades, fundamentalmente, mas não só, no mundo anglo-saxónico. Este exercício deixou de ter lugar no mundo académico, como a existência de um Nietzsche, outro grande escavador da noite, demonstrou já no século XIX. Talvez tenha chegado a hora de compreender que a Filosofia não pertence ao mundo da universidade, com os seus rituais e exercícios científicos. Escavar na noite não é uma ocupação digna de doutores e de professores doutores, gente de mãos limpas e unhas cortadas. Escavar na noite é um exercício de gente perdida, tipos que caem em poços quando espreitam os céus.