segunda-feira, 4 de junho de 2012

Pigmalião e o amor platónico

Edward Burne-Jones - Pygmalion and Galatea IV: The Soul Attains

Tal como é narrado por Ovídio, o mito de Pigmalião, rei de Chipre e escultor, permite pensar o amor platónico numa perspectiva muito diferente daquela que é veiculada pelo senso comum. Desiludido com o comportamento das mulheres, o escultor entrega-se a um duro celibato. "Pigmalião sempre vira a vida dissoluta dessas mulheres. / Por isso, revoltado com os vícios sem conta que a natureza / conferira à índole feminina, vivia solteiro e sem esposa; / e por muitos anos não teve com quem partilhar o leito. (X 243-6)" Eis a revolta platónica contra o mundo sensível e a ascese como caminho de sabedoria.

"Um dia, com arte espantosa e feliz, esculpiu uma peça / de marfim da cor da neve, com a beleza com que mulher / alguma consegue nascer; e enamorou-se da sua obra. (X 247-9)" A estátua não representava mulheres reais, mas a beleza feminina ideal. Era uma emanação da Ideia platónica. Contudo, o escultor enamorou-se por esta beleza ideal que, por certo, lhe pareceu bem mais real e efectiva do que as belezas particulares das mulheres existentes no mundo sensível.

Foi esta beleza que desencadeou nele a paixão erótica e o levou a pedir à deusa do amor, Afrodite, que lhe concedesse uma esposa idêntica à mulher de marfim. Esta concede-lhe o desejo: "Enquanto se pasma, e se alegra na dúvida e receia enganar-se, / uma e outra vez o amante toca com as mãos nos seus desejos. Era corpo humano! As veias tacteadas pelo polegar latejam! / Então, o herói de Pafo pronuncia palavras solenes / de gratidão a Vénus (Afrodite). Comprime, por fim, com os lábios / os lábios que já não eram falsos. A donzela sentiu os beijos / que ele dava e corou. E erguendo o tímido olhar para o dele, / vislumbra, ao mesmo tempo, o céu e quem a amava. (X 287-94)" 

Ao ler-se a ideia de amor platónico através do mito narrado por Ovídio, descobrimos aquilo que Platão sempre propôs na sua filosofia. Não uma negação da realidade, mas um contacto intensificado e paroxístico com essa mesma realidade. A experiência comum, aquela que se funda no embotamento dos sentidos, toma a pura aparência pela realidade. É preciso ir para além dela. Ir para além dela é ascender à Ideia e tornar esta concreta, inscrevê-la no mundo, tal como Pigmalião o fez ao esculpir o marfim, e dar-lhe vida através da acção mediadora do divino, de Afrodite, isto é, do amor. Deste ponto de vista, o amor platónico não é um amor deserotizado. Pelo contrário, é o erotismo intensificado e elevado a uma potência infinita. Descobre-se que a ascese não é a negação pura e simples do sensível, mas o caminho para uma experiência sensível mais intensa, iluminada e incendiada pela Ideia. A Ideia é o que há de mais perigoso na filosofia platónica. Não porque negue o mundo sensível, mas porque tem a capacidade de o iluminar e incendiar.

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Citações: Ovídio (2007). Metamorfoses. Lisboa: Livros Cotovia. Tradução de Paulo Farmhouse Alberto.