segunda-feira, 21 de maio de 2012

Exercícios de esquecimento

Nicolas Poussin - The dance to the music of time (1640)

Estudar filosofia criou em mim uma relação enviesada com o tempo. Os grandes filósofos são estudados sub specie aeternitatis e dialoga-se com os seus textos como se os seus autores ainda fossem vivos. Há no processo uma pressuposição, muitas vezes confessada e analisada, centrada na ideia de que mesmo quando tratam de problemas que emergiram no seu contexto histórico, as respostas que encontraram têm uma validade universal e eterna. Lê-se Platão como se lê um autor contemporâneo. Mais, Platão, Descartes ou Kant acabam por ter mais crédito do que um filósofo contemporâneo que ainda não passou o teste do tempo. 

Esta situação não é idêntica à da literatura. As grandes obras que fazem parte do cânone merecem a leitura eterna, mas ninguém se lembraria, por exemplo, de descontextualizar a Odisseia ou o D. Quixote. As narrativas remetem para um objecto narrado temporalmente localizado. É a arte, a techne do artista, que as torna imortais. Com a filosofia é diferente, como disse. No outro dia comprei a obra La République de Platon, do filósofo marxista francês Alain Badiou. Quando Badiou quer pensar a justiça ou a boa comunidade recorre ao eterno Platão.

Este treino acaba por distorcer a visão das coisas. É chocante pegar num livro de sociologia ou de psicologia, mesmo de física - se se fosse capaz de lê-lo - e observar as terríveis marcas da temporalidade. Descobre-se que o estado da arte evoluiu de tal forma que mesmo os estudantes da área já nem precisam de saber da existência daquela obra (nem tudo será assim, mas grande parte é). Este exercício de olhar para as teorias filosóficas sub specie aeternitas acaba por gerar, pelo menos dentro de mim, um estranho conflito entre o intelecto que se move no não tempo e a temporalidade do corpo e a historicidade da existência.

A filosofia acaba por ser um exercício de alienação da nossa condição temporal, uma forma de não enfrentar a mortalidade que nos cabe por termos vindo a este mundo. Talvez a assunção dos problemas filosóficos como eternos seja uma falsidade. Talvez os problemas pensados pelos grandes filósofos estejam todos ancorados na sua época e a ela apenas digam respeito. Esta hipótese conduziria a filosofia a uma situação estranha. A sua história seria dispensável, bastaria a aprendizagem de uma técnica de pôr problemas e de os resolver através da argumentação. Mas isto não significaria a morte da filosofia e a destruição de algo que conduziu muitos a estudá-la? 

No fundo, dado tipo de pessoas - aquelas que se dedicam aos estudos filosóficos - trazem consigo uma certa dose de perversidade, que se manifesta no prazer de olhar as questões que o tempo coloca de um ponto de vista não temporal. É o prazer de relativização do relativo, o prazer de se deslocar entre épocas como se elas não existissem. E daqui nasce a minha grande divergência com Platão. Ele defendia que o bom governante teria de ser filósofo. Mas isto não é verdade. O bom governante tem de saber lidar com o tempo e ter atenção ao tempo em que se encontra. Quem governa não pode ter uma visão distorcida da temporalidade. Essa cabe ao filósofo, que tem o trágico destino de contemplar teorias eternamente jovens enquanto o seu pobre corpo declina.