sábado, 16 de fevereiro de 2019

Arnaldo Gama, A Caldeira de Pêro Botelho


Desde o século XIX que no romance moderno português existe uma dupla linhagem. A do romance de actualidade e a do romance histórico. Este último encontra entre os seus cultores Alexandre Herculano e Almeida Garrett. Há no entanto um conjunto de escritores de segunda linha – isto é, que não atingiram a canonização de Herculano, Garrett, Camilo, Eça e mesmo de Júlio Dinis – que cultivaram o género e que terão tido uma influência efectiva na sociedade de então, continuando a ser lidos ainda no século XX. Uma dessas figuras foi o escritor portuense Arnaldo Gama (1828 – 1869), que se pode inscrever no segundo romantismo. O romance A Caldeira de Pêro Botelho (1866) foi a última obra publicada em vida do autor.

O tempo romanesco é o de Luís de Camões e a narrativa cobre acontecimentos que se desenrolam em Coimbra, na Madeira e, no epílogo, passados trinta e sete anos dos acontecimentos centrais, em Lisboa, o que permite ao autor fornecer aos leitores uma visão completa do desenlace dos acontecimentos. Uma questão de amor – os amores contrariados de D. Beatriz de Moura, uma nobre coimbrã, e de Diogo Botelho, um aristocrata madeirense – abre o caminho para um conjunto de aventuras, em que participam os amigos de Diogo Botelho, Luís Vaz de Camões e Simão de Ornelas, então estudantes em Coimbra. Posteriormente, o centro da acção, já sem a presença de Camões, transita para a Madeira onde se conhece o desenlace dos amores entre Beatriz e Diogo, envolvidos em novas aventuras e desventuras.

Uma literatura de entretenimento, para usar uma palavra hoje em voga? Sim e não. Sim, porque o conjunto de peripécias mantém o leitor comprometido com a leitura. Não, porque há uma intenção didáctica, uma visão moral do mundo e uma reflexão sobre aspectos da própria literatura, isto é, uma espécie de considerações meta-literárias que o autor partilha com os leitores. Estamos longe de uma obra que queira pura e simplesmente ajudar o leitor da classe média da época a enfrentar o tédio da vida burguesa, oferecendo-lhe uma narrativa de capa e espada.

Do ponto de vista didáctico, há uma espécie de trabalho de historiador que procura dar a conhecer, a um leitor que vive três séculos depois, como era vida dos universitários de Coimbra no século XVI, bem como alguns aspectos da vida das famílias mais poderosas da Madeira ou algumas vicissitudes pelas quais a população do arquipélago passava devido à sua situação geográfica. Percebe-se também como os poderes fácticos se sobrepunham à justiça, a qual é mostrada como uma espécie de joguete entre os poderes rivais. Este didactismo residirá na ilusão de que aquilo que História não consegue fazer – transportar-nos para o passado – a imaginação literária terá o poder de o fazer, ao mergulhar-nos nas vidas e acções das personagens romanescas.

Considerando que as personagens pertencem a famílias aristocráticas, o problema da honra é central na questão moral. O bem e o mal são aferidos a partir de questões de honra, tendo esta o papel, juntamente com o amor e o desejo erótico, de desencadear as acções dos protagonistas. No entanto, o desenlace e o destino das várias personagens acaba por representar uma reflexão tingida pelo cepticismo, como se as visões do mundo e da vida que os homens acalentam e a que dão tanta importância não passassem, como é dito no Eclesiastes, de vaidade de vaidades. É tudo vaidade. Os destinos dos protagonistas – e onde se incluiu a morte de Camões na miséria – confirmam que a vaidade humana acabará por ser castigada pela própria vida e que os projectos que os homens desenham, e pelos quais lutam, não passam de ilusões que a realidade acabará por reduzir a pó. Esta visão moral do mundo é solidária das reflexões meta-literárias que o autor introduz no romance. A dada altura diz que os seus romances não têm heróis e esse é o problema deles, mas ele não vê razões para os criar, pois está interessado na realidade. E a realidade reside no destino sombrio das personagens. De todas elas.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Cristas, uma ajuda a António Costa

Francis Bacon, Head of a Woman, 1960

Dentro da direita trava-se uma luta pouco surda. Não me refiro ao aparecimento do Aliança, do inevitável Santana Lopes, nem de outras agremiações que tentam encontrar um nicho de mercado eleitoral com a ajuda dos ventos que nos chegam de Espanha. Refiro-me à moção de censura ao governo apresentada pelo CDS. A única finalidade é obrigar Rui Rio a tomar uma posição. Sabe-se que o actual presidente do PSD é avesso a este tipo de espectáculo e que duvida, com razão, da sua eficácia. O CDS, porém, pretende crescer à custa do PSD e não se importa de dar uma mãozinha a António Costa.

O primeiro-ministro tem tudo a ganhar com a moção de Assunção Cristas. Se por acaso o BE e o PC, em coligação com a direita, fizessem cair o actual governo, o PS caminharia para a maioria absoluta sobre o cadáver do BE e ainda com ajuda de muitos eleitores do PC. Como não é provável que isso suceda, a moção de censura serve para António Costa mostrar que não está tão abandonado quanto parece neste momento, em que o governo está a enfrentar uma onda enorme de contestação social. A moção do CDS é o tónico que o governo do PS estava mesmo a precisar, no momento de maior desconforto e de ausência de discernimento político.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Olhar do alto

Ilse Bing, Champ-de-Mars from the Eiffel Tower, 1931

De quanto mais alto se olha para os homens, melhor compreendemos a sua realidade. Um olhar próximo leva-nos a projectar na espécie a nossa auto-consideração e o nosso narcisismo. Vistos do alto, os homens mostram-se na sua verdadeira dimensão. Grãos de areia a deambular num universo incomensurável.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Villa Cardillio 9. Penumbra

Anónimo Romano, Fresco que representa um jardim, Casa de Livia, Roma

9. PENUMBRA

A penumbra do arvoredo
é um fogo glacial
no rumor das cigarras.

O cântico ergue-se,
cresce para a obscuridade,
uma sombra no coração.

O vento bate, rasteja
e o silêncio desce
na luz ferida de mágoa.

1979

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Ensaio sobre a luz (51)

Caspar David Friedrich, Árvore com corvos

Iluminada, a árvore chama, no seu silêncio feito de anos, os corvos. E eles vêm envoltos na capa negra que sempre os veste, pousam sobre os ramos descarnados e esperam que a luz os roube ao domínio das trevas.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Franco Nogueira, Salazar vol. 1 A Mocidade e os Princípios


Data de 1977, cerca de três anos após o derrube do regime político do Estado Novo, a publicação, pelo embaixador Franco Nogueira, do primeiro volume, de seis, da biografia de Salazar. Este volume tem por título Salazar Vol. I A Mocidade e os Princípios. O interesse desta biografia não reside  no facto de estarmos perante um historiador preocupado com a independência e a objectividade histórica nem de um especialista na narrativa biográfica. O seu interesse releva do olhar de alguém que foi não um mero compagnon de route, mas de um correligionário do ditador português, de cujos governos foi ministro dos Negócios Estrangeiros entre 1961 e 1969. Apesar dos protestos de independência apresentados no “Esclarecimento” com que inicia a obra – É neste espírito, de absoluto desprendimento, de rigoroso exame das fontes, mesmo de gelado realismo, que concebi o relato do consulado de Oliveira Salazar. Não é obra de vitupério, nem de apostolado: busco a verdade, à luz dos factos e documentos (p. X). –, o leitor facilmente perceberá a simpatia com que a figura de Salazar é tratada. Seja como for, é um documento que merece leitura por quem se interessar pela História portuguesa do século XX. Franco Nogueira não foi um protagonista qualquer.

Este primeiro volume abarca o período que vai desde os finais do século XIX até ao 28 de Maio de 1926. Divide-se em cinco capítulos. O primeiro dedicado aos tempos de infância, no Vimieiro e em Santa Comba Dão, e aos do seminário em Viseu. O segundo capítulo abarca os tempos de estudante de Coimbra. O terceiro, o ingresso no professorado universitário e a sua afirmação enquanto docente. O quarto capítulo caracteriza a natureza doutrinadora do militante católico e o último retrata os primeiros tempos do regime nascido do golpe militar que pôs fim à primeira República.

Um dos motivos por que vale a pena ler a obra de Franco Nogueira reside no fresco que ele oferece dos tempos políticos que vão desde os último anos da Monarquia até aos primeiros tempos do Estado Novo, com especial atenção à primeira República. Nesta fase, há traços comuns aos três regimes e cuja descrição prepara uma possível explicação da emergência e consolidação de Salazar enquanto figura política central do Portugal dos anos trinta até aos anos setenta. Por um lado, o défice crónico das contas públicas, a difícil gestão dos dinheiros do Estado, a necessidade de viver de empréstimos das potências estrangeiras e a relutância destas. Concomitante ao descalabro financeiro é o pandemónio político. Naquele período, assiste-se à desagregação da monarquia constitucional, às tentativas sempre falhadas de estabilizar a primeira República (quarenta governos em menos de dezasseis anos) e, por fim, às enormes dificuldades sentidas pela ditadura do Estado Novo para controlar a situação emergente. Este é o pano de fundo que Franco Nogueira descreve e que, de forma subliminar, deixa perceber como causa que gera a resposta política encarnada pelo homem que veio de Santa Comba.

Encontrar-se-ão, na obra, múltiplos traços da formação pessoal e política de Salazar. Os aspectos pessoais, muito curiosamente, são descritos com uma linguagem paroquial, como se o autor quisesse através da selecção dessa estratégia linguística pintar o país e as relações sociais onde Salazar emergiu. Um dos traços centrais da narrativa é a equívoca relação com as mulheres. A ligação com a mãe, Maria do Resgate, tem um carácter de preocupação obsessiva e parece ter ocupado um papel relevante na vida do futuro ditador. Por outro lado, o biógrafo não se cansa de salientar a atracção que o jovem universitário exercia sobre as mulheres das classes altas de Coimbra, embora nenhuma dessas relações passasse de um domínio platónico. A linha narrativa de Franco Nogueira – e isso vai ser reforçado no segundo volume – é a de desmentir a ideia de que Salazar teria sido uma espécie de frade laico, dedicado aos negócios de Estado. Parece mesmo querer sublinhar o contrário, embora os elementos apresentados para construir essa imagem de um Salazar D. Juan sejam particularmente débeis.

Um segundo traço importante é o do militante católico, integrado no Centro Académico da Democracia Cristã, de Coimbra, e colaborador do jornal O Imparcial. É neste âmbito que nasce e se consolida a amizade com o padre Cerejeira, futuro Cardeal-Patriarca de Lisboa, e com muitos dos que vão ser seus amigos pela vida fora. A militância de Salazar escora-se na leitura das encíclicas de Leão XIII, dos textos de Charles Maurras e de Gustav Le Bon. A sua acção visa defender a Igreja Católica dos ataques da República, fundamentalmente dos sectores mais radicais. Apesar de ser simpatizante monárquico, as suas concepções políticas derivam em primeiro lugar do catolicismo e das preocupações da Igreja em integrar no seu seio as classes operárias, numa visão antagónica do marxismo e da luta de classes.

Um terceiro traço, focado por duas vezes pelo biógrafo, é o que está ligado à descoberta, por Salazar, da sua mais profunda e autêntica vocação. Numa conversa entre amigos, o universitário, num dos raros momentos de exposição do seu pensamento mais íntimo, confessa que sentia como sua vocação mais funda ser primeiro-ministro de um rei absoluto. Embora Franco Nogueira não faça a hermenêutica desta confissão, ela é fundamental. Não tanto porque prefigura a sua ambição – e a ambição é um dos traços mais salientes do carácter de Salazar – de ser um futuro ditador, mas do seu indeclinável afastamento dos valores da modernidade e do Iluminismo. O 28 de Maio vai abrir-lhe a porta para a realização dessa sua ambição, embora Salazar não tenha posto em causa a natureza republicana do regime. Limitou-se a ser primeiro-ministro de uma república autocrática.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Sonhos numa noite de Verão 13

Giuseppe Pelizza Da Volpedo, Broken Flower, 1896-1902

Era uma procissão, reconheço-o agora que acordei. Na frente, seguia o sacerdote. Cantava, mas os versos eram incompreensíveis. Pareciam feitos de palavras de uma língua não humana. Atrás dele, seguiam em silêncio virgens vestidas de branco. Pisavam o chão com cuidado e, por vezes, inclinavam a cabeça em direcção à terra ou erguiam as mãos ao céu. Atrás delas, seguiam crianças, acompanhadas por algumas mulheres. Eu estava ali, temeroso e extasiado pelo cântico. Era uma criança entre as outras, sentia o odor das virgens, as flores que se quebravam ao serem pisadas. Ao entrar no bosque, o sacerdote calou-se. No meio do silêncio, voltou-se e foi com horror que descobri no seu o meu próprio rosto.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Caixa, Marcelo, Venezuela e Papa


A minha crónica no Jornal Torrejano.

1. CAIXA GERAL DE DEPÓSITOS. O que se tem vindo a saber da Caixa Geral de Depósitos dá razão aos que, na União Europeia, julgam ser necessário impor uma espécie de protectorado aos países do sul da Europa. O banco do Estado serviu de depósito a gente que vinha da política e ali encontrou um porto, bom e rico, onde lançar âncora. E não apenas aportaram confortavelmente como permitiram que a instituição quase fosse destruída, enquanto um número significativo de empreendedores se esquecia de liquidar os empréstimos ao banco. Se se quiser um exemplo da degradação moral da nossa vida política, o que aconteceu durante muitos anos na CGD é um dos principais candidatos.

2. MARCELO NO BAIRRO DA JAMAICA. O modo de fazer política de Marcelo tem muitos detractores, tanto na direita como na esquerda. Contudo, ele tem um papel fundamental no equilíbrio da sociedade portuguesa. A visita surpresa ao Bairro da Jamaica, no Seixal, e o compromisso de lá voltar para uma festa dos moradores são um novo sinal que o actual PR tem um instinto certeiro para apagar fogos. Ser bombeiro era uma possibilidade inscrita na função presidencial que só agora está a ser descoberta. Felizmente.

3. VENEZUELA. O actual problema da Venezuela não começou com Maduro. Começou com Chávez e a chamada revolução bolivariana. Enquanto o petróleo ajudou, as opções erradas foram sendo disfarçadas, dando a ilusão que se estava a tirar parte significativa da população da miséria. Quando a realidade mudou, as pessoas descobriram que a miséria é bem mais persistente do que pensavam. Descobriram também que não há passes de mágica que resolvam as grandes desigualdades sociais. Depois, como ensinou Bismarck, a política é a arte do possível. Quando, em nome do deslumbramento revolucionário, se acha que se pode ir para além do possível, o mais certo é a miséria estar do outro lado da porta.

4. O PAPA NO CENTRO DO ISLÃO. A visita do Papa Francisco à península arábica é um acontecimento da maior relevância. Tanto pela ida do Sumo Pontífice romano como pelo acolhimento das autoridades islâmicas, com destaque para o xeque Ahmed el-Tayeb. A conflitualidade religiosa é um dos principais problemas geopolíticos. Qualquer aproximação entre as diversas autoridades espirituais é um passo para a difícil pacificação das paixões religiosas. Ninguém imagina que essa paz está ao virar da esquina. No entanto, é melhor construir pontes entres os homens do que erguer muros. E o Papa Francisco, contra o desejo de muitos, tem-no feito.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Villa Cardillio 8. As mulheres

Anónimo Romano, Cena de gineceu, Vila Imperial, Pompeia

8. AS MULHERES

As mulheres moviam-se
ao rumorejar da noite.

Abriam-se à seiva escura
marejada de outonos.

Abriam-se ao galope
da sombra nos olivais.

Abriam-se ao ruído
do silêncio das searas.

1979

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Afundar-se em mediocridade

Pierre Dubreuil, La Metronome, 1920s

Em 2000, o rendimento de Portugal era 84% do da média europeia. Em 2018, é de apenas 74%.  O país divergiu em mais 10%. Enquanto isto, Portugal recebeu no mesmo período, para ajudar à convergência com a União Europeia, fundos no valor de mais de 79 mil milhões de euros. O endividamento externo passou dos 45 mil milhões para os 205 mil milhões, também nesse período. Este comportamento é diferente da generalidade dos outros países e Portugal prepara-se para cair para o quinto lugar entre os países mais pobres da UE (ver aqui). Pior do que a irresponsabilidade generalizada atribuível às elites políticas nacionais é a sensação de que o país está a caminho de se tornar inviável. A União Europeia - na altura CEE - foi vista como a saída possível para um país que perdera as colónias. Os portugueses acharam que esse acto mágico os dispensava da disciplina, do esforço, do espírito de sacrifício, da justiça na distribuição dos encargos e dos ganhos. Acharam que se podia dispensar o rigor nas contas do Estado e que este podia tornar a todos europeus nos rendimentos. Nem sequer a entrada da troika no país ensinou coisa alguma. Para lá do espalhafato das facções e dos conflitos em torno da ocupação do poder, Portugal desperdiçou as duas últimas legislaturas. Passos Coelho e a direita perderam-se no ressentimento e em devaneios  ideológicos sem qualquer sentido. António Costa e a esquerda mergulharam na gestão dos votos e das migalhas do crescimento da economia, o qual pouco deve ao esforço nacional. Nem num lado nem no outro há uma ideia para o país, um caminho para o retirar da mediocridade em que se afunda. Há escândalos, casos de polícia, egoísmos exacerbados. Não há uma política para o país.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

O que resta

Sabine Weiss, Seine, Paris, 1953

No fim da vida, tudo o que resta é sentarmo-nos ao sol, na margem de um qualquer rio, e olhar a sombra que de nós se desprende ou procurar num livro gasto e enxovalhado o epílogo da nossa história.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

O amor à mentira


Nos últimos anos, a questão da verdade e da mentira no discurso político tornou-se um ponto central. No entanto, o problema é tão velho quanto a própria política, e todos aqueles que se interessam, ainda que de forma lateral, pelo fenómeno político sabem que a mentira sempre fez parte da luta pela conquista e manutenção do poder. Pensar-se-á, por outro lado, que o problema estará na rápida propagação da mentira através dos recursos que as tecnologias de informação e comunicação colocam ao dispor de quem mente. Isso esquece contudo que os mesmo dispositivos estão ao dispor da verdade e que esta, do ponto de vista tecnológico, pode propagar-se tão rapidamente quanto a mentira.

O problema encontrar-se-á noutro lugar. A mentira em política era usada, mas quem mentia corria um risco. Ser apanhado a mentir poderia ter consequências negativas na imagem e nas pretensões ao poder. Os políticos usavam a mentira, fazendo crer que as suas mensagens falsas eram verdadeiras, pois os cidadãos valorizavam a verdade. A mentira valia pela sua aparência de verdade. O que mudou foi a relação de parte substancial dos eleitorados com a verdade.

A verdade deixou de os interessar, pois tem o poder de os ferir nas suas convicções, de os pôr em causa, de lhes mostrar uma realidade hostil ou meramente difícil. Preferem a mentira e quem a usa para dizer o que eles sentem necessidade de ouvir. Assistimos à transição moral, do homem comum, do amor pela verdade para o amor pela mentira política. Esta conforta e confirma a identidade dos indivíduos, os quais se sentem ameaçados por uma realidade que, devido à sua complexidade, deixou de ser compreensível e manejável no âmbito da sua experiência e saber.

O que dá que pensar não é haver políticos mentirosos, mas a existência de eleitorados que preferem a mentira à verdade. A desvalorização do ser verdadeiro, como virtude exigida pelos cidadãos aos políticos, mostra-nos quanto esses cidadãos se sentem ameaçados pela realidade e como esta desencadeia neles um sentimento de fuga. A valorização moral da mentira pelos eleitores torna manifesto que os nossos dispositivos políticos estão desfasados do tempo em que vivemos. As nossas instituições democráticas estão fundadas no sentimento de que justiça e verdade são duas faces da mesma moeda. Ora Isso deixou de funcionar. O que significa que a democracia tal como a conhecemos está a colapsar, enredada no triunfo moral da mentira.

[A minha crónica em A Barca]

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Thomas Pynchon, Vício Intrínseco


Publicado nos EUA em 2009, Vício Intrínseco (Inherent Vice), de Thomas Pynchon, é uma visita a uma certa cultura que floresceu nos anos sessenta do século passado. A data dos acontecimentos narrados – acontecimentos fictícios – é relativamente obscura, embora a referência ao caso Charles Manson permita colocá-los no ano de 1970. O autor explora o mundo da cultura hippie e as estranhas relações que se tecem em torno do flower power. Este tipo de cultura, que floresce como reacção à guerra no Vietname, centra-se na promoção da não-violência, no corte com a exigência burocrática do mundo do dinheiro, na libertação da sexualidade dos tabus que ainda a enclausuravam, na emergência de uma contracultura marcada por uma espécie de misticismo e de crenças sobre coisas tão intangíveis como o suposto continente perdido da Lemúria e, fundamentalmente, no consumo de psicotrópicos. Tudo isto aflora no romance de Pynchon.

No centro da narrativa encontra-se o detective Larry Sportello, conhecido por Doc. Para quem conhece os detectives privados dos policiais americanos é com surpresa que depara com este heróico investigador privado. Doc é um hippie. Veste-se e usa o cabelo como tal e anda sempre pedrado, embora o seu consumo de drogas se confine, por norma, ao que hoje se poderia considerar drogas leves. Ao lado desta cultura, ou fazendo parte dela, ergue-se uma outra, a do surf, com uma fileira musical que anima as rádios locais e o coração do detective. O centro da acção é a zona de Los Angeles e a narrativa é desencadeada pela visita de Shasta Fay Hepworth, antiga namorada de Larry Sportello e actual amante de um poderoso homem da construção, Mickey Wolfmann, para lhe pedir ajuda. Desconfiava que Wolfmann poderia ser vítima de uma conspiração da mulher e do amante desta para o internarem e se apoderarem do seu dinheiro. Descobre-se, depois, que Wolfmann teria tido uma epifania hippie e como contrição pela sua vida de duro homem de negócios propunha-se desbaratar a fortuna num projecto social no deserto.

A partir deste ponto, Pynchon constrói um universo de relações alucinantes entre polícias corruptos e assassinos, uns locais e outros federais, hippies continuamente drogados, máfia ligada à distribuição de droga, com passagem por Las Vegas e os casinos, todo um conjunto de universos paralelos à lei e à ordem, onde se incluiu um saxofonista dado como morto, mas que afinal não o estava, e uma organização, a Golden Fang, possuidora de um barco com o mesmo nome, que tanto pode ser um poderoso cartel de droga, ou um grupo conspirador da direita radical ou apenas uma empresa preocupada em fornecer cuidados de saúde, nomeadamente de saúde oral. Ou talvez seja tudo isso ao mesmo tempo. Estamos perante um retrato hilariante e mordaz do sonho americano, onde todas as relações sociais são equívocas e o poder da lei e da ordem racional está submetido aos poderes fácticos dos negócios obscuros e da violência.

O formato escolhido pelo autor, um romance policial, implica que a narrativa esteja preocupada com a descoberta da verdade. É para isso que existem detectives, incluindo os privados. Pynchon não é propriamente um romancista policial e não parece ser isso que está em jogo em Vício Intrínseco. O essencial é a construção da personagem de Doc, Larry Sportello. Este é um dos mais inverosímeis detectives que se pode encontrar na literatura. Que relação poderá ter ele com a verdade? Como poderá ser ele, continuamente pedrado, descobrir o que quer que seja? A ironia – e, porventura, a crítica social – reside na conclusão que se pode extrair. A verdade sobre a sociedade americana, sobre a chamado american dream, sobre a vida alucinada só pode ser entrevista a partir da margem. Mais, a alucinação colectiva só será compreensível a quem esteja não esteja num estado normal de consciência. Esta já não tem poderes para compreender a realidade que a envolve. Vício Intrínseco é, deste modo, muito mais que uma novela policial. Não estamos perante um exercício de entretenimento a que, por descuido ou desfastio, Thomas Pynchon se tenha entregado. Estamos antes perante uma visão sóbria da realidade americana a partir dos olhos de um detective inverosímil. Só num estado alterado de consciência a sociedade americana pode ser compreendida.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Villa Cardillio 7. Perdido

Anónimo romano, Mosaico de las figuras (detalhe), procedente de Alcolea del Río. Museo Arqueológico. Córdoba. España

7. PERDIDO

Nas mãos, o macerado
fruto de Setembro,
um rasto de sombra
na fuligem da memória.

Cardílio é um trapo
perdido ao vento,
a penumbra que pulsa
na gangrena do poente.

1979

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Alma Pátria - 47: Lucília do Carmo, Tudo Isto É Fado



Uma das grandes vozes femininas do fado, no longo período do Estado Novo, foi a de Lucília do Carmo, proprietária da importante casa de fados O Faia e mãe de Carlos do Carmo. Estreia-se como fadista em 1936, aos dezassete anos, numa mítica casa de fados, o Retiro da Severa. O fado escolhido foi também cantado por Amália Rodrigues, e é um repositório da ideologia corrente nas classes populares não apenas de Lisboa e não apenas populares. O país, naqueles tempos, vivia, simbolicamente, com um pé na Igreja e outro na Mouraria. Entre uma religiosidade beata e esse mundo onde cantam rufias, choram guitarras, tudo mergulhado num oceano de amores e ciúmes, de dores e pecados. Seja como for, foi isso que nos trouxe aonde estamos.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Ensaio sobre a luz (50)

Alfred Eisenstaedt, Street Scene, Italy, circa 1932

Os homens predispõem-se a suportar a luz não porque desejem que ela os ilumine e lhes dê um caminho, mas porque acima de tudo temem a própria sombra.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Han Kang, A Vegetariana


Quando se lê uma obra, lemo-la sempre a partir de tudo o que lemos anteriormente. Não há leitura que seja despida de um certo enviesamento trazido pela nossa história de leitores, para não falar da própria história existencial. Ao acabar de ler o surpreendente romance A Vegetariana, da escritora sul-coreana Han Kang, vencedor do Man Booker International Prize, de 2016 (edição original na Coreia do Sul em 2007), perguntei-me que autores me estariam a ajudar a enquadrar a visceralidade da meditação sobre o desenraizamento do indivíduo trazida pela obra de Han Kang. Acabei por juntar uma dupla referência. Por um lado, o filósofo francês René Descartes e, por outro, o escritor checo Franz Kafka e a sua obra A Metamorfose. De facto,  A Vegetariana é a descrição da metamorfose onírica da protagonista, Yŏnghye, em árvore. É aqui que entronca a referência a Descartes e à impossibilidade que temos de distinguir claramente o estado de vigília do sonho. Tudo começa com um sonho e acaba como se a própria Yŏnghye tivesse sido arrastada para dentro de um estado onírico de onde não consegue sair.

A descrição da heroína, feita pelo marido na primeira parte (seria melhor dizer primeiro andamento) da obra, mostra-nos uma mulher absolutamente banal, sem qualquer paixão, mas também sem qualquer perturbação. Ele casou com ela porque, sendo ele também completamente banal e medíocre, ela era a mulher que lhe convinha. A trivialidade da vida quotidiana é suspensa quando ele a descobre, uma noite, frente ao frigorífico a despejar todos os produtos de origem animal. Um sonho terrível atormentou-a de tal maneira que a única saída que encontrou foi tornar-se irredutivelmente vegetariana. Um sonho expulsa-a da vida comum e vai expô-la a toda a violência que se esconde na família enquanto instituição. Culmina com uma tentativa de suicídio e o abandono do marido. A opção pelo vegetarianismo serve para tornar claro que o casamento era uma falsificação assim como a família, de onde provinha, tinha as suas raízes na violência do pai, como se tornou a manifestar no episódio que conduz à tentativa de suicídio. A violência do real e o desenraizamento existencial abrem as portas para a transição de Yŏnghye para o mundo da fantasia e para a dimensão onírica.

A segunda parte da obra gira em torno da obsessão sexual do marido da irmã de Yŏnghye, por esta. O cunhado é um artista sem sucesso que trabalha em pequenos vídeos e que procura uma saída para a sua carreira de artista. O desejo erótico, contaminado pela preocupação estética, é mediado por uma coreografia de motivos vegetais, fundados na mancha mongólica de Yŏnghye. Quer pintar o corpo da cunhada com flores, o que ela aceita, e encontrar alguém que, pintado da mesma maneira, contracene com ela, enquanto ele filma. O escolhido aceita mas quando lhe é pedido para passar de cenas eróticas simuladas para uma penetração real, recusa. Então o cunhado tenta fazer amor com Yŏnghye, mas esta não o aceita, pois não se encontra pintado. Se se pintar com os mesmo motivos vegetais, ela acederá aos seus desejos. O que acaba por acontecer no apartamento de Yŏnghye. O erotismo e o sexo carnal já só são possíveis no âmbito vegetal, no abraço de duas plantas. À recusa da carne como alimento sucede a metamorfose da sexualidade que transita do âmbito da carne para o domínio vegetal. Descobertos e denunciados pela irmã de Yŏnghye, são ambos internados num hospício, de onde ele rapidamente sai, mas onde ela, acentuado o desenraizamento, é sugada para dentro de um mundo onírico de onde não sairá.

A terceira e última parte torna patente a violência inerente às instituições psiquiátricas. Esta violência e a atenção da irmã – onde se vai formando a culpa por ter colocado ali Yŏnghye, talvez para se salvar a si mesma de um tal destino – são o enquadramento final da metamorfose. A heroína julga-se árvore e as árvores não comem, apenas são regadas. Ela é agora uma árvores exilada da floresta. O resultado é a intensificação do estado de anorexia, com a recusa de toda e qualquer alimentação e as múltiplas tentativas de a forçarem a alimentar-se, tentativas onde a violência é o eixo central. Incapazes de a alimentarem, transferem-na para um hospital comum. É na ambulância que a irmã, Inhye, lhe segreda que tudo o que se tem passado talvez não seja mais do que um sonho.

A impossibilidade cartesiana de distinguir claramente entre sonho e realidade surge assim como o horizonte de uma metamorfose do self. Não se trata aqui de uma transformação que permita o acesso a um ponto de vista superior e mais integral sobre si e o mundo. Como em Kafka trata-se de uma transferência para uma outra ordem de existência já não humana. No sonho, contrariamente ao lugar comum, dissolve-se a humanidade, transformando-se o indivíduo num ser vegetal, numa árvore. Esta metamorfose, porém, é um sintoma terrível das sociedades humanas. Ser árvore é procurar um enraizamento fundo na terra. É isso que a desenraizada Yŏnghye, perdida no mundo do sonho, procura. Deste ponto de vista, o romance de Han Kang é uma meditação, escorada numa metamorfose onírica, sobre o desenraizamento que grassa nas sociedades modernas, nas sociedades que perderam a ligação com a tradição e a natureza.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Ensaio sobre a luz (49)

Virxilio Blanco, A casa do pintor en Presqueiras

Breves clarões descem sobre a terra, envoltos em presságios e velhos vaticínios. Murmúrios, rumores, um tumulto furtivo de água fria. Feito de silêncios e pássaros ausentes, cresce o Inverno à procura da primeira luz que a Primavera há-de trazer.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Villa Cardillio 6. Ruínas


6. RUÍNAS

Mundos de pedra
no pó dos prados.

Folhas esquecidas
na toca do tempo.

Âncoras lançadas
ao mar da morte.

1979

domingo, 27 de janeiro de 2019

Lições de História


Comecei há pouco a ler a biografia de Salazar da autoria do embaixador Franco Nogueira, a qual data dos anos setenta do século passado. São seis volumes que cobrem a vida do homem forte do Estado Novo, desde a infância até ao fim da sua existência política. Não estamos perante o trabalho de um historiador ou de alguém que tenha sido politicamente neutro. Pelo contrário, o embaixador foi um dos homens fortes da ditadura e um auxiliar precioso do presidente do Conselho. É uma visão privilegiada a partir de dentro do regime. Um dos aspectos interessantes do primeiro volume – A Mocidade e os Princípios – é o jogo narrativo que coloca em tensão o desenvolvimento de Salazar – os aspectos da sua vida pessoal, de formação e de interesse pela res publica – com a situação política do país.

O que me interessa, neste artigo, não é a figura do ditador, nem o seu processo de formação, o qual tem aspectos que ajudam a explicar muito do que foi a sua posterior acção governativa. Importa-me a caracterização da situação política dos finais do século XIX e do início do XX feita por Franco Nogueira. As rivalidades políticas do final da monarquia constitucional foram prolongadas, com outros protagonistas, mas com o mesmo azedume, nos tempos da primeira república. Ao rotativismo político monárquico sucedeu o rotativismo político republicano. Ambos tiveram um fim doloroso. O primeiro acabou com o assassinato do Rei e do Príncipe herdeiro, a que se seguiu uma agonia até ao golpe republicano. O segundo terminou com um novo golpe e a instauração de uma ditadura, tendo passado pelo assassinato de um Presidente.

Outro traço – tão importante como o anterior e ligado a este – é o das finanças públicas. O défice crónico e o excesso de despesa na função pública deixavam, continuamente, o país à beira da bancarrota e nas mãos das potências estrangeiras. A conflitualidade exacerbada entre os partidos impedia-os de encarem o problema e de tomarem as medidas drásticas que a situação exigia. Se os rotativismos tiveram um mau fim, este foi dinamizado também pelo problema do défice público, da dívida externa e da desordem das finanças do Estado. O que a História nos ensina é que a conjugação dos dois factores – rotativismo político com conflitualidade acentuada e pandemónio nas contas do Estado – conduzem, mais cedo ou mais tarde, ao enfraquecimento da ordem democrática e à instauração da ditadura. Esta lição da nossa pré-história democrática não deveria ser esquecida, nestes tempos em que vivemos, por ninguém, a começar pelas elites políticas democráticas.

[A minha crónica no Jornal Torrejano]

A escolha de João Miguel Tavares

Francis Bacon, Figure in a Landscaspe, 1956

Não sei se é necessário ter algum currículo relevante para presidir à comissão organizadora do Dia de Portugal. Se o é, explica-se o desconforto sentido por muita gente perante a escolha do Presidente da República do colunista do Público João Miguel Tavares. Na verdade, o eleito de Marcelo Rebelo de Sousa é conhecido apenas pela sua coluna de opinião no jornal referido e pela participação num programa televisivo em que se mistura política e engraçadismo. Como serviço relevante à comunidade parece pouco para a distinção. O que se passa muitas vezes é que o PR de serviço escolhe alguém cujo prestígio pessoal sirva para reforçar o prestígio e a legitimidade social do próprio PR. Foi esta tradição que foi cortada. Marcelo Rebelo de Sousa não necessita de reforçar a sua legitimidade social e política. Sente que a tem para dar e vender.

Como explicar então a inusitada escolha de um homem sem qualidades? O actual Presidente nunca e em circunstância alguma se exime de fazer política. Desde as selfies que tira com meio mundo até aos momentos de grande compunção, passando pelos actos triviais da vida política, tudo é pensado politicamente. E só assim se poderá entender a escolha deste ano. Na verdade, trata-se de uma mensagem para dentro da direita. Marcelo Rebelo de Sousa terá sentido que existe, na direita portuguesa, uma pulsão demasiado securitária, presa a uma inclinação identitária, que muitas vezes se oculta na retórica liberal para disfarçar o ressentimento e um mau convívio com a democracia e a diversidade de opiniões. Ora, João Miguel Tavares, assumindo-se claramente de direita – o que tem o condão de irritar a esquerda – e liberal, fá-lo sempre dentro de uma perspectiva democrática, onde não existe vestígio de ressentimento e onde as posições relativamente à liberdade são inequívocas. A escolha de João Miguel Tavares é uma clara indicação sobre o tipo de direita que o país necessita, no entender de Marcelo Rebelo de Sousa. Um acto político de incidência pedagógica para dentro das fileiras a que o actual PR pertence.

sábado, 26 de janeiro de 2019

O acto falhado de António Costa

Fotografia daqui.

“Deve ser seguramente pela cor da minha pele que me pergunta se condeno ou não condeno os actos de vandalismo em Portugal”, respondeu António Costa a uma pergunta trivial e retórica de Assunção Cristas. O inusitado da resposta, ao deslocar a questão política para a questão pessoal e de etnia, acendeu de imediato o rastilho de um ódio que existe, em certos sectores da direita social, ao primeiro-ministro. As palavras do chefe do governo, ao insinuar que haveria por parte do CDS uma atitude racista, são injustas e deslocadas. No entanto, esta resposta é particularmente interessante. Ela é aquilo que se chama, em psicanálise, um acto falhado. Costa disse, num momento de confronto e tensão, algo que ele recalca e que, pelos vistas, habita no seu inconsciente. Apesar do seu assinalável êxito na sociedade portuguesa – presidente da maior câmara municipal do país e primeiro-ministro –, apesar de a sua família paterna fazer parte da casta mais elevada da Índia, ele não se libertou de não ser completamente europeu. Parece preocupar-se, efectivamente, com a cor da sua pele. Só uma tensão inconsciente tão grande explica que uma resposta tão idiota e contrária aos seus interesses políticos pudesse ter rompido a barreira de censura que todos impõem ao inconsciente. Que motivos terá o inconsciente de António Costa para se manifestar assim? É possível que a resposta a esta questão nos diga alguma coisa sobre o racismo brando que existe em Portugal. E, repito, não se trata do CDS, partido onde tiveram papel preponderante pessoas com as mesmas origens de António Costa, sem que isso fosse, para essas pessoas, problema ou obstáculo para alguma coisa.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Sonhos numa noite de Verão 12

Vivian Maier, Untitled, not dated

Legiões de anjos combatiam pela minha alma. Anjos pretos de olhos vermelhos avançavam sobre ela, lanças em riste. Logo se interpunham, com os seus arcos, anjos brancos de olhos azuis. O cheiro a incenso e a enxofre espalhava-se pelo campo e eu tremia, a consciência pesada, o arrepio do corpo, ainda vivo, perante o ardor dos bandos angélicos. Então, uma voz suave murmurou-me aos ouvidos. Olha, esta é a escada da salvação. Cada degrau é um pecado que cometeste. Se em cada um ajoelhares e proferires uma pequena oração, apaga-lo-ás. Comecei de imediato e os degraus em que ajoelhava iam desaparecendo. Quando o despertador tocou, estava no chão ajoelhado. À minha frente erguia-se uma escada infinita.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Villa Cardillio 5. Império de palavras



5. IMPÉRIO DE PALAVRAS

Do latim, a língua
lêveda de luz,
resta o sangue
na folha da figueira,
o eco erguido
das pedras do rio,
a letra rasurada
no litoral da voz.

1979

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Alma Pátria - 46: Luís Goes, Fado do Estudante




Este fado de Coimbra, interpretado por Luís Goes, é um belo documento sociológico. O fado data de 1958 e dá-nos a visão da mulher amada que deveria habitar, naquela época, a consciência do estudante de Coimbra, isto é, dos candidatos à elite intelectual do país. Hoje em dia não se faz a mínima ideia do peso de Coimbra e da sua Universidade no universo mental e social português daqueles dias. E como deveria ser a mulher digna de ser amada por um estudante de Coimbra? Dois traços essenciais. Devia evitar o contacto com a realidade: “Fecha os olhos de mansinho / Não os abras para ver / Porque a vida de olhos fechados / Custa menos a viver”. Além de cega, devia ser a imagem ou da Virgem ou, na impossibilidade de tão grande elevação, a da própria mãe: “Os teus olhos são tão puros / Que me lembram nem sei bem / Se a mãe de nosso senhor / Se a minha mãe que Deus tem”. O que não deixa de ser uma estranha afirmação de um desejo edipiano.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Ensaio sobre a luz (48)

William Turner, Crepúsculo con nubes oscuras, 1826

A esse estremecimento que se declina como um rumor chamamos com propriedade luz. Desce fremente e poisa sobre a solidão. É um cavalo perdido na campina ou a cal que de súbito desliza dos céus e se ergue na memória.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Alexandre Herculano, O Pároco de Aldeia


Data de 1847 a primeira publicação em livro do romance O Pároco de Aldeia, de Alexandre Herculano. A obra no entanto, tinha aparecido em 1843, na revista O Panorama. O espaço onde decorre a acção é o de uma aldeia saloia, com as suas asperezas e ingenuidades. O ano em que são colocados os episódios narrados é o de 1825. Não se trata, portanto, de uma visita à Idade Média, tão ao gosto do romantismo e que o próprio Herculano acabará por cultivar. É um romance marcado pela contemporaneidade e balizado por um claro objectivo de intervenção polémica. É um romance de tese, digamos assim.

O prólogo começa com a seguinte frase: Como a filosofia é triste e árida! E esta frase dá a tonalidade ao romance. À aridez da vida reflexiva, a que o próprio narrador se teria acolhido em parte da sua existência, contrapõe-se a vida simples, da gente simples de uma aldeia, comandada pelo seu padre cura. E o importante não é apenas a oposição do pitoresco ao árido. A este opõe-se também a fecundidade que deve animar as relações dentro de uma comunidade, com as suas peripécias, os seus devaneios e pecadilhos.

Qual o problema que a filosofia – e Herculano refere-se, claro, à filosofia moderna – trouxe e que leva o narrador a vituperá-la? A árvore da ciência, transplantada do Éden, trouxe consigo a dor, a condenação e a morte: mas a sua pior peçonha guardou-se para o presente: foi o cepticismo. Escreveu o autor, ainda no prólogo. O cepticismo é visto como o corolário do racionalismo nascido na século XVII. Em contraponto polémico com ele, o autor propõe: Feliz a inteligência vulgar e rude, que segue os caminhos da vida com os olhos fitos na luz e na esperança postas pela religião além da morte, sem que um momento vacile, sem que um momento a luz se apague ou a esperança se desvaneça!

Este tom polémico não existe apenas no prólogo. Ressurge em vários momentos da obra. E não é apenas contra o cepticismo, mas também contra o protestantismo, nomeadamente o anglicano. Uma interpretação do cristianismo que apenas se acorda com o sentir das elites e que deixa o povo à sua sorte, abandonado, sem o conforto de uma crença que lhe tempere a dureza dos dias. E como consequência da crítica ao anglicanismo, Herculano entrega-se a uma análise social da situação das classes trabalhadoras em Inglaterra, entregues à voracidade de um patronato ávido, emergente da revolução industrial. Um escritor socialista dificilmente seria mais crítico da situação das classes trabalhadoras em Inglaterra do que Herculano.

Os episódios narrados na vida da aldeia servem então para ilustrar a polémica de Herculano contra o Iluminismo. Não faltam sequer referências depreciativas a Holbach e a Diderot. À complexidade que os novos tempos, onde se destacam as consequências das revoluções francesa e industrial, vinham a introduzir nas relações sociais, Herculano contrapõe o mundo simples da aldeia portuguesa, tutelada pela figura paternal do padre cura. Este é o oposto do frio e árido filósofo, macerado pelas incertezas que a reflexão, destituída do apoio do dogma, introduz no seu modo de vida. O pároco tem um saber feito da compreensão da natureza dos seus paroquianos. Conhece-os, não porque os investiga cientificamente ou reflecte sobre eles de forma analítica, mas porque contacta com eles, porque os confessa e, na verdade, os dirige espiritual e socialmente. Contra a figura do filósofo é erigida em modelo a do bom pastor. Perante o conflito entre razão e fé, Herculano evita o difícil trabalho de reconciliação entre ambas, de compaginação entre dúvida e dogma, e propõe a aldeia saloia como exemplo da superioridade da fé, fundada na bondade moral do seu pastor.

Não sendo considerado, no cânone, como uma das obras principais de Herculano, O Pároco de Aldeia contém em si uma semente que germinará e cuja planta viverá vigorosa por mais de um século, sendo um documento fundamental para compreender a forma ideológica que dirigiu o país durante longo tempo.

domingo, 20 de janeiro de 2019

Descrições fenomenológicas 37. O homem perdido

David Lynch, A Bug Dreams of Heaven, 1992

Seria um náufrago perdido em terra ou um centurião antigo extraviado no tempo? Seria um pastor abandonado nos córregos da serra ou um anjo desvairado nos sulcos de um hossana? O céu encrepusculara-se e o dia inclinava a cerviz para a noite com passos titubeantes. As nuvens coavam a luz, que tocava ao de leve os juncos trémulos a verdejarem em tons de sépia, mergulhados na intimidade das águas. Um renque de ciprestes elevava-se da terra e enegrecia ao sabor do nascimento das trevas. A figura, quem quer seja, parou e olhou longamente o cruzeiro, tão esquálido, feito de pedra escorregadia e húmida, branca como a cal que escora as paredes das casas pobres do sul. O homem, assim parecia, hesitava. Talvez não conhecesse o símbolo ou vacilasse na fé que o haveria de mover. Inclinou a cabeça, enquanto a noite ilegível continuava a sua caminhada, tornando a luz exígua e a alma temerosa. As sílabas desprenderam-se então da boca e caíam sobre a terra em borbotões, formando palavras, frases, uma oração nascida nas cordas tensas do coração. Ajoelhou-se, inclinou a cabeça sobre o peito. Era apenas um esboço de sombra na paisagem que se vestia com o veludo vagaroso da escuridão, e cobria com a carícia do silêncio o fervor que se soltara sobre as espáduas da terra.

sábado, 19 de janeiro de 2019

Villa Cardillio 4. Pergunta



4. PERGUNTA

Em teu rasto, Avita,
quantas mulheres
se perderam na sombra
da sombra
destas colunas,
no sussurro cingido
ao cilício do entardecer,
ao pavor calcinado
do tempo que passa?

1979

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Sonhos numa noite de Verão 11

Florence Henri, Untitled, USA, c. 1940

Um tic-tac inexorável caía sobre a casa, mas não se avistava nada que o pudesse originar. O som crescia para dentro de mim, corroía-me os ouvidos e o coração. O pior era que perturbava a tarefa que me tinha sido imposta. Empilhar chávenas de café. Eu empilhava-as, enquanto uma voz gritava "mais uma, mais uma". Havia que chegar ao céu, eu bem o sabia. Por vezes, esquecia o tic-tac e tudo era muito claro. É a torre de Babel. E continuava a colocar chávena sobre chávena, sem parar. Um estrondo acordou-me. Ao lado da cama, havia chávenas pelo chão. Umas partidas, outras inteiras. Umas paradas, outras a rolarem. As palavras que então proferi foram numa língua que nem eu próprio entendi. 

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Um líder perdido

Thomas Hoepker, Inside the Pantheon. Rome, Italy, 1984

Independentemente daquilo que vier a suceder mais logo na votação do conselho nacional do PSD e do que se possa pensar de Luís Montenegro, a verdade é que Rui Rio tem-se mostrado um líder fraco, errático e incapaz de explorar a falta de energia e de ideias que atingiu a coligação parlamentar que suporta o governo. O decepcionante em Rui Rio é a falta de carisma e isso não é uma coisa que se adeqúe à história do PSD. Este vive na sombra projectada por Sá Carneiro e Cavaco Silva, cada um à sua maneira políticos carismáticos. A forma como Rui Rio liderou a câmara do Porto, a firmeza com que prosseguiu os seus objectivos e o conjunto de vitórias que obteve levaram muita gente, no PSD, a pensar que se tinha encontrado o homem certo, que uma luz teria entrado no templo que vivia de lamentações perante a desfaçatez da coligação de esquerda ter encontrado uma solução governativa. Rui Rio, porém, não mostrou, até ao momento, que o facto de ter sido um bom presidente de câmara de uma grande cidade é currículo suficiente para ser candidato a primeiro-ministro. Quem olha de fora parece-lhe que a Rui Rio falta energia, capacidade de empatia com a população e um conjunto de ideias bem articuladas para governar o país. Parece um líder perdido no labirinto que ele próprio criou.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Carmen Laforet, Nada


Carmen Laforet tinha 23 anos quando publicou Nada, o seu mais importante e decisivo romance. Foi no ano de 1944, apenas cinco anos após o fim da guerra civil, e obteve, nesse mesmo ano, o Prémio Nadal. Segundo a crítica, a obra integra-se na corrente existencialista e representa um momento de ruptura artística na Espanha de então, exaurida pela guerra e submetida à ditadura do generalíssimo Franco. O espaço narrativo é Barcelona, onde a própria autora viveu, o que não deixa de ser um lugar significativo no espaço e tempo da Espanha de então.

Andrea, narradora e principal protagonista, é uma jovem órfã de 18 anos, que vivia num convento. Recebe uma bolsa do Estado espanhol e vai para Barcelona com o objectivo de ingressar na Universidade. O romance começa com a narração da sua chegada à rua de Arribau onde vive a avó. Toda a obra se funda na tensão entre dois modos de existência em dois mundos particularmente diferenciados.  Se se utilizarmos a nomenclatura platónica, estamos perante o mundo sensível e o mundo ideal. É a difícil gestão desta interacção, com contaminações inesperadas, por parte de Andrea que constitui o núcleo forte da narrativa.

A casa da avó, da qual a protagonista tinha vagas reminiscências de infância, pode ser vista como uma metáfora de Espanha da altura. O que a marca é a pobreza e a dissensão. A avó não vive só. Andrea encontra lá a tia Angustias, solteira, autoritária, beata e com um caso extra-conjugal com o patrão, o tio Román, um solteirão de alma artística, mas metido no contrabando e, acima de tudo, um sedutor e manipulador da família. Vive lá também o tio Juan, carácter fraco, casado com Gloria, que antes e depois de se casar com ele foi amante de Román. Há ainda Antonia, uma criada arrogante, apaixonada pelo irmão solteiro, e um bebé, filho do casal, para além de um cão, de um gato e de um papagaio. O centro da tensão reside na relação entre os dois irmãos. Román manipula Juan. Este espanca Gloria, como passatempo O ambiente é completamente disfórico, como se a autora quisesse contrapor à imagem de Espanha em via vias de beatificação, veiculada pelo franquismo, uma distopia, onde a vida estivesse a cada momento à beira de um apocalipse. A miséria, o desleixo, a fome e as tensas e conflituais relações intrafamiliares são uma analogia da própria Espanha. Uma imagem do mundo sensível da filosofia platónica. Este é o mundo do conflito, da mudança contínua, do não-ser e da aniquilação. Enfim, do nada.

O mundo ideal não é, claro, o mundo congelado das ideias platónicas, mas o da vida universitária, onde Andrea faz amigos cuja existência está bem longe da realidade em que ela habita. Nesse mundo, o dinheiro flui com facilidade, e a fluência da moeda leva à amabilidade das palavras e ao comedimento dos gestos. É a fluidez financeira que permite aos jovens acalentarem sonhos e projectos artísticos, terem vivências alternativas à vida burocrática do mundo dos negócios, cultivar a imaginação no lugar da sensata razão. Contraposto ao seu mundo real, à tensão que a dura necessidade sempre impõe, o mundo da universidade, daqueles que a frequentam com ela, parece um mundo de liberdade e de infinitas possibilidades. E é aqui que Andrea estabelece com Ena, uma outra estudante, uma grande amizade, determinante no desenrolar do enredo.

Ena, porém, tem desde o início da amizade, e assim que sabe quem Andreia é, um estranho interesse pelo tio Román. Esse interesse progride e leva Ena a pôr fim ao seu namoro e a suspender os contactos com Andreia. Frequentava a casa desta, mas não para a ver. No entanto, aquilo que movia Ena não era o amor a Román ou o sentir-se seduzida por ele, mas a vingança motivada pelo comportamento, há muito tempo atrás, ainda antes de Ena nascer, de Román para com a mãe dela. Como na Espanha da altura, o passado é gerador de ressentimentos e estes exigem o ajuste de contas. Consumado este, a vida volta à normalidade.

Sem que haja qualquer referência explícita à situação política, o romance de Carmen Laforet não deixa de ser um retrato de um tempo político forte, marcado pela guerra civil, pela ditadura e pelo ajuste de contas. Isso é feito, porém, pela narrativa da adaptação da ingénua protagonista ao duplo mundo em que lhe cabe viver, o da casa, com a perversidade exacerbada das relações familiares, e o da universidade, onde encontra a experiência de um outro mundo possível. Essa tensão acaba por encontrar uma inesperada resolução, que lhe permitiu sair de Barcelona e da velha casa da rua de Arribau, como se saísse do inferno.