domingo, 24 de maio de 2015

Meditações Taoistas (24)

Emil Hansen - Dark Sea (Green Sky)

Primeiro era a perfeição indefinida,
antes de o céu e a terra nascerem,
imóvel e silenciosa,
só e imutável;
a tudo envolve e protege
Lao Tse, Tao Te King, XXV

Quando quis desenhar uma constelação, não soube a posição que deveria atribuir a cada uma das estrelas. Depois, descobriu que não sabia o nome de qualquer uma delas, e fechou os olhos. Que mensagem esta súbita ignorância lhe enviava? A que estranha aprendizagem o seu desejo o conduzia? Era um cartógrafo experimentado. Durante anos desenhara os mapas da terra. Fizera-o com amor e um desejo insuperável de tornar a carta mais bela do que o território, tal como um dia alguém descobrira ser possível. A solidez da terra porém cansara-o. Cartas físicas ou mapas políticos tornaram-se um exercício enfadonho, desprovido de inquietação, incapaz de o fazer mergulhar nos segredos mais fundos da ciência. Era tarde para se dedicar a outra arte. Depois de uma ligeira depressão, descobriu um novo caminho: cartografar os céus. Com uma condição: trabalhar como os antigos astrónomos, sem instrumentos, nem sequer um pequeno telescópio de criança. Vendera tudo e escolhera, para viver e trabalhar, uma região onde as estrelas, pela noite, ainda fossem visíveis.

Trabalhou arduamente. Passou noites olhando os céus, gizando esboços, fazendo planos. A imensidão do empíreo, contudo, distraia-o. Mergulhava os olhos no manto branco da Via Láctea e ficava silencioso horas e horas, até que a aurora o despertava e o devolvia à condição humana. Depois de muitas noites e dias de meditação, decidira começar a cartografar as constelações. Não as velhas constelações conhecidas da humanidade, mas aquelas que os seus olhos iam descobrindo a partir de um jogo de acasos. Estranhas combinações entre estrelas nunca antes associadas. Fez esboços, criou planos, observou o trabalho de muitos pintores geométricos. As ideias fervilham no seu cérebro. Uma nova geografia dos céus iria nascer. Até que, na hora em que ia fazer o mapa da primeira constelação, a ignorância invadiu-o e paralisou-o.

Não se deixou abater e entregou-se assim ao destino. O que lhe queria dizer aquele não saber? Não seria um sério aviso sobre a inutilidade da cartografia? Para além da terra e do céu não haveria outra coisa mais importante e decisiva? Esta pergunta atormentou-o durante meses. Que caminho deveria seguir para encontrar uma resposta? Não seriam terra e céu o todo para além do qual nada mais haveria? Quando o tormento atingiu o paroxismo, ele abandonou qualquer preocupação com o enigma. Deitou-se exausto e adormeceu. Sonhou. No sonho viu a terra e os céus a desfigurarem-se lentamente, muito lentamente, como se cada uma das suas partes perdesse os contornos, se transformasse numa emulsão de células que logo se desfaziam e tudo perdesse a rígida definição a que a vida o habituara. A princípio via-se no próprio sonho como um espectador perante o colapso do universo. Depois, sentiu fundir-se, e ele era o próprio universo que se fundia e assim se libertava da prisão das formas, da rigidez dos contornos, do império das fronteiras. A sua consciência sonhadora era aquela grande coisa solitária, imutável, imóvel e silenciosa que era anterior aos céus e terra e que, ao mesmo tempo, era os céus e a terra. Perdido nessa indefinição, descobriu a perfeição daquilo que é, descobriu que não havia limites, fronteiras, traços, mapa algum para desenhar.