sábado, 18 de maio de 2013

Leituras poéticas - Ivone Costa, Ordem Breve, "locus antiquus"

Manuel Amado - La puerta (1971)

O abraço de penumbra chega
quando a porta se lamenta na ferragem ociosa.
Por todas as salas
correm a esconder-se
risos antigos e secretas traições.
Deixam pegadas ingénuas
no pó do soalho,
encobrem-se no damasco puído
que vela as janelas cegas.

As casas esquecidas
têm uma alma de cinza
volátil
entre os dedos do presente.

(Ivone Costa, Ordem Breve, "locus antiquus")

O poema "locus antiquus" faz parte do livro Ordem Breve (2011), de Ivone Costa (ou Ivone Mendes da Silva, a proprietária do inevitável A Ronda dos Dias). Ordem Breve é um livro a que volto uma e outra vez. Melhor, é um livro a que, vezes sem conta, bato à porta, pois é casa de prazeres elevados, que, apesar da revisitação persistente, surgem à leitura como sempre novos. Bater à porta é expressão indicada quando se tem em conta o livro - há múltiplos poemas onde a metáfora da porta desempenha uma função central - ou se considera, como neste texto, apenas o poema em epígrafe. 

Como entrar neste "locus antiquus"? Pela porta, claro. O verso "quando a porta se lamenta na ferragem ociosa" contém a chave de leitura de todo o poema. Há uma condensação de sentidos na "porta (que) se lamenta" pela combinação da metáfora (a porta que se lamenta) e da metonímia (a porta que se lamenta não é bem uma porta, mas a casa, para a qual, através de uma relação de contiguidade, a porta remete). Na verdade, podemos pensar que é a casa que se lamenta, mas a lamentação das "casas esquecidas", porque estão fora do império da memória, só se pode ocorrer de forma oblíqua. Como criar este efeito de obliquidade? Através do uso da metonímia "porta" e do ranger nos gonzos que, há muito, foram entregues à ociosidade.

O poema, todavia, não é uma meditação sobre a casa, tomada como elemento arquitectónico ou inscrita na dinâmica da ocupação dos espaços natural e social. Sobre isso, nada nos diz. A casa é o locus onde se desenrola o drama em que se cruza a vida e o tempo. "O abraço de penumbra" é já o resultado da tecelagem que cruzou os fios da vida e os do tempo. Nesse "abraço" sinto a vida, mas pela "penumbra" (essa quase ausência da luz do presente) sou de imediato enviado para o domínio do passado. Como constrói o poema essa relação entre vida e temporalidade?

Em primeiro lugar, a vida - sim, os "risos antigos e secretas traições" não são outra coisa senão a vida - esconde-se e encobre-se no "damasco puído". Apesar de deixar, no presente, vestígios - pegadas ingénuas / no pó do soalho -, essa vida é já passado, chegada até à consciência no lusco-fusco da memória. Vestígios são sinais de algo que passou, que se escondeu ou encobriu. Do passado, dessa vida exuberante, plena de alegria e premeditações da razão (as "secretas traições"), resta agora as pegadas ingénuas no pó do soalho. O pathos do passar do tempo ressalta, então, de um hábil e duplo jogo de contrastes.Por um lado, esse jogo põe em tensão aquilo que se esconde e encobre e aquilo que se revela nas pegadas no soalho. Por outro, cria um choque entre a premeditação e a ingenuidade, a premeditação da vida vivida e a ingenuidade dos traços e vestígios que acabou por deixar. Através deste jogo duplo, o leitor sente a passagem do tempo, o seu fluxo eterno, através daquilo sob o qual ele se manifesta.

Mas a construção dessa relação entre vida e temporalidade não está concluída. O que vimos até aqui foi a reconstrução do fluir do tempo através do seu impacto sobre a vida, nesse locus vital por excelência que é a casa. A estrofe final desenha o sentido dessa relação. Esse sentido é o da volatilidade da vida. Nesta estrofe, "as casas" surgem não como o locus onde a vida se desenrola, mas como uma metonímia que remete para a própria vida, pois são dotadas de alma. A vida é uma coisa que, devido à sua relação com o tempo, voa, mas não voa como um pássaro, voa como a cinza. Ela é pegada, vestígio, presença que se torna penumbra, múltiplas metamorfoses trazidas pelo tempo, dentro de um espaço marcado pela oclusão, assinalada por essas "janelas cegas" que o "damasco puído" vela. Chegados aqui, podemos retornar ao verso "quando a porta se lamenta na ferragem ociosa". O deslizar do sentido da porta que se lamenta leva-nos da porta já sem uso, à casa vazia e esquecida, e desta à vida que se tornou cinza volátil, "entre os dedos do presente", como se este fosse apenas a rememoração do que passou.