quarta-feira, 17 de abril de 2019

Em processo de liquefacção

Gustave le Gray, Bateaux quittant le port, Le Havre, France, 1856

A metáfora da liquidez - a modernidade líquida - usada por Zygmunt Bauman para caracterizar as instituições sociais contemporâneas encontrou um novo exemplo na actual greve dos motoristas de matérias perigosas. Como no caso dos enfermeiros, um sindicato recente mobiliza a classe e coloca o o governo à beira de um ataque de nervos e o país da paralisia. Estamos a assistir à liquefacção das velhas estruturas sindicais com os seus compromissos políticos e estratégias partidárias. Não é claro, porém, que este tipo de liquefacção, mesmo que tenha resultados no curto prazo, não seja, tendo em conta o futuro, uma vitória de Pirro.

terça-feira, 16 de abril de 2019

Villa Cardillio 19. A sombra

Wall painting from Room H of the Villa of P. Fannius Synistor at Boscoreale

19. A sombra

Cardillio, Avita, ninguém vos espera
no celeiro da noite ou no coral do dia.
Não crocita sobre o sobreiro o corvo
nem a Primavera o amor prenuncia.

Rompeu-se do tempo a teia tenaz,
o abraço obscuro na palidez da serra.
Vidros e mármores, ouro e pratas,
sombra da ruína que a vida encerra.

1979

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Curzio Malaparte, A Pele


Presumo que poucos leitores saberão, hoje em dia, quem foi Kurt-Erich Suckert, um italiano filho de pai alemão e mãe lombarda. O próprio fez alguma coisa por isso ao mudar o nome para Curzio Malaparte. A sua vida, plena de peripécias, em que a primeira digna de nota é a fuga do colégio para ir combater na primeira guerra mundial, pode ser vista como um retrato da primeira metade do século XX europeu. Ela é também um símbolo da conversão. No período entre grandes guerras converte-se ao fascismo, mas acaba por romper com o regime, sendo aliás perseguido. Depois da segunda guerra mundial dá-se uma conversão ao comunismo. A sua adesão ao PCI, porém, só será aceite, por Palmiro Togliatti, no final da vida de Malaparte. Um mês antes de morrer, em 1957, é baptizado e recebe a primeira-comunhão. A última conversão.

O romance A Pele, data de 1949. A tradução portuguesa é de Alexandre O’Neill, para a colecção Dois Mundos dos Livros do Brasil. A acção desenrola-se a partir de 1943, na altura em que os exércitos aliados entram em Itália, como libertadores, e ocupam Nápoles. A personagem principal é o próprio Malaparte, na altura oficial de ligação entre as forças da resistência italiana e o comando americano. Este facto gerou um contínuo questionamento sobre a natureza do romance. Será ele uma memória biográfica, uma reportagem jornalística, ou uma narrativa de invenção? A questão, porém, é irrelevante. A verdade de uma obra de arte não depende da sua relação com os factos vividos pelo autor, mas da congruência do mundo que essa obra cria e oferece à contemplação do leitor.

Duas chaves possíveis para ler a obra são-nos dadas nos capítulos “IX – A Chuva de Fogo” e “X- A Bandeira”. No primeiro, a narrativa centra-se na erupção do Vesúvio em 1944 e esta funciona com uma alegoria da própria guerra. Não se trata, porém, de estabelecer uma analogia entre o número de vítimas dos dois fenómenos, mas de fornecer uma primeira chave de leitura sobre a guerra. Para aqueles que são expostos a ela, a guerra é um fenómeno da mesma natureza dos cataclismos naturais. A contenção do seu poder destrutivo está muito para além do livre-arbítrio daqueles que a sofrem. Para estes é como uma catástrofe desencadeada pelas forças inomináveis da  natureza. No capítulo “A Bandeira” é contado um acidente em que um homem, comemorando a entrada do exército aliado, acaba por ficar debaixo de um tanque. Fica reduzido a uma fina pele. E essa pele é a bandeira de todos aqueles que sofrem o absurdo da guerra. Salvar a própria pele é o que move, em última instância, cada um que é apanhado na erupção desse vulcão sob as ordem de Marte.

É em nome da salvação da pele, ameaçada pela fome, que os napolitanos descem às maiores indignidades, perante o exército aliado triunfante. A prostituição das mulheres e das crianças, a sujeição a práticas inverosímeis, a degradação da condição humana, tudo isso faz parte daquilo que Malaparte denomina como a peste. Não se trata da peste orgânica dos velhos tempos medievais, nem sequer a peste que toda a guerra metaforicamente é. Trata-se da peste moral a que os homens, sob o império da fome, se sujeitam para salvar a sua bandeira, a pele. O olhar de Malaparte é impiedoso e, ao mesmo tempo, compreensivo. É também o olhar de alguém que sofre perante o destino de uma Europa submetida a duas grandes guerras, de alguém que cobre com o cinismo a chaga aberta pelo suicídio dessa Europa.

O olhar desencantado de Malaparte permite-lhe perceber tudo aquilo que de mais negro se mistura nestes momentos de libertação, sublinhando não sem ironia a possibilidade de os italianos serem vencedores da guerra que perderam. O autor sabe que os vencedores não são aqueles que combatem, que correm riscos, que põem em jogo a sua pele. Os vencedores são aqueles que, durante as horas negras, se escondem e estão sempre prontos a aclamar o vencedor, seja ele qual for. O amanhã será deles. Este cinismo tem outra face. Esta é a da consideração da inocência das tropas americanas – mesmo que o seu comportamento seja reprovável. Os americanos não sabem nada da Europa, dos seus conflitos, dos seus ódios e dos seus amores, e olham-na cândidos e perplexos, desejosos de regressar a casa, a um mundo mais simples e menos povoado pela morte.

Na parte final do romance, num mundo onde só os mortos contam, Malaparte escreve: “Que seria do mundo, de todos nós, se entre tantos mortos não estivesse um Cristo?” Esta interrogação abre o caminho do leitor para uma outra e surpreendente interpretação do fenómeno da guerra. Já não da guerra vista como um desastre natural por quem a sofre, mas como um acontecimento soteriológico. “Cristo morreu para nos ensinar que cada um de nós pode tornar-se Cristo, que cada homem pode salvar o mundo com o seu próprio sacrifício. Também Cristo teria morrido inutilmente se cada homem não pudesse tornar-se Cristo e salvar o mundo.” Esta leitura sacrificial da guerra entronca na teoria dos sacrifícios de Joseph de Maistre, conferindo assim um sentido à loucura dos homens e à destruição que ela implica. Para que todas essas mortes possam ter algum significado é preciso que elas representem um sacrifício que abra o caminho à redenção.

domingo, 14 de abril de 2019

Beatitudes 5. Paisagem

Frederick Sommer, Colorado River landscape, 1942

Há uma estranha beatitude que se desprende dessas paisagens agrestes e inóspitas, nas quais a vida dos homens é impossível. Puras e livres, a imaginação pode sonhá-las como a matéria prima informe que um deus poderá usar para criar um mundo livre da usura com que a humanidade mancha tudo em que toca.

sábado, 13 de abril de 2019

Crenças e rituais

Gerda Taro, Funeral of General Lukacs, Valencia, Spain, 1937

Não vale a pena falar sobre quem foi o general Lukacs e como morreu durante essa tragédia inominável que foi a guerra civil espanhola. O que me espantou na fotografia foi o carácter devocional que nela se manifesta. Mesmo entre ateus, não é possível eliminar, perante a morte, a aura religiosa, ainda que esta evite a genuflexão e substitua o benzer-se pelo punho no ar. Na morte dos seus, cada um segue os ritos que entende e profere as orações que sabe.

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Sonhos numa noite de Verão 16

Toni Scheiders, Waiting Woman, Ingolstadt, February, 1951

Entrei na carruagem e sentei-me num dos poucos lugares vazios. Ao meu lado, absorta, a mulher olhava através do vidro batido pela chuva. Não lhe conseguia ver o rosto. Ela estava imóvel, os olhos inclinados para o que se passava na rua, talvez presos aos carris. Permaneceu assim enquanto o comboio esteve parado. A viagem recomeçou, mas a sua imobilidade manteve-se. Uma ameaça velada parecia tomar conta da carruagem. Quando ela se voltou e poisou os seus olhos nos meus, reconheci-a e, de imediato, me levantei e comecei a correr pela carruagem. Era a mulher que conhecia o meu destino. Acordei ao ouvir o apito. Ao meu lado não havia ninguém, e lá fora apenas a campina monótona cortada pelo silvar ameaçador do comboio.

quinta-feira, 11 de abril de 2019

Villa Cardillio 18. Tardes de Ócio

The Roman painting of Omphale

18. Tardes de ócio

No tremor das tardes de ócio,
as mulheres dedilham os dias,
pesam o fulgor dos poentes
contra o verde-cinza dos olivais.

Então, da ruína a vir ignorantes,
abraçam-se na cilada da noite.
Esperam a frívola luz que da lua
como um rio de algas nascerá.

1979

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Descrições fenomenológicas 40. Cortejo

Mark Tobey, À Cheval la Nuit, 1958

Ao longe, distingue-se o ondulado azul-cinza das montanhas, fronteira de pedra e arvoredo a apartar dois mundos cuja inimizade cintilasse num desejo de eterna separação, na rememoração de ofensas incompreensíveis e inaceitáveis, num ódio sempre fresco, que nem o passar dos séculos nem os imperativos do afastamento minimizam. Sobre o dorso montanhoso, ergue-se, com fulgurações de ouro e ocre, um sol que se intromete entre as nuvens, para reinar sobre a terra e, dadivoso, deixar os raios tocar as ervas e a neblina, criando, nos olhos do espectador, reinos ilusórios e desejos nunca saciados de descobrir os mundos que se escondem por detrás daquele em que vivemos. Subitamente, irrompe no planalto uma carroça de duas rodas puxada por dois cavalos, logo seguida de outra e mais outra, e ainda outras, num estranho cortejo, a que a luz solar empresta tonalidades fantasmagóricas, como se aquela procissão tivesse emergido do magma do passado, fugido de um campo de batalha, e seguisse um destino não esperado por aqueles que, dentro dos veículos, são assim arrastados para fora do seu mundo. A poeira cobre-lhes rosto e roupas. Quem os observe nunca terá a certeza se são homens ou epifanias de deuses que a história declarara mortos. O trote dos cavalos depressa fez desaparecer os viajantes numa curva apertada do caminho. O ruído das rodas e o vozear incompreensível atenua-se até se apagar. Quando o silêncio cai sobre a terra, nuvens negras cobrem o sol. Ouve-se o regougar longínquo de uma raposa e um par de corvos voa de uma para outra árvore. A noite, tensa e ameaçadora, cai. É meio-dia.

terça-feira, 9 de abril de 2019

Beatitudes 4. Fonte

Margaret Bourke-White, Law College, Cornell University, Ithaca, NY, c.1926

Caminhar dentro do abandono e sentar-se à sombra da árvore. O sol incendeia a solidão e aquele que se sentou pensa nos fundos abismo e nos altos cumes que a vida deixa escapar dos seus dedos secos e hirtos. Um canto de cigarra desperta-o. Levanta-se e caminha sedento à procura de uma fonte, da mais desejada das fontes, aquela de onde tudo brotou.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Ensaio sobre a luz (58)

Chris J Symes, Shadows, 1935

E de súbito as sombras descem sobres as paredes, deslizam para terra, declinam no peso da cal. O esplendor não é o seu reino e, como dardos fugidios, afastam-se temerosas da reverberação da luz.

domingo, 7 de abril de 2019

Legislativas, Rui Rio, Refundações e Turquia


ELEIÇÕES LEGISLATIVAS. Ainda há que passar pelas eleições para o Parlamento Europeu, mas o acto político decisivo só chega com as legislativas. Aquilo que até aqui parecia inevitável, uma vitória com maioria relativa do PS e uma derrota da direita, não estará completamente seguro. Os casos da multiplicação de relações familiares na esfera do governo têm um poder de desgaste maior do que parecia à partida. E esse desgaste já não se apaga na opinião pública, por mais eficaz que politicamente possa ser a medida dos passes sociais. Um outro factor importante é o Verão. Qualquer tragédia na área dos fogos poderá ter implicações eleitorais desagradáveis para os socialistas. As eleições ainda estão em aberto.

OS OBJECTIVOS DE RUI RIO. Parte substancial da direita não gosta de Rui Rio. Não será um condottiero exaltante que galvanize o povo e dirija uma fronda contra o governo. Também não se apresenta, como acontecia com Passos Coelho, com o pathos do ressentimento por ter sido arredado do poder por uma coligação inédita das esquerdas. Parece ter objectivos mínimos quando diz que o fundamental é afastar o PCP e o BE da área da governação, para lançar um projecto de desenvolvimento do país. No entanto, a sua maneira discreta de fazer política levou-o a presidente da câmara do Porto contra todas as expectativas. Um bom resultado do PSD nas euwopeiase alguma sorte podem lançar Rio para voos que não se imaginavam.

REFUNDAÇÕES DA DIREITA. O deputado do PSD Miguel Morgado criou o Movimento 5.7 para unir a direita e libertar o país daquilo que ele chama o longo inverno socialista. Presumo que nessa longa invernia se incluam os governos onde o seu partido – só ou na companhia do CDS-PP – governaram o país. Esta exaltação liberal tem razão numa coisa. Do CDS ao PCP, estamos perante variações discretas da social-democracia. Não ocorre aos refundadores que isso acontece porque a generalidade das pessoas são demasiado pobres para que se lhes ofereça um liberalismo puro e duro.

AS ELEIÇÕES TURCAS. Escrevo quando ainda não são conhecidos completamente os resultados das eleições na Turquia, mas independentemente dos resultados, parece haver um forte crescimento da oposição secular a Erdogan e ao seu Partido da Justiça e Desenvolvimento. Isto sublinha que a questão religiosa foi fundamental na Turquia enquanto a economia turca estava de boa saúde. Agora que uma grave crise económica atinge o país, o poder de Erdogan começa a abanar. Os regimes de pendor religioso suportam as crises económicas desde que a democracia esteja completamente suprimida. Caso contrário, os eleitores acabam por encontrar novos caminhos.

[A minha crónica no Jornal Torrejano]

sábado, 6 de abril de 2019

Villa Cardillio 17. Cânticos

Vila Cardílio

17. Cânticos

Cânticos descem nas ervas trazidas
pela dolência de água do Inverno.
No pórtico, um leito de poeira,
lápides, colunas, a luz do abandono.

Curvados à penumbra do cansaço,
os pássaros do crepúsculo cantam.
São deuses movidos pelo ondular
de cinza, pela cintilação da morte.

Silêncio. O tempo sangra a terra.
Os teus olhos, Avita, entoam canções
de âmbar quando a sombra te dói
e o rouxinol poisa furtivo na ruína.

1979

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Questões de família

Matias Quetglas, Conversación amorosa II, 1985

Todas estas histórias familiares que assombram o governo são o sinal de que as elites políticas se julgam impunes e acima da opinião da plebe democrática. O problema, claro, não está apenas nos socialistas. Basta recordar o que se passou no tempo de Cavaco Silva para se perceber que o problema é mesmo do arco da governação. No entanto, os socialistas deveriam ter em consideração três coisas básicas. A primeira diz respeito à história do próprio partido na governação e das suspeitas que recaem sobre um antigo primeiro-ministro socialista. Isso indispõe à partida muitos eleitores com qualquer coisa que não seja a dura virtude moral. Em segundo lugar, a direita não tendo  causas políticas para fazer oposição, pois a esquerda ficou-lhe com elas, vive de casos e estes casos dão-lhe combustível e votos. Em terceiro lugar, as redes sociais não dão apenas voz à indignação popular. Elas ampliam-na até a tornar ensurdecedora. E não se trata de encontrar um critério claro e uniforme sobre a limitação dos direitos dos familiares de políticos (que bela linguagem), como afirma António Costa, nem de fazer uma lei mais exigente, como pensa Marcelo Rebelo de Sousa. Trata-se de mudar radicalmente de atitude relativamente ao nepotismo generalizado que parece haver no corpo político da nação. Trata-se de perceber que o nepotismo e o amiguismo devem ser banidos da vida política, pois destroem a confiança dos cidadãos nas instituições e destroem o edifício democrático. Governos e autarquias não são sítios para encontros de amigos, passeios de família ou matrimónios felizes. E se acham que não é assim, não se admirem que aparece um dia destes um condottiero que arraste a plebe sedenta de justiça e de vingança.

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Ensaio sobre a luz (57)

Ignacio Díaz Olano, Granja y gallinas, 1891

A vocação da luz é tornar-se mundo, condensar-se em matéria de onde transborde a vida, para voltar a brilhar nesses olhos que contemplam os dias e luminosos se descobrem na transparência da manhã.

terça-feira, 2 de abril de 2019

Beatitudes 3. Chuva

Jean Dieuzaide, Mercado, Santiago de Compostela, Spain, 1961

Um rumor anónimo perpassa pelas ruas. Compra-se e vende-se, trocam-se palavras, promessas, um cumprimento de ocasião, enquanto a chuva desliza dos céus e sorrateira se entranha nas vestes ou na terra que espreita pelo empedrado do chão. A água tamborila nos guarda-chuvas e a vida rufa, secreta e atormentada, entre cestos de legumes e sacos de batata. Não é preciso estar no oceano para naufragar, alguém sussurra, mas logo o vozear cobre as palavras, que o vento leva para a floresta do esquecimento.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Fascínio e cegueira


Um dos principais problemas que se levanta a quem quer conhecer a realidade para lidar com ela é o fascínio exercido pelas palavras. Esse fascínio logo se transforma em cegueira. É o que se passa no mundo da política. Veja-se o caso português. A retórica política usada pelos partidos de poder, mas mais claramente nos de direita, encostava tanto o BE como o PCP à extrema-esquerda. Como partidos extremistas, não poderiam nunca chegar ao poder ou sustentar um governo moderado no parlamento. A verdade, porém, é que há muito as soluções políticas propostas tanto pelo PCP como BE têm um cariz social-democrata e reformista. A designação de extrema-esquerda cegou a direita portuguesa e não a deixou perceber a realidade. Foi isso que tornou penoso o comportamento de Passos Coelho quando a geringonça tomou conta da governação do país. Ele não compreendia o que se passava porque estava cego pela retórica que usava.

Esta cegueira não existe apenas em Portugal. Europa fora, a retórica política está fascinada com a extrema-direita. O rótulo, espera-se, deverá ser suficiente para afastar o eleitorado desses partidos que estão a emergir por todo o lado. Pensa-se que basta fazer uma ligação memorial ao fascismo e ao nazismo para que os cidadãos corram a abrigar-se nos braços dos partidos tradicionais. Enquanto isso, enquanto se usam rótulos e se apela a memórias que já são de muito poucos, fica-se cego para o que está a deslocar largas massas de eleitores para as soluções políticas adversas ao mainstream que tem governado o Ocidente nas últimas décadas. Ainda há dias as eleições regionais holandesas foram ganhas pelo Fórum para a Democracia, um partido recente e, também ele, qualificado como de extrema-direita.

Essas soluções políticas estão a crescer em votos e isso tem um significado que não se quer ver. Os eleitorados estão cansados e agastados com o que os partidos tradicionais têm para lhes propor. E isto, hoje em dia, não diz apenas respeito às questões económicas, embora estas sejam importantes, mas também às questões culturais e civilizacionais. O conjunto de alterações provenientes da globalização e as rupturas culturais (as causas fracturantes, por exemplo) estão a deixar os eleitores inseguros. Os partidos políticos tradicionais não perceberam que estavam a ir longe de mais, que os cidadãos não os acompanhavam. Cegos pelo fascínio que a designação extrema-direita exerce, não viram os eleitores a afastarem-se e a acolher-se nos braços dos que deveriam não ter votos só porque, num acto mágico, se lhes cola um rótulo e se utiliza esse rótulo como um mantra.

[A minha crónica em A Barca de Abril]

sábado, 30 de março de 2019

Contributo

Mordecai Ardon, Clown, 1958

Portugal tem resistido até ao momento ao aparecimento em força de grupos políticos ditos populistas. No entanto, parece que no bloco central – PS e PSD – se sente uma grande dor pela inexistência de organizações como o Vox espanhol, o partido da senhora Le Pen, em França, e os múltiplos congéneres que há por essa Europa fora. Doridos e desejosos do aparecimento da extrema-direita em Portugal, PS e PSD vão dando os passos necessários para que, mais dia menos dia, ela apareça. Veja-se esta história dos deputados-advogados. Aquilo que era um projecto para tornar a vida do parlamento mais transparente, criando incompatibilidades entre a função de deputado – fazedor de lei – e advogado ao serviço de interesses privados, acabou sem honra nem vergonha com a sujeição do parlamento aos interesses dos negócios. Isto não cria o lugar para a extrema-direita aparecer em Portugal, mas é mais um pequeno contributo do estimável bloco central. Depois, admirem-se que os descamisados se revoltem contra as elites.

sexta-feira, 29 de março de 2019

Villa Cardillio 16. Anunciação

Vila Cardílio (Torres Novas)

16. Anunciação

Os bagos de uva deslizam-te nos dedos.
Sorves o suco da terra e escutas o rosnar
da matilha a crescer para dentro das horas.

Olha para ti, Cardílio, olha-te no espelho
deste dia aberto na branca paixão das águas,
na estrela da tarde que te anuncia o silêncio.

O teu nome é um traço fremente de areia,
a sombra desfolhada dos plátanos,
o rumor dos salgueiros na margem do rio.

1979

terça-feira, 26 de março de 2019

A família socialista, a democracia comunista, a transferência centrista e o terrorismo


A FAMÍLIA SOCIALISTA. O governo parece um lugar de convívio de famílias amigas. Não bastava já haver um casal de ministros e um ministro pai e uma ministra filha desse pai, agora a mulher de um outro ministro foi nomeada chefe de gabinete do Secretário de Estado Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, cargo ocupado anteriormente pelo marido. É evidente que nada disto é ilegal nem sequer configura, como já por aí vi escrito, um exemplo de patrimonialismo weberiano. Trata-se apenas de falta de sensatez e de um exercício de arrogância política de quem acha que as aparências não são importantes. Os socialistas não têm emenda.

A DEMOCRACIA SEGUNDO JERÓNIMO DE SOUSA. A entrevista de Jerónimo de Sousa ao Polígrafo chega a ser confrangedora. Não apenas se refere a Maduro desvalorizando as acusações de fraude eleitoral, como, quando lhe perguntam “Porque é que tem tanta dificuldade em admitir que não há uma democracia na Coreia do Norte?”, responde: “O problema não é esse. O que é a democracia? Primeiro tínhamos de discutir o que é a democracia”. Será preciso discutir o que é a democracia para descobrir que a Coreia do Norte é uma ditadura? Também os comunistas não têm emenda.

A TRANSFERÊNCIA DE MESQUITA NUNES. Adolfo Mesquita Nunes era visto como uma das principais promessas políticas não apenas do CDS como do arco da direita e centro-direita e mesmo do país. Poderia vir a ser, quando o CDS se cansasse de Assunção Cristas, um sucessor desta na liderança do partido. Inteligente, sensato e de espírito liberal consolidado. A sua transferência para o mundo empresarial aniquila-o, na prática, para encabeçar no futuro um projecto político em Portugal. Não há no acto, claro, qualquer ilegalidade. Mesquita Nunes fez o que a generalidade dos portugueses fazem. Foi tratar da vida.

TERRORISMO. Escrevo poucas horas depois do ataque a um eléctrico na Holanda e ainda não há confirmação oficial de que tenha sido um ataque terrorista, mas tudo leva a crer que sim. Depois do ataque em duas mesquitas na Nova Zelândia, agora parece ser a vez da retaliação contra eventuais cristãos. Uma coisa une supremacistas brancos e fundamentalistas religiosos (sejam muçulmanos, cristãos ou hindus): o prazer no terror e o ódio à convivência política pacífica entre pessoas com crenças diferentes. Une-os também as respectivas utopias e a crença de que podem chegar ao poder através do exercício da violência e do medo. Não vão parar por aqui.


[A minha crónica no Jornal Torrejano]

domingo, 17 de março de 2019

Ensaio sobre a luz (56)

Julián Momoitio Larrinaga, Ballet

Elevam-se lentamente da terra atraídas pela luz que sobre elas cai. E o tempo de ascender é um instante de dura hesitação. Que seres são, perguntam-se. Mulheres? Aves? Anjos que, sustendo a queda, se abrem para a salvação? Logo, o corpo, cintilando, responde ao deslizar para o chão.

sábado, 16 de março de 2019

Um território sombrio

Mari Puri Herrero, El miedo, 1985

Os movimentos supremacistas brancos, com a sua retórica de suposta salvação do Ocidente e do homem branco, são tão repugnantes quanto o fundamentalismo islâmico. O crime perpetrado ontem na Nova Zelândia contra muçulmanos na hora da oração é tão grave quanto os crimes que têm ocorrido na Europa e de iniciativa de radicais islâmicos. Se nos deve preocupar o radicalismo islâmico, talvez ainda nos deva preocupar mais a crescente influência na política ocidental de ideias que raiam perigosamente a defesa da supremacia branca, seja lá isso o que for. Mesmo os brancos ocidentais precisam de comportamentos políticos racionais, defesa da liberdade e do Estado de direito. Neste momento, não há maior causa política do que a defesa do Estado de direito, da democracia liberal e de comportamentos políticos fundados na razão. Fora disso, apenas há um território sombrio onde impera o medo perante o crescimento do terror.

sexta-feira, 15 de março de 2019

Villa Cardillio 15. Cavalgada

Paulo Juntas, Vila Cardílio (Torres Novas)

15. Cavalgada

Uma casa no cansaço da terra.
O torso do cavaleiro ergue-se
sobre o brilho fremente do cavalo.

Vergado ao êxtase do galope,
urde um rasto de silêncio
na palidez vacilante dos campos.

O tempo sopra-lhe o óxido da ruína
e tece em seu corpo de cal gestos
de sombra sob o âmbar da aurora.

1979

quinta-feira, 14 de março de 2019

Michel Houellebecq, Submissão


Li o livro de Houellebecq mal saiu em França, pois a temática, pelo menos em aparência, o crescimento da influência islâmica na Europa, interessava-me. No entanto, não escrevi de imediato sobre ele, pois havia ali qualquer coisa que me levou a suspender a escrita. Estava muito próximo de certos acontecimentos – o massacre no Charlie Hebdo – e havia, e há nele, demasiado clara, a afirmação de uma tese com repercussões políticas. Queria afastamento para falar do livro a partir de uma perspectiva menos politizada. Talvez não seja de todo possível, pois a trama gira em torno de umas futuras eleições presidenciais francesas, no ano de 2022, em que uma coligação republicana, para derrotar Marinne Le Pen, faz eleger um candidato muçulmano, Mohammed Ben Abbes, de uma hipotética Fraternidade Muçulmana.

Mais que a questão política, porém, a obra de Houellebecq trata da relação entre tradição e modernidade e, inerente a esta relação, a questão da identidade, da construção de uma subjectividade e o seu estilhaçar na ausência dos mecanismos sociais inerentes às sociedades tradicionais. A narrativa gira em torno de um universitário francês, François, especialista em Joris-Karl Huysmans, um escritor decadentista do século XIX. Esta conexão entre François e o decadentismo é central. O pessimismo de Huysmans é retomado por François e as características de Jean des Esseintes, o herói do romance À Rebours, de Huysmans, marcado pela atitude decadentista, pelos modos e caprichos de um esteta e, fundamentalmente, pela repulsa sentida perante a modernidade são elementos caracterizadores do próprio herói de Houellebecq.

Para se compreender plenamente o que está em jogo é preciso retornar ao processo iniciado no princípio da modernidade, no qual os homens, lentamente, se vão libertando das massas – clero, nobreza e povo – que lhes dão sentido e uma direcção existencial e vão afirmando, ao longo dos séculos posteriores, a pretensão à individualidade, escorada na subjectividade e numa existência livre. François é o resultado deste processo. Ao entrar na meia idade, tendo uma vida fundada no mais exacerbado hedonismo, confronta-se com um vazio existencial, uma vida sem sentido, um exemplo do niilismo que se apoderou das elites intelectuais de França e, por extensão, do Ocidente. Perante este panorama e algumas peripécias da vida privada, chega a tomar em consideração o suicídio.

Este quadro torna patente uma certa visão da modernidade. Apesar das conquistas no campo tecnológico, o homem moderno chegou a um impasse, perante a dissolução da própria modernidade e das suas instituições. O seu corte com a tradição proveniente da Idade Média, ao dar-lhe a possibilidade de assumir uma individualidade em ruptura com um destino determinado pelo nascimento, retirou-lhe a substância, esvaziou-o e fê-lo entrar na mais crua das errâncias. François entretém-se a seduzir alunas, embora aquela a que se sentia ligado, sendo judia e perante o novo quadro político, acaba por o abandonar e refugiar-se em Israel. A modernidade, vista no século XXI, tornou-se um absurdo. Este absurdo, que culmina no niilismo, corrói a consciência das elites e também das camadas populares.

A salvação do homem ocidental – no caso, francês – revela-se então, no romance Houellebecq, num retorno e submissão à tradição. Não à tradição cristã, que deu forma à cultura europeia, mas ao Islão. A vitória do candidato islâmico contra as pretensões de Marinne Le Pen tem o condão de pôr fim à guerra civil larvar entre grupos de radicais islâmicos e grupo identitários. Ben Abbes tem o talento suficiente para uma governação ao centro, não rompendo assim com os hábitos franceses, e toma um conjunto de medidas que vão consolidar o seu poder e o triunfo do Islão em França.

Este triunfo, contrariamente ao medo que assola os europeus, não é feito pela violência, mas por um vulgar jogo político, uma aliança legitimada pela ameaça da vitória da extrema-direita. A vida torna-se pacífica, o desemprego desaparece, pois as mulheres deixam de poder trabalhar, a aparência das pessoas nas ruas torna-se um pouco mais recatada. Para além de remeter as mulheres para o lar, apenas duas medidas são tomadas que indiciam que alguma coisa mudou. A islamização da universidade, acompanhada por um generoso aumento das remunerações, e a permissão da poligamia. Para se poder ensinar na universidade é necessário converter-se ao Islão. François, independentemente das motivações egoístas, encontra aí um sentido para a sua existência e converte-se como muitos dos intelectuais franceses. Um belo salário e a regularização dos impulsos hedonistas no âmbito de uma nova legalidade religiosa através da poligamia.

O Islão surge, deste modo, como a substância que dá consistência aos indivíduos. Inscreve-os numa tradição, regula-lhes as pulsões eróticas e estabelece um ordenamento natural entre homem e mulher. Esta nova ordem penetra pacificamente na sociedade pois, subentende-se, vai ao encontro do desejo profundo dos homens. Aquilo que Houllebecq torna então patente na submissão de François, e da sociedade francesa, ao Islão é a indisposição surda dos homens com a evolução das relações entre géneros. Não há um protesto contra a remissão das mulheres para fora do mundo do trabalho, nem contra a assimetria e falta de reciprocidade implicadas na poligamia. E é este quadro que leva François a abandonar a ideia de suicídio, isto é, o niilismo.

Em resumo, a Europa, presa à sua pusilanimidade, à beira de suicidar-se, tem na tradição islâmica o instrumento para se reinventar e reassumir um papel no mundo. O romance apresenta assim um dupla face. Mostra como é possível um triunfo pacífico do Islão na Europa e, ao mesmo tempo, torna patente a cobardia e a venalidade das elites ocidentais, fundadas no niilismo produzido pela modernidade, agora em fase de decomposição. Como corolário, implícitas na trama romanesca, encontram-se duas teses. Uma de ordem política, a alternativa à islamização da França é a extrema-direita. Outra de ordem civilizacional, aliás presente num francês, René Guénon, da primeira metade do século XX convertido ao o Islão. A religião corânica é a saída para a decomposição do mundo moderno.

O romance, do ponto de vista literário, não é dos mais interessantes do autor. No entanto, está longe de ser um mero panfleto provocatório como pretendem alguns detractores. Também, apesar de situar a acção no futuro, não estamos perante uma obra a que se possa chamar uma distopia e inscrevê-la ao lado de romances como Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, ou 1984, de George Orwell. Trata-se, na verdade, de um romance filosófico, uma meditação sobre o destino do Ocidente nos tempos em que vivemos.

quarta-feira, 13 de março de 2019

Ensaio sobre a luz (55)

Francis Picabia, Amanecer en la bruma, Montiguy, 1905

A manhã fugiu da noite e entregou-se, perdido o pudor, nos braços esquivos e melancólicos da névoa. Logo a luz, com as suas roldanas de aço, do abismo das trevas, ergueu o mundo para o depositar perante o olhar atónito de quem vigia.

terça-feira, 12 de março de 2019

Beatitudes 2. Início

Francisco Soto Mesa, 5.01.1, 2001

A tarde rasteja na luz oscilante que vem do porão vazio dos céus. Um pombo desenha um círculo e poisa num ramo de oliveira. O mundo compõe-se lentamente. Uma árvore, outra, o fio de uma rua, aqui e ali, as primeiras casas. É árduo o trabalho, mas os homens persistem e avista-se já um jardim. Os juncos reverberam com o cheiro da Primavera que se aproxima, ainda presa ao silêncio do futuro, mas já prenhe de palavras que hão-de ser cântico na boca das mulheres. Sobre as ervas, ignoradas, jazem as primeiras promessas. Em breve serão feitas perante o altar da aurora.

segunda-feira, 11 de março de 2019

Descrições fenomenológicas 39. O Beijo

Ana Peters, Homenaje C.D.F., 1995-98

A noite tinha descido há muito. O veludo negro, pontilhado por pequenos diamantes, cobria a praça, a que a luz eléctrica emprestava uma tonalidade desconcertante, como se ali, naquele exacto ponto, houvesse uma fronteira, fácil de transpor, entre o mundo humano e um outro habitado por fantasmas etéreos, feitos de matéria das sombras e de sobejos dos ecos perdidos na montanha. Quem não se distraísse facilmente veria cruzarem-se sob a luz dos faróis seres de ambos os mundos, sem que se cumprimentassem ou sequer dessem mostras de mútua consideração. Um casal aproxima-se da velha ponte de pedra. Vestem-se ambos com fatos de noite, como se estivessem em trânsito para uma festa, ou talvez dela tivessem fugido impelidos pela melancolia do Outono ou a novidade de uma paixão prestes a desencadear-se. Olham demoradamente o rio, ouvem o seu rumorejo, e absortos no fluxo turbulento das águas nem dão pelo passar dos automóveis ou do jornadear dos incautos fantasmas. Depois, ele vira-se, encostado ao gradeado, e ela coloca-se em frente dele. Nos olhos do outro vêem os borbotões com que o rio abre caminho em direcção à foz. Até que ela se inclina sobre ele, que, não fora a protecção da ponte, quase se desequilibra. Beijam-se, enquanto o grande prédio que ordena o espaço se mantém rígido, imóvel, tomado pelo cansaço dos séculos, que lhe retira todo o interesse pelos negócios humanos, mesmo por aqueles em que o calor da paixão torna a noite mais abrasiva. Os fantasmas, talvez assustados, desaparecem no seu mundo, escondem-se para que aquele par possa preservar, na inclinação dos seus corpos, o pudor da paixão. Um carro passa lesto, buzina e desaparece a caminho de uma outra praça, onde por certo, vestidos para uma festa, um homem e uma mulher se beijam perante a indiferença de algum monumento e o trémulo temor dos fantasmas que aí habitam.

domingo, 10 de março de 2019

Villa Cardillio 14. Outono

Anónimo romano, Frescos de Villa Albani. Roma

14. Outono

O Outono veio resguardado
de parras acobreadas.
De sol saciou-se o verde
e às vinhas levou vento e luz,
um aroma de água ao jardim.

Foi demorada a estiagem,
mas o vinho novo chegará
com obstinação no sangue
e o prenúncio de uma voz
presa à leveza da lentidão.

1979

sábado, 9 de março de 2019

Brasil, China, Entre-os-Rios e Novo Banco


1. A doença do Brasil. Apesar de sermos latinos e de permitirmos coisas inaceitáveis nos países do centro e do norte da Europa, ainda é difícil para os portugueses compreender a doença que ataca com virulência inusitada o Brasil. Essa doença tonou-se, mais uma vez, visível com a morte do neto do ex-presidente Lula da Silva, uma criança de sete. O ódio e a falta de humanidade que perpassou pelas redes sociais ultrapassa aquilo que é compreensível na Europa. E, sejamos claros, nada disso tem a ver com Lula da Silva ter sido, eventualmente, corrupto. Esses mesmos brasileiros convivem muito bem com políticos mais claramente corruptos e sobre os quais não recai o ódio que é endossado a Lula da Silva. Uma doença.

2. António Costa e a China. O primeiro-ministro português está preocupado com uma eventual onda europeia proteccionista relativamente à China. Argumenta que Portugal tem tido uma boa experiência com o investimento chinês. Ora é o investimento chinês que preocupa alguns governos europeus. O assunto é particularmente sensível. Trata-se de conjugar dois tipos de intencionalidades. Por um lado, a União Europeia tem advogado o comércio livre. Por outro, os líderes europeus começam a preocupar-se com a desnacionalização da economia e a perda de controlo nacional de sectores chaves. Afinal, parece haver um limite, até na União Europeia, para a sobreposição da economia à política. Até porque isso não existe na China, onde o investimento no estrangeiro é um acto geopolítico do Estado chinês e do Partido Comunista, mesmo que António Costa, como aconteceu com Passos Coelho, finja não perceber.

3. Os dezoito anos da queda da ponte de Entre-os-Rios. Passados dezoito anos da tragédia de Entre-os-Rios, onde morreram 59 pessoas, terá o país aprendido alguma coisa? Certamente que houve incremento nas vistorias. Também é verdade que nenhum país é capaz de garantir uma vida absolutamente segura aos seus cidadãos. Dito isto, os casos dos incêndios do ano de 2017 e a derrocada de uma pedreira na estrada de Borba – Vila Viçosa, em 2018, parecem indiciar que a atitude que conduziu ao acidente de Entre-os-Rios continua disseminada país fora. Não é apenas uma questão política, mas também o é.

4. Novo Banco. Começa a ser cansativo. Depois da Caixa, é agora o Novo Banco a pedir dinheiro ao Estado. O desenvolvimento do país foi sequestrado pela banca nacional. Esta que deveria fornecer recursos financeiros ao desenvolvimento da economia, e com isso ganhar dinheiro, parece ter por finalidade viver à conta de contribuintes generosos e pacíficos.

[A minha crónica no Jornal Torrejano]

sexta-feira, 8 de março de 2019

Beatitudes 1. Perfeição

Albert Bloch, Old Graveyard, 1940-41

Retiram ao dia o sudário de luz que o envolve, logo as chagas enegrecem tocadas pelo hálito da noite. Março caminha decidido pela estrada das estações, desenvencilha-se do lençol do Inverno e deixa entrever já os grandes navios que trarão a Primavera. Outrora, não há muito, passavam por aqui rebanhos conduzidos por cães e pastores. Hoje desfilam carros que largam baforadas de um fumo negro, coberto de acinte. Não tarda, surgirão, entre as escassas nuvens, as primeiras constelações e por elas se saberá do destino daqueles que caminham absortos nos negócios do coração. A perfeição de tudo está em não esperar perfeição alguma, aguardar a hesitação que leva do dia à noite e crer, sem sombra de dúvida, que das cinzas a fénix há-de renascer.

quinta-feira, 7 de março de 2019

Ensaio sobre a luz (54)

Francis Wu, Woman in Nature

À luz deserta do dia, uma mulher caminha sobre a terra nua. Da sua sombra nasce uma melancolia silvestre. Invade o campo e, rente ao chão, lembra a figura vacilante de alguém que espera um amor perdido ou a cor furtiva de uma rosa.

quarta-feira, 6 de março de 2019

Sonhos numa noite de Verão 15

Roger Fenton, Reclining Odalisque, 1858

Estava ali, como se me esperasse há muito. Despreocupada, o seio visível sob a blusa e um olhar que me queimava as vísceras. Desejei que percutisse o tambor que, lânguida, segurava, mas permaneceu imóvel. A sua imobilidade ateava-me o desejo e impelia-me para ela. Forcei-me à lentidão e aproximei-me devagar. Ela olhava-me como se os seus olhos quisessem entrar dentro de mim. Era o seu senhor, sabia-o bem. Estava ali para o meu prazer. Não resisti e, com inusitada brusquidão, rasguei-lhe a roupa. Magnífico, pensei, ao ver-lhe o corpo nu. Deixei então os dedos correr-lhe a pele. Era fria e a sua carne de mármore. Acordei ao som do meu próprio grito de terror. Só a solidão me rodeava.

terça-feira, 5 de março de 2019

Villa Cardillio 13. Ceres

Adam Elsheimer, Ceres en casa de Hécuba

13. CERES

Ardem nas páginas deste rio
as tardes ténues da infância,
a terra ávida de sementes,
a ruína do cavalo luminoso.

Quando chegam as chuvas,
Setembro declina e na poeira
escuta-se de Ceres o sussurro
envenenado de vento e erva.

1979

segunda-feira, 4 de março de 2019

Alma Pátria - 45: Fausto, África



Uma visita ao primeiro LP (Long-Play, um disco de vinil de 33 rotações) de Fausto com o título de Fausto. Foi editado em 1970, na Holanda, e parece estar muito mais perto da música que era feita por José Cid e o 1111 do que daquela feita por aqueles que, hoje em dia, são reconhecidos com companheiros de viagem musical de Fausto. Refiro-me a Sérgio Godinho, José Mário Branco ou a José Afonso. A sonoridade é moderna, mais próxima do pop-rock do que da música de intervenção, embora se note alguma preocupação de descrição e comentário ao ambiente social de então, o que se combinava com uma espécie de náusea existencialista. Em 1970, o país era completamente fechado, mas na música popular havia já claros movimentos de ruptura e de procura de novos ambientes, que a própria Primavera marcelista, em fase de esvaziamento, não tinha conseguido trazer. Faixa seleccionada, África, é uma súmula das preocupações existenciais e, porventura, políticas do autor.

domingo, 3 de março de 2019

Descrições fenomenológicas 38. Estrada de Montanha

Pier Luigi Lavagnino, Grande Albero, 1969

Refulgem os traços brancos e contínuos que previnem a aproximação às bermas, refulge o tracejado separador das vias. Da brancura imaculada daquelas linhas, ergue-se uma aura ou uma alma em direcção aos céus. Um carro passa lentamente, como se o seu condutor quisesse com os olhos beber a paisagem, fixá-la no fundo de si para, mais tarde, a poder desenhar ou transformá-la no lugar onde há-de ocorrer um crime, daqueles que só um detective de romances policiais pode desvendar. Logo passa outro carro, mas o homem mais do que para a estrada tem olhos para a mulher que, ao volante, o acompanha com um sorriso nos lábios e um halo de esperança no rosto. O abandono e a solidão voltam e envolvem a floresta que rodeia o alcatrão, uma mata de ciprestes, presos à terra e ao verde que lhes envolve os ramos. Sobre as árvores, a névoa translúcida deixa-se penetrar pelos raios de luz que o sol, tímido, infeliz, quase agoirento, permite escaparem, transformando o horizonte no esquisso de um velho castelo assombrado. Um ciclista passa rápido, entregue à vertigem sibilante da descida, envolto num equipamento garrido, que o há-de roubar à invisibilidade e dar-lhe a segurança que precisa para chegar à sua meta, num final feliz e obscuro. A névoa adensa-se, cerra o horizonte numa treva de pez, e os ciprestes escurecem em pleno dia. Ouve-se o uivo de um lobo e o ribombar de um trovão ou o eco de um tiro. A montanha logo se silencia e a estrada abre-se num convite ao viajante apressado e sem destino.

sábado, 2 de março de 2019

O fastio à esquerda


Os parceiros da maioria parlamentar parecem enfastiados uns dos outros. Poder-se-ia pensar que esse fastio mútuo que os partidos de esquerda nutrem entre si se deve ao clima político em que vivemos, à necessidade que cada um sente em marcar terreno e ocupar o maior espaço eleitoral possível. É verdade, mas não é a verdade toda nem tão pouco a mais importante. O que se passa é que a esquerda não teve o talento nem o interesse para produzir uma política partilhada pelas três forças partidárias que a constituem. O que marcou estes tempos de acordo parlamentar de esquerda foi, por um lado, uma coligação negativa contra a direita e, por outro, um cálculo constante de como ganhar votos à conta da distribuição do orçamento de Estado, jogo que as partes têm denominado como reposição de rendimentos. Como política, o único adjectivo que me ocorre é miserável.

Com o descalabro a que experiência socrática conduziu o país, este teve duas oportunidades para olhar a realidade em que vive, repensar-se e tomar decisões que permitissem enfrentar um mundo instável e ameaçador. Passos Coelho, enredado num devaneio ideológico liberalizante, optou, com a ajuda de Paulo Portas, por uma agenda política de perseguição às classes médias e aos trabalhadores, sem que se percebesse a utilidade, tanto política como económica, do exercício. António Costa, menos ideológico, viveu sempre na expectativa de fazer do actual governo a rampa de lançamento de uma futura maioria absoluta. À sua esquerda a motivação, para além do sarro ideológico, foi evitar essa hipotética futura maioria dos socialistas. Com tudo isto, o país perdeu oito anos. Resolveu, temporariamente, o défice, mas fora isso degradou-se.

Para os eleitores de esquerda esta experiência, se olhada com frieza racional, tem um sabor meio amargo. Podem ficar agradados por se terem libertado das idiossincrasias de Passos Coelho, dos seus devaneios ideológicos e da perseguição às classes médias e populares, mas fizeram a prova da impotência dos partidos de esquerda para abandonarem as suas crenças mais dogmáticos e disporem-se a um programa comum que enfrentasse os problemas do país (e não apenas desta ou daquela classe social) no âmbito dos compromisso em que nos movemos. Esta é a causa do fastio que tomou conta da esquerda portuguesa, o que é reforçado pela sensação de que uma repetição desta solução política não apenas é difícil como é inútil. A esquerda teve uma oportunidade que se apresta, por falta talento político e de respeito pelos seus eleitores, para deitar para o lixo.

[A minha crónica em A Barca]

sexta-feira, 1 de março de 2019

O país biface

Pablo Picasso, Minotauro y caballo, 1935

Por vezes, ainda há alguma esperança para este país. É reconfortante ver que um empresário português, Gonçalo Quadros da Critical Software, afirmar que o salário mínimo de 635 € - e este é apenas na função pública – é uma indignidade, tão miserável ele é. E não é apenas esta afirmação que dá esperança, é a sua visão do mundo e da vida empresarial. Essa esperança, contudo, diminui de imediato perante mais uma história bancária. O Novo Banco precisa de uma injecção de 1,15 mil milhões de euros. O mundo empresarial e financeiro que desde os tempos de Cavaco Silva foi incensado, agraciado e condecorado deixou o país à porta da miséria e os efeitos estão longe de serem coisas do passado. O conflito mais importante que se trava neste momento em Portugal não é entre a direita e a esquerda, entre patrões e trabalhadores. É entre empresário como Gonçalo Quadros e aqueles que representam tudo o que está por detrás das agruras por que passa a banca portuguesa.