sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Grandes autores e nazismo

Arthur Kampf - Victory in 1933 (1938)

Informação 1: cartas do filósofo alemão Martin Heidegger ao irmão confirmam a sua adesão ideológica ao nazismo e ao anti-semitismo. Informação 2: estou a ler o romance Os Frutos da Terra, do norueguês, Nobel da literatura, Knut Hamsun, um simpatizante confesso do nazismo e que, por isso mesmo, teve um fim de vida miserável. O que faço com estas informações? A questão não é fácil. O nazismo não foi apenas uma mera ideologia, mas uma prática política de contornos éticos abomináveis. Recordo uma passagem de um dos volumes da Conta-Corrente, de Vergílio Ferreira, em que este comentava o assassinato da mulher do filósofo marxista e estruturalista francês Louis Althousser pelo próprio marido. Não consegui encontrar essa entrada, mas em linhas gerais, nunca a esqueci, o escritor português perguntava em que linha da filosofia de Althousser se inscrevia aquele homicídio. E se não se inscrevia em nenhuma, para que servia, a Althousser, a sua filosofia?

O que, nas concepções filosóficas de Heidegger ou nas estéticas de Hamsun, justificará a adesão de ambos às crenças políticas e morais de Hitler? A questão levantada por Vergílio Ferreira a propósito de Althousser retorna aqui em toda a sua força. Se ambas não têm nada a ver com o seu apoio ao nazismo, se não têm nada a ver com a sua decisão de aderir a tão visceral ideologia, então para que servem? E no entanto somos obrigados a reconhecer que nas obras de ambos há uma grandeza que exige que suspendamos, para os ler, a nossa repulsa ética e política. A minha posição durante muito tempo, e ainda hoje, é aquela que aprendi com a leitura do filósofo francês Paul Ricœur: devemos ler as obras como se nada soubéssemos dos seus autores, como se elas fossem anónimas. Só as obras deverão falar por si. Mas casos como os de Heidegger e de Hamsun, ou mesmo de Louis-Ferdinand Céline, desafiam esta crença e sublinham a pertinência do comentário de Vergílio Ferreira ao acto de Althousser.

No entanto, a posição de o autor de Manhã Submersa assenta numa crença discutível. Funda-se na ideia de que os seres humanos são um todo coerente e que há neles uma racionalidade sólida que liga as diversas coisas que fazem, que liga o seu pensamento e a sua acção. Só essa crença justifica a ideia de que uma posição filosófica deverá justificar um acto tão radical como o assassinato da própria mulher. Mas será mesmo assim? Não será a coerência um ideal regulador que tem por fim dar um sentido unívoco àquilo que o não tem? Não será a vida de todos nós muito mais incoerente do que aquilo que supomos e do que aquilo que os outros exigem de nós? Com isto, não estou a negar a existência de um fio que leva das crenças filosóficas e estéticas às opções políticas de Heidegger e de Hamsun. Estou apenas a chamar a atenção que uma conexão imediata e mecânica é muito problemática. 

Por outro lado, o facto de Heidegger e Hamsun terem sido consumados simpatizantes nazis é menos importante do que se pensa. Só será importante para os eventuais epígonos. Alguém que se pretenda filosoficamente heideggeriano ou literariamente hamsuniano, mais improvável, sentirá a ligação deles ao nazismo como um ferrete que sombreia a luz da sua adesão. Os outros lerão as obras por elas mesmas, sabendo que os seus autores tinham perspectivas ideológicas inaceitáveis, mas que, em última análise, essas obras deverão ser julgadas pelo seu valor intrínseco, na sua eventual grandeza e na sua eventual miséria. Heidegger, Hamsun, Céline, Althousser não eram anjos, mas homens, e estes são capazes do melhor e do mais abominável. E isso acabará por se infiltrar no que se pensa e no que se escreve. Ler, seja filosofia ou literatura, não é um acto de adesão, mas um exercício do olhar que tem por finalidade ver o que ali se manifesta.