sábado, 8 de outubro de 2016

Rumores de Maio 17. Arde em ti uma palavra rasgada

George Seurat - Mulher sentado num prado (1882)

17. Arde em ti uma palavra rasgada

Arde em ti uma palavra rasgada
no umbral anónimo da noite.
Um punhal, uma espada incendiada,
o silêncio cru na casa da morte.

A duração eterna e sanguínea,
o leve crepitar do sal na lareira,
a noite rosada e fria de uma fêmea
a crescer nos dedos ao silvo da fogueira.

Árvores de palavras no horizonte,
onde pássaros azuis e tardios
colhem água na sombra da fonte.

Um punhal, uma palavra incendiada,
uma névoa oval de pássaros esguios
abertos à morte, ao rumor da madrugada.

(Rumores de Maio, 1977)