sábado, 13 de agosto de 2016

Uma verdade absoluta

Giorgio de Chirico - Árabe a Cavalo (1935)

O islão é universalista. O multiculturalismo — no sentido de um ideal de convivência de culturas, todas com mesmo valor — é um mal menor para os islamistas na Europa. Em minoria, o multiculturalismo é útil para expandir islão. Quanto ao actual relativismo europeu, não é partilhado pelo crente muçulmano. Pelo contrário, aceitá-lo seria negar o próprio islão. (José Pedro Teixeira Fernandes, Público)

Por que razão a questão islâmica é – para o mundo, em particular para a Europa – muito mais séria do que aquilo que parece ser a um olhar superficial? Não é por causa dos atentados terroristas, por muito dolorosos que, material e simbolicamente, eles sejam. O artigo citado em epígrafe ajuda a perceber essas razões. Vale a pena, contudo, sublinhar dois aspectos que convém ter em mente sempre que se aborda a questão islâmica.

Em primeiro lugar vem a natureza universalista do islão. Os seus adeptos, como em tempos os cristãos, não o vêem como uma religião particular ao lado de outras. O islão é a religião, a única verdadeira religião. Ela superou, à maneira hegeliana, as limitações tanto do judaísmo como do cristianismo, que são agora completados e suprimidos pela revelação islâmica. O islão não é concebida pelos crentes, pelas elites religiosas e políticas, como um particularismo cultural ao lado de outros particularismos. Esta vocação universalista – com o desprezo do multiculturalismo, a pobre panaceia tão ao agrado de certas correntes ocidentais – aliada à tradição político-militar inerente à história da emergência e expansão da religião do profeta é a fonte de todos os problemas. Existe a convicção de que se conhece e possui a verdade, que esta tem um valor absoluto e que é lícito impor essa verdade a quem quer que seja, pelos métodos consagrados pelo próprio islão, dos quais a violência não está arredada. Podemos todos olhar para o lado e fingir que isto não existe, mas muitos milhões de seres humanos acreditam nisso e não mexerão um dedo para defender o direito de outros a possuírem convicções diferentes.

Em segundo lugar vem a questão do nosso relativismo. A relativização que fizemos de todos os valores foi a forma de encontrarmos uma convivência pacífica entre nós. Isso permitiu, antes de tudo, a convivência entre as diferentes interpretações do cristianismo, e levou, de seguida, à possibilidade do pluralismo político e, não menos importante, a um pluralismo ético, onde projectos de vida completamente diferentes existem lado a lado, sem que se sinta a necessidade de se impor globalmente uma forma de vida verdadeira. Este relativismo, que caracteriza a modernidade e é visto pelos ocidentais como virtuoso e a fonte da sua força, é inaceitável pelo islão. Essa não aceitação, por outro lado, conjuga-se com a suspeita, por muitos sectores muçulmanos, de que essa é uma fraqueza do ocidente, fraqueza essa que, do ponto de vista estratégico, deve ser explorada, para que, num futuro mais ou menos próximo, a única religião verdadeira se possa impor.

O que está assim em jogo é o conflito entre aqueles que crêem estar na posse de uma verdade absoluta e aqueles que, pela experiência e pelos seus próprios fundamentos culturais, aprenderam a relativizar as suas crenças, ao instalar o princípio crítico-racional como motor de todas as crenças. O islão é um problema não tanto, como se disse atrás, por causa do terrorismo. Este – como outros terrorismos que já assolaram a Europa – é apenas a face mais ostensiva e violenta da crença ingénua (não criticada) de que se possui uma verdade absoluta, a qual deve ser imposta, custe o que custar. Temos um problema que provavelmente será, por muito tempo, irresolúvel.