terça-feira, 4 de junho de 2013

Meditações dialécticas (10) - A suspensão do movimento

Rudolf Schlichter - O mundo inanimado (1926)

Um dos traços da denominada pintura metafísica é a suspensão do movimento. Os próprios objectos físicos surgem idealizados como se fossem, na verdade, a perfeita imagem das ideias platónicas (eternamente idênticas a si mesmas, sem movimento nem transformação). Não se trata apenas de um efeito pictórico, uma estratégia de diferenciação de um grupo de pintores em competição com os outros grupos da pintura vanguardista ocidental. Trata-se da expressão de um anseio profundo da alma humana. Suspender o movimento como símbolo da suspensão do tempo e da sua passagem. 

As sociedades modernas são marcadas pela mobilização, pela ânsia de futuro, pela velocidade galopante do movimento. É esta aceleração, à qual é concomitante uma aceleração do tempo, que é problemática para o homem tradicional, pré-moderno, onde uma concepção cíclica de tempo - marcado pelo devir idêntico das estações ao longo dos anos - tinha a função de criar um obstáculo à sua passagem. Se a arte futurista representa a experiência da velocidade e exprime o ideal do móbil, a pintura metafísica é uma reacção moderna a essa mesma mobilidade, ao representar, como no caso do quadro de Rudolf Schlichter, diversos móbeis (cavalo, pessoas, camioneta) absolutamente estáticos, como se tivessem sido congelados no tempo e no espaço. 

Este exemplo permite estabelecer uma analogia com a vida social contemporânea. O ardor da mobilidade, a injunção contínua a uma maior velocidade, a necessidade de um progresso ininterrupto no desenvolvimento dos artefactos e dispositivos técnicos acorda em cada um de nós a nostalgia da imobilidade, a necessidade de fazer parar o tempo, o sonho de suspender o movimento e, desse ponto, antecipar - ou sonhar - a eternidade. A cinemática que anima os corpos acaba sempre por despertar na alma o desejo de uma estática, onde o equilíbrio das partes gera uma aceleração nula.