quinta-feira, 2 de novembro de 2017

O que está em jogo

A minha crónica em A Barca.

Um ano terrível de incêndios. E sempre que uma coisa terrível se manifesta, há uma luz que desce sobre a realidade e torna visível aquilo que era invisível, aquilo que ninguém queria ver. Não falo da desorganização dos serviços, não falo da desordem que campeia na floresta. Falo de um país que, apesar de ocupar parte muito significativa do território, deixou de se ver. Ali tudo parece mais arcaico. Em muitos lugares, é a ruína que cresce desmedida. Noutros, a ruína ainda não chegou por completo, mas são habitados por solidões sem fim. Olhamos o país e parece que uma parte desatou a correr por aí fora e foi deixando a outra para trás, até que se esqueceu dela por completo. Os incêndios, para lá das mortes, mostraram um país – isto é, uma parte da população – que foi abandonada à sua sorte, ou antes, à sua má sorte.

Talvez tudo tenha começado pelos anos sessenta do século passado com as grandes vagas de imigração. O país, atolado na guerra e na ditadura, não teve o talento e a capacidade para fomentar pólos de geração de riqueza distribuídos pelo vasto interior. A transição à democracia acabou por fomentar um modo de vida urbano que acentuou a tendência para o despovoamento. Depois veio a grande época dos fogos de artifício, a entrada na CEE. O dinheiro jorrou país fora, mas o resultado foi cavar mais o fosso entre o interior e o litoral, entre as zonas deserdadas e as zonas ricas. Com a crise do défice, os meios que poderiam existir para continuar a disfarçar a realidade desapareceram. Bastou um ano como este e tudo veio ao de cima, com mais de cem mortos pelo caminho e perdas incalculáveis. Os incêndios deste Verão mostraram que, tirada a maquilhagem trazida pelo dinheiro europeu, a face do país não é lá muito bonita de se ver.

Será que o país, todos nós, aprendemos alguma coisa? Será que, depois das emoções esfriarem, ainda nos lembraremos desse país que agora descobrimos? Será que a nossa memória do acontecido persistirá apenas até à próxima desgraça ou até ao próximo derby e ao escândalo de um penalty roubado? Temo que, com as primeiras grandes chuvas, a vidinha tome conta das instituições e dos cidadãos e tudo fique como está. É verdade que se estão a tomar medidas interessantes. O problema, porém, é se essas medidas são uma mudança para que tudo fique na mesma. O que está em jogo não é só como evitar e combater os incêndios. Não é só ordenar a floresta e discutir a vexata quaestio do eucalipto. O que está em jogo é o que vamos fazer com o nosso interior. O que está em jogo é se vamos continuar a abandonar as pessoas desse interior.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Ensaios sobre a luz (11)

Gustave le Gray - Le Havre, Bateaux quittant le port, 1856

Luz sobre as águas e os barcos, cerzidos ao céu, partem para a terra do esquecimento.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Catalunha, um certo desconforto

Francisco Iturrino - El paseo. Plaza de Cataluña (1915)

Agora que o problema da Catalunha parece entrar na via da solução – uma solução transitória, como tudo na vida –, vale a pena tentar compreender porque gera uma sensação não só de pura irrealidade mas de um tão grande desconforto. Não se trata de uma questão política, saliente-se. É fácil compreender o ponto de vista das partes. Trata-se antes da encenação, das palavras, das manifestações, das acusações, das fugas. Enfim, da estética do evento, da deplorável estética que dele ressalta.

Num mundo civilizado e esteticamente suportável tudo se passaria tranquilamente. O governo da Catalunha diria: bem estamos cansados deste casamento e queremos o divórcio. Não há razões para continuarmos a viver na mesma casa. Vamos lá fazer as contas. O governo de Madrid consideraria o caso, entre o enfado e a irritação, e proporia que se consultasse o Rei para fazer terapia de casal. As partes desavindas, nas sessões, poderiam insultar-se, embora sem levantar a voz, como se estivessem num filme de Bergman.

A certa altura, o Rei, com cautela e para não interferir na vontade das partes, sugeriria que pensassem bem na situação. Que tal um exame de consciência por parte de quem se quer divorciar? E como quem não quer a coisa, sem gritaria, convocava-se um referendo para, pacata e civilizadamente, os catalães dizerem o que lhes vai na alma. E chegaria o dia em que diriam: foi bom, mas acabou-se. Ou, na alternativa mais provável, reconheceriam que a ligação ainda tem muito para dar.

Tudo isto, porém, sem grande espectáculo, sem palavreado horrendo, sem a chicane do que se quer ir, sem os ataques de fúria do amante atraiçoado, e também, no caso provável de quererem continuar casados, sem cenas românticas na via pública. Num mundo modicamente civilizado, como é suposto a Espanha ser, nada do que se tem passado se deveria ter passado. Casamentos, concubinatos, traições e divórcios são coisas que se devem tratar com discrição. No fundo, ser civilizado é um exercício contínuo de saber manter as aparências e, acima de tudo, o fair-play

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Micropoemas - Elementos 3

Jacques Callot - El duelista de la espada y el puñal

3. Tempo

O tempo,
espada de vento e sal.

Uma estrela na ponta do punhal.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)

domingo, 29 de outubro de 2017

A cegueira de Lenine

A. Gerasimov, Lenin on a tribune, 1930

Passou há dias o centenário da revolução bolchevique de Outubro de 1917. Muito do prestígio desse acontecimento está ligado à propaganda. Veja-se, por exemplo, este retrato de Lenine por Alexander Gerasimov, retrato feito treze anos depois da revolução e cerca de seis após a morte do retratado. Envolto na multidão e num mar de bandeiras vermelhas a ondular ao vento (um lugar comum da estética revolucionária), Lenine olha em frente, para o futuro. A expressão facial e até a posição do corpo dizem-nos que ele vai rasgar o caminho para esse futuro, do qual ele - através das suas ideias - será o senhor. Esta hübris, tão comum aos homens, tem sempre o reverso da medalha.

Visto do ano do centenário, por muito que os adeptos achem que não, aquilo que se vê é um Lenine cego. A cegueira que não o deixa ver que os seus ideais, apesar da vitória, não terão grande futuro, por muito que se agitem as bandeiras vermelhas. A cegueira de uma ilusão construída sobre a crença de que o motor da história, se é que a história tem um motor (uma terrível metáfora mecanicista devedora da revolução científica do XVII e aplicada, por analogia, à luta de classes), seria posto em movimento por aqueles que, pela sua natureza, são pura passividade. Ora, toda esta iconografia das massas em movimento, de que o trabalho de Gerasimov faz parte, não é mais do que a expressão de um desejo. O desejo de que elas fossem assim e não como eram e como são, sujeitos passivos à espera de protecção, que podem explodir em raiva e revolta se essa protecção não chega.

sábado, 28 de outubro de 2017

Ensaios sobre a luz (10)

Josef Breitenbach - Nu, 1950s

Subjugado pela luz, o corpo abre-se ao segredo e oculta-se no silvar do excesso de claridade.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

A estética da espera (3)

Julia Margaret Cameron - The Parting of Lancelot and Guinevere, 1874

A espera é o que medeia entre a consumação e a separação. Ainda há, no rosto melancólico e já ferido dos amantes, uma ténue esperança de que a duração se suspenda e a eternidade os colha ali. Em vão. O afastamento reclama já a sua herança e a espera é o lugar onde as agulhas do tempo tricotam, imperativas, severas, inexoráveis, o tecido do abandono. Uma mão ainda se prende na do amante, mas outra desenha já o caminho da fuga.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

O senhor Platão


Estou a ler o Against Democracy, de Jason Brennan. É muito curiosa a forma como ele divide, relativamente à política, os cidadãos das sociedades democráticas. Hobbits, hooligans e vulcanos. Os hobbits têm um fraco ou nulo interesse pela política. São, perante ela, sujeitos passivos. Os hooligans possuem um interesse vivo, informam-se e sentem o dever de participar, embora a sua capacidade de entender outros pontos de vista, mesmo se são apoiados por uma evidência esmagadora, seja muito limitada ou nula. São os sujeitos políticos activos. Por fim, os vulcanos. Interessam-se pela política, mas são racionais a pensá-la. Aqui a racionalidade é entendida como a capacidade de não aceitar crenças desmentidas pelo factos. Se a realidade desmente a teoria, o vulcano desfaz-se da teoria. É um sujeito racional perante a política. Também é uma raridade.

Esta divisão tripartida dos cidadãos perante a política, apesar da fosforescência das designações, onde se desenha um certo divertimento, ecoa algo muito antigo. Na verdade, não estamos perante outra coisa senão a visão platónica do ser humano, com a alma dividida em três partes. A concupiscente, a irascível e a racional. Todos os seres humanos possuem as três partes, o que os diferencia é a parte que é dominante. Combinando a teoria de Platão com as designações de Brenann, teríamos os hobbits, em que o que domina a alma é a concupiscência, o que explica a sua passividade. A parte irascível domina nos hooligans, daí a sua propensão para a acção política acompanhada pela incompreensão do outro lado. Por fim, os vulcanos não são mais do que os filósofos platónicos, em que a parte dominante da alma é razão. E isso torná-los-ia mais aptos para governar. Como se vê, de um momento para o outro, uma velha teoria platónica, tida como uma curiosidade pelos leigos ou uma relíquia pelos praticantes da filosofia, é reanimada e colocada no centro do debate intelectual. Mais uma vez somos chamados a reflectir sobre o que acontece quando somos governados por hooligans. O senhor Platão nunca passa de moda.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Micropoemas - Elementos 2

Maruja Mallo - Rosa

2. Futuro

Futuro,
uma rosa bravia.

E no fruto a luz que dela caía.


(Micropoemas, 1977/78 e 89)

terça-feira, 24 de outubro de 2017

A estética da espera (2)

René Burri - Party. On the wall a giant Deutschmark, introduced in 1948 and symbol of an economic miracle.  West Berlin, 1964

A espera é já um convite. Melhor, é o território onde o desejo triunfa sobre qualquer obstáculo. Aqui, na fotografia, de René Burri a espera é a antecâmara da acção, a qual desliza dos olhos de ambos os protagonistas e é uma promessa sorridente e despreocupada. O pior porém é a luz que ilumina o desejo descer da gigantesca nota de 100 marcos colada na parede. A relação metonímica que a contiguidade introduz entre desejo e dinheiro lança uma nuvem pesada e densa sobre o que se espera naquela espera.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Alma Pátria - 37: Madalena Iglésias - Ele e Ela



Se me pedissem uma canção para representar o espírito do Festival RTP da canção, pelo menos daqueles anos que vão desde 1964 a 1974, eu não teria qualquer dúvida de escolher esta. Contrariamente a muitas canções que por lá passaram, tendo algumas ganho, esta não tem mensagem subliminar. É uma coisa inócua e era isso que tanto a RTP como a Eurovisão pretendiam. O conteúdo desejado era a ausência de conteúdo, uma coisa ritmada e bem disposta, de preferência que falasse de amor, mas nada de grandes tensões amorosas. A qualidade textual, e até musical, de muitas canções que apareceram no Festival é apenas a prova da inexistência de um lugar natural onde elas pudessem ter a sua vida. Ele e Ela é, de facto, o espírito da coisa.

domingo, 22 de outubro de 2017

Um paternalismo democrático


Portugal tem uma estranha democracia. Essa estranheza só agora se revelou na sua mais autêntica natureza. Vivemos num paternalismo democrático. Foi Marcelo Rebelo de Sousa que o tornou evidente, embora Cavaco Silva também desejasse, sem êxito, conduzir o regime para aí. Este paternalismo nada tem a ver com a relação do Presidente com as populações, nas horas boas e nas más. Tem a ver com a forma como se relaciona com o governo e a oposição. Age não como um político, mas como um pai, umas vezes brando e outras vezes severo. Castiga ora uns ora outros. Dá reprimendas públicas e, por certo, outras privadas. Curiosamente, todos se comportam como filhos respeitosos e obedientes. Este tipo de relação - absolutamente inaceitável numa democracia adulta - revela muito da natureza das nossas elites políticas. Revela, porém, ainda mais de nós enquanto povo. Nós permitimos que aqueles que nos representam não passem de adolescentes retardados, que precisam de um pai que os ponha na ordem e distribua castigos e recompensas.

sábado, 21 de outubro de 2017

Ensaios sobre a luz (9)

Jack Delano - Foggy night in New Bedford, Massachusetts, 1941

Noite e névoa abrem-se para a ávida avidez com que da terra lenta e leve a luz se ergue.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Micropoemas - Elementos 1

Manuel Narváez Patiño - Arboles (1988)

1. Árvores

Árvores,
a voz do vento ao soprar.

Ramos e folhas a arder ao luar.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

A vida normal

A minha crónica no Jornal Torrejano.

Há alturas em que o jeito de ser português mostra os seus limites. O ano de 2017 é uma dessas alturas. Não chega a nossa cultura do desenrascanço (palavra horrível com que embrulhamos a incompetência na esperteza saloia). Não chega este ir fazendo que faz mas não faz. Não chega o modo de ser português que alguns cantaram perante os rigores do norte. Não chega esse riso manhoso de quem coça a cabeça e diz: deixa-os poisar! Todos conhecem, ó ironia das ironias, essa expressão, tão ao gosto popular, que resume, melhor que todas as outras, o modo de ser português: deixa arder que o meu pai é bombeiro.

Este ano de 2017 é o resultado de anos, décadas, talvez séculos, de deixa-os poisar e deixa arder que o meu pai é bombeiro. Só que já não há sítio onde poisar e bombeiros que cheguem para tanto incêndio. Eu sei, nós somos boas pessoas, e as boas pessoas odeiam o rigor. Nós somos criativos (deixem-me rir), e os criativos abominam a organização. Nós somos simpáticos, e as pessoas simpáticas detestam a disciplina. Nós gostamos de coisas fáceis. Nada de exigências, vamos lá devagar que é assim que se chega ao longe. Esta atitude de autocomplacência corrói os indivíduos, as famílias, as instituições. Corrói, acima de tudo, o Estado.

Este ano está a ser anormal? Está, mas é nas anormalidades que se vê como a nossa normalidade é doentia, malsã, absolutamente perigosa. A nossa vida normal não passa de uma brincadeira pouco séria. A nossa vida normal entregou o Estado e as instituições ao compadrio, à corrupção, à preguiça, ao branqueamento de comportamentos. As seitas confrontam-se na praça pública, movidas pelo seu desejo de ocupar o poder, e nós, cidadãos, em vez de sermos rigorosos, organizados, disciplinados e exigentes connosco e com quem está no poder, aceitamos tudo desde que venha dos nossos. A nossa vida normal é viver à beira do abismo. Quando há uma anormalidade, como este ano, damos um passo em frente.

Eu gostava que esta hora difícil fosse a hora de um recomeço, um tempo em que tomássemos consciência de que a nossa vida normal é perigosa, muito perigosa e começássemos a ser mais exigentes e rigorosos com as instituições, com os poderes, mas, em primeiro lugar, connosco. Podemos acusar, para salvar a boa consciência, os políticos e as instituições, mas isso seria esquecer que fomos nós que os elegemos (aos actuais e aos anteriores) e que não lhes exigimos nada. A nossa vida normal é passar cheques em branco e depois queixarmo-nos que nos levaram o pecúlio. Será desta que iremos acabar com a nossa vida normal? Ou continuaremos a dizer: deixa arder que o meu pai é bombeiro?

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Do trono ao altar

Corrado Giaquinto - El sacrificio de Ifigenia (sec. XVIII)

O caso da demissão de ministra Constança Urbano de Sousa é mais um que nos mostra que entre o trono e o altar sacrificial vai o passo de um anão. Por mais secular que seja uma sociedade, o poder tem sempre uma dimensão sagrada. A unção que o governante recebe do deus - do demos, neste caso - dá-lhe o direito à glória do mando. Este direito, porém, tem um preço, torna o governante uma potencial vítima sacrificial. Se as coisas correm mal, o deus exige sacrifícios expiatórios para reconciliação. Dito numa linguagem mais seca: exige uma vítima emissária ou um bode expiatório.

Uma das características da expiação sacrificial é a possibilidade de substituição da vítima. Na economia da expiação, não é essencial que o principal responsável seja a vítima, mas que haja uma vítima que aplaque os furores do deus desavindo com os homens. Constança Urbano de Sousa, já consagrada pela unção do poder, foi a vítima sacrificial - e toda a vítima sacrificial é sagrada -  imolada para tentar salvar o governo de António Costa e aplacar as fúrias. Não esqueçamos que ela foi uma criação política de António Costa, uma espécie de filha. Ao ser imolada, ela é a Ifigénia que permite à armada de António Costa rumar para Tróia. O resto é-nos contado por Homero e por Ésquilo.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

A estética da espera (1)

Ara Güler - Dockworkers waiting to unload ships along the Golden Horn, Istanbul, Turkey, 1954

Um olhar precipitado e superficial para a fotografia de Ara Güler poderia fazer crer que estávamos perante um quadro neo-realista. A indumentária, o cenário e  algumas expressões faciais destes estivadores enquadram-se nessa lógica. Contudo, o que a fotografia nos dá a ver é algo completamente diferente. Na estética neo-realista, os trabalhadores, por norma, são representados em acção. Eles marcham em direcção ao futuro, ao glorioso futuro que os espera. Aqui, pelo contrário, eles não marcham para o futuro, apenas o aguardam. E aguardam esquecendo-se dele, fazendo como se ele não existisse. A espera não é sinónimo de esperança, nem sequer de expectativa. A glória não está no que há-de vir, mas no puro momento em que se espera. Que glória pode haver nesse futuro em que um barco os aguarda para ser descarregado? Os futuros reais são sempre muito mais inóspitos e indesejáveis do que os futuros imaginários e nunca realizáveis. 

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Um espelho do país

Paul Klee - Fire Wind (1922)

Há precisamente cinquenta anos, em 1967, umas terríveis cheias devastaram a zona de Lisboa e causaram 700 mortos (ver aqui). A ditadura do professor Salazar tentou esconder a realidade, a oposição ao mesmo professor Salazar tentou tirar partido da catástrofe para minar o regime. Essa é a natureza das coisas. Ora foi a maior catástrofe natural depois do terramoto de 1755, mostrou a fragilidade da sociedade portuguesa, a incúria das instituições, a impotência dos políticos. A questão que devemos colocar é a seguinte: para lá da luta política, nós, portugueses, aprendemos alguma coisa com os acontecimentos de 1967?

O ano de 2017 – um ano em que já se vive em democracia há mais de quarenta anos – mostrou que não aprendemos nada. O governo não pode ocultar a situação mas, porque está no poder, vai tentar minorar a responsabilidade desse poder. A oposição, porque não está no poder, vai tentar tirar partido da situação. Se fosse ao contrário, se governasse a direita ela faria o que faz agora o governo e a esquerda faria o que faz agora a oposição. Essa é a natureza das coisas.

O problema, porém, está noutro lado. A sociedade portuguesa, apesar de terem passado cinquenta anos, apenas esqueceu a catástrofe de 1967 e não aprendeu nada com ela. Bastou um Verão anómalo para tornar patente a velha fragilidade da sociedade portuguesa, a incúria das instituições, a impotência dos políticos. Destes três conceitos – fragilidade, incúria e impotência – o central é a incúria. Ela perpassa por toda a nossa sociedade, do cidadão anónimo ao poder político, passando pelas instituições, sejam elas quais forem.

A incúria nasce da falta de exigência que temos connosco e estende-se à falta de exigência que, enquanto cidadãos, temos com as instituições e o poder político. Para este olhamos segundo o modelo do futebol. Se o poder está na mão dos nossos, tudo se perdoa; se está na dos outros, exigimos que, sem remissão, pague por tudo, mesmo pelo que não tem responsabilidade. Esta forma de encarar a política pelos cidadãos é parte integrante da incúria.

Ao fim de cinquenta anos descobrimos que não aprendemos nada, repito. E preparamo-nos para, mais uma vez, não aprender rigorosamente nada. Sim, assistiremos a uma tremenda luta política em torno dos mortos – já estamos a assistir a escaramuças e a intifadas levadas a cabo por pessoal menor – e a grandes rituais de dor e consternação, de uns porque estão no poder, de outros porque estão na oposição. Isso, porém, é a estratégia que todos – cidadãos, governo e oposição – seguem para evitar olhar a realidade e enfrentá-la. Como as cheias de 1967, também os incêndios de 2017 são um espelho de todos nós, da nossa incúria enquanto cidadãos, enquanto profissionais, enquanto políticos. Olhamo-nos ao espelho e não gostamos do que vemos. Como não suportamos o desgosto, partiremos o espelho. Assim sempre muda alguma coisa, para que tudo fique na mesma.

domingo, 15 de outubro de 2017

Micropoemas - Amor 6

Sarah Moon - Fashion 10, 1998

6. Corpo

No corpo,
o fogo e a senda.

Pele e rumor
a incendiar a contenda.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)

sábado, 14 de outubro de 2017

Voto de silêncio

Max Ernst - The Eye of Silence (1943-44)

O mais curioso, quando se escreve sobre política, é a forma como, muitas vezes, os textos são recebidos. Sinto – o que significa que não é um conhecimento mas um pressentimento – que são tomados como afirmações dogmáticas. Quero dizer: exercícios de fé, a partir dos quais se proclama uma crença. Isto condiciona, por certo, a presumida reacção de alguns leitores. Os que partilham a fé que julgam ser a minha e os que não partilham a fé que me atribuem, sendo devotos, assumidos, de outros deuses. Ora se há uma coisa que marca a minha existência é a falta de fé em tudo o que é humano, demasiado humano. E não há coisa mais humana do que opiniões políticas, mesmo, ou principalmente, as que aparentam ser as minhas. Quando uma pessoa precisa de ter uma grande fé, o melhor, para não incomodar terceiros, é entrar para um convento. E mesmo que não seja casto nem pobre, deve sempre cumprir o voto de silêncio.