sábado, 9 de setembro de 2017

Micropoemas - Pequenas dádivas 8

Michel Larionov - El desnudo azul (1903)

8. Corpo

Corpo,
lago imenso e forte.

Da mulher, o incêndio e a morte.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Alma Pátria - 34: Carlos Mendes - Verão



O Festival RTP da canção e o Festival da Eurovisão tinham um peso enorme no panorama da música ligeira, era assim que então se dizia. Eram acontecimentos que mobilizavam em torno dos ecrãs a generalidade das famílias portuguesas, das que tinham televisão (nesses tempos a democratização do acesso à televisão tinha ainda limitações). Verão, de Carlos Mendes, foi a canção vencedora do Festival RTP de 1968, um ano de intensa vida política por essa Europa fora, revoltas estudantis em França (que depois se atearam por Itália, Alemanha, EUA) Primavera de Praga, na antiga Checoslováquia. Por cá o ditador haveria de cair da cadeira. O imaginário português, presente nesta canção, é o do Verão, com as suas aventuras pequeno-burguesas e o tédio que se aproxima pelo fim da estação estival. Havia toda uma mitologia em torno do Verão, uma mitologia própria de um país que ainda não tinha descoberto as praias inundadas de gente e o turismo de massas. É dessa mitologia, que tem no romance Sinais de Fogo, de Jorge Sena, a sua legitimação, que esta cantigueta extrai a sua existência.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

As eleições em Loures

A minha crónica no Jornal Torrejano.

De todas as eleições municipais, a mais importante é a de Loures. Isso deve-se à mobilização por André Ventura (PSD) de temas que têm estado afastados da vida política nacional. As suas declarações sobre os ciganos geraram um enorme burburinho, repúdio por parte da generalidade do mainstream político, mas também apoio em certas franjas da direita que habita nas redes sociais. Passos Coelho, contrariamente a Assunção Cristas, recusou-se a retirar o apoio ao candidato, o que tem um óbvio significado político sobre a procura de uma agenda, por parte do PSD, que permita afirmar-se contra a esquerda. As eleições de Loures, onde a direita, nas últimas autárquicas, teve uma votação marginal, podem dizer-nos muito sobre a evolução do debate político nacional.

André Ventura, de forma estridente, possivelmente racista, ao focar os ciganos, e populista, coloca uma questão fundamental. Como controla o Estado o conjunto de prestações sociais que atribui? O problema da suspeita da existência de subsídios injustamente atribuídos – seja o chamado rendimento mínimo, ou o subsídio de desemprego, ou o de doença, etc. – não se restringe aos ciganos, havendo um rancor social larvar alimentado por uma persistente suspeita de injustiça. A única maneira de conter esse rancor é assegurar que as prestações sociais são justa e adequadamente atribuídas, com um controlo eficaz. Do ponto de vista popular, o ressentimento com estas situações é sentido de forma muito mais aguda do que a corrupção de alto nível e a grande subsidiação às elites. Uma sondagem mostra que 68% dos portugueses – tanto da esquerda como da direita – está de acordo com André Ventura. Isto é um aviso sobre o que pode vir aí, se o Estado e os agentes políticos se demitirem de encarar o problema de frente.

Se André Ventura tiver uma votação modesta, ainda que um pouco superior à obtida pelo PSD, nas últimas autárquicas, a coisa, por enquanto, morre por aí. Se obtiver uma votação espectacular em Loures, temos um problema enorme entre mãos. Num momento em que a esquerda centralizou em si a agenda social-democrata, será uma grande tentação para o PSD – um partido até aqui exemplar neste tipo de questões – deixar o seu discurso resvalar para o que há de pior. A esquerda, nomeadamente o PCP, se não está muito preocupada, deveria estar. Em França foi este tipo de discurso vindo da Frente Nacional que liquidou o PCF. Pior do que isso, Portugal corre o risco de trocar a discussão sobre o seu futuro pela algazarra populista à volta de uma agenda fundada no ressentimento e na inveja. 

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Geringonça, o véu lexical

Iago Pericot - Máquina (1963)

Deve-se a Paulo Portas o baptismo da actual solução governativa como geringonça. Com o verbo fácil que o caracteriza, confiando no brilho da sua inteligência, mas esquecendo que do outro lado não estavam propriamente idiotas, o ex-líder do CDS decidiu fazer uma pilhéria e, entre prognósticos de catástrofes terríveis, desvalorizar a solução dos adversários políticos que lhe tinham tomado o lugar. A graçola deve ter saído espontaneamente da boca, pois ela teve um efeito completamente contrário ao pretendido.

A direita ficou encantada com o achado e repetiu-o, e repete-o, vezes sem conta quando fala da coligação parlamentar que suporta a solução governativa. A esquerda reagiu à pilhéria com boa disposição e, em vez de fazer de virgem ofendida, nessa altura não faltavam no país virgens ofendidas, tomou aos ombros a designação, brincou com ela e fez-se à vida. Aliás, fê-lo de forma bastante inteligente. Teve a intuição de que o valor lexical da palavra e o valor de uso popular não eram os mesmos.

Lexicalmente, geringonça significa algo pouco sólido e que se desfaz facilmente. Era nisto que Paulo Portas pensava. No entanto, quando alguém diz que uma coisa é uma geringonça retira-lhe de imediato uma tonalidade ameaçadora, capaz de destruir este mundo e o outro. No uso popular da expressão, está presente a pouca solidez, mas, fundamentalmente, uma certa leveza e ausência de ameaça. É algo com que se brinca e que não se teme. Ora o grande risco que António Costa correu foi o do temor que poderia haver em levar o BE e o PCP para a área da governação. A esquerda, ao aceitar a pilhéria de Portas, resolveu o problema. A direita ainda tentou fazer uma fronda contra a solução governativa, mas ficou a falar sozinha. Quem podia ter medo de uma geringonça?

É um mistério a direita continuar a usar o termo para designar a actual solução governativa. Primeiro, porque continua a oferecer uma imagem de leveza à esquerda e a retirar-lhe aquilo que supostamente teria de ameaçador. Depois, porque, passados dois anos, toda a gente percebeu que a solução é sólida e construída com engenho pelos diversos protagonistas. Há ali um grande trabalho de engenharia política, que permitiu não só que o PS reocupasse o centro político, como o BE e o PCP entrassem nesse espaço de moderação, expulsando de lá o PSD. Cada vez que Passos Coelho e os actores e comentadores políticos de direita falam em geringonça estão a reforçar aquilo que querem combater. A geringonça funciona para a direita como um véu lexical que não a deixa ver a realidade.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Micropoemas - Pequenas dádivas 7

Mario Avati - Night and Day (1984)

7. Dia

Do dia,
a mais pura aurora.

E na noite, mão desejo fora.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)

domingo, 3 de setembro de 2017

Descrições fenomenológicas 29. Algumas mulheres 2

Pierre Bonnard - Standing Nude (c. 1922-30)

Lentamente, fez saltar um a um os botões do roupão e, com um esgar de desprezo, deixou-o cair. Estava completamente nua. Olhou-se ao espelho. O cabelo apanhado fê-la erguer a mão e passar por ele, como se quisesse certificar-se de que estava no seu lugar. Dois dedos desceram as pálpebras inferiores e ela espreitou para dentro dos olhos. Tudo estava em ordem. Confrontou-se, então, com o corpo. Os seios, nem pequenos nem grandes, o ventre liso, as pernas. Não havia emoção na contemplação de si mesma. Ficou assim por algum tempo, talvez dois ou três minutos. Hirta. Na face, não se descortinava desdém ou reprovação. Ela constatava, apenas. Talvez registasse a sua imagem para memória futura. A luz amarelava o quarto, tocava-lhe a pele e ficava suspensa como uma recordação que, prestes a chegar à consciência, insiste em não transpor o limiar, uma promessa que recusa cumprir-se. Virou-se então de lado. À sua frente, abria-se a porta do quarto. Ergueu os braços e depois deixou-os cair ao longo do corpo. Estava em sentido. Olhou para lá da porta e, de imediato, fechou os olhos. Flectiu as pernas e apoiou as mãos no chão. Observou o espaço em frente e experimentou a flexibilidade dos membros, de todos eles. Assim, ensaiou os primeiros passos. Chegada à porta tentou rosnar. Em vão. Fez novas tentativas, até que da sua boca saiu um som que fez lembrar o rosnido de um cão. Sorriu. Há muito que não sorria. Saiu do quarto e caminhou, a quatro, pela casa. Ouviu-se a porta de entrada a abrir e depois a bater. Passados instantes, ecoou, vindo da rua, um uivo prolongado, tão prolongado como se uma dor sem fim se tivesse abatido sobre o mundo.

sábado, 2 de setembro de 2017

O lugar da vingança

A minha crónica em A Barca.

Por influência do Iluminismo e de pensadores como Hegel e Marx – ecoando ainda a perspectiva cristã – a História, nos últimos dois séculos, gozou de uma fama que está longe de ser justificada. Ela seria o caminho que nos conduziria, progressivamente, à boa sociedade, a um mundo de paz perpétua, de entendimento entre os homens e de harmonia com a natureza. Esta consideração optimista sobre o devir da humanidade, porém, está longe de se adequar, por pouco que seja, à realidade. Na verdade, a História é o lugar da violência, mas de uma violência que, contrariamente ao que pensava Marx, não conduz a lado nenhum a não ser a mais violência. E não conduz a lado nenhum porque, no cerne da História, nós encontramos a memória.

Dois exemplos recentes. O atentado de Barcelona. Ele faz parte não apenas de um conflito contemporâneo, mas de uma longa história de violências, de conquistas, de reconquistas, de colonizações e de crueldades. Há, por exemplo, grupos islâmicos a reivindicar a Península Ibérica como território do Islão. A cada instante se acusa o cristianismo pelas Cruzadas, embora se esqueça que o Norte de África cristão foi, muito antes das Cruzadas, convertido ao Islão pelo argumento da violência. Há a tragédia da colonização. Por muito que queiramos rasurar a memória, ela volta. Um segundo exemplo está ligado aos acontecimentos dos EUA, às marchas da extrema-direita e ao derrube de estátuas erguidas pelos confederados derrotados na Guerra Civil americana. Supremacistas brancos e anti-esclavagistas continuam em guerra pelas suas memórias. Nada está esquecido. Por vezes, adormece, mas, logo que há oportunidade, a memória da história americana volta com a sua carga de violência.

Ver na História o caminho para a paz perpétua e para a boa sociedade foi, aliás, uma estranha estratégia da própria memória violenta, para que, em nome da paz, a violência se expandisse. O que é razoável esperar é que, de um momento para o outro, sejamos envolvidos num conflito. O que é razoável desejar é que os períodos pacíficos sejam, tanto quanto possível, longos. Para isso é necessário não ter quaisquer ilusões sobre a bondade da História. A vitória de uns é sempre o ressentimento de outros, numa escalada sem fim. Conflitos que parecem dirimidos e resolvidos podem ser reactivados de um momento para o outro, muitas vezes sem que se perceba bem porquê. A História não é mais do que o balançar entre a glória e o ressentimento. Nela, nessa História tão incensada, nada se esquece, nada se perdoa, tudo espera a hora da vingança.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

O drama da igualdade de género

Pablo Picasso - El diván (1899)

Tinha pensado em não escrever sobre o drama, pois na verdade é um drama assente na dissonância cognitiva, que envolve dois blocos de exercícios da Porto Editora, um dirigido às meninas e outro aos meninos da Educação Pré-escolar. No cerne do drama está uma recomendação da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CIG). Recomendação essa que induziu a editora a retirar do mercado os dois blocos de exercícios. Isso tem gerado um sem número de protestos, mais ou menos ingénuos, nas redes sociais e artigos – provenientes da ala conservadora da sociedade portuguesa – que denunciam a profunda ditadura e o estado de guerra em que vivemos, ao mesmo tempo que profetizam o fim da civilização (veja-se, a mero título de exemplo, embora não refira directamente o incidente, o texto delirante, mas por isso mesmo representativo, de Maria João Avillez no Observador.)

Vale a pena olhar para a recomendação da CIG (consultar aqui). Desta, convém dar atenção ao seu núcleo de pressupostos, o qual é constituído por três conceitos: conceito de sexo (a dimensão biológica determinada pelos genitais), o conceito de género (a dimensão cultural de construção de significados sociais em função da pertença a um determinado sexo) e o conceito de estereótipos de género. Este, tendo em conta a distinção entre sexo e género, é o elemento central que vai conduzir à célebre recomendação, a qual decorre logicamente desse conceito. Vale a pena transcrever a sua definição:

os estereótipos constituem conjuntos bem organizados de crenças acerca das características das pessoas que pertencem a um grupo particular. Os estereótipos de género (mais do que qualquer outro tipo de estereótipos) apresentam um forte poder normativo, na medida em que (…) consubstanciam uma visão prescritiva, dos comportamentos (papéis de género) que ambos os sexos deverão exibir.

A primeira questão que se coloca é sobre a possibilidade de qualquer sociedade funcionar sem estereótipos. A segunda questão relaciona-se com o conflito em torno dos estereótipos de género e o lugar de onde brota esse conflito.

Os estereótipos, enquanto conjuntos bem organizados de crenças, são centrais para a vida em sociedade. Agilizam as práticas sociais, fluidificam-nas ao fornecer, pronto a usar, um conjunto de significações que as estruturam, evitando a perda de tempo de uma definição contínua dos papéis e das interacções entre estes. Sem eles, incluindo os estereótipos de género, uma sociedade torna-se disfuncional.

É evidente que a partir do Iluminismo o estereótipo adquiriu má fama sob a designação de preconceito. Na verdade, os estereótipos são preconceitos, isto é, crenças que não passaram pelo crivo da razão. E, como dizia o projecto iluminista do XVIII, tudo deve passar pelo crivo da razão. O problema é que nenhuma sociedade sobrevive se submeter a cada instante o conjunto das suas crenças a esse crivo para determinar a sua razoabilidade. Poderíamos dizer que as sociedades, mesmo as modernas, vivem de uma conjugação difusa entre crenças criticadas e crenças estereotipadas ou preconceitos.

Assim, o estereótipo – ou o preconceito – não é apenas a ganga perversa da dominação. É também uma forma económica que as sociedades utilizam para sobreviver e para prosperar. Isto não significa, contudo, que os estereótipos – ou preconceitos – se devam manter intocados. Pelo contrário. Essa intocabilidade é uma ilusão proveniente das sociedades tradicionais, onde a mudança é muito lenta. Nas sociedades modernas, pelo contrário, a crítica e destruição de estereótipos é uma necessidade central da modernização e a modernização nunca está concluída. É sempre um projecto em aberto. Isto significa que há, nas nossas sociedades, uma necessidade contínua, impulsionada pelo mundo da economia de mercado, de criticar e destruir estereótipos. De substituir os desadequados por outros mais funcionais e adaptados às exigências dos mercados.

É no âmbito desta exigência das sociedades liberais que deve ser lida a malfadada recomendação da CIG. Ela não é um devaneio de esquerdistas prontos a destruir a civilização ocidental, mas uma exigência da própria civilização ocidental, desde que fez da modernização contínua da economia e da sociedade o motor da sua existência.

Assim, melhor do que perguntar se os estereótipos de género – agora atacados pela CIG, e os que se revêem na sua recomendação, e defendidos pela ala conservadora da sociedade – são bons ou maus, será tentar perceber por que razão estão a ser desafiados. Podemos, na sequência de posições como as de Maria João Avillez, que tem o mérito da candura inerente à falta de competência teórica, proclamar a existência de uma conspiração para derrubar a nossa civilização. Conspiração de quem? Evidentemente do marxismo cultural, da Escola de Frankfurt, do desconstrutivismo francês, das perversões biopolíticas de Foucault e descendentes, da esquerda radical, no caso português do Bloco de Esquerda, etc. Isto é para os conservadores-liberais muito confortável e poupa-os à dor de reconheceram a dissonância cognitiva em que vivem.

Se os estereótipos tradicionais estão a ser abalados e desafiados, certamente que o motor desse abalo não é, apesar das aparências, nem o mundo universitário nem tão pouco os grupos da chamada esquerda radical, os quais, com uma ou outra excepção, são de pequena dimensão. O grande motor dessas transformações é a economia liberal e as desregulações que ela traz consigo. Estas desregulações introduzidas pelo chamado neoliberalismo não são apenas desregulações do mercado de trabalho. São desregulações sociais globais e que têm impacto inclusive nos papéis que homens e mulheres desempenham na sociedade. Essas desregulações vêm exigir que homens e mulheres assumam papéis diferentes daqueles que a tradição lhes fornecia. Toda a retórica da CIG, com os seus conceitos de sexo, género e estereótipo de género, se inscreve na tradição liberal. A ideologia da recomendação feita pela CIG não é diferente daquela que os liberais usam para as relações económicas. É complementar e serve-lhe de suporte. A flexibilização dos papéis que lhe está inerente é uma exigência da economia liberal e não uma conspiração de mercenários a soldo sabe-se lá de quem.

E o pior da dissonância cognitiva da ala conservadora-liberal não está aqui. Quando vocifera contra certo mundo académico permeado pelo marxismo cultural, pelas teorias da escola de Frankfurt, pelo desconstrutivismo, pelas teorias de género, etc., etc., ou contra a esquerda radical (tipo BE, Podemos ou Syriza), está a negar que todos esses movimentos são emanações do próprio liberalismo e do mundo económico que os produziu com a finalidade de o defender e desenvolver. Muitas vezes – como está a acontecer na Grécia ou em Portugal, mas não só – esses movimentos culturais e políticos ditos radicais representam o mundo da economia liberal com muito mais eficácia do que os políticos conservadores, enrolados em escândalos e presos a fórmulas sociais já desadequadas às exigências desse tipo de economia.

Parece que toda esta gente que à direita vocifera ainda não percebeu uma coisa simples. A Queda do Muro de Berlim significa que deixou de haver dois sistemas alternativos. Apenas existe um sistema e que todas as partes – direita e esquerda – fazem parte dele e, por muito estranho que isso possa parecer, trabalham para o seu desenvolvimento e melhoria. Porquê? Pela simples questão de que não há um fora do sistema para onde conduzir as sociedades. Basta olhar para a conversão do Syriza – mesmo a retórica académica de Varoufakis não pretendia outra coisa que a melhoria do capitalismo – ou para a realidade portuguesa. Há muito que a esquerda dita radical percebeu que não há um fora do sistema. Ela, onde se incluiu o PCP, hoje em dia, faz parte do sistema liberal e opera para a sua melhoria, muitas vezes tendo o papel de destruir estereótipos e preconceitos que são adversos à sociedade liberal.

Se nós olharmos com atenção ao conceito de estereótipo de género, presente na recomendação da CIG, percebemos muito bem o que está em causa. O que ele, na verdade, nos diz é que os estereótipos de género existentes estão desadequados às exigências da economia de mercado e à sociedade liberal em que se pretende viver. Precisam de ser substituídos por outros, por certo mais fluidos, como o é a economia e como os grandes beneficiários do actual sistema económico pretendem que sejam os novos estereótipos.

Todos os inimigos imaginários dos nossos admiradores do liberalismo – do marxismo cultural ao radicalismo de esquerda, passando pelo feminismo e pelas múltiplas idiossincrasias estapafúrdias do mundo académico – são fruto dessa economia desregulada, que esses admiradores tanto cultuam. Gostariam de chuva no nabal e sol na eira para tranquilizar as suas consciências pecadoras. Se querem, porém, uma economia liberal, então têm de levar com toda esta parafernália ideológica que tanto os assusta, mas que está em relação profunda com o desenvolvimento do sistema económico liberalizado, que a exige, a fomenta e a faz florescer.

A flexibilização dos papéis socias de homens e mulheres (que assusta os nosso conservadores) é concomitante à flexibilização do mercado de trabalho (sempre tão desejada e incensada pelos mesmos conservadores) e decorre dela. Maria João Avillez e todos os que se revêem no seu texto, uns com mais fundamento teórico, outros com mais ingenuidade, têm razão. Há uma guerra (embora esta guerra seja já muito antiga e tenha começado pela destruição das aristocracias e das sociedades de castas ou de estamentos, que eram o fundo de onde ainda brotam certas concepções, agora atacadas, dos papéis dos homens e das mulheres), mas quem a está promover essa guerra são aqueles que, socialmente, estão próximos dela e dos liberais-conservadores lacrimejantes ou vociferantes que pululam por aí. O resto é dissonância cognitiva.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Ensaios sobre a luz (2)

Robert Capa - An American soldier killed during a house to house fight against German troops. Germany, 1945

A morte espera a luz que a retire do fundo da escuridão. 

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Micropoemas - Pequenas dádivas 6

Georgia O'Keeffe - Red hills and white flower (1937)

6. Manhã

No cisco da manhã,
cintila a madrugada.

Frágil a flor ao vento cortada.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Azar dos Távoras

Guillermo Pérez Villalta - El azar (ou Los augurios) (1980)

Os episódios das viagens ao Europeu de futebol, à China e aos Estados Unidos (é o que se sabe, por enquanto) por parte de membros do governo, deputados da oposição e dirigentes da função pública (também, por enquanto, o que se sabe) mostra como se estava longe de reconhecer a necessidade de separar o mundo do Estado e o mundo da Economia privada. Pelo contrário. Agora que o aparelho judicial acordou para o problema, não deixa de haver nas demissões e processos judiciais em curso uma ironia ou, melhor, um azar.

Desde a Gloriosa Revolução, em Inglaterra, no século XVII, que o Estado foi capturado por interesses privados muito específicos. Contrariamente ao que se afirma, ele não existe – nunca existiu – como representante universal dos cidadãos de um determinado país. Ele existe para que os privados prosperem. É aqui, no prosperar dos privados, que o Estado moderno encontra a sua causa final. Certamente, não está interdito a qualquer cidadão prosperar. É uma possibilidade universal, mas essa possibilidade nunca se actualiza de forma a que todos ou mesmo grande parte prosperem.

A ironia está em que os servidores do Estado são, pela natureza do próprio Estado, servidores dos que prosperam. Existem para que estes prosperem e se mantenham prósperos. Isto implica, digamos, uma inclinação mútua. O mais natural seria que os que prosperam recompensassem quem toma conta da situação. Em Portugal, passado o entusiasmo delirante da revolução, o Estado foi assumindo o papel que as sociedades modernas lhe atribuem. Assumiu como? Também com entusiasmo, através do casamento entre os que dominam o Estado e os que prosperam. Um casamento feito, na inocência de uma descoberta, à vista de todos.

Estes episódios das viagens, como outros que envolvem políticos, servidores do Estado e gente que prosperou, são apenas o resultado desse animado, visível, tolerado e prolífico conúbio. Um verdadeiro casamento de amor. O problema é que o matrimónio choca aqueles que não prosperam e estes são os detentores de grande parte dos votos. Para que o Estado sirva com eficácia aqueles que prosperam é necessário que finja que presta um serviço universal, para evitar a perda de tempo em aplacar a revolta dos muitos inaptos a prosperar, isto é, a manter a ordem pública para que se os negócios cresçam.

Estes casos, que chegaram agora à esfera pública, ocorrem assim numa fase de transição entre uma situação onde o casamento entre as duas partes era permitido sem grandes estados de alma e o novo tempo em que o amor entre o Estado e os que prosperam tem de se consumar em affaires secretos, em alcovas longe dos voyeures invejosos e impenitentes. Aqueles que foram apanhados neste meio tempo tiveram o que se chama o azar dos Távoras. Ou, numa versão mais ao gosto popular, tiveram azar em serem apanhados com as calças na mão.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Ensaios sobre a luz (1)

Eliot Elisofon - The Taj Mahal at night with bright full moon. Agra, India, 1962

A luz desce sobre o silêncio e abre-o para o segredo da sombra.

domingo, 27 de agosto de 2017

Alma Pátria - 33: Maria Teresa de Noronha - Mataram a Mouraria



Um retorno ao fado aristocrático com Maria Teresa de Noronha. Nome grande do fado nos anos quarenta, cinquenta e sessenta, uma autêntica cantora da Rádio. Só abandona a Emissora Nacional em 1968. A Mouraria, um dos bairros mais populares de Lisboa, é um símbolo do fado. De certam maneira este título, Mataram a Mouraria, anunciava a morte do fado, o que, como sabemos hoje, estava longe de ser verdade. Repare-se na conexão entre fado, Mouraria, tradição, passado. Todas estas palavras são topos essenciais do fado e de uma certa alma nacional. A que se acrescenta a inevitável saudade. “Enquanto houver portugueses / Ninguém diga em Portugal/ Que vai morrer o passado”, canta Maria Teresa de Noronha. Talvez isto explique muito do que somos e do que fazemos ou não fazemos.

sábado, 26 de agosto de 2017

A cegueira

A minha crónica no Jornal Torrejano.

Poder-se-á pensar que os ataques terroristas na Europa (à data que escrevo, os últimos deram-se em Espanha e na Finlândia) devem ser tratados como os ataques que, em períodos anteriores da nossa História, ocorreram nesta mesma Europa. Apesar do terror ser terror, independentemente da sua origem, há uma diferença assinalável. Seja o terrorismo anarquista do início do século XX, seja o terrorismo de extrema-esquerda e de extrema direita no último quartel do mesmo século, seja inclusive o terrorismo nacionalista norte-irlandês ou basco, nenhum deles estava assente numa estrutura ideológica tão ampla como o terrorismo islâmico. Tão ampla e tão poderosa, pela sua natureza político-religiosa, pelos apoios que goza, apesar das declarações em contrário, e pela estratégia adoptada.

Em primeiro lugar, é preciso perceber que este terrorismo e esta violência não é estranha ao Islão. Este é múltiplo e multifacetado e, certamente, há muitos e muitos crentes e religiosos pacíficos. O problema é que o Islão vê como infiéis os crentes de outras religiões e os não crentes, vendo-se a si mesmo como a única religião verdadeira e, por ser verdadeira, devendo ser imposta nem que seja pela força. A tragédia dos cristãos em terras onde o Islão é maioritário é terrível, e tem crescido uma complacência global pelas práticas persecutórias e de conversões forçadas impostas por adeptos do Islão. É preciso compreender esta natureza expansionista e dominadora do Islão. Se não se perceber isto, não se percebe o que se está a passar na Europa.

Em segundo lugar, é necessário realçar a incapacidade das forças políticas democráticas em entender a real dimensão do problema. Esquerda e direita, ambas filhas do Iluminismo, não admitem que alguém queira instaurar no mundo sociedades de tipo medieval. Por isso não compreendem o que o Islão pretende e como ele se articula, apesar dos conflitos internos, para o alcançar. Esta incompreensão é reforçada pelo enviesamento ideológico com que direita e esquerda olham o assunto. A direita liberal fez da imigração uma arma para baixar salários e anda de mão dada com potências árabes cujos regimes são pura e simplesmente medievais, mas cujos solos estão repletos de petróleo. A esquerda persiste em ler todos estes acontecimentos à luz da luta de classes e, em última análise, da luta anti-imperialista. Chegados aqui, torna-se difícil afirmar o que é mais preocupante. Se as pretensões islâmicas, se a cegueira das elites políticas do Ocidente.

sábado, 19 de agosto de 2017

Micropoemas - Pequenas dádivas 5

Francisco Gutiérrez Cossío - Tempestad (1946)

5. Tempestades

Tempestades
de areia e pássaros azuis.

Se a tarde cai, solidão nos pauis.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Complacência

Gerardo Rueda - Alcalá (1960)

Barcelona grita "no tinc por" (não tenho medo) escreve o El País, referindo-se ao minuto de silêncio, de hoje, na Praça da Catalunha de Barcelona. Cerca de 130 mil pessoas estiveram presentes. O problema de tudo isto é que, na verdade, estas reuniões, estes minutos de silêncio, estas afirmações sobre o não ter medo são, na verdade, confissões de uma impotência humilhante perante uma realidade cuja natureza, por complacência, estamos longe de querer compreender. Começamos a ficar cansados de minutos de silêncio e de demonstrações vazias de coragem. Os países ocidentais parecem, apesar do terror, fascinados pelo Islão, de tal maneira que persistem num estado de negação perante a conexão entre este tipo de comportamentos e a estrutura ideológica do Islão. Enquanto não se perceber o que é o Islão enquanto ideologia de dominação do mundo, quais as suas reais pretensões e a forma como se desmultiplica para as atingir, nunca se compreenderá por que motivo há gente disposta a matar inocentes (para os assassinos os inocentes são o inimigo, mesmo que sejam crianças recém-nascidas). Há um momento em que a complacência se torna traição.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

O especialista absoluto

Arpad Szenes - Niño con cometa (1935)

Devo a Carles Álvarez Garriga, no seu Prólogo a Classes de Literatura, de Julio Cortázar, o conhecimento da fórmula do especialista absoluto, cuja autoria pertence a Alfonso Reyes. Na verdade, é uma bela fórmula. Refiro-me à sua aparência estética. Ei-la: ∞/0. Ela dá-nos a ideia reguladora – ou o ideal, se preferirem – do especialista. O processo de especialização, um imperativo da busca da eficácia do conhecimento, intensifica-se em todas as áreas, incluindo as da Filosofia e da Literatura. Refiro-me às praxis universitárias, mas não só. Os especialistas sabem cada vez mais de cada vez menos. Se universitários, produzem uma montanha de informação sobre o mais ínfimo grão de areia.

O que significa então, neste contexto, a fórmula? Ela diz-nos que o ideal que regula toda a actividade de conhecimento é a de um saber infinito sobre absolutamente nada. Estamos longe do lamento husserliano sobre a crise do fundamento das ciências. Estamos perante a consumação, na área do saber, do niilismo anunciado por Nietzsche. O ideal que regula, hoje em dia, a actividade universitária aproxima-se de um saber infinito sobre coisa nenhuma. Se isso é pouco visível nas áreas das ciências da natureza, devido às aplicações técnicas que o conhecimento especializado proporciona, parece evidente nas áreas das humanidades, onde a Universidade é um dispositivo de produção de lixo cognitivo, lixo esse que exige uma grande dedicação, perseverança e capacidade de trabalho, diga-se.

A ironia  de ∞/0 visa tornar patente um problema que assombra a orientação do saber na modernidade. Esse problema é o da ruptura entre saber e sabedoria. O saber sobre um dado objecto de estudo acaba por afunilar a compreensão que se tem do mundo e do homem. Hoje em dia, possuir um conhecimento sólido, na ambiência universitária ou em qualquer outra, nada nos diz sobre a capacidade de compreender a realidade em que se vive ou quem se é. O homem moderno desenvolveu essa profunda capacidade de ter muito conhecimento sem, na verdade, deixar de ser uma espécie de adolescente retardado, sem ter qualquer sabedoria. Talvez fosse esse o destino do homem ocidental, descendente dos gregos, como não deixou de o registar Platão na palavra do sacerdote egípcio (Timeu, 22b): “Ó Sólon, Sólon, vós, Gregos, sois todos umas crianças; não há um grego que seja velho”.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Descrições fenomenológicas 28. Algumas mulheres 1

Joan Ponç - sem título (1949)

Sentou-se. Estendeu a perna direita. O pé ficou, ao inclinar-se, assente na parte interior, deixando o longo salto do sapato encostado lateralmente à madeira do soalho. A outra perna permaneceu flectida, apoiada no sofá. O corpo descaiu levando o rosto quase a tocar no joelho erguido. Os cabelos louros, ondulados ao de leve nas pontas, taparam-lhe a face; apenas se entrevia parte do queixo. O vestido preto subiu um palmo acima dos joelhos. A mão esquerda, com um anel coroado por uma enorme pedra de fantasia no dedo mínimo, aproximou-se da perna erguida e prendeu a meia entre o indicador e o polegar. Puxou-a e deixou-a ir, para a tornar a puxar e a deixar ir de novo, num movimento ininterrupto, cadenciado, ao mesmo tempo que baloiçava as costas, fazendo com que a boca quase tocasse o joelho. Durante alguns minutos não parou. Por fim, quedou-se hirta. Ouviu-se então um soluço. Puxou a meia até esta se romper. Nesse instante mordeu o joelho. Um fio de sangue deslizou pelo nylon lacerado.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Alma Pátria - 32: Petrus Castrus - Marasmo



A Alma Pátria recua até o ano de 1971. A influência das banda de rock progressivo começava a fazer ouvir-se na nossa paróquia, por exemplo, na música do Quarteto 1111. Marasmo é o título do primeiro single do grupo Petrus Castrus, um grupo de José e Pedro Castro, onde tocaram múltiplos músicos, entre 1971 e 1978, com destaque para, logo no início, Júlio Pereira. O título do disco, Marasmo, não deixa de ser uma referência ao ambiente social que o país vivia no início da década de setenta, uma referência também ao sentimento de um ego esmagado pela totalidade social. Um retrato da pátria focado de um outro horizonte, do qual já se pressente claramente a morte do que aí está. O marasmo como essa apatia funda que a estagnação mórbida de um regime moribundo e de uma sociedade anquilosada provocam nas novas gerações.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Micropoemas - Pequenas dádivas 4

Jack Delano - Foggy night in New Bedford, Massachusetts, 1941

4. Noite


A noite é um rastro.

Rosa leve e húmida
cega pelo silêncio do astro.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)

domingo, 13 de agosto de 2017

Brincar com o fogo

Salvador Dali - Jirafas ardiendo

A eleição de Donald Trump pareceu o resultado de uma brincadeira de mau gosto. Existirão múltiplas explicações para o facto, mas nenhuma delas põe em causa o mau gosto da brincadeira. O problema é que não se trata apenas de uma questão de gosto. O caso da sua reacção às manifestações de extrema-direita em Charlottesville estão a indignar o próprio Partido Republicano, ou parte dele. Uma coisa é uma brincadeira de mau gosto, outra é brincar com o fogo. Trump parece gostar de exercícios de pirotecnia.

sábado, 12 de agosto de 2017

A bela humanidade

Francis Bacon - Cabeza III (1961)

António Guerreiro, no Público (vale a pena ler o artigo), cita um especialista americano no mundo digital que escrevia, há tempos, na revista The Atlantic o seguinte: "Quantos comentários devo eu ler, na Internet, para perder a fé na humanidade? Muitas vezes, a resposta é: um comentário". O interessante de tudo isto é que o universo digital é uma consequência do projecto da modernidade e, ao mesmo tempo, o exemplo da negatividade que habita esse projecto. O projecto da modernidade só foi possível pelo advento do humanismo, no Renascimento, e na substituição, no centro das atenções humanas, de Deus pelo Homem.

O incensar da humanidade não parou de crescer desde o XVII até hoje, apesar dos contínuos desmentidos trazido pelo Terror na Revolução Francesa, pelas condições de trabalho a que a Revolução Industrial sujeitou os trabalhadores, os campos de concentração nazis ou soviéticos. A Internet tem o condão de iluminar essa humanidade, de a mostrar sem edulcoração, a sua natureza . Hoje em dia já nem vale a pena ler os velhos reaccionários como Joseph de Maistre para perceber de que material é feito a humanidade. Basta olhar para as redes sociais e para as caixas de comentários dos jornais e revistas. O anonimato - e às vezes já nem isso é necessário - permite perceber o que está dentro dessa humanidade tão incensada ao longo dos último séculos.

A crueldade que vimos na acção do Estado Islâmico está ali ao virar da esquina, por agora na ponta dos dedos. Precisa apenas que se sinta à vontade para se mostrar na rua. Não é apenas o sonho de uma esfera pública civilizada (burguesa), de debate e de procura da verdade que se mostra uma ilusão. A democratização da palavra e a extensão das decisões democráticas para além da esfera estrita da representação, esses sonhos utópicos, mostram-se já como uma ameaça à vida civilizada. Durante anos, as críticas liberais a Platão, o pai de todos os totalitarismos, no dizer de muitos liberais, pareciam fazer sentido. Hoje, porém, vale a pena voltar a Platão e à sua crítica à democracia grega. Ele terá alguma coisa a dizer aos nossos dias.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

As poltronas burguesas

Gustav Klimt - Lady in an Armchair (1897)

Até ler este artigo de André Ventura no Correio da Manhã, confesso que as suas declarações e a polémica instalada em seu torno não me interessaram por aí além, embora fossem preocupantes. Era expectável que a direita, nomeadamente o PSD, fizessem explorações em áreas que a sensatez política recomenda muita moderação. Esta candidatura do PSD, em torno da figura e da linguagem de André Ventura, é uma experiência. Loures é um concelho dominado eleitoralmente pela esquerda. Se André Ventura conseguir um bom resultado, isso significa que o PSD terá encontrado uma chave para penetrar nos eleitorados tradicionais da esquerda. Um certo desespero pela dimensão eleitoral da esquerda e também uma certa franja militante do PSD podem conjugar-se para fazer aproximar o partido de posições políticas já não hiper-liberais, como as do PSD no anterior mandato, mas do radicalismo de direita. Loures é um balão de ensaio.

O que neste artigo de André Ventura me fez escrever não foi a retórica contra o politicamente correcto. Hoje em dia é politicamente correcto ser contra o politicamente correcto e, portanto, André Ventura cavalga a onda do novo politicamente correcto. Também não foram as suas declarações de amor às pessoas, às suas preocupações e aos seus anseios que me moveram a escrever. O que detonou o artigo foi a frase, atirada contra os que o criticaram, podem continuar sentados nas vossas confortáveis e aburguesadas poltronas. Um candidato do PSD, professor universitário, trazer para o combate político, em forma de crítica, as aburguesadas poltronas não é apenas uma brincadeira surrealista ou um dito de mau gosto. É, efectivamente, um programa político, uma declaração populista. A retórica da direita civilizada era a da democratização das poltronas burguesas, a do acesso de cada vez mais pessoas ao conforto burguês. A da direita populista é a guerra às aburguesadas poltronas. Isto é notável. Há aqui uma inflamação retórica que não preludia nada de bom. Até agora, a direita e a esquerda têm sabido manter o debate em níveis civilizados e têm poupado o país a derivas irracionais. A experiência do ataque às aburguesadas poltronas, sob a égide do PSD, é a primeira experiência para ver se é possível abrir a caixa de Pandora.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Degradações

Tal-Coat - Paisaje (1954)

Não bastava o radicalismo islâmico. Como é possível que personagens como King Jong-un e Donald Trump sejam os principais animadores, por estes dias de calor e fogos florestais, da comédia mundial? O pior é que a degradação da qualidade das personagens reflecte uma degradação ontológica do próprio mundo. Resta decidir se a doença antropológica é causa ou consequência da perda ontológica do cosmos.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Micropoemas - Pequenas dádivas 3

Nobuyoshi Araki - Untitled, not dated

3. Cabelos

Cabelos,
novelos de névoa na estrada.

Abrem-se na mão que os aguarda.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)

terça-feira, 8 de agosto de 2017

A Venezuela e a esquerda

Eugène Delacroix - A Justiça (1833-37)

Dois dos argumentos que são mobilizados, em certos sectores da esquerda política, para a defesa do regime de Nicolás Maduro, na Venezuela, estão relacionados um com o passado histórico de opressão e de violenta discriminação social, que o chavismo terá começado a mitigar, e outro com a suspeita de que os oposicionistas a Maduro não são gente recomendável, justificando-se, com esses argumentos, o apoio ao regime actual e à deriva autoritária a que se entrega. Podemos, contudo, aceitar os argumentos sem que seja necessário aceitar a conclusão, a necessidade de apoio ao regime venezuelano. Podemos encontrar um critério, vindo da esquerda, para pensar o problema de outra maneira?

Um bom ponto de partida é a Teoria da Justiça de John Rawls. Não quer dizer que todo o pensamento de esquerda tenha de derivar de Rawls, mas ele é um bom ponto de partida para conjugar as tradições da liberdade e da equidade sociais. A questão central na teoria rawlsiana é a dos dois princípios de justiça que devem regular as sociedades. Aqui não nos interessa nem a dedução teórica desses princípios, nem a discussão filosófica em que surgem, nem o debate com as perspectivas libertárias de direita. Bastam os princípios.

O primeiro princípio, o princípio da liberdade, diz-nos que cada pessoa deve ter um direito igual ao mais amplo sistema de liberdades básicas que seja compatível com sistema semelhante para todos. O segundo princípio, princípio da diferença e da igualdade de oportunidades, diz-nos que as desigualdades económicas e sociais devem ser distribuídas para que, simultaneamente: a. redundem nos maiores benefícios possíveis para os menos beneficiados (maximin); b. sejam consequência do exercício de cargos e funções abertos a todos em circunstâncias de igualdade equitativa de oportunidades.

Rawls, com estes dois princípios, defende tanto as liberdades como a existência de diferenças sociais ligadas, através da igualdade de oportunidades, ao benefícios de todos, com destaque para os mais desfavorecidos. O que é importante para o debate sobre a questão venezuelana é o sistema de prioridades entre princípios proposto por Rawls. O que nos diz ele? Diz-nos que o princípio da liberdade tem prioridade sobre o princípio da diferença e da igualdade de oportunidades. Isto significa que a implementação do segundo princípio, a implementação da igualdade de oportunidades não pode ser feita pela violação da liberdade e dos direitos dos outros cidadãos.

Isto torna claro que, do ponto de vista da esquerda, o apoio a Maduro é indefensável, devido à infracção sistemática do princípio da liberdade. Algumas posições à esquerda assentam numa falácia do falso dilema, dizendo que só há duas soluções possíveis. Ou as políticas de Maduro ou um novo regime cleptocrático das elites sociais. Os princípios da justiça de Rawls são um começo para esboçar uma política à esquerda que não seja um mero caudilhismo assistencialista e cada vez mais negador das liberdades básicas de que todos os cidadãos devem usufruir. E isso seria muito mais útil para as populações do que os devaneios revolucionários bolivarianos.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Alma Pátria - 31: Fernando Tordo - Tourada



Tourada, a canção vencedora do Festival RTP de 1973. Há nela uma inteligência assinalável ao pegar num dos símbolos dos estratos sociais mais conservadores, apoiantes do regime, a tourada, e usá-lo como crítica social e política. Como explicar que esta letra, de José Carlos Ary dos Santos (pouco interessante enquanto poeta, mas um grande letrista), passe pela censura, se apresente a concurso na televisão da ditadura, e ganhe? Só há uma explicação. Uma parte substancial do país já tinha percebido que o regime se tinha transformado numa enorme, embora sofrível, tourada. Esta é uma autêntica canção de intervenção, uma canção que anunciava os tempos que estavam para vir. Se não tivesse mais nenhum interesse, mas ela possui outros, interessaria enquanto facto profético anunciador do amanhã, quase dos amanhãs que cantam. Quem diria uma tonalidade cantante tão vermelha num regime a vacilar entre o cinzento e o negro?

domingo, 6 de agosto de 2017

Descrições fenomenológicas 27. Ruína

Fernando Lerín - Sem título (1998)

Bem ao meio, um buraco negro, quase circular, talvez com uns quinze centímetros de diâmetro, condensa o estado da parede. A antiga brancura há muito que foi ocupada por manchas de humidade, umas mais escuras e densas, outras apenas uma leve poeira de cinza e fungos. Parecem pinturas murais, em gradação de cinzentos, hesitando entre o figurativo e o abstracto, persistindo nessa ténue fronteira que revela uma atracção da própria natureza pelo indeciso ou o desejo de hibridação que o tempo acaba por introduzir em tudo o que toca ao passar. Do lado direito, a tinta caiu, deixando ver o velho reboco, também ele a ameaçar ruir, esfarelando-se em pequenos grãos terrosos. Num primeiro relance, parece o mapa de uma ilha incrustado no oceano cinerário da parede, uma ilha despovoada onde, em tempos recuados, se enterrara um tesouro ou um corpo de alguém amado. A parede une-se ao soalho por um rodapé de mogno mais alto que o habitual. Estranhamente, parece intacto, como se não tivesse sido tocado pelo destino da casa. Batido pela luz vinda da rua, brilha no seu vermelho acastanhado, apenas maculado pelos restos de uma tomada eléctrica, já desprendida da madeira, deixando ver os fios e o seu interior metálico. O soalho, ao contrário do rodapé, parece ter recebido os detritos de um bombardeamento. Restos de tinta, pedaços de estuque do tecto, pequenos buracos, resíduos que se desprenderam das paredes, carreiros de formigas, sinais da presença de ratos. Ouve-se o bater descuidado de uns saltos, os passos aproximam-se, uma sombra e, de seguida, uma mulher ainda jovem, alta, fantasiada de sevilhana. Um vestido vermelho com bolas negras, até aos pés. Encosta o ombro direito à parede e olha a janela do outro lado da sala. Enfrenta a luz com uns olhos enormes e negros, abertos, muito abertos apesar da luminosidade. Naquele olhar, não há nada. Nem espanto, nem medo, nem expectativa. Passados alguns minutos, resvala pela parede e agacha-se, as pernas desenham um ângulo de 45º. Os cabelos escuros, deslizam pelo pescoço e caem sobre os ombros. O cotovelo direito assenta sobre a coxa do mesmo lado e a mão suporta o rosto. O queixo repousa palma e a boca aflora no espaço aberto entre o polegar e o indicador. Na face esquerda, bem abertos, estão quatro dedos longos. Firmes, parecem segurar a face. Ao acocorar-se, o vestido abriu-se do lado esquerdo. Por essa abertura, entrou a outra mão que repousa no seio. As pontas dos dedos parecem pressionar o peito mesmo por cima do coração. Os olhos, ainda bem abertos, ganham expressão. Já não olham para a rua mas para um dos cantos sombrios do compartimento. Foi um longo caminho o do olhar. Da inexpressividade passou pela indiferença e agora é um lago ondulado pelo vento da expectativa. Murmúrios desprendem-se da boca e pairam sobre o lixo do chão e a ruína das paredes. Um floco de tinta desprende-se do tecto e pousa sobre os cabelos, uma mancha branca num fundo negro, tão negro quanto os olhos que expectantes me olham.

sábado, 5 de agosto de 2017

O mistério do PCP

V. A. Serov - Lenine proclama o poder dos sovietes

Hoje, no Público, João Miguel Tavares escreve sobre o Partido Comunista, sobre a sua dupla face. Em assuntos internacionais, o PCP é infrequentável. É aí que se manifesta a sua linha dura. Segundo Tavares, é onde o partido “parece, de facto, estar preservado em formol”. Nos assuntos nacionais, comporta-se como um partido democrático, um partido que, apesar de ter uma clara opção pela defesa dos trabalhadores, não entra em ruptura com o sistema capitalista. Já anteontem, também no Público, Elísio Estanque escrevia acerca das posições ambíguas de certa esquerda sobre alguns populismos internacionais. Relativamente ao PCP não diz coisas muito diferentes de João Miguel Tavares, mas tem uma frase muito interessante: “o PC está dentro [do sistema] fingindo estar fora, no seu estilo esquizofrénico.

Esta perplexidade perante um Partido Comunista que defende coisas absolutamente inaceitáveis fora de portas, desde que tenham um certo odor a revolução ou à luta dos oprimidos, e que dentro de casa é o partido mais consistente e que pauta sempre o seu comportamento – mais que os partidos beneficiários e dirigentes do sistema – pelo puro respeito à lei, pela preservação, muitas vezes de forma conservadora, das instituições e das tradições nacionais, pela submissão estrita às regras e formas de vida da democracia representativa, esta perplexidade, dizia, nasce da incompreensão sobre o PCP e o seu papel na democracia portuguesa.

O PCP não é apenas um partido do sistema democrático como todos os outros. Ele é a pedra angular do actual sistema político português. Ninguém se bateu mais, no tempo da ditadura, do que o PCP por uma democracia representativa. Julgo que os seus dirigentes de então não tinham qualquer ilusão sobre uma deriva revolucionária. A revolução era democrática e nacional e não socialista. Depois do 25 de Abril, cada vez me convenço mais de que a aparente deriva revolucionária mais do que desejada lhe foi imposta pela extrema-esquerda, civil e militar. Todos conhecemos a retórica sobre a derrota do PCP no 25 de Novembro. Mas terá sido, efectivamente, derrotado? Ou terá sido um dos vencedores ao ver-se livre da enorme pressão que a extrema-esquerda estava a fazer sobre os seus apoiantes e a própria sociedade, ao ver-se livre de ter de representar o papel de um partido revolucionário numa situação em que ele sabia que qualquer tentativa revolucionária seria um suicídio?

Depois do 25 de Novembro, o PCP foi o mais institucional dos partidos nacionais. E teve uma função central na preservação do sistema. E continua a ter. Neste momento, o PCP, juntamente com o BE, suporta um governo socialista, alinhado com a União Europeia, a NATO e os EUA, tudo inimigos segundo a retórica internacional do PCP. Este, porém, faz alguma exigência sobre a ruptura com essas instituições? Não faz. Opõe-se à política de redução do défice exigida pela UE? Não opõe. Não é só agora que o PCP é um dos esteios da democracia representativa. Repare-se no seu comportamento no tempo do anterior governo. Na prática, ofereceu a Passos Coelho e a Paulo Portas a oposição de que estes precisavam. Com o seu peso nos sindicatos, dirigiu, dentro da mais estrita legalidade, a contestação às políticas que aqueles puseram em marcha. Não houve desacatos nem destruições, nada. As pessoas protestavam, depois iam para casa. O governo agradecia pela diminuição da tensão social que esses protestos pacíficos representavam e continuava a sua política. Este tipo de comportamento do PCP foi recorrente desde que a democracia se estruturou em Portugal.

Perante o que defende no cenário internacional e o que pratica em Portugal, pode-se ser tentado a perguntar qual destes PCP é o verdadeiro. São os dois. E nisto não há nem esquizofrenia nem duplicidade. Para o percebermos podemos, por analogia, mobilizar o modelo freudiano do psiquismo, o Id, o Ego e o Superego. Como se sabe, o Id é a parte impulsiva e inconsciente do ser humano. Rege-se pelo princípio de prazer. Poder-se-ia dizer que representa a natureza espontânea ainda não trabalhada. Do ponto de vista do PCP, aquilo que se manifesta nas suas posições internacionais é essa primeira natureza, aquilo que advém do nascimento e da matriz onde foi formado. O Id é uma instância tenebrosa tanto nas pessoas como nas instituições. E não é apenas o Id do PCP que é tenebroso, o dos outros partidos não será melhor, como não o é o das pessoas.

O Ego é a parte consciente da nossa mente, lida com o mundo exterior, é a máscara que permite viver em sociedade. O Ego, contrariamente ao Id impulsionado pelo princípio de prazer, é dirigido pelo princípio de realidade. Sabe que satisfazer as pulsões que vêm do inconsciente não leva a bom porto. O PCP desenvolveu, durante a sua história, uma adequação à realidade com uma grande plasticidade. Domesticou há muito às pulsões que estão na sua origem. Não as negou – isso seria negar-se a si mesmo – mas soube-lhe impor estritos limites. É um partido que se autovigia e se autocensura com muita eficácia. Mais, aprendeu a canalizar os seus devaneios revolucionários e utopias – provenientes do tenebroso Id – para locais que não põem em risco a sua integridade, o cenário internacional sobre o qual não tem qualquer influência. Onde o PCP tem influência, em Portugal, é o seu Ego, adequado ao princípio de realidade, que age.

Percebe-se, assim, que para o Ego do PCP agir como age, deverá possuir, apesar das suas pulsões originais, um Superego devidamente estruturado. O Superego é uma instância hipermoral que resulta da internalização das regras socialmente aceites. Tenta domesticar o Id e moralizar o Ego. Onde terá o PCP formado um Superego tão forte, tão inibidor das pulsões mais fundas da sua natureza, tão admirador da ordem e da lei democráticas? Só é explicável pela sua história, pela dura disciplina que adquiriu na luta clandestina. Também pela necessidade de emular e suplantar a modéstia e a aparência ética do seu grande rival, o Dr. Salazar, ao mesmo tempo que, devido a essa rivalidade, aprendia a valorizar a democracia liberal que o seu antagonista desprezava.

Contrariamente ao que escreve Elísio Estanque, o PCP não é um partido esquizofrénico. Contrariamente ao que pensa João Miguel Tavares, não há mistério algum nas aparentes contradições do PCP. É um partido complexo, com uma longa história. As posições internacionais são o escape para as pulsões da sua natureza mais funda, mas há muito que descobriu a realidade e como orientar-se nela. Com isto tornou-se, como foi dito acima, a pedra angular do nosso sistema político, apesar da exiguidade do seu eleitorado. Se desaparecer, o regime tal como o conhecemos também desaparecerá.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Micropoemas - Pequenas dádivas 2

Francis Wu - A Village Belle

2. Sombra

Uma sombra no rosto.

E na boca uma rosa
levedada no mosto.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)