sexta-feira, 14 de junho de 2013

A greve dos professores

A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.

A decisão dos professores pela greve nesta altura é uma decisão difícil, mas representa um grito de desespero de um grupo profissional que, desde 2005, tem sido sistematicamente perseguido e aviltado. Os professores, mas também a escola pública e os seus alunos, foram transformados em inimigo, ao qual os governantes (sejam quais forem) patenteiam um ódio especial e uma vontade, nunca saciada, de perseguição. O que está em jogo, neste caso, diz respeito aos professores (horário de trabalho e mobilidade), mas também, e muito, aos interesses dos alunos e da comunidade em geral. 

Desde 2005, a degradação – e não estou a falar dos salários – das condições de exercício da profissão nunca parou. O aumento da actividade burocrática, o aumento do número de alunos por turma, a diminuição de horas atribuídas a certas disciplinas e o aumento dos horários lectivos estão a destruir as condições para que o trabalho de um professor dê frutos. As condições mínimas de uma escola de qualidade razoável já foram destruídas, mas este governo pretende ir muito mais longe. 

O trabalho feito, nos últimos 35 anos, pelos professores portugueses e pela escola pública, tem sido notável. Os níveis de escolarização subiram drasticamente e o desempenho dos alunos portugueses nos estudos comparativos internacionais tem mostrado que o esforço realizado tem tido resultados, tirando Portugal dos últimos lugares. Outro dado importante é o número de alunos que as escolas públicas colocam no ensino superior e que este forma. Têm sido tantos que a economia, com um desempenho muito inferior ao sector da educação, não os consegue absorver. Importante também é o que foi revelado por um estudo da Universidade do Porto: os alunos da escola pública mostram-se mais preparados para o ensino superior que os colegas vindos dos colégios particulares. Deste modo, a escola pública e os professores que nela trabalham têm contribuído decisivamente para a igualdade de oportunidades e para uma sociedade mais justa e equilibrada. Por isso, pelo seu êxito, são odiados e perseguidos. 

Tanta perseguição cansa. Os professores estão exaustos de tanta instabilidade, de tanta mudança sem sentido, de ser maltratados pelos governos. Durante estes dias de greve, muitos professores que participam nela, por esse país fora, estarão na escola a trabalhar gratuitamente com os seus alunos para os exames. Sempre foi assim e, certamente, será assim no futuro. Os professores fazem greve por si, claro, mas também pelos seus alunos e por uma escola pública que continue a servir a comunidade. E é a destruição da escola pública que a actual governação visa.