quarta-feira, 6 de julho de 2022

Italo Svevo, A Consciência de Zeno

Uma autobiografia publicada por vingança. É deste modo que o Doutor S., o psicanalista de Zeno Cosini, numa espécie de prefácio, apresenta o livro A Consciência de Zeno, de Italo Svevo, publicado em Bolonha, no ano de 1923. A intervenção prefacial do Doutor S., contudo, faz parte da trama romanesca. Ao paciente, Zeno (filho de um comerciante rico, que se sente inepto e doente, a quem o pai não confia, mesmo depois de morto, os seus negócios), é solicitado, como fazendo parte do método de tratamento, que escreva uma espécie de autobiografia. O ele que faz e entrega ao cuidado do psicanalista. Contudo, quando, segundo este, se aproximava da cura, Zeno abandona o tratamento. Como um amante traído, S. publica o texto do seu paciente. A obra explora a consciência do protagonista e é um dos textos fundamentais da literatura do século XX, com a sua exploração da consciência, com uma utilização rigorosíssima da linguagem comum, sem, no entanto, se deixar envolver pelo senso comum. É um dos grandes romances formalmente inovadores no tratamento da subjectividade, no uso da corrente de consciência, ao lado dos de James Joyce ou de Knut Hamsun.

O texto de Zeno estrutura-se em torno de seis pontos: 1. A relação com o tabaco; 2. A relação conflitual com o pai; 3. A história do seu casamento (melhor, do seu noivado); 4. A relação com a mulher e com a amante; 5. A relação comercial com um seu cunhado que, por acaso, casou com a mulher que Zeno amava e irmã daquela com quem, na realidade, casou; 6. Psicanálise e cura. Há na cultura ocidental uma longa tradição confessional, cujo ponto decisivo é Agostinho de Hipona e as suas Confissões, que emergiram na sequência da conversão ao cristianismo. Apesar de não haver uma relação directa entre o texto de Santo Agostinho e o de Svevo, pois o primeiro estabelece-se num processo narrativo que se pretende não ficcional, o que não se passa com o segundo, e ainda, no caso de Agostinho, haver uma reflexão filosófica em torno de problemas religiosos e metafísicos, o que não acontece na autobiografia de Zeno, há uma estreita relação entre o problema da conversão e o da cura. Toda a conversão é sentida como uma cura, a cura do modo como o sujeito se relacionava com o mundo, assim como toda a cura é uma conversão – pela persuasão – a um novo modo de ser, a um modo de ser saudável.

O texto apresenta-se como uma rememoração, um trabalho sobre a memória de acontecimentos passados, já longínquos. Quando, em 1915, Zeno empreende o tratamento psicanalítico, é já um homem velho, segundo os padrões da época. Muitos dos acontecimentos narrados passam-se muitos anos antes. O trabalho sobre a memória tem sempre um risco, o da infidelidade. Isso é sublinhado pelo Doutor S. que ao acabar o seu pequeno texto inicial afirma: Se (Zeno) adivinhasse as surpresas que lhe reservava o comentário do monte de verdades e mentiras que acumulou nas páginas seguintes! Esta intervenção da mentira – isto é, da infidelidade da memória aos factos – coloca o romance de Svevo como uma metaficção, a ficção de uma ficção. O leitor, logo à entrada da obra, é avisado que uma parte do que vai ler é falso. Contudo, não sabe o que é verdadeiro e o que é falso. Esta é uma estratégia ousada para reforçar, no próprio leitor, a suspensão da descrença, a qual, como ensina Coleridge, é fundamental para seguir a trama narrativa de uma obra ficcional. A infidelidade memorial alimenta a crença do leitor na verdade da ficção que tem diante de si.

O romance do Svevo não deve ser desligado da aventura da modernidade ocidental. Do ponto de vista literário, podemos vê-la emergir com o Dom Quixote, de Cervantes. Do ponto de vista filosófico, todavia, o momento fundamental é o pensamento cartesiano. Pode estabelecer-se entre esses dois momentos proveitosas relações. Quixote sofria de um problema epistémico grave, confundia o que desejava ver com a realidade, mergulhado num universo de fantasias e ilusões. Descartes, por seu turno, pretendeu encontrar um caminho em que se eliminassem as ilusões, em que a verdade fosse possível. Ora, é este projecto cartesiano que, de um outro modo, a psicanálise recupera. A terapia psicanalítica pretende conduzir o paciente à descoberta das situações traumáticas (a descoberta da verdade que o inconsciente oculta) que dão origem a comportamentos anómalos. Ora, o facto de Zeno recusar terminar o tratamento e considerar-se curado, ao contrário da pretensão do psicanalista, é uma crítica frontal à psicanálise e à crença que ela encerra sobre a possibilidade de se chegar à verdade. Nos seus apontamentos finais, Zeno escreve: Julga ele (o Doutor S.) que vai receber a confissão dum doente, dum fraco. Pois engana-se! Receberá a descrição duma saúde sólida, perfeita – tanto quanto o permite a minha idade. Não só não quero entregar-me à psicanálise como já não tenho necessidade dela. E, se falo da minha saúde, não é só por sentir que sou privilegiado entre tantos mártires. Não é por comparação que digo que estou saudável, é de modo absoluto. Isto significa, também, uma crítica à tradição originada em Descartes e uma afirmação da filiação do romance na tradição romanesca nascida com Cervantes. Zeno estava saudável, porque se persuadiu que estava saudável: Há muito sabia eu que a saúde, para mim, não podia ser outra coisa além da convicção de estar perfeito e que é tolice digna dum sonhador hipnagógico querer «tratar-me» e não persuadir-me. A realidade não é outra coisa senão aquilo que dela fazem os dispositivos retóricos mobilizados para essa tarefa que é a persuasão. Dito de um outro modo, a verdade é aquilo de que me convenço ser a verdade.

segunda-feira, 4 de julho de 2022

Tempestade perfeita

Os resultados eleitorais das legislativas em França vieram acrescentar mais um sinal de que a Europa está à beira de uma tempestade perfeita. Por um lado, temos a guerra na Ucrânia. Na sequência desta, uma crise nos cereais e, com mais impacto na Europa, a crise dos combustíveis que afecta a economia e, quando chegar o Inverno, atingirá o bem-estar de muitos europeus. A isto somam-se os problemas introduzidos pelas alterações climáticas e as vagas de calor sentidas um pouco por todo o lado. Também a inflação não é visita que se queira receber, mas ela não apenas bateu à porta como já irrompeu casa dentro. Agora, um cenário de crise política sem solução à vista num dos dois principais países da União Europeia.

Parece que as circunstâncias estão todas a combinar-se para a emergência de um desastre de grande magnitude.  Como se chegou aqui? Não haverá explicações fáceis e prontas a servir, mas como acontece nas tragédias gregas a cegueira tem um papel determinante na sua eclosão. Os europeus – refiro-me às elites políticas que têm sustentado o projecto europeu – quiseram fechar os olhos para os preocupantes sinais que vinham de Leste. Permitia-lhes dormir descansados, enquanto desfrutavam do convívio com os oligarcas russos e o dinheiro destes, e não pensar em coisas aborrecidas como a questão da defesa, em que os gastos principais eram transferidos para os americanos, como se estes tivessem a obrigação de proteger os europeus. 

Por outro lado, também não quiseram abrir os olhos para a degradação das democracias, para a destruição das classes médias e o abandono das classes populares. Não quiseram ver que um excesso de liberalismo mata a democracia liberal. O resultado da cegueira conduziu ao Brexit e, agora, em França, ao ensanduichamento do governo entre duas fortes correntes radicais e populistas, uma de esquerda e outra de direita, que ameaçam levar França ao caos e com ela a União Europeia.

O terrível de tudo isto é que pode já ter passado o momento em que os acontecimentos poderiam ser geridos pelos homens e conduzidos a bom porto. Há situações, como reconheceu o velho pensador reaccionário Joseph de Maistre acerca da Revolução Francesa, em que os homens deixam de conduzir os acontecimentos e são estes que os empurram para onde eles nunca imaginaram ir. É possível que as elites políticas europeias continuem cegas e presas ao sonambulismo, mas quem olhar com atenção para os sinais não pode deixar de temer que o cavalo da História tenha já tomado o freio nos dentes.

sábado, 2 de julho de 2022

Um problema irresolúvel


1. A solidão de Macron. A coligação de apoio a Macron ganhou as eleições legislativas francesas, mas o governo ficou sem maioria no parlamento. O pior é que este reflecte a polarização política existente em França, onde as forças radicais e populistas, à esquerda e à direita, têm uma enorme influência, e o centro-direita não parece inclinado a estender a mão à maioria. A França está prestes a ficar numa situação de impasse político, onde os extremos vão tentando destruir o regime. Parece ser um caso exemplar onde uma abordagem liberal – a de Macron – está a matar a democracia liberal, a dar argumentos aos devaneios populistas de Mélanchon e de Le Pen para levarem a democracia francesa à derrocada e com ela a União Europeia.

2. As desculpas de Guterres. Numa reunião com jovens, uma espécie de prelúdio para a Conferência dos Oceanos, o secretário-geral das Nações Unidas pediu desculpa à geração que vai “herdar um planeta com problemas”. Este pedido de desculpas é uma confissão de impotência. Não de Guterres, mas da espécie humana em lidar com os problemas que ela própria cria. Isto contraria a avaliação de Marx que afirmou que a humanidade apenas coloca problemas que pode resolver. Não é que não existam condições materiais para resolver o problema ambiental. Existem, mas não parecem existir condições subjectivas para o fazer. A resolução desses problemas exigiria que a parte mais rica do planeta sacrificasse o seu modo de vida, e a parte mais pobre sacrificasse os seus sonhos de se tornar rica. Exigiria que os homens não fossem homens.

3. Uma viagem literária aos séculos XVIII e XIX. Tenho estado a ler os romances Lágrimas e Tesouros (1863), de Rebelo da Silva, e Salústio Nogueira (1883), de Teixeira de Queirós. O primeiro, um romance histórico, decorre no tempo de D. Maria I, o segundo situa-se no tempo de D. Luís. Quase cem anos separam os ambientes políticos do primeiro, marcado ainda pelas perseguições de Pombal, e do segundo, o da monarquia liberal. Contudo, há tal continuidade nas atitudes dos homens face ao poder que estas parecem ser coisa imutável na humanidade. É esta imutabilidade da relação dos homens com o poder que dá pouca esperança para se encontrar uma solução para o imbróglio em que a Europa está metida devido ao impasse francês ou para a catástrofe que espera a humanidade motivada pelo problema ambiental. A perspicácia de Marx choca com um dado fundamental. O principal problema com que o Homem se confronta não é posto por ele, mas é ele próprio. E este problema parece ser para a humanidade irresolúvel. Não consegue deixar de ser o que é.

quinta-feira, 30 de junho de 2022

A Garrafa Vazia 93

Salvador Soria, Integración de lo destruido 91-H, 1991

Cego pela ciência

da lástima,

abro os pulsos

para o aço da noite.

 

Do coração desliza

uma água turva.

Bebê-la-ei

na luz da madrugada.


Junho de 2022

 

terça-feira, 28 de junho de 2022

Rebelo da Silva, Lágrimas e Tesouros

Publicado originalmente em 1863, Lágrimas e tesouros – fragmento de uma história verdadeira, de Luís Augusto Rebelo da Silva, é um romance histórico cuja acção se situa durante o reinado de Maria I, a Piedosa, também cognominada a Louca. Inserido na corrente estética do romantismo, a obra parece centrar-se na suposta paixão entre Maria de Meneses, filha do então estribeiro-mor da Rainha, o Marquês de Marialva, e o inglês William Beckford, então em viagem por Portugal, para, segundo o autor, curar o profundo desgosto pela morte da mulher, Margarida, embora as razões da viagem de Beckford pela Europa pareçam ter sido outras. Em torno deste amor luso-britânico, contudo, desenrola-se o jogo da política e, também, da religião, as quais naquela hora ainda se misturavam.

A tensão amorosa deve-se não a um obstáculo formal e exterior aos apaixonados, como a pertença a famílias inimigas, mas por um conflito que, apesar de vir de fora, é subjectivado e torna-se um conflito dentro da consciência. Trata-se da oposição entre tradições religiosas, o catolicismo de Maria de Meneses e o protestantismo de Beckford. Este recusa-se a uma conversão à Igreja de Roma, pois ofenderia com isso a memória dos pais, seria uma apostasia. Ela, tomada pelo escrúpulo religioso de casar com alguém fora da sua religião e pelo temor perante um amor que não pode prosseguir na vida eterna, assumindo que ela, como católica, teria à sua espera o paraíso, e ele, como herege protestante, estaria condenado à perdição. O tormento nas consciências, principalmente na da rapariga, é o nó do caso amoroso e tem um papel fundamental no desenlace. Rebelo da Silva serve-se da personagem Maria para, de algum modo, espelhar a própria Rainha perdida no labirinto da consciência, no temor pela condenação eterna do pai, devido às perseguições políticas de Pombal contra uma parte substancial da aristocracia da época, no temor da sua própria condenação.

O que será mais estranho, para um leitor do século XXI, é o pathos em que o amor, entre a filha do marquês de Marialva e o jovem viúvo inglês, é declinado. Há toda uma linguagem artificiosa, uma declamação da paixão e da pureza que se nos tornaram estranhas. Contudo, essa artificialidade do discurso amoroso serve para sublinhar o contraste entre a nobreza do de um amor puro, nascido do sentimento, e a vulgaridades dos negócios públicos e da política. É um exercício retórico romântico que sublinha o valor da interioridade por oposição ao mundanismo. A partir das estratégias retóricas seleccionadas, Rebelo da Silva manifesta a oposição radical entre o mundo do coração e o mundo da razão política. De modo bem diverso da tragédia grega, as acções dos seres humanos nobres fundam-se na pureza do coração, enquanto a acção no palco político, mesmo se os agentes são aristocratas, nunca deixa de parecer uma comédia, onde se representam as paixões dos homens vulgares.

A trama política gira em torno de uma aliança entre a aristocracia ainda dorida pelo tratamento a que foi submetida por Pombal e a Companhia de Jesus. Pretende-se manobrar de modo a que a Rainha, presa na sua debilidade mental e no terror religioso, anule, por decisão política, as condenações a que as várias famílias aristocráticas foram sujeitas, bem como a expulsão dos Jesuítas. Há, no romance, um paralelismo entre a consciência dilacerada de Maria I e a de jovem Maria de Meneses. Esta, como se escreveu acima, vive o conflito entre o amor e a fé, uma fé rigorosa e o medo do juízo eterno. A consciência da Rainha cinde-se também entre o amor à honra e à memória do pai – uma reabilitação dos condenados seria uma condenação do pai – e o dever de caridade e misericórdia, que lhe poderia evitar a condenação depois da morte. No cenário político, movem-se três facções. A dos fiéis a Pombal, que pretendem evitar qualquer revisão dos processos, incluindo a condenação da posteridade dos culpados. A dos que pretendem uma revisão total e anulação das condenações e aqueles que, de um modo aristotélico, pretendem encontrar um meio termo, partido em que é envolvido, pelo talento de um jesuíta, Beckford. Não querem tanto a absolvição dos condenados, mas um acto de misericórdia para os descendentes que, na verdade, são inocentes.

Rebelo da Silva, a partir deste conflito, dá a ver a natureza da corte, das forças que jogam de modo dissimulado, como se toda a realidade – feita de múltiplos desejos, da busca desesperada de reconhecimento, de uma luta sem fim e sem escrúpulos – se escondesse atrás da afabilidade das convenções palacianas. Não esquece o retrato da Companhia de Jesus, ainda banida no país durante o tempo da acção narrativa, da sua capacidade diplomática, do seu poder de manobra, da sua inteligência táctica e da sua moderação religiosa, adversária do fanatismo a que hoje chamaríamos fundamentalismo religioso. Também os Jesuítas esperam reverter a sua situação. Qualquer revisão do processo dos aristocratas seria uma porta aberta para a Companhia fazer valer os seus direitos.

O romance é um hábil jogo de espelhos, em que Maria de Meneses, a jovem apaixonada e temerosa do juízo divino, e Maria de Bragança, a rainha dividida e atormentada pelo temor do inferno, se reflectem uma à outra. Entre elas, uma na sua inocência virginal e a outra na inocência da loucura, desenrola-se um carnaval sem fim, feito vaidades, orgulhos feridos, vinganças, enganos, traições, alianças tácticas e rupturas estratégicas, feito de poderes dissimulados e de submissões sem carácter, isto é, tecido com o fio da própria vida. As duas mulheres são, na verdade, presenças metafísicas. A Rainha não entra na trama romanesca, mas é uma sombra que paira sobre ela. A filha do marquês de Marialva, a heroína do romance, é uma bela sombra encarnada, uma presença metafísica que entra no jogo, mas que não lhe pertence. Um anjo, caso os anjos tivessem sexo. Entre elas e a suas belas e atormentadas consciências, decorre o jogo em que as consciências se conspurcam para poderem gritar vitória ou apenas para sobreviverem.

domingo, 26 de junho de 2022

Nocturnos 83

Edvard Munch - Summer Night´s Dream (The Voice) (1893)

Essas vozes que escutamos dentro de nós trazem com elas a paisagem da noite. Enquanto as ouvimos, as trevas compõem o cenário, até que adormecemos e tudo se transforma num sonho, que não queremos sonhar, mas a que não somos capazes de resistir.

sexta-feira, 24 de junho de 2022

O progresso moral da humanidade (7)

Photographer unknown, Massacre in Christian area, Chania - Crete, 1897
Na boca, nunca deixa de haver a referência ao Deus do amor ou ao Deus da misericórdia, mas o coração está sempre disponível para matar em nome de Deus. Talvez por amor, talvez por misericórdia. A crença no absoluto facilmente desliza para a crença de que se possui a verdade absoluta, e quem não a partilhar não merece viver. A crença em Deus transforma-se facilmente na crença de que nós somos seres absolutos e aquilo em que acreditamos deve ser imposto, por todos os meios, aos outros. Tornamo-nos em senhores da vida e da morte, uma máquina de produção de massacres. 

quarta-feira, 22 de junho de 2022

A Garrafa Vazia 92

José Maria Guerrero Medina, Caja sorpresa, 1979

A cidade estiada

pela desordem

dos astros,

texto fabricado

de caligrafias

e sombras,

pacto de morte,

silêncio de algoz,

vendaval da noite.

 

Junho de 2022
 

segunda-feira, 20 de junho de 2022

Beatitudes (54) A inocência

W. Eugene Smith, Baby chimpanzee holding kitten, 1954

Por vezes, a inocência parece ser a porta para a felicidade. Sem a culpabilidade trazida pela linguagem, com o seu jogo de conceitos e classificações, os seres limitam-se ao pulsar das atracções e das repulsões. Se se repelem, alguma coisa perigosa é pressentida. Se se atraem é porque o sentimento abriu o muro que rodeava o perigo e deixou perceber um mundo mais caloroso. 

sábado, 18 de junho de 2022

Escavar no romance português

Está calor. Em vez de falar de política, como habitualmente, o melhor é derivar e falar de literatura. Não é que o assunto interesse mais aos portugueses do que a política. Não interessa, mas ajuda a suportar o calor e a inflação. Um salto ao século XIX pode ser uma viagem interessante. O romance moderno português terá começado nesse tempo. O problema é que sabemos muito pouco do que aconteceu aí, do fervilhar romanesco, da quantidade de gente que procurou a glória não na guerra, mas na literatura. Há para isso, como para tudo, culpados. Façamos o elenco destes. Almeida Garrett, Alexandre Herculano e, principalmente, Camilo Castro Branco, Júlio Dinis e Eça de Queirós. Garrett e Herculano, do ponto de vista romanesco, não são muito fecundos, o mesmo não se pode dizer de Camilo e Eça. Júlio Dinis ocupa um lugar intermédio. Quem mais fez romances no XIX?

Alguém dirá Rebelo da Silva, Arnaldo Gama ou, mesmo, Teixeira de Vasconcelos. Não será mau, mas a realidade é muito mais ampla e mais rica. Quem foi o autor de quem Óscar Lopes e António José Saraiva, verdadeiras autoridades no assunto, disseram ser “o melhor realizador, em Portugal, do romance tal como o concebeu Balzac”? O senhor dava pelo nome de Francisco Teixeira de Queirós. Quem ouviu falar dele? Nos últimos tempos tenho-me dedicado a espiolhar esse século romanesco. Foi aí que o descobri. Descobri mais, uns mais exaltantes do que outros, mas tudo gente que teceu o lençol com que o romance português se cobriu até aos dias de hoje. Eis alguns nomes descobertos: Alberto Pimentel, António Pedro Lopes Mendonça, Faustino da Fonseca, Francisco Gomes de Amorim, Gervásio Lobato (o do romance Lisboa em Camisa), Guilherme Centazzi (o autor do primeiro romance português), Joaquim Leitão, Manuel Pereira Lobato, Manuel Pinheiro Chagas, etc., etc.

Estes escritores não terão o dom literário de um Camilo ou de um Eça, mas fazem parte de um movimento que lançou as bases do romance em Portugal, o qual teve um momento superlativo, no que toca ao reconhecimento, com a atribuição do Prémio Nobel a José Saramago. É esta história que não deveria ser esquecida. E o esquecimento não atinge apenas o século XIX. Ele expande-se para o século XX. Também aqui os grandes nomes lançam um véu sobre os outros, os quais também ajudaram a tornar o português uma língua literária importante. O pior é que nem a iniciativa privada nem a iniciativa pública parecem estar interessadas em fazer ressurgir esses autores que contribuíram para sermos aquilo que hoje somos. Falta de mercado, dirão. Falta de iniciativa, parece-me.

quinta-feira, 16 de junho de 2022

Nocturnos 82

Henri Cartier-Bresson, Museum, Naples, 1963

Um museu é um sonho do passado na noite da memória. Enquanto ali estamos tudo parece real e dotado de vida. Ao sairmos, acordamos e a luz do dia dardeja sobre o passado, abrindo buracos no tecido nocturno da memória.

terça-feira, 14 de junho de 2022

A Garrafa Vazia 91

Tal-Coat, [Paisage], 1954

 A errância do Sol traz

sobre a pele

a tenaz do calor.

 

Os corpos arrastam-se

de sombra

para sombra

 

enquanto o dia se fecha

e espera

o dilúvio da noite.


Junho de 2022

domingo, 12 de junho de 2022

A persistência da memória (15)

Nicola Perscheid, Der Schnitter,1901

Um homem caminha com a gadanha às costas. Transporta sobre os ombros o peso do mundo, o medo que a fome venha e se espalhe pela Terra. Talvez não conheça mais que o campo onde deixa a sua força, a sua esperança e a sua amargura. Contudo, houve uma era em que tudo assentava em homens como ele, tanto a ordem como a desordem das coisas. Hoje, não passa de uma imagem, o vestígio que persiste, como um aviso, a não desaparecer da memória.

sexta-feira, 10 de junho de 2022

Nocturnos 81

Edward Hopper, Nighthawks, 1942
Os habitantes da noite viajam de bar em bar. Procuram um porto seguro onde possam suportar a insegurança que lhes tomou conta das almas. Um copo aqui, uma conversa acolá, cultuam a noite como uma deusa, pois não suportam a luz do dia. Esta deixa-os ver o que são, e isso é o pior de todos os tormentos.

quarta-feira, 8 de junho de 2022

Simulacros e simulações (35)

Raoul Hausmann, Objectif-loupe,1931

Engrandecer a realidade e retirá-la da difusa obscuridade onde reside, para que se torne mais visível e, assim, mais compreensível, é criar um simulacro em nome da objectividade. Só as aparências são claras e distintas. A realidade, essa é feita de sombras, um jogo onde a luz e as trevas se misturam em formas que variam a cada instante, num tormento que não terá fim.

segunda-feira, 6 de junho de 2022

A Garrafa Vazia 90

Sol LeWitt, A dark square on a light square and vice versa, 1982

A matéria da morte

desliza

pela fenda aberta

no coração corroído

pelo vento.

 

Chega, monstro

purulento,

do espaço sideral,

presa na corda

entrançada da noite.

 

Os lábios abrem-se

para o gargalo,

e a morte aninha-se

na garrafa

sombria da vida.

 

Junho de 2022

sábado, 4 de junho de 2022

A fraternidade


Dos três princípios da Revolução Francesa – Liberdade, Igualdade e Fraternidade – este último permaneceu sempre numa espécie de limbo. Os grandes debates e os grandes conflitos ideológicos estruturaram-se em torno dos outros dois. Em primeiro lugar, desde John Locke – um pensador do século XVII – que a questão da liberdade foi motivo de debate e conflito. Também a igualdade não deixou, pelo menos desde as revoluções americana e francesa, de estar no centro da vida política. Seja a igualdade perante a lei, seja a igualdade de oportunidades, seja a igualdade social. A fraternidade, todavia, parece não gerar um particular interesse político, nem inflamar grandes paixões.

Isso mesmo é reconhecido pelo Manual da Doutrina Social da Igreja Católica. No capítulo referente ao fundamento e ao fim da comunidade política, no ponto 390, reconhece-se que o princípio da fraternidade “permaneceu em grande parte não realizado nas sociedades políticas modernas e contemporâneas, sobretudo por causa da influência exercida pelas ideologias individualistas e colectivistas”. A Igreja entende a fraternidade como amizade civil, e esta surge como o revelador do “significado profundo da convivência civil e política”. A formulação é bastante inteligente ao traduzir fraternidade não por uma leitura étnica, os cidadãos unidos por laços de sangue, mas por amizade civil. Uma amizade entre cidadãos. Não só evita derivas racistas, como sublinha a importância da ideia de comunidade gerada na amizade cívica, na qual terão lugar os direitos e os deveres ligados à liberdade e à igualdade. 

A fraternidade significa um exercício de solicitude para com todos os nossos concidadãos. Assim como devemos cuidar dos nossos amigos, também devemos cuidar dos nossos concidadãos. Este cuidar dos outros não é uma mera exigência moral, mas um imperativo político. Através dessa amizade cívica compreende-se que devo cuidar tanto do meu interesse, como do interesse de qualquer outro. Esta interconexão de interesses pelos quais todos somos mutuamente responsáveis forma o bem comum e a própria comunidade política. A fraternidade é, então, esse princípio que nos ordena cuidar da comunidade política, como o lugar onde o bem comum se desenvolve e protege, através da amizade cívica. É da solicitude cívica que o próprio poder extrai a sua legitimidade. O facto de a fraternidade não merecer particular atenção mostra quão frágeis podem ser os regimes políticos modernos e os perigos que correm. A fraternidade é o mais fundamental dos princípios da Revolução Francesa.

quinta-feira, 2 de junho de 2022

Reindustrializar?

Os países ocidentais, com os EUA à cabeça, iniciaram um processo de libertação da dependência industrial da China e de outros fornecedores asiáticos. As indústrias ocidentais, em busca de mão-de-obra barata, deslocalizaram-se para o Oriente, enquanto se assistia nos EUA e na Europa a uma desindustrialização mais ou menos profunda. O processo é interessante porque pode ser lido a partir da dialéctica do senhor e do escravo, uma parábola teórica do filósofo alemão do século XIX Georg W. F. Hegel. A busca de mão-de-obra tendencialmente escrava acabou, como ensina Hegel, por tornar dependentes os senhores dos seus próprios escravos, estando a inverter-se os papéis.

O Ocidente descobriu-se com um problema em casa. Esse problema traduz-se não só na dependência de terceiros, como na destruição da estrutura social que tinha permitido criar sociedades equilibradas e com um módico de justiça social. Em vez disso, temos agora um enorme fosse entre os mais ricos e os outros, temos classes médias à deriva e, do ponto de vista político, emergiram populismos de diversa orientação que ameaçam a democracia liberal e o Estado de direito. O Ocidente está a descobrir que o excesso de liberalismo mata as sociedades liberais e encaminha-as para o autoritarismo.

O irónico de tudo isto – ou o trágico – é que o sonho da reindustrialização do Ocidente chega num momento em que se deveria estar a discutir a transição para sociedades pós-industriais em todo o mundo. O motivo é simples. A Terra parece não estar pelos ajustes com a forma como os humanos se relacionam com ela. A degradação ambiental e as alterações climáticas são de tal ordem que, a cada dia que passa, surgem novas evidências de que a espécie humana se está a precipitar para um abismo de onde não há retorno. Isto implica pensar noutro tipo de economia. Não me refiro à substituição da empresa privada e do mercado, mas de uma economia de consumo frugal, de trabalho reduzido e de rendimento diminuído. 

O que se deveria estar a discutir no mundo não é como aumentar o rendimento e o consumo, mas como empobrecer e como assegurar uma partilha justa desse empobrecimento. Isto não significa um retorno ao passado, mas uma procura de novas formas de vida cujo sentido não seja dado pela posse e pelo consumo. Esse empobrecimento significa, antes do mais, um emagrecimento. Sofremos todos de obesidade mórbida. Não se trata de excesso de quilos, mas de excesso de roupas, de carros, de gadgets, de viagens, de comidas, de férias, de experiências, etc., etc. Pensar que reindustrializar o Ocidente o salva é pensar que vale mais morrer de ataque cardíaco do que de COVID.

terça-feira, 31 de maio de 2022

A persistência da memória (14)

Gertrude Käsebier, Blossom Day, 1904-05

Há memórias pessoais feitas de restos de vida, de vestígios dos desejos consumados, de signos de esperança, de dores ou desgostos do passado. Persistem e tornam-se memórias para dar a cada um a certeza da sua incerta identidade. Outras há, porém, que não têm o papel de certificar quem se é, mas de fundar uma identidade. Uma mulher passeia com o filho ao colo pelos campos, tal como teria passeado a Virgem com o Menino. Esta memória vinda na tradição não nos dá certeza alguma sobre nós. Abre o caminho por onde caminhamos sustentados pela persistência de memórias que não sendo nossas, se tornaram nossas ao serem o modelo que permite caminhar sem nos perdermos nos acidentes de cada dia.

domingo, 29 de maio de 2022

Nocturnos 80

Edvard Munch, The Storm, 1983

Existirá uma ciência das tempestades e uma sabedoria da noite. Quando uma súbita ignição incendeia a noite e devasta a sua sabedoria, descobre-se quão inútil é a minúcia de quem se entrega à ciência das tempestades.

sexta-feira, 27 de maio de 2022

A Garrafa Vazia 89

José María Herrero Gómez, Aguatinta para el Duero, 1996

Rasgo a carne

com a faca

do dia.

 

O sangue goteja

pelo chão

das ruas.

 

Espero a noite

devorado

pelo dardo da dor.


Maio de 2022

quarta-feira, 25 de maio de 2022

Beatitudes (53) O horizonte aberto

Ansel Adams, Road after Rain, Northern California, 1960

Pensa-se muitas vezes que a felicidade reside na realização dos desejos, esquecendo-se que todo o desejo consumado fecha uma porta e abre a janela para uma consciência infeliz. Ter o horizonte aberto, saber que as possibilidades estão diante de nós, sem que um fim as delimite, dá um sentido à vida e não haverá beatitude maior que uma vida significante.

segunda-feira, 23 de maio de 2022

Ensaio sobre a luz (93)

Max May, Kalter Rauhreiftag, 1908

Uma capa de luminosa brancura desce sobre a terra, cobre-a com o alfabeto do frio, enche-a de palavras que se trocam para que a luz do Inverno não se afogue na escuridão da noite. Então, a esperança, presa no horizonte, desliza com demora, até que chegam os dias cobertos pela Primavera.

sábado, 21 de maio de 2022

A submissão


Um dos temas recorrentes do Partido Comunista Português é o da submissão de Portugal e da Europa aos EUA. Com a invasão russa da Ucrânia e a solidariedade generalizada – generalizada não quer dizer total – dos portugueses com o destino dos ucranianos e da União Europeia com a Ucrânia, a retórica em torno dessa putativa submissão ao imperialismo americano aumentou de intensidade. Resiste esta acusação aos factos? São os Estados Unidos, em relação à Europa e a Portugal, em particular, uma potência de ocupação ou são Portugal e a União Europeia protectorados americanos? Só há uma resposta: não. Pelo contrário, os exércitos americanos vieram duas vezes, no século XX, à Europa para ajudar libertá-la dos sarilhos em que se metera e não para a submeter. Não há qualquer sinal de submissão dos países da União Europeia a um diktat americano. O que há é um desejo de estreitar mais as relações, como se vê agora no caso da Suécia e da Finlândia.

Se os europeus estão alinhados com os americanos, isso deve-se, em primeiro lugar, ao facto de terem interesses comuns. Os governos europeus, eleitos democraticamente, têm manifestado consecutivamente o seu interesse na cooperação com os EUA, não por submissão, mas porque acham que é benéfico para os respectivos povos. Aliás, a presidência de Donald Trump e a ameaça do fim da NATO e de ruptura com a Europa deixaram em pânico não poucas capitais europeias. Além dos interesses económicos e militares há outro motivo. Entre europeus e americanos há um fundo comum, uma cultura e um modo de vida partilhados. Esse modo de vida assenta na liberdade, na possibilidade de cada um dirigir a sua vida do modo como entende. Por muito realista que se seja na análise das relações internacionais, não é possível pôr de lado, na relação entre EUA e UE, esse factor.

Imagine-se, agora, que os países da União Europeia rompiam a colaboração com os EUA. Que se extinguia a NATO e se fechavam as portas aos interesses americanos. Não é preciso muita imaginação para perceber como os povos europeus ficariam à mercê dos inimigos visíveis e dos invisíveis. A Europa tornar-se-ia, de imediato, um rebanho de cordeiros na mira de matilhas de lobos de diversas proveniências. E por muito que os europeus cressem na paz e se mostrassem pacíficos, isso não alteraria o desejo de domínio de terceiros. Pelo contrário. No lugar de submissão aos EUA, Portugal e os países da União têm na aliança com os americanos um escudo que protege um modo de vida que não sendo o do paraíso, ainda assim é o melhor que se encontra por esse mundo fora. 

quinta-feira, 19 de maio de 2022

A Garrafa Vazia 88

Antonio Clavé, 23-11-75, 1975

Símbolos da noite caem

em cascata

sobre a areia suja

do dia.

 

Trazem na poeira do dorso

o rio poluído

de cada noite,

o coração rasgado da morte.

 

Sinais de um fogo frio

pelas encostas

feridas

pelo tambor da traição.

 

Maio de 2022

terça-feira, 17 de maio de 2022

A persistência da memória (13)

Edward Weston, Hills and Poles, Solano County, 1937

Nas montanhas vazias, na terra entregue à aridez dos dias, os postes de electricidade não são um símbolo dos tempos modernos, de uma civilização em que o consumo de energia se tornou a móbil da vida. Na paisagem deserta, esses simulacros de cruz são o sinal da memória na sua luta, nunca acabada, contra o esquecimento. Por aqui, dizem, passaram os homens e deixaram-nos não para que os sirvamos, mas para que outros que virão se recordem deles.

domingo, 15 de maio de 2022

Sandel e a roda da Fortuna

Edward Burne Jones, A Roda da Fortuna, 1883

Na entrevista concedida ao jornal Público de hoje, o filósofo norte-americano Michael Sandel salienta a importância da sorte na vida dos indivíduos. Faz parte de uma argumentação contra a ideia de mérito, a qual, segundo ele, está a corroer as sociedades democráticas. As pessoas que alcançam sucesso na vida estão convencidas de que ele resulta apenas do seu mérito. Isso é falso. Apesar do talento e do trabalho, no sucesso de cada um há a contribuição dos outros, a qual é muitas vezes apagada, e também a sorte. Um dos exemplos dados é o de Cristiano Ronaldo. Não se nega que, no jogador português, exista muito talento e muito trabalho, mas o seu sucesso não depende apenas do seu mérito. Depende de muitos factores, onde existe a contribuição de outros (por exemplo, treinadores) e também da sorte. A sorte, por exemplo, de ter nascido num tempo em que se valoriza o futebol. Esse talento seria imprestável no Renascimento.

A estratégia de Sandel é sublinhar que o reconhecimento da sorte no destino dos indivíduos é um factor que pode tornar as pessoas de sucesso mais humildes e de prestarem atenção aos outros e, por certo, às próprias regras do jogo social em que uns são beneficiados e outros prejudicados. O filósofo americano visa, com esta argumentação, reforçar a ideia de bem comum e as próprias comunidades. Os antigos gregos e romanos tinham uma noção muito clara do papel da sorte, da fortuna, no destino das pessoas. Esse papel foi sendo rasurado e a partir do Iluminismo foi visto como uma explicação irracional. Com a globalização e o triunfo do chamado neoliberalismo, os vencedores sociais eliminaram da explicação do seu sucesso a sorte, racionalizando-o como fruto único do seu mérito, esquecendo coisas básicas como o facto de ninguém ser responsável pela sua carga genética, pela sua inteligência ou até pela sua capacidade de trabalhar e de perseverar. Perante os muitos milhões de perdedores, muitos deles apenas vítimas das circunstâncias e de decisões políticas que não podiam controlar, a retórica do mérito tem sido um factor de destruição do consenso democrático e de polarização política entre as elites e as pessoas comuns. Daí o apelo à humildade como o outro lado da sorte. 

sexta-feira, 13 de maio de 2022

O progresso moral da humanidade (6)

Frank Horvat, Beggar, Calcutta, India, 1953
Por mais que se especule, e não faltam especulações de múltiplas cores, nunca se sabe se a queda na mendicidade se deve a uma falência pessoal ou a uma estrutura social produtora de exclusões. A presença do mendigo e o gesto interpelativo de estender a mão a quem passa são um desafio não a apenas à benevolência de quem é interpelado, mas, antes de mais, à ideia de um progresso moral da nossa espécie. A figura de quem suplica auxílio, independente das razões, nunca deixa de surgir à razão interpelada como um contra-exemplo poderoso à condescendência moral do homem moderno.

quarta-feira, 11 de maio de 2022

Beatitudes (52) O território

Photoglob Zürich, Rosenlaui with Well & Wetterhorn mountains, 1910

Existem paisagens que esmagam o coração, pois a beleza ainda é uma forma de opressão, talvez a mais terrível das tirania ao cimo da Terra. Os olhos deixam-se cativar e não há força de alma que consiga resistir ao império que a sujeita. O tempo, porém, dissolve a angústia e, por instantes, o espírito descobre o território da felicidade. Ali, onde a beleza reina, ainda pode resplandecer a beatitude.

segunda-feira, 9 de maio de 2022

A Garrafa Vazia 87

Paul Ackerman, Andante

Estremece-me a boca no ranger

dos dentes,

a súbita dor cravada

no arquipélago do coração.

 

Suporto o ir e vir do látego,

a carne estilhaçada,

traída pela vida,

vergada ao esquecimento.

 

Aperto na mão a garrafa vazia.

A boca seca, os dentes

tomados pela cárie

aberta no crepúsculo da tarde.

 

Maio de 2022 

sábado, 7 de maio de 2022

Viagens pelo centro político


França: a perda do centro. As eleições presidenciais deram a vitória a Emmanuel Macron, um político centrista. Quando as democracias liberais funcionam razoavelmente, existem dois centros. Um inclinado à esquerda e outro à direita. Não existe, em França, um centro para se opor ao de Macron. Existe uma extrema-direita forte e uma esquerda radical tão ou mais forte. Neste momento, não é impossível que uma coligação em torno de Mélenchon ganhe as próximas eleições legislativas. Caso isso aconteça, podem emergir dois cenários. Ou a governação segue o destino do Syriza grego e se afirma no centro-esquerda, ou se mantém fiel aos princípios que defende actualmente, e a França estará metida num sarilho.

Alemanha: os equívocos do centro. Não há no caso da Alemanha um problema de representação política ao centro, pois tanto o centro-direita como o centro-esquerda são fortes. A invasão da Ucrânia, porém, tornou manifesto o equívoco em que o centro político alemão navegava. Subestimou a ameaça e tratou a Federação Russa como se fosse uma potência liberal e respeitadora dos valores liberais. Ninguém, no centro político alemão, dorme de consciência tranquila. Confundir o desejo com a realidade tem um alto preço. Resta saber que efeitos isso terá no futuro do centro político germânico.

Inglaterra: a estabilidade do centro. Depois das facécias radicais que conduziram ao interminável drama do Brexit, a Inglaterra voltou ao seu jogo político habitual. À erosão dos conservadores, centro-direita, corresponde o reforço dos trabalhistas, centro esquerda. As sondagens não apontam para nenhum drama, nem se prevê ameaças estruturais à democracia e ao Estado de direito. A estabilidade do centro, na sua natureza bicéfala, é o ponto central da estabilidade democrática.

Espanha e Portugal: o centro coxo. Em Espanha, o centro-esquerda, PSOE, já não consegue governar sem aliança com o Unidas Podemos (UP). O que parece estar a passar-se é que o UP se está a aproximar do centro, numa emulação do Syriza grego. O principal problema vem da direita. Neste momento, não será possível em Espanha um governo de direita sem a inclusão da extrema-direita. Não se prevê, de momento, que o Vox possa seguir uma aproximação ao centro-direita equivalente à do UP, ao centro-esquerda. A situação em Portugal está firme à esquerda, onde o centro é capaz de gerar soluções governativas sólidas. O problema está à direita e o peso que a extrema-direita poderá vir a ter. Por isso, as próximas eleições no PSD são muito importantes para o partido, mas também apara democracia liberal em Portugal.

quinta-feira, 5 de maio de 2022

Nocturnos 79

Dirk de Herder, Stockholm, 1951
Por vezes, as cidades, durante a noite, são tomadas pela loucura. Rasgam os pactos que regem a benevolência e dilaceram-se com a espada vibrante da luz. São um paraíso para quem não suporta o silêncio e a sua própria presença. Outras vezes, deixam-se embalar pela sonolência que desliza da iluminação pública e tornam-se uma paisagem lunar onde os seres sonâmbulos caminham sem perigo à espera da aurora. 

terça-feira, 3 de maio de 2022

Simulacros e simulações (34)

Frank Horvat,  Elstree Film Studios, filming Moby Dick, 1954

O cinema simula de tal modo a realidade que a fronteira entre ela e a fantasia se foi esbatendo lentamente. Entre o que o ecrã mostra e o que vivemos reina a pura continuidade. A mais estranha consequência recai sobre nós, os mortais. Conforme a fronteira se ia diluindo, íamo-nos desrealizando, perdendo a consistência até chegarmos ao momento em que cada um é apenas o simulacro de si mesmo.

domingo, 1 de maio de 2022

Respirar fundo


No domingo, 24 de Abril, respiraram fundo todos aqueles que valorizam a União Europeia (UE) e o seu modo de vida. As eleições francesas não diziam apenas respeito aos franceses. Nelas jogava-se o destino do projecto europeu tal como o conhecemos. Uma vitória da senhora Le Pen seria não apenas um presente para Putin, mas uma bomba de fragmentação sobre a UE. Aquilo que lhe poderia acontecer não seria muito diferente daquilo que aconteceu ao bloco de Leste, quando a União Soviética implodiu. Em poucos anos voltariam as velhas rivalidades, incendiadas pelos nacionalismos, e o espaço que agora constitui a UE seria constituído por Estado nacionais irrelevantes no contexto internacional, em conflito entre si e, muito provavelmente, sob o pastoreio da Rússia. A eleição da senhora Le Pen seria a primeira pedra, na Europa Ocidental, da construção da Eurásia.

A vitória de Macron, porém, não deve tranquilizar, pois o mal-estar que assola França não deixou de existir. Vale a pena dar atenção a um estudo do jornal francês Le Parisien. Há claramente um problema de luta de classes. Enquanto os quadros e os profissionais intermédios (classes médias) votam maioritariamente em Macron, com destaque para os primeiros, os empregados e os operários votam em Le Pen. Se se olhar para o rendimento, aqueles que têm um rendimento familiar limpo acima de 3 000€ votam, preferencialmente, em Macron. Aqueles cujo rendimento familiar é inferior a 1250€ inclinam-se para Le Pen. Este eleitorado era, antigamente, o suporte da esquerda, do PCF e do PSF. Estes partidos são hoje quase inexistentes e os seus eleitores transitaram, em grande parte, para a extrema-direita. Mais que a questão da imigração e do Islão, é a distribuição da riqueza que alimenta o crescimento da extrema-direita.

Este problema não é apenas francês. Atinge o projecto europeu, enquanto construção democrática. As políticas liberais adoptadas nos últimos decénios têm criado uma vaga de ressentimento entre aqueles que perdem com essas políticas, e esses são muitos. Macron tem cinco anos – caso tenha sorte nas legislativas – para resolver este problema e evitar uma catástrofe nas próximas eleições. Isso, porém, não basta. É necessário que a UE reconsidere as suas políticas e os resultados do impacto delas no crescimento de descontentes e, concomitantemente, da extrema-direita. Os regimes democráticos dependem da existência de grandes classes médias. Se estas são destruídas por políticas liberais, parte do eleitorado sente que não tem nada a perder e, tomado pela cólera (uma palavra muito presente na política francesa), não se importa de fazer explodir o sistema.