terça-feira, 26 de julho de 2016

O que está em causa

Ivonne Sánchez Barea - Islam (1999)

Estes últimos tempos têm sido férteis em ataques terroristas. Uns levados a cabo por militantes claramente comprometidos com a jihad, outros por pessoas desavindas com a vida e que encontram, numa súbita adesão aos métodos terroristas, uma saída para a perturbação que as acomete. Este último tipo de atentados – onde se podem inscrever os casos de Orlando, nos EUA, ou de Nice, em França – serviram para uma estranha leitura do que se está a passar. António Guerreiro (AG), no Público, depois de verberar a «lengalenga ciclicamente repetida do “ataque aos nossos valores” e aos lugares simbólicos da nosso “modo de vida”, praticados pelos “inimigos do Ocidente” e até da “humanidade”», defende que o que é preciso ser pensado é «o inconsciente terrorista e aquilo que dá lugar a uma “guerra de subjectividades”». E traz à colação a ideia de Alain Bertho de estarmos não perante uma radicalização do Islamismo, mas «confrontados com a islamização da revolta radical, uma  estranha situação em que o Islamismo se torna uma maneira de exprimir uma recusa do mundo e até um ódio de si».

O problema trazido pelo retorno do Islão à cena mundial é de tal ordem que os ocidentais – à direita e à esquerda –, moldados todos eles nos valores da Modernidade e do Iluminismo, são completamente incapazes de o compreender. É verdade que AG tem razão ao chamar lengalenga às reacções oficiais perante cada carnificina, uma espécie de confissão da impotência que se tem perante aquilo que não se conhece e com o qual não se sabe lidar. Também é verdade que AG não cai na lengalenga marxizante de ver neste conflito mais um episódio da luta de classes. A sua incompreensão do fenómeno, porém, é tão radical quanto a da direita ou da esquerda tradicional. Ao afirmar que o que precisa de ser pensado é o “inconsciente terrorista”, aquilo que dá lugar a uma “guerra de subjectividades”, faz deslizar o problema da área política para a da terapia. O que merece ser pensado, segundo ele, seria então os processos de subjectivação que levam certos indivíduos a uma revolta radical, a qual encontra, de forma acidental, o islamismo para expressar o seu ódio ao mundo ou a si mesmo. O que precisa de ser pensado é a fonte inconsciente de uma patologia.

Por interessante que seja compreender as motivações que conduzem certos indivíduos a esse tipo de actos, isso não esconde a importância fundamental do Islão ter emergido na cena mundial e de transportar consigo um conjunto de princípios que fundamentam tudo aquilo que se está a passar. Os ocidentais – de esquerda e de direita – não perceberam nada do que se passou na revolução iraniana. Não perceberam nada do que se passou nas primaveras árabes. Não estão a perceber nada do que se está a passar na Turquia, tão entretidos que estão com teorias sobre o carácter autoritário (e narcísico) do senhor Erdogan. Para lá do domínio das subjectividades, há um domínio objectivo que age e está disposto a pôr o mundo a ferro e fogo. Apesar de ser uma lengalenga falar do “ataque aos nossos valores” e aos lugares simbólicos da nosso “modo de vida”, praticados pelos “inimigos do Ocidente”, isso não deixa de ser verdade. Não são apenas as elites religiosas radicais do Islão que se opõem ao nosso modo de vida. São também as moderadas e, como é mostrado todos os dias (embora os ocidentais não o queiram ver), as grandes massas de fiéis.

O que está em causa, em primeiro lugar, é que o Islão (isto é, muito do clero islâmico) – na sua diversidade – jamais poderá aceitar isto: “lluminismo é a saída do homem da sua menoridade de que ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir do entendimento sem a orientação de outrem (Kant)”. O nosso “modo de vida”, por lengalenga que seja a sua invocação, funda-se nisto, neste reconhecimento de que cada um tem o dever e o direito de pensar por si mesmo e, sendo assim, de orientar a sua vida como muito bem entender, desde que não colida com iguais direitos do outro. Este, porém, é apenas um aspecto do problema. Há um outro e está ligado à história do próprio Islão, da sua auto-compreensão – a qual persiste inabalável – como a única religião verdadeira, o que lhe dá o fundamento para agir no mundo para impor a verdade, isto é, que dá cobertura aos seus projectos políticos. Que um padre católico tenha sido degolado, no dia de hoje, por alguém que não tenha conseguido adequar a sua subjectividade ao mundo onde vive ou por militantes radicais esclarecidos, é irrelevante. O que importa pensar não são os processos de construção das subjectividades mas o conjunto de crenças colectivas, político-religiosas, que alimentam o ódio à ideia de que cada um tem o direito de pensar por si mesmo.