segunda-feira, 25 de junho de 2012

A justa medida


O diálogo platónico Protágoras discute se a virtude política é ensinável. Em diálogo surgem as figuras do sofista Protágoras e de Sócrates. Platão,  de uma forma claramente dialéctica, opõe duas posições para delas extrair uma terceira, numa espécie de síntese. Perante a crença de Protágoras na possibilidade  e necessidade de ensinar essa virtude política, Sócrates contrapõe a posição tradicional da aristocracia homérica, a da não ensinabilidade da virtude. A questão, porém, é conduzida para que Sócrates aceite que é possível ensinar a virtude, mas porque esta é conhecimento. Não é esta discussão, contudo, que me interessa aqui.

O que me interessa é o mito que Protágoras conta em defesa do seu ponto de vista. Muito rapidamente: o titã Epimeteu, estando responsável pela configuração das espécies mortais, gastou todas as capacidades e poderes que tinha para distribuir pelas espécies antes de chegar ao homem. Perante tal situação da espécie humana, outro titã, Prometeu, decide roubar o fogo e a técnica a Atena e a Hefesto e dar-lhos para que ela sobrevivesse. Contudo, isso não era o bastante, pois os homens ficaram a saber trabalhar, mas não sabiam viver uns com os outros, faltava-lhes a arte política. E é Zeus que resolve o assunto com a dádiva da soberania.

Esta dádiva era composta pelo respeito (aidôs) e pela justiça (dike). Para o caso daqueles que não usavam, na vida da cidade, de respeito e de justiça, Zeus decretou a pena de morte. Podemos agora perguntar: o que é a virtude política? É o exercício do respeito pelo outro e a justiça na distribuição  do que compete a cada um. Os dois termos gregos são de tradução complexa, fundamentalmente o termo aidôs. Pode ser entendido como respeito, numa formulação mais de carácter moral, mas também, numa dimensão mais afectiva ou psicológica, pode ser traduzido como vergonha ou pudor.  Seja como respeito ou como vergonha e pudor, aidôs representa a necessidade da justa distância entre os homens: nem demasiado longe uns dos outros nem excessivamente perto. O exercício da justa distância é complementado com o da justiça, o da distribuição justo daquilo que cabe a cada um.

Apesar de o mito do Protágoras não dar um conteúdo semântico aos dois termos, deixando-os em aberto, ele acaba por estabelecer aquilo que é o horizonte político do Ocidente, aquilo que ele deve sempre buscar nas diversas situações históricas: a justa medida, o equilíbrio e a harmonia dentro da comunidade. Este post surge, então, como uma espécie de prolegómeno a um outro prometido há tempos sobre o que fazer nesta nova situação política criada a partir de 1989. Define o horizonte daquilo que tenho para dizer.