A pátria, in illo
tempore, tinha uma alma oculta, uma alma que não podia manifestar-se na rádio
e na televisão portuguesas, mas manifestava-se, por exemplo, na televisão
francesa. Era uma alma recalcada. A voz de Luís Cília - não é uma voz extraordinária,
mas é uma voz de que gosto bastante pelo seu timbre nostálgico e, diria, quase sebastianista - era uma das vozes dessa alma abscôndita, que atravessava o país
pelo silêncio da noite. Aqui canta uma canção contra a guerra colonial. O tema,
a deserção, ainda gera incómodo – a palavra traidor aflora então com facilidade
– em alguns sectores mais nostálgicos do antigo regime ou menos conformados com
os que, perante a guerra, decidiram refugiar-se no estrangeiro. A generalidade do país não tem,
todavia, qualquer ressentimento perante os que desertaram. O original em disco
é de 1964 e a gravação que se apresenta é de 1973. Pelo que se percebe da
imagem da capa, no canto superior direito, o disco foi editado pela célebre
Le Chant du Monde,
uma editora discográfica francesa claramente engagée.
quarta-feira, 21 de março de 2018
terça-feira, 20 de março de 2018
No Limiar da Porta 2. Ardia-te nos olhos
Jean Dieuzaide, Nazaré, Portugal, 1954
2. Ardia-te nos olhos
Ardia-te nos olhos
uma ânsia
ávida de aurora.
Ardia-te na boca
a voz,
a voz velada do vento.
segunda-feira, 19 de março de 2018
Um retrato
Jean
Dieuzaide, Vieira de Leiria,
Portugal, 1950
Pode-se olhar para a fotografia e ler nela o atraso de Portugal. A mulher vestida de negro, a criança enrolada no xaile da mãe, a água transportada à cabeça, isto no final da década de quarenta do século passado. Não seria uma visão despropositada. Contudo, seria uma visão que, ao prender-se a eventuais comparações com outros países, não apreenderia o essencial. A mulher que ali se vê é, na verdade, uma metáfora do país. Como ela, Portugal vive desde sempre um difícil equilíbrio entre a sua demografia e pobreza da vida material. A coerência e o comedimento que, no fundo, nos habitam devem-se a este prolongado - quase com 900 anos - jogo de concertação, de procura de um peso e de uma medida que não nos façam cair. Por vezes, o país escorrega, mas logo leva a mão à carga que transporta, puxa para si a criança que carrega num dos braço e levanta a cabeça para olhar em frente. Isto não faz de nós melhores que os outros, mas faz de nós aquilo que somos. E aquilo que somos resulta desse contínuo superar de desequilíbrios que poderiam ser mortais.
domingo, 18 de março de 2018
Ensaio sobre a luz (30)
Jean Dieuzaide, Portugal,
Portinho d'Arrabida, 1954
A cal canta nas paredes puras do convento. Canção de luz que levita na sombra dos telhados ou nas janelas cerradas do silêncio.
sábado, 17 de março de 2018
Ensaio sobre a luz (29)
Willy Ronis, Paris, 1940s.
A luz nublada da manhã desliza, fria e frívola, pelas mãos do tocador de violino, pela cegueira que se desprende dos seus olhos e se ilumina no rumor furtivo de um pássaro poisado na rua.
sexta-feira, 16 de março de 2018
Paixões políticas
Francis Bacon, Self Portrait with Injured Eye, 1972
Talvez o problema resida no facto da identidade política ser
um dos elementos estruturantes da identidade pessoal, como alguns estudos
parecem apontar. A verdade é que as pessoas com algum interesse pelos destinos
da comunidade, perante um político de uma orientação ideológica adversa, conseguem
a proeza de, ao mesmo tempo, vê-lo bem de mais e de não o conseguir ver. Conseguem,
de uma forma absolutamente penetrante, no seu entendimento, ver no actor
político a pessoal moral – por norma, o mais rematado filho da mãe – que elas
supõem que ele é. Ao mesmo tempo são incapazes de encontrar nele qualquer
virtude política e sendo tanto mais incapazes quanto mais virtuoso ele é.
Percebe-se facilmente a cegueira para a virtude política.
Ela contraria o desejo da pessoa de ver os seus no lugar do poder. Reconhecer essa
virtude significaria admitir que não se tem uma razão absoluta, que as suas
crenças são frágeis e que há soluções exequíveis para além daquelas com que se
identifica. O seu sistema de crenças sobre o destino da sociedade ficaria
abalado. Interessante, porém, é observar aquilo que se exige, do ponto de vista
moral, a um político adversário. Pessoas absolutamente venais ou de relativa
perfeição moral, e estas são a esmagadora maioria, avaliam moralmente, com a
sua supervisão, um político adversário por uma bitola moral que nem os santos,
aqueles que conquistam a glória dos altares, conseguiriam satisfazer. Chegam
mesmo a dizer que não conhecem o indivíduo, mas o seu carácter é abjecto e a sua pessoa,
no mínimo, nojenta.
O que é interessante nisto não é a confirmação da tese de
Jason Brennan de que as pessoas que se interessam por política, na sua
esmagadora maioria, são hooligans. A
expressão não precisa de explicação adicional. Interessante é compreender o
potencial de intolerância que habita as pessoas, mesmo gente cordata e
inofensiva noutras circunstâncias. A cegueira para a virtude política de alguém
que não pertence ao nosso lado é uma negação da realidade. Contudo, essa
cegueira precisa de um imaginário excesso de visão. E é este que mostra a abjecção
– uma abjecção construída, claro – moral daquele que se despreza. O ataque ao
carácter é a expressão de um desejo profundo de aniquilamento do político
inimigo (inimigo, no coração; adversário, nas palavras). Na verdade, é um
assassinato simbólico o que se pretende realizar. As paixões políticas não são
inocentes e, caso não haja duras regras de contenção, elas têm um potencial de
violência desmedido.
quinta-feira, 15 de março de 2018
No Limiar da Porta 1. Pulsa um sopro
Arnold Genthe, Margaret Severn
dancing at the water’s edge, Scarf dance, 1923
1. Pulsa um sopro
Pulsa um sopro
de água
no coração.
Um medo de mar,
uma onda.
A maresia da morte
no sal da solidão.
quarta-feira, 14 de março de 2018
A Solidão dos Aeroportos
Leonard Freed, Waiting at the airport, Amsterdam, 1964
A Solidão dos Aeroportos. Este poderia ser o título de um romance sobre o drama do sujeito perdido de viagem em viagem. O mundo inteiro à sua disposição, mas ele espera sentado que chegue a hora do embarque. A sua vida torna-se então uma colecção de esperas em todos os aeroportos do mundo. A única coisa que o viajante retém é o estar sentado, a fazer horas para uma ligação que o há-de levar a outro lugar, para aí esperar de novo. Assim enriquece o passaporte e desenvolve toda uma geografia, fundada na observação e em misteriosos critérios classificativos. Com o passar dos anos consegue mesmo elevar-se das taxionomias à formulação de conjecturas. Dias há que tenta refutar as teorias que forma. A suprema sabedoria, porém, descobriu-a ele talvez demasiado tarde. Sentar-se solitário e esperar que o seu avião parta sem ele. Então levanta-se e volta para a casa.
terça-feira, 13 de março de 2018
Ensaio sobre a luz (28)
József Németh, Athenaeum, Budapeste, 1944
As folhas mortas da nostalgia arrastam-se pelo chão e, sopradas pelo vento, esperam a luz de sombra que as rapte da clareira e as devolva ao paraíso do esquecimento.
segunda-feira, 12 de março de 2018
A razão e o sentimento
A minha crónica no Jornal Torrejano.
Os resultados eleitorais em Itália, a dificuldade de
formação de governo na Alemanha e o tremor – ou terror – que cada novo acto
eleitoral provoca Europa fora, tudo isso se enraíza num conflito surdo, que
durante muito tempo foi disfarçado, entre as elites europeias e as camadas
populares dessa Europa. O conflito tem a raiz na cultura iluminista das elites
e na estranheza das camadas populares relativamente a essa cultura. Enquanto o
sistema de crenças das elites se foi transferindo da religião para um culto da
razão e da sua eficácia, as camadas populares viram a religião, que dava
sentido à sua existência, perder capacidade explicativa e integradora, não
tendo elas, agora, nenhuma narrativa que lhes explique o mundo e nele as
integre.
O conflito foi disfarçado durante uns tempos pelas
ideologias políticas que funcionaram como um sucedâneo do cristianismo. Também
uma certa expectativa de ascensão social e de capacidade de aceder ao consumo mitigaram
a ruptura que atravessava já as sociedades europeias. O que terá acontecido
para que esse disfarce tenha caído e para que, cada vez que a vontade popular
se expressa nas urnas, as elites europeias tremam perante o avanço do
populismo? Podemos pensar que isso se deve ao fim da expectativa de ascensão
social, à vilania de um capitalismo voraz apostado em destruir os direitos
sociais e à corrupção dos actores políticos. Isso terá algum peso. O problema,
porém, está noutro lado, está na presença do estranho, do outro, dos imigrantes
e dos refugiados provenientes, antes de mais, do mundo muçulmano.
A explicação é feia? Bastante, mas a realidade não tem de
ser bela nem agradável. As elites, com a sua cultura racional e os seus
interesses, aceitam facilmente a presença do estranho no seu território. Ao
nível popular, contudo, a percepção do outro não é feita segundo princípios
racionais derivados do Iluminismo. É feita de suspeita, de desconfiança e,
acima de tudo, de medo. Na ausência de uma narrativa – religiosa ou outra – que
permita integrar o que é estranho, existem múltiplas anedotas que, ao serem
costuradas umas com as outras, fornecem o combustível que alimenta sentimentos
negativos e que se traduz em xenofobia e na eleição de partidos e actores
políticos que apregoam haver razões para ter medo do outro. As tradicionais
elites políticas europeias, em nome da razão, podem continuar a fingir que não
há aqui um problema, mas depois não se lamentem que a política tradicional e
sensata esteja a morrer e que condottieri
sem escrúpulos, em nome do sentimento popular, ganhem terreno e se aprestem
para tomar conta dos rebanhos.
domingo, 11 de março de 2018
Passos, o catedrático convidado
Joan Ponç, Comença el Gran Ball de les Bruixes, 1951
Estou perplexo com as reacções ao convite dirigido pelo
ISCSP da Universidade de Lisboa, uma universidade pública, pormenor não despiciendo,
a Passos Coelho para que, com o estatuto ou o vencimento, não sei bem, equiparado
a professor catedrático, leccione algumas coisas de que ele supostamente terá
experiência para dar e vender.
A minha primeira perplexidade é com as reacções da esquerda.
Em vez de vitoriar e alegrar-se com a conversão do antigo campeão político do
liberalismo português – havia quem o visse já como uma Thatcher de calças e
óculos que só não foi mais longe porque… –, com a conversão de Passos, dizia, ao
Estado social, acolhendo-se, em tempo de desdita, num emprego do mesmo Estado. Em
vez de protestar contra a contratação do antigo primeiro-ministro, os estudantes
e o povo de esquerda deveriam acolhê-lo com cravos, como mais um dos dele, um neoconverso
ao papel fulcral do Estado na sociedade. Mais, não só vai trabalhar para uma
instituição estatal, como vai ser cúmplice, pelo exemplo e enquanto professor, da
reprodução do amor ao Estado entre as novas gerações. Passos Coelho deveria
ser visto pela esquerda pelo menos – e é o mínimo – como um compagnon de route.
Não menos perplexo me deixa a imensa mole dos apoiantes de
Passos que agora vitupera a esquerda por o não querer como professor no ISCSP. O
lógico não seria essa gente – fundamentalmente, a brigada liberal e anti-Estado
– vir para as ruas e rasgar as vestes? Não deveria a direita social estar
furiosa por um deles, aquele que mais esperança lhe deu na liberalização do
país, ir agora acolher-se nos braços amáveis de um salário pago pelo maldito
Leviatã? Como é possível que O Observador
e os blogues associados não organizem uma manifestação contra a conversão de
Passos Coelho ao socialismo? Não deveria essa direita exigir que ele se
acolhesse numa instituição privada ou iniciasse um negócio e, assim, mostrasse
a sua veia de empreendedor?
O que se passa é que os princípios valem zero em Portugal. A
única coisa que conta é se ele é dos nossos ou é dos outros. Todo o burburinho
e indignação – de uns porque ele vai e de outros porque os do outro lado protestam
por ele ir – a que se assiste na esfera pública não passa de uma espécie de
Benfica – Sporting (ou de um Benfica – Porto, se acharem melhor) político. Toda
a gente de esquerda sabe que Passos Coelho tem experiência política suficiente
para transmitir. Toda a gente de direita sabe que o percurso académico de
Passos Coelho é medíocre. Não é isso, porém, que está em questão. O que move os
dois bandos, mais os comentadores de plantão, é apenas uma coisa: ele é dos
nossos ou é dos outros?
sábado, 10 de março de 2018
Micropoemas - Naufrágios 6
Francis Bacon, Head IV, 1961
6. Claro
Claro,
luminoso e sério;
abria a vida pela porta do tédio.
(Micropoemas,
1977/78 e 89)
sexta-feira, 9 de março de 2018
Alma Pátria - 20: Raul Solnado - A Guerra de 1908
Quantas vezes terá passado esta historieta humorística na
rádio portuguesa daqueles tempos? Bem, não é música, mas é como se fosse. É o
humor permitido, embora não se possa dizer que, no antigo regime, não havia lugar para o humor. Havia o Teatro de Revista e, por exemplo, no Rádio Clube Português, os
Parodiantes de Lisboa animavam as hostes nacionais com um programa chamado Graça com Todos. Raul Solnado, note-se,
não era um homem do antigo regime, aliás como muitas outras figuras que passam
pelo Alma Pátria. O humor, diga-se, chocava com a sisudez da censura e dos
professores Salazar e Caetano, pouco dados à risota. Por isso era ingénuo e
inócuo, mesmo quando havia piadas políticas. Voltando a Solnado, um dos apresentadores
do inesquecível programa de televisão Zip-Zip, quando o
marcelismo era ainda uma primavera, ele foi uma das faces humorísticas da
democracia portuguesa, talvez o pai fundador de uma legião de humoristas que
vai de Herman José a Ricardo Araújo Pereira. Acima de tudo, Raul Solnado era
uma pessoa de bem. Isso é o mais importante. [Julgo que o vídeo é de uma gravação posterior ao 25 de Abril de 1974. O sketch pertence à revista Bate o Pé, estreada em 1961 no Teatro Maria Vitória.]
quinta-feira, 8 de março de 2018
Da divina imobilidade
Deborah Turbeville
Tudo o que a fotografia nos dá a ver, naqueles corpos femininos, obedece a uma rigorosa coreografia. O que se revela ali, de forma completamente inusitada para um trabalho de moda, é a essência da dança. Essa essência não reside no movimento mas na pura imobilidade. A fotografia de Deborah Turbeville (não apenas esta, mas a sua obra em geral) capta o carácter divino dessa imobilidade. Estamos sempre perante uma representação politeísta do motor imóvel, do Deus de Aristóteles, esse Deus que move o mundo pelo desejo. O movimento, que por equívoco pensamos ser a matéria da dança, não é então outra coisa senão o desejo que a imobilidade desencadeia nos corpos até que estes atinjam, ao saciar-se no ritmo, o seu estado de perfeição e se tornem, como estátuas, imóveis.
quarta-feira, 7 de março de 2018
A distopia educativa
Florian Schmidt, Turn
The Page
Há muito tempo que perdi qualquer ilusão sobre a melhoria do
sistema educativo português. Os motivos são vários. Há uma cultura dos alunos
adversa à aprendizagem escolar, há um retrocesso no formação dos professores
relativamente às décadas de oitenta e noventa do século passado e há também um
problema com as famílias que ora são desatentas ao percurso dos seus filhos, ora são factor de perturbação, devido a uma hipertrofia da sua presença
nas escolas, quase sempre de forma enviesada. Estes factores, porém, não são o
cerne do problema.
O problema reside na bipolaridade política (e aqui estou de
acordo com Santana
Castilho) que tornou o sistema absolutamente ingovernável. Depois de um
consenso inicial nos anos noventa, consenso esse gerador de um grande entusiasmo,
a ressaca dos aspectos utópicos gerou dois campos antagónicos que colonizam a
educação com os seus devaneios ideológicos. Poderíamos dizer que estamos
perante duas utopias. Uma utopia de direita baseada na idealização de uma
escola do passado e num rigor que nunca existiu. Uma utopia de esquerda fundada
numa perfectibilidade de professores e alunos a ser atingida no futuro que
nunca virá.
Ambos os lados fogem do presente, isto é, da realidade. Dos professores
que existem, dos alunos que estão nas escolas, das famílias que solicitam os
serviços de educação. Eu sei que a mesma realidade pode ter leituras diferentes.
No entanto, se ambos os lados olhassem para a realidade talvez houvesse margem
de manobra para se chegar a consensos que evitassem a maluquice em que as
escolas vivem ano após ano. Muda o governo e tudo tem de mudar no sistema educativo. Já
chega. A soma de várias utopias gerou uma escola completamente distópica. É tempo de mudar de página. São precisas mudanças, claro. Mas elas têm de ser consensualizadas, caso contrário o inferno não terá fim.
terça-feira, 6 de março de 2018
Ensaios sobre a luz (27)
Deborah Turbeville, fotografia para a Vogue, 1995
Um corpo separa-se da paisagem sombria que o envolve, incendeia-se como se tivesse fugido de um limbo e deixa que nos olhos tudo o que é obscuro permaneça e resista à avidez da luz.
segunda-feira, 5 de março de 2018
Micropoemas - Naufrágios 5
Jordi Pallarés, Corazón,1990
5. Coração
(Micropoemas,
1977/78 e 89)
Coração
sôfrego e inútil;
do corpo, a alma dúctil.
domingo, 4 de março de 2018
Ensaios sobre a luz (26)
Léon Comerre, Le Papillon, c. 1890
A luz, ao incidir sobre o corpo, desdobra-se para se abrir como uma borboleta que, sob o segredo dos olhos, te poisasse na branca alvura da mão.
sábado, 3 de março de 2018
Um regime pouco parlamentar
Uma parte – uma parte e não todos, note-se – dos problemas
que Rui Rio está a enfrentar dentro do seu próprio partido deve-se ao simples
facto de não ter assento na Assembleia da República. A sucessão de Passos Coelho
à frente do partido português com mais deputados eleitos no actual parlamento
foi disputada por dois não deputados. O problema desta situação não é apenas
instrumental. Estar na oposição e não ter lugar no parlamento é mau do ponto de
vista dos interesses partidários. No entanto, não é o pior.
O facto dos líderes partidários não serem, ao mesmo tempo,
deputados eleitos representa, na prática, uma desvalorização do parlamento.
Esta desvalorização, porém, está na génese do próprio regime, ao escolher um
modelo político semipresidencial. Os constituintes acharam por bem colocar o
parlamento - e os deputados - sob a tutela do Presidente da República. Na verdade, o que essa
escolha revelou foi uma efectiva falta de confiança no parlamentarismo. E é
essa falta de confiança no regime parlamentar que a situação actual do PSD torna
patente.
Se os partidos parlamentares acreditassem efectivamente nas
virtudes da democracia parlamentar teriam, todos eles, inscrita nos seus
estatutos uma cláusula que impossibilitasse um não deputado aspirar à liderança
do partido. Tanto quanto sei, nenhum tem. O que torna a situação política
completamente incongruente. O chefe da oposição não está no parlamento para
confrontar o primeiro-ministro e obrigá-lo a prestar contas. Situações destas
empobrecem a vida política, a qual deveria fundar-se no confronto democrático
dentro do parlamento. O parlamento como casa da democracia não passa assim de
uma figura de retórica. E depois as elites políticas ficam - ou fingem ficar - muito admiradas pela imagem que os deputados têm na opinião pública.
quinta-feira, 1 de março de 2018
O difícil mundo da liberdade de expressão
A minha crónica em A Barca.
Um dos sintomas do carácter incipiente da nossa cultura
democrática reside na má disposição com que membros de uma certa organização de
natureza pública recebem artigos de opinião sobre as organizações a que pertencem.
Se se escreve sobre um partido político, sobre o seu funcionamento, sobre
problemas que enfrenta internamente, haverá sempre quem ache que as pessoas que
não lhe pertencem não têm direito de emitir opinião. O mesmo se passa com as
Igrejas. Se, por exemplo, se fala da vida interna da Igreja Católica ou das
opiniões dos seus membros, haverá sempre quem ache que não há direito, não
pertencendo à Igreja, de falar sobre esses assuntos.
Isto é, contudo, um equívoco. Pior, é uma incompreensão
profunda do tipo de sociedade em que vivemos e da liberdade de expressão.
Partidos políticos, Igrejas, clubes recreativos ou desportivos são organizações
públicas e recebem, enquanto tal, protecção pública. As suas actividades não
são secretas – ou não deverão sê-lo – e elas influenciam a sociedade no seu
todo. Por isso, elas não se podem eximir ao escrutínio público daqueles que não
lhes pertencem. Nunca é demais lembrar uma célebre nota de rodapé aposta por
Kant ao primeiro prefácio da Crítica da Razão Pura: “A nossa época é a época da
crítica, à qual tudo tem que submeter-se. A religião,
pela sua santidade, e a legislação, pela sua majestade, querem igualmente subtrair-se
a ela. Mas então suscitam contra elas justificadas suspeitas e não podem
aspirar ao sincero respeito, que a razão só concede a quem pode sustentar o seu
livre e público exame.”
A ideia de que a vida interna de um partido político, com os
seus dramas e tragédias, ou as questões doutrinais de uma Igreja, não menos
dramáticas, só interessam aos seus membros é esquecer que essas organizações
têm um poder de intervenção na sociedade e que esse poder interfere tanto com
quem pertence como com quem não pertence. E é por isso que, numa democracia
liberal, tudo deve estar submetido à crítica pública e ser matéria de discussão
pública, na qual todos poderão participar. Isso não significa que quem não
pertença tenha direito algum de tentar sequer intervir, através da acção, no
funcionamento interno dessas organizações. O Estado existe também para as
proteger contra tentativas desse género. No entanto, o uso da liberdade de
expressão, a possibilidade de argumentar sobre essas organizações é uma questão
fundamental para o funcionamento livre das nossas sociedades. E, além disso,
esse exame público é benéfico para essas organizações, que desse modo “podem
aspirar ao sincero respeito, que a razão só concede a quem pode sustentar o seu
livre e público exame”.
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