terça-feira, 16 de agosto de 2016

J. D. Salinger, À Espera no Centeio


À Espera no Centeio (The Catcher in the Rye, 1951) é o romance mais conhecido de J. D. Salinger. Segundo a Time Magazine é a quarta obra mais interditada (presumo que pelas escolas) dos EUA. É lida como uma incursão no universo da adolescência. A adolescência é usada, porém, pelo autor como um dispositivo para contrapor a inocência da infância ao niilismo e à falsidade da vida adulta. A adolescência tem essa capacidade por dois motivos centrais. Por um lado, ela encontra-se na fronteira entre esses dois mundos. Por outro, pela a sua própria natureza, a adolescência, enquanto discurso, tem uma capacidade hiperbólica que permite, ao exagerar certas características, percebê-las na sua real natureza.

O romance narra-nos três dias da vida de Holden Caulfield, um adolescente de dezasseis anos que acaba de ser expulso, antes do Natal, de Pencey, um colégio frequentado pelos filhos de famílias pertencentes à elite norte-americana. Ao saber da sua expulsão, já a quarta no seu historial, o herói e narrador decide fugir do colégio antes de os pais serem informados. Vai para Nova Iorque, onde a família vive, mas começa por hospedar-se num hotel até que, por influência da sua irmã, ainda uma criança, volta para casa. Estes três dias são um confronto com a realidade da vida adulta e a permanente falsificação da existência que esta representa. O essencial, porém, é o olhar e o discurso do jovem Caulfield sobre esse mundo adulto.

O olhar é servido por uma linguagem hiperbólica que mistura o calão, os lugares-comuns da linguagem dos adolescentes e juízos que emanam de uma contínua generalização precipitada para configurar a vida falsificada dos adultos. A linguagem usada pelo teenager é central, não tanto como caracterização de uma juventude rebelde, embora o livro seja visto como um dos indutores da contracultura dos anos 50 e 60 do século passado, mas porque ela permite, na sua crueza e quase contra-senso, caracterizar a sociedade americana, onde, por exemplo, adultos discorrem longamente sobre quantos quilómetros conseguiram andar com um litro de gasolina. É a linguagem do adolescente que permite perceber o niilismo que se esconde na fachada falsa da vida adulta, uma vida marcada pelo logro, pela batota, por regras infringidas, pela manutenção das aparências. A hipérbole é a lente que dá a ver aquilo que o senso comum esconde.

O romance de Salinger não se limita a tornar patente o niilismo e a vida falsa da elite norte-americana, e, por extensão, da elite de qualquer parte do mundo. O romance retrata também, com a mesma linguagem e precisão, a fonte de onde brota esse niilismo e essa vida falsificada, os colégios privados frequentados pelos filhos-família. Estes colégios, com a artificialidade das suas regras e das suas tradições, com os jogos de subserviência e sobrevivência dos adultos que os dirigem e neles ensinam, são verdadeiras escolas de falsificação existencial. Olhar para o Pencey de Salinger permite-nos perceber como a educação escolar é uma das fontes do niilismo contemporâneo, tanto mais refinado quanto mais a instituição se dirige aos que estão mais acima na escala social.

O desprezo – na verdade, quase um ódio declarado – ao cinema por parte de Holden Caulfield, expresso directamente ou na crítica mordaz que ele faz ao irmão mais velho, um escritor que se foi prostituir, segundo o protagonista, para Hollywood ao escrever para cinema, é um elemento central na denúncia do niilismo e da falsificação da vida presentes na sociedade americana. Na verdade, é o cinema que populariza, entre as grandes massas, o modo de vida das elites. O niilismo e a falsificação existencial brotam dos grandes colégios e são disseminados pelo cinema, todo ele falsificação do real, pura montagem, onde aquilo que parece real não passa de artifício e fabricação.

A adolescência, porém, é um lugar de fronteira. Ela permite olhar, de forma hiperbólica, para dois países, o da idade adulta, que está mesmo à porta, e o da infância que acabou de se deixar. O que atormenta o protagonista é essa perda da inocência. Há no romance dois momentos simbólicos nessa luta pela preservação da inocência. Não da sua, mas a inocência dos que ainda não entraram na adolescência. Quando vai à escola ter com a irmã e se depara com vários foda-se grafitados nas paredes da própria escola, que ele tenta desesperadamente apagar, até que desiste, pois seria impossível apagar todos os grafitos semelhantes existentes no mundo. O segundo momento é aquele que dá o título ao livro. Instado pela irmã sobre o que queria mesmo fazer na vida, Holden Caulfield acaba por afirmar que queria estar num campo de centeio à beira de um abismo, no qual brincassem crianças. O seu papel seria de apanhar aquelas que poderiam cair no abismo. O campo de centeio é o locus da inocência, o abismo é o vazio que, através da queda, conduz à perdição do niilismo, da superficialidade e da falsificação da idade adulta.

A adolescência emerge assim como um posto de observação sobre o paraíso da infância e o mundo após a queda, o mundo da vida adulta. Ela, porém, não é apenas um ponto de observação ou uma fronteira. É ainda um lugar de enunciação. Ela é o lugar de um logos muito específico, um logos  que ainda não foi dominado pelas estratégias retóricas da persuasão. Com The Catcher in the Rye percebemos que a adolescência é, fundamentalmente, linguagem, enunciação, discurso, mas tudo isso no seu estado puro, como se a linguagem nascesse nesse momento na espécie humana, com tudo o que ela pode ter de terno e de selvagem, isto é, com tudo o que há de hiperbólico no acto da fala.


J. D. Salinger (2011). À Espera no Centeio. Lisboa: Quetzal Editores.